{"id":102,"date":"2015-01-23T07:19:36","date_gmt":"2015-01-23T09:19:36","guid":{"rendered":"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=102"},"modified":"2015-08-22T20:17:10","modified_gmt":"2015-08-22T23:17:10","slug":"as-maos-de-sangue-de-suharto-e-a-pena-de-morte-na-indonesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=102","title":{"rendered":"As m\u00e3os de sangue de Suharto e a pena de morte na Indon\u00e9sia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Shuarto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-105\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Shuarto-300x152.jpg\" alt=\"Shuarto\" width=\"300\" height=\"152\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para ajudar a entender o desprezo do governo da Indon\u00e9sia pelos direitos humanos, ao executar o traficante brasileiro, Marco Archer Cardoso Moreira, vale a pena visitar um trecho da hist\u00f3ria recente daquele pa\u00eds, feita de sangue, suor e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Ainda est\u00e3o vivas as marcas deixadas por um dos mais b\u00e1rbaros ditadores de todos os tempos, Hadji Mohamed Suharto, entre elas a pena de morte, banalizada desde a \u201cGuerra fria\u201d.<\/p>\n<p>O general Suharto fechou eternamente os olhos no dia 27 de janeiro de 2008, em Jacarta, e deixou para a hist\u00f3ria o assassinato em massa de cerca de um milh\u00e3o de pessoas, coberto por um manto de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Velado por uma multid\u00e3o, incensado por admiradores, afagado com condol\u00eancias de chefes de Estado das grandes pot\u00eancias ocidentais, Suharto foi enterrado com honras militares, como estadista.<\/p>\n<p>Este fato foi tratado pela imprensa como outro qualquer e misturado no turbilh\u00e3o do notici\u00e1rio que desaparece todos os dias no t\u00fanel do tempo.<\/p>\n<p>O Jornal Nacional, por exemplo, em sua manchete, n\u00e3o o tratou como ditador, mas como l\u00edder, na voz grave e aveludada do apresentador William Boner: \u201cex-l\u00edder indon\u00e9sio, Suharto, morre aos 86 anos em Jacarta\u201d.<\/p>\n<p><strong>L\u00edder de quem?<\/strong><\/p>\n<p>O jornalista e documentarista australiano, John Pilger, um dos mais premiados jornalistas investigativos do mundo, esmiu\u00e7ou a ditadura de Suharto, levantou um volume extraordin\u00e1rio de informa\u00e7\u00f5es ao longo de sua vida, publicou em jornais, livros, document\u00e1rios, revelou para o mundo o submundo de um dos regimes mais cru\u00e9is da hist\u00f3ria da humanidade, que deixou cicatrizes profundas na vida do povo indon\u00e9sio.<\/p>\n<p>Alguns \u00f3rg\u00e3os de imprensa, acanhadamente, falam em 500 mil pessoas, mas Pilger afirma que o n\u00famero de execu\u00e7\u00f5es do regime de Suaharto \u00e9 muito maior, chega a um milh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 considerado o segundo maior massacre da segunda metade do s\u00e9culo XX. Perde apenas para o ditador haitiano \u201cPapa doc\u201d, outro fac\u00ednora apoiado pelos EUA.<\/p>\n<p>S\u00f3 no Timor Leste, sob dom\u00ednio indon\u00e9sio, foram mortas 200 mil pessoas, em 1975, segundo Pilger.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Suharto lidera a lista dos ditadores mais corruptos de que se tem not\u00edcia.<\/p>\n<p>Depois de 30 anos no poder, o ditador acumulou uma fortuna avaliada em 15 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o equivalente a 13% da d\u00edvida externa do pa\u00eds, da qual o Banco Mundial, em grande parte, \u00e9 credor.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Shuarto controla ped\u00e1gios, bancos, rede hoteleira, extens\u00f5es de florestas, rede de imobili\u00e1rias, shopping-centers, revendedoras de autom\u00f3veis e empresas de muitos outros ramos de atividade.<\/p>\n<p><strong>Uma ditadura para proteger neg\u00f3cios<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-107\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Shuarto-Time-228x300.jpg\" alt=\"Shuarto Time\" width=\"228\" height=\"300\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5;\">A hist\u00f3ria da ditadura de Suharto come\u00e7ou por volta de 1965\/66, quando comandou as tropas que derrubaram o presidente nacionalista Achmed Sukarno, no governo desde o fim da coloniza\u00e7\u00e3o holandesa.<\/span><\/p>\n<p>Em 1967, logo depois do golpe, em plena &#8220;Guerra Fria&#8221;, o grupo Time-Life Corporation promoveu em Genebra uma confer\u00eancia, realizada em tr\u00eas dias, na qual foi discutida a partilha corporativa da Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>Suharto dividiu a mesa dos trabalhos da confer\u00eancia com os representantes dos maiores grupos capitalistas do mundo, gigantes dos neg\u00f3cios do Ocidente, como David Rockefeller e outros do mesmo porte.<\/p>\n<p>Mandaram representantes, os principais bancos, empresas petrol\u00edferas, montadoras de autom\u00f3veis, ind\u00fastria qu\u00edmica, de comunica\u00e7\u00e3o, de papel e outras.<\/p>\n<p>O grupo Time-Life Corporation, que promoveu essa confer\u00eancia, \u00e9 o mesmo que injetou na Rede Globo, em 1962, US$ 6 milh\u00f5es de d\u00f3lares a fim de estruturar a TV e outros ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Marinho, segundo o livro &#8220;A Hist\u00f3ria Secreta da Rede Globo&#8221;, do jornalista Daniel Hertz.<\/p>\n<p>Grande parte dos t\u00e9cnicos indon\u00e9sios, que acompanhavam Suharto na confer\u00eancia havia chegado de uma jornada de estudos nas universidades da Calif\u00f3rnia e Berkeley e estavam ali para apresentar as informa\u00e7\u00f5es sobre os principais atrativos do pa\u00eds: m\u00e3o-de-obra abundante e barata, recursos naturais \u00e0 vontade e um mercado potencial inestim\u00e1vel.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o foram discutidas as linhas gerais do que seria uma economia de mercado e os t\u00e9cnicos se encarregaram de detalhar as medidas a serem adotadas.<\/p>\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Ford bancou o plano atrav\u00e9s do Centro de Estudos Internacionais e do Instituto de Pesquisas Stanford.<\/p>\n<p>O economista Dave Coler, da Universidade de Harvard, foi encarregado de chefiar a equipe e redigir o plano em detalhes.<\/p>\n<p>Coler havia conclu\u00eddo a reforma banc\u00e1ria na Cor\u00e9ia do Sul para adaptar o sistema financeiro daquele pa\u00eds ao mercado financeiro internacional. O mesmo foi feito na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p><strong>A Indon\u00e9sia repartida<\/strong><\/p>\n<p>A Indon\u00e9sia foi repartida em cinco setores: minera\u00e7\u00e3o, servi\u00e7os, ind\u00fastria leve, finan\u00e7as e sistema banc\u00e1rio.<\/p>\n<p>Assim as empresas montaram a infraestrutura dos neg\u00f3cios e estabeleceram as condi\u00e7\u00f5es para entrada no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Freeport Company ficou com o cobre de Papua Ocidental (Henry Kissinger, at\u00e9 recentemente fez parte do conselho diretor da Freeport); um cons\u00f3rcio americano e europeu ficou com o n\u00edquel; a Alcoa ficou com a maior parte da bauxita; um grupo de empresas americanas, japonesas e francesas ficou com as florestas tropicais de Sumatra, Papua Ocidental e Kalimantan.<\/p>\n<p>A Cargil, que hoje domina o com\u00e9rcio mundial de alimentos, ficou com as regi\u00f5es de terras mais f\u00e9rteis, para o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Suharto baixou um decreto isentando os grupos estrangeiros de impostos por cinco anos e criou o Intergovernamental Group on Indon\u00e9sia (IGGI), formado por representantes dos Estados Unidos, do Canad\u00e1, da Europa e da Austr\u00e1lia, mais o FMI e o Banco Mundial, para gerir a economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A partir de 1967 a Indon\u00e9sia foi inundada de d\u00f3lares. O Banco Mundial, em seus relat\u00f3rios, referia-se ao governo de Suharto como &#8220;O menino-modelo da globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; e do &#8220;Milagre da \u00c1sia Ocidental&#8221;.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-109\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Shuarto-torturas.jpg\" alt=\"Shuarto torturas\" width=\"277\" height=\"182\" \/><\/p>\n<p>Entre os anos 1960 e 1990, os chamados &#8220;Tigres asi\u00e1ticos&#8221; (Indon\u00e9sia, Cor\u00e9ia do Sul, Taiwan ou Formosa, Cingapura, Tail\u00e2ndia, Mal\u00e1sia e Hong-Kong), eram considerados modelo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Seguiam religiosamente as regras impostas pelas ag\u00eancias internacionais, cresciam vertiginosamente \u00e0 custa do capital estrangeiro, de recursos naturais e de m\u00e3o-de-obra barata da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Margareth Tacher, em meados dos anos 80, chegou a dizer \u00e0 imprensa: &#8220;Suharto \u00e9 um de nossos melhores e mais valiosos amigos&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos maiores massacres da segunda metade do S\u00e9culo XX<\/p>\n<p>O golpe militar, iniciado em 1965, levou a Indon\u00e9sia a um banho de sangue. Depois da confer\u00eancia, Suharto se convenceu de que era necess\u00e1rio liquidar toda a oposi\u00e7\u00e3o que ainda restava no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assinou v\u00e1rios acordos de coopera\u00e7\u00e3o militar e de seguran\u00e7a, principalmente com os EUA e com a Inglaterra.<\/p>\n<p>Foi deslocado para a Indon\u00e9sia o maior contingente de agentes da CIA e de instrutores para treinamento das for\u00e7as armadas e da repress\u00e3o policial de que se tem not\u00edcia.<\/p>\n<p>O pa\u00eds foi transformado no maior laborat\u00f3rio da CIA de repress\u00e3o pol\u00edtica no CIA no mundo.<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o, denominada \u201copera\u00e7\u00e3o modelo\u201d, pelos agentes da CIA serviu de experi\u00eancia para a \u201cOpera\u00e7\u00e3o F\u00eanix\u201d, no Vietn\u00e3, onde esquadr\u00f5es da morte mataram cerca de 50 mil pessoas, e para preparar grupos para atuar em outros pa\u00edses, muitos deles na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Essa escolha da Indon\u00e9sia para ser um laborat\u00f3rio de repress\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o foi \u00e0 toa. Entre 1959 a 1965, mais de 15 milh\u00f5es de pessoas filiaram-se a partidos pol\u00edticos ou organiza\u00e7\u00e3o de massa no pa\u00eds, estimuladas a desafiar a influ\u00eancia brit\u00e2nica e norte-americana na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o historiador australiano, Harold Crouch, o PKI &#8211; Partido Comunista da Indon\u00e9sia, era o maior partido comunista do mundo fora da URSS e da China, com mais de tr\u00eas milh\u00f5es de filiados.<\/p>\n<p>Um partido que n\u00e3o dispunha de organiza\u00e7\u00e3o suficiente para uma insurrei\u00e7\u00e3o armada, se restringia \u00e0 defesa dos interesses dos pobres dentro do sistema vigente. Crescia, aceleradamente, mais que qualquer outro, e se popularizava com as grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massa.<\/p>\n<p>Aos olhos da CIA e de Suharto, o crescimento do PKI representava um perigo para a regi\u00e3o. No vizinho Vietn\u00e3 a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era boa para os Estados Unidos e aliados.<\/p>\n<p>Entre 1965 e 1966, de posse da lista de filiados e ativistas, Suharto, com a colabora\u00e7\u00e3o da CIA e do servi\u00e7o secreto brit\u00e2nico, segundo a jornalista americana, Kathy Kadane, dividiu a Indon\u00e9sia em regi\u00f5es de maior concentra\u00e7\u00e3o de membros do partido comunista e deu in\u00edcio \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o numa chamada \u201copera\u00e7\u00e3o limpeza\u201d.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas foram retiradas de suas casas e executadas em plena luz do dia.<\/p>\n<p>Kadane escreve que os agentes da CIA que acompanhavam os militares na opera\u00e7\u00e3o iam riscando os nomes das listas, \u00e0 medida que as pessoas iam sendo executadas.<\/p>\n<p>Os relatos das torturas e execu\u00e7\u00f5es s\u00e3o inimagin\u00e1veis, tal a brutalidade dos militares de Shuarto.<\/p>\n<p>Pessoas eram sequestradas e decapitadas, as cabe\u00e7as apareciam sob muros nas ruas de Jacarta ou de outras cidades.<\/p>\n<p>As matan\u00e7as foram mais monstruosas em Bali. A escritora inglesa Carmel Budiardjo, ex-presa pol\u00edtica, conta que na ilha de Bali foram executadas 80 mil pessoas.<\/p>\n<p>As pessoas eram dominadas, as m\u00e3os amarradas e executadas. Nas aldeias indon\u00e9sias, jovens foram trucidados, os p\u00eanis arrancados e alinhavados em fileiras para depois contar os mortos.<\/p>\n<p>Testemunhas relataram ter visto rios com incont\u00e1veis corpos boiando sobre as \u00e1guas, como toras.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos de tortura adotados nos interrogat\u00f3rios eram os mesmos utilizados no Vietn\u00e3, no Cambodja, na Cor\u00e9ia, no Chile, na Argentina, no Brasil e noutros pa\u00edses.<\/p>\n<p>A ilha de Buru durante muitos anos recebeu milhares de prisioneiros sem alojamento, alimento ou \u00e1gua. L\u00e1 morriam.<\/p>\n<p>Haru Atmojo, um ex-oficial da aeron\u00e1utica, leal a Sukarno, julgado por um tribunal militar especial e condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua, hoje vive em Jacarta e conta que passou quinze anos na pris\u00e3o, em grande parte numa solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A primeira cela, nas montanhas geladas de Bandung, conta ele, era t\u00e3o pequena que n\u00e3o conseguia sequer se deitar. Uma forma de tortura que matava lentamente.<\/p>\n<p>Essa pris\u00e3o foi constru\u00edda pelos holandeses na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o para encarcerar pessoas pelo prazo de doze dias, antes dos interrogat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Atmojo amargou 15 anos nessa pris\u00e3o e sobreviveu para contar esta e outras hist\u00f3rias terror na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>Agentes da CIA, que recusaram se identificar para imprensa, na \u00e9poca, revelaram que os m\u00e9todos utilizados nos interrogat\u00f3rios e na repress\u00e3o pol\u00edtica foram pesquisados em relatos de livros do per\u00edodo da inquisi\u00e7\u00e3o. Segundo eles, os m\u00e9todos do Santo Of\u00edcio eram muito eficientes e estavam sendo testados na \u201copera\u00e7\u00e3o modelo\u201d com muito sucesso.<\/p>\n<p>Robert J. Martens, ex-adido pol\u00edtico da embaixada americana em Jacarta e Joseph Lazarsky, subchefe do escrit\u00f3rio da CIA tamb\u00e9m em Jacarta, confirmaram \u00e0 imprensa que eles passaram ao ex\u00e9rcito de Suaharto uma lista de 5 mil pessoas, consideradas as mais importantes cabe\u00e7as do PKI, para serem executadas.<\/p>\n<p>Muitas delas queriam vivas para serem interrogadas, mas ao resistir \u00e0 pris\u00e3o e foram fuziladas. Outras morreram nos interrogat\u00f3rios. Os agentes da CIA se queixaram de que no in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es Suaharto n\u00e3o dispunha de esquadr\u00f5es de matadores e inquisidores suficientes para eliminar e interrogar todas as pessoas da lista. Tiveram que preparar os esquadr\u00f5es.<\/p>\n<p>A CIA, no in\u00edcio, avaliou o ex\u00e9rcito de Suharto e o considerou prec\u00e1rio para as opera\u00e7\u00f5es planejadas. Sugeriu a Washington, em relat\u00f3rio, investir em equipamentos. O pedido foi atendido prontamente.<\/p>\n<p>Uma rede completa de comunica\u00e7\u00e3o foi levada em voos noturnos a Jacarta, por avi\u00f5es da for\u00e7a a\u00e9rea americana baseada nas Filipinas.<\/p>\n<p>Os equipamentos eram de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o com frequ\u00eancias altas, conhecidas da CIA e da Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional que assessorava o ex-presidente Lyndon Johnson.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria de armas, naquela \u00e9poca, crescia a n\u00edveis inimagin\u00e1veis. As ditaduras se espalhavam pelo mundo como erva daninha e os acordos de coopera\u00e7\u00e3o militar proliferavam nos moldes da doutrina de seguran\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Indon\u00e9sia, \u00cdndia, Paquist\u00e3o, Iraque, Israel e outros, s\u00e3o exemplos de pa\u00edses que foram \u00e0s compras no mercado de armas. Estados Unidos e Inglaterra lideravam a venda.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80, no governo de Margareth Tatcher, quase metade das verbas destinadas \u00e0 pesquisa e desenvolvimento foram destinadas \u00e0 pasta da defesa.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, a Indon\u00e9sia foi beneficiada por um empr\u00e9stimo subsidiado pelo governo brit\u00e2nico, quase uma doa\u00e7\u00e3o, de 1 bilh\u00e3o de libras esterlinas para compra de ca\u00e7as-bombardeiros.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o secreto brit\u00e2nico j\u00e1 dispunha de informa\u00e7\u00f5es suficientes para sugerir \u00e0 Primeira-Ministra algo do g\u00eanero, tendo em vista os neg\u00f3cios brit\u00e2nicos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O mundo girou, o tempo passou e a crise chegou<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-111\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Shuarto-4-caveiras-300x195.jpg\" alt=\"Shuarto 4 caveiras\" width=\"300\" height=\"195\" \/><\/p>\n<p>Na segunda metade dos anos 1990 a crise chegou aos \u201cTigres asi\u00e1ticos\u201d de forma devastadora. Os \u201cTigres asi\u00e1ticos\u201d se transformaram em \u201ctigres de papel\u201d.<\/p>\n<p>As economias que eram centradas no direcionamento da ind\u00fastria para exporta\u00e7\u00e3o de bens de consumo, em altos investimentos externos e no aproveitamento de m\u00e3o-de-obra barata e qualificada, come\u00e7aram a dar sinais de esgotamento no in\u00edcio dos anos 1990, com o decl\u00ednio das exporta\u00e7\u00f5es, aumento do d\u00e9ficit p\u00fablico e maior depend\u00eancia de empr\u00e9stimos estrangeiros.<\/p>\n<p>Essa necessidade de financiamento externo tornou os \u201cTigres asi\u00e1ticos\u201d presas f\u00e1ceis dos ataques especulativos, que come\u00e7aram a ocorrer em julho de 1997 e tiveram seu \u00e1pice em meados de 1998.<\/p>\n<p>As bolsas despencaram na regi\u00e3o e as economias daqueles pa\u00edses foram \u00e0 bancarrota. Naquela \u00e9poca a grande gambiarra eletr\u00f4nica e financeira internacional movimentava mais de US$ 2 trilh\u00f5es por dia. Hoje supera US$ trilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Em ess\u00eancia, esse mercado \u00e9 respons\u00e1vel pela capta\u00e7\u00e3o da poupan\u00e7a da sociedade para aplic\u00e1-la nos neg\u00f3cios mais lucrativos, realizam lucros espetaculares e migram para outras pra\u00e7as.<\/p>\n<p>A crise tinha como epicentro as economias do Jap\u00e3o e da Federa\u00e7\u00e3o Russa. No final de 1997, a quarta maior institui\u00e7\u00e3o financeira do Jap\u00e3o, a Yamaichi Securitis, decretou fal\u00eancia.<\/p>\n<p>As autoridades monet\u00e1rias japonesas revelaram naquele momento que as institui\u00e7\u00f5es financeiras do pa\u00eds totalizavam mais de US$ 580 bilh\u00f5es em t\u00edtulos podres, de dif\u00edcil recebimento. O sistema financeiro japon\u00eas entrou em colapso.<\/p>\n<p>Os bancos pararam de emprestar dinheiro, levando \u00e0 fal\u00eancia in\u00fameras empresas. Para compensar as perdas causadas pela inadimpl\u00eancia, os bancos japoneses resolveram retirar dinheiro de outros mercados, principalmente dos \u201cTigres asi\u00e1ticos\u201d.<\/p>\n<p>Suharto n\u00e3o servia mais aos neg\u00f3cios do Ocidente. O pa\u00eds estava com uma d\u00edvida de US$ 262 bilh\u00f5es, valor correspondente a 170% do PIB do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Tribunal de Contas do governo dos Estados Unidos examinou a situa\u00e7\u00e3o financeira da Indon\u00e9sia e constatou que o Banco Mundial havia perdido US$ 10 bilh\u00f5es naquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Tribunal informou ao Senado detalhes sobre propinas, desvios e fraudes, que o Banco ignorara nos relat\u00f3rios internos, para n\u00e3o contrariar a fam\u00edlia Suharto e seus amigos.<\/p>\n<p>Os relat\u00f3rios indicavam que pelo menos 30% dos empr\u00e9stimos do Banco estavam sendo desviados para funcion\u00e1rios e pol\u00edticos do Governo da Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>Uma onda de protestos, puxada pelos estudantes, contra o governo e a interven\u00e7\u00e3o do Banco Mundial e FMI, tomou as ruas de Jacarta e de outras cidades.<\/p>\n<p>Nos confrontos os militares levaram para as ruas os ve\u00edculos blindados brit\u00e2nicos antimotim, mas j\u00e1 era tarde. Shuarto n\u00e3o resistiu aos protestos e caiu em junho de 1998, deixando em seu lugar Jusuf Habibie, um de seus delfins, que continuou com a linha dura na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A Indon\u00e9sia \u00e9 hoje um dos pa\u00edses de maior desigualdade no mundo, com mais de 70 milh\u00f5es de pessoas pobres, condenadas a pagar as d\u00edvidas contra\u00eddas pelo ditador.<\/p>\n<p>A agricultura familiar deu lugar ao agroneg\u00f3cio, milh\u00f5es de fam\u00edlias foram expulsas das terras, numa verdadeira di\u00e1spora, e se amontoaram nas periferias das grandes cidades, em condi\u00e7\u00f5es subumanas, vivendo em favelas, com esgotos a c\u00e9u aberto, condenadas ao mercado de trabalho informal ou, quando na ind\u00fastria, ganhando sal\u00e1rios que mal d\u00e1 para a ra\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>A agricultura autosustentada foi varrida do mapa, dando lugar ao sistema diarista, concebido pelo Banco Mundial, como \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d para a multid\u00e3o que perdeu suas terras.<\/p>\n<p>Enfim, esse \u00e9 um breve resumo da hist\u00f3ria de um dos maiores massacres da segunda metade do s\u00e9culo XX, de entrega de um pa\u00eds aos grandes neg\u00f3cios, de condena\u00e7\u00e3o de uma enorme popula\u00e7\u00e3o \u00e0 pobreza e \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Suharto cerrou os olhos, definitivamente, sem nunca ter sido julgado por um tribunal. Certa imprensa brasileira olhou de soslaio o ditador em seu leito de morte e o chamou de \u201cL\u00edder\u201d, talvez pelos servi\u00e7os prestados ao Ocidente.<\/p>\n<p>Se ele tivesse sido um governante anti-Ocidente, seguramente seria chamado de ditador, seu curr\u00edculo de atrocidades teria sido divulgado com estardalha\u00e7o.<\/p>\n<p>Como o mundo d\u00e1 muitas voltas, na cobertura da execu\u00e7\u00e3o do \u00a0Marco Archer, rep\u00f3rteres da TV Globo tiveram seus passaportes confiscados pelo governo indon\u00e9sio.<\/p>\n<p>Certamente a Globo faria imagens do brasileiro para explor\u00e1-las \u00e0 exaust\u00e3o, como sempre faz, e com isso ganhar mais dinheiro. N\u00e3o devia estar interessada em mostrar a barb\u00e1rie estabelecida na Indon\u00e9sia, onde a banaliza\u00e7\u00e3o da pena de morte \u00e9 apenas um detalhe de toda a viol\u00eancia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quanto ao que representou Shuarto para os EUA, Inglaterra e outros pa\u00edses do ocidente, o governo dele pode ser resumido no que disse, em tempos idos, Franklin Roosevelt, sobre o ditador dominicano, Rafael Trujilo: \u201cEle pode ser um filho da puta, mas \u00e9 nosso filho da puta\u201d.<\/p>\n<p><em><strong>(*) Laurez Cerqueira \u00e9 autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes \u2013 vida e obra; e O Outro Lado do Real.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para ajudar a entender o desprezo do governo da Indon\u00e9sia pelos direitos humanos, ao executar o traficante brasileiro, Marco Archer Cardoso Moreira, vale a pena visitar um trecho da hist\u00f3ria recente daquele pa\u00eds, feita de sangue, suor e l\u00e1grimas. 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