{"id":396,"date":"2015-11-23T02:30:07","date_gmt":"2015-11-23T04:30:07","guid":{"rendered":"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=396"},"modified":"2015-11-24T22:58:07","modified_gmt":"2015-11-25T00:58:07","slug":"joao-do-vale-o-poeta-do-sertao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=396","title":{"rendered":"JO\u00c3O DO VALE: o Poeta do Sert\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 (*)\u00a0<\/strong> <strong>Por luiz clementino<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Jo\u00e3o-do-Vale.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-398\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Jo\u00e3o-do-Vale.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o do Vale\" width=\"454\" height=\"454\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00d4xente!!! Cunversa!!! J\u00e1 viu \u201cpau de arara\u201d num pass\u00e1 fome no caminho?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas injusti\u00e7as sociais do semi\u00e1rido nordestino, a arte florou de um artista espl\u00eandido, falecido h\u00e1 dezenove anos, que cantou as dificuldades e desigualdades conhecidas e vivenciadas por ele como sertanejo pobre e maltratado: JO\u00c3O DO VALE, nascido em Pedreiras, em 1934, no interior do Maranh\u00e3o. Um verdadeiro \u201cRebelde com causa&#8221;.<\/p>\n<p>Vejam bem, para in\u00edcio de conversa, Jo\u00e3o n\u00e3o sabia escrever,\u00a0tinha as m\u00fasicas e as letras de suas composi\u00e7\u00f5es (mais de 600),\u00a0na cabe\u00e7a. Com todas as dificuldades, com talento e sensibilidade extraordin\u00e1rias, chegou ao topo, admirado e cantado pela alta roda da m\u00fasica popular brasileira. Foi grande em meio aos grandes. Entre muitas atividades, participou do show OPINI\u00c3O, com Nara Le\u00e3o, Z\u00e9 Keti e muitos outros famosos, assistido por mais de 25 mil, pessoas somente no Rio de Janeiro. Nesse espet\u00e1culo Maria Beth\u00e2nia iniciou sua carreira como cantora com a m\u00fasica Carcar\u00e1, composta por ele.<\/p>\n<p>Chico Buarque produziu e participou de dois discos maravilhosos em sua homenagem com as participa\u00e7\u00f5es de Alcione, Alceu Valen\u00e7a, Chico Buarque, Ednardo, Edu Lobo, Fagner, Geraldo Azevedo, Ivon Cury, Jo\u00e3o Bosco, Luiz Vieira, Maria Bethania, Marin\u00eas, Miucha, Paulinho da Viola, Quinteto Violado, Sivuca e Ze Ramalho. \u00c9 mole? Poucos t\u00eam tanto prest\u00edgio. Intelectuais, poetas, cineastas de todo o pa\u00eds o veneravam. O maestro Antonio Carlos Jobim e Vin\u00edcius de Morais tinham grande admira\u00e7\u00e3o por Jo\u00e3o do Vale. As vers\u00f5es de \u201cMinha Hist\u00f3ria\u201d, cantada por Chico e com arranjos das flautas e\u00a0banda de p\u00edfanos, \u00e9 bacana pra caramba. Os violinos e toda orquestra\u00e7\u00e3o em \u201cCarcar\u00e1\u201d,\u00a0com introdu\u00e7\u00e3o da toada &#8220;Os Olhos da Cobra Preta\u201d, arranjado por Edu Lobo, \u00e9 um belo tributo. Geraldinho Azevedo cantando \u201cCoronel Ant\u00f4nio Bento\u201d, com sanfona, e um solo de guitarra, fazem um belo \u201cxote-rock\u201d. Posteriormente o saudoso e estupendo, Tim Maia, o senhor \u201cMe d\u00ea Motivo\u201d, respons\u00e1vel pelo \u201csoul brasileiro\u201d, com seus 120 quilos de sensibilidade, regravaria, com sucesso nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-403 \" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Jo\u00e3o-do-Vale-e-Chico-Buarque.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o do Vale e Chico Buarque\" width=\"444\" height=\"273\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Homenagens e resgate de sua hist\u00f3ria seguiram-se ap\u00f3s sua morte, como o livro <em>Pisa na ful\u00f4, mas n\u00e3o maltrata o carcar\u00e1<\/em>, de Marcio Paschoal (Editora Lumiar); o CD <em>Carcar\u00e1s da Cidade &#8211; Um tributo a Jo\u00e3o do Vale<\/em>, lan\u00e7ado pelo selo da Prefeitura de Nova Igua\u00e7u, onde Jo\u00e3o do Vale morou por cerca de 20 anos; <em>Jo\u00e3o do Vale mais coragem do que homem<\/em>, de Andr\u00e9a Oliveira (Edufitia) e o document\u00e1rio <em>Jo\u00e3o<\/em> <em>\u2013 muita gente desconhece<\/em>, de Werinton Kermes, maravilhoso!<\/p>\n<p>Suas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o de um realismo impressionante, expressado pela vida dif\u00edcil do sert\u00e3o em poemas biogr\u00e1ficos. A can\u00e7\u00e3o CARCAR\u00c1, que projetou Maria Bethania nacionalmente, \u00e9 de uma realidade chocante. O carcar\u00e1 \u00e9 uma ave de rapina agressiva, um predador voraz, considerado o p\u00e1ssaro malvado do sert\u00e3o. Nos versos de Jo\u00e3o ele diz que no flagelo da seca, onde h\u00e1 fome e morte, esse p\u00e1ssaro cruel come at\u00e9 cobra queimada e os bezerrinhos rec\u00e9m-nascidos. O bicho ataca no umbigo at\u00e9 matar. \u00a0No refr\u00e3o, constata que o homem morre de fome no sert\u00e3o, por\u00e9m, o \u201ccarcar\u00e1 n\u00e3o vai morrer de fome\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carcar\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">L\u00e1 no Sert\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Carcar\u00e1<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pega, mata e come<br \/>\nCarcar\u00e1<br \/>\nNum vai morrer de fome<br \/>\nCarcar\u00e1<br \/>\nMais coragem do que home<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pega mata e come<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qA353PWwqd8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qA353PWwqd8<\/a> &#8211; carcar\u00e1 Maria Bethania<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-404\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/Opini\u00e3o.jpg\" alt=\"Opini\u00e3o\" width=\"610\" height=\"399\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em\u00a0 SINA DO CABLOCO, ele n\u00e3o aceita ser \u201cmeeiro\u201d e vai embora para o Sul:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mas plantar pr\u00e1 dividir<br \/>\nN\u00e3o fa\u00e7o mais isso, n\u00e3o.<br \/>\nEu sou um pobre caboclo,<br \/>\nGanho a vida na enxada.<br \/>\nO que eu colho \u00e9 dividido<br \/>\nCom quem n\u00e3o planta nada.<br \/>\nSe assim continuar<br \/>\nvou deixar o meu sert\u00e3o,<br \/>\nmesmos os olhos cheios d&#8217;\u00e1gua<br \/>\ne com dor no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 interessante registrar, que nessa \u00e9poca de moleque, Jo\u00e3o do Vale vendia pirulito e outras guloseimas, era chamado de \u201cmenino do pirulito\u201d. Criou, ent\u00e3o, um refr\u00e3o para aumentar a venda, assim:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pirulito<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Enrolado no papel<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Enfiado no palito<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Papai eu choro<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Mam\u00e3e eu grito<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Me d\u00ea um tost\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Pra comprar um pirulito<\/p>\n<p>Quando Jo\u00e3o e seu irm\u00e3o Guariba, que tinha pouca grana, saiam para paquerar as mulheres, Jo\u00e3o comp\u00f4s uma toada fazendo brincadeira com o irm\u00e3o, que posteriormente seria sucesso com sanfoneiros do nordeste, que cantavam:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Man\u00e9 macaco<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Man\u00e9 Guariba<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Dinheiro pouco<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">N\u00e3o sustenta rapariga<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O talento de Jo\u00e3o do Vale era nato, estava no sangue, nada poderia deter seu processo criativo.<br \/>\nMeu samba \u00e9 a voz do povo<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Se algu\u00e9m gostou<br \/>\nEu posso cantar de novo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-405\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/show-opiniao.jpg\" alt=\"show-opiniao\" width=\"400\" height=\"321\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, eu fotografava com um equipe de trabalho no interior do Maranh\u00e3o, quando constatamos que est\u00e1vamos a 50 km de Pedreiras. Resolvemos conhecer a cidade natal de Jo\u00e3o do Vale. Nos dirigimos at\u00e9 a casa onde ele viveu. Hoje funciona um restaurante administrado pela vi\u00fava. Conversei com pessoas da cidade e muitas hist\u00f3rias desse admir\u00e1vel artista foram narradas. Fomos \u00e0 famosa \u201cRua da Golada\u201d, onde se passa o forr\u00f3 descrito no xote \u201cPISA NA FUL\u00d4\u201d. \u00c9 na verdade a zona da cidade, a casa das primas. Lembrei de uma entrevista onde ele afirmou com orgulho, que o puteiro passou a chamar-se,\u00a0oficialmente, RUA \u00a0COMPOSITOR JO\u00c3O DO VALE.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Existem fatos obscuros em sua vida, que Jo\u00e3o n\u00e3o gostava de comentar. Parece que fugiu de casa por alguma raz\u00e3o, e isso o emociova e o levava \u00e0s l\u00e1grimas, principalmente quando se referia a sua m\u00e3e. Saiu muito cedo de Pedreiras, foi pra S. Luis, andou pela Bahia, Cear\u00e1, Piau\u00ed, Pernanbuco, Minas e Nova Igua\u00e7u, trabalhou em garimpo, e chegou ao Rio de Janeiro como ajudante de pedreiro. \u00c0 noite tentava contato com cantores famosos, que interpretavam, no r\u00e1dio, can\u00e7\u00f5es do seu feitio.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o relata, em entrevista, como largou tudo para se dedicar somente \u00e0 m\u00fasica. Nessa ocasi\u00e3o, trabalhando em obra, numa casa ao lado, a vitrola da vizinha n\u00e3o parava de tocar a bel\u00edssima toada ESTRELA MI\u00daDA, na voz de Marlene. O radialista dizia \u201cEscutem por favor essa maravilha na vers\u00e3o de Maria Bethania, com Jaime Alem no viol\u00e3o\u201d. Jo\u00e3o virou para o mestre de obras e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor gosta dessa m\u00fasica?<\/p>\n<p>&#8211; Gosto, respondeu o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor sabe de quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. De quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 minha,\u00a0disse Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, o patr\u00e3o bronqueou:<\/p>\n<p>&#8211; Nego t\u00e1 delirando, bota a massa e vai trabalhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o disse que ficou t\u00e3o puto da vida que largou o balde no ch\u00e3o, e a partir da\u00ed, deixou aquela vida e dedicou-se de vez \u00e0 carreira art\u00edstica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seus xotes e bai\u00f5es s\u00e3o bem estruturados, com\u00a0letras de interpreta\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, c\u00f4micas e maliciosas como NA ASA DO VENTO, PIPIRA e muitas outras. No bai\u00e3o PEBA NA PIMENTA, a hist\u00f3ria se passa em uma festa, onde no almo\u00e7o o card\u00e1pio \u00e9 <em>tatu peba na pimenta. <\/em>Dona Benta fica receiosa em comer, por\u00e9m seu Malaquias afirma categoricamente que \u201cpiment\u00e3o n\u00e3o arde n\u00e3o\u201d. E o refr\u00e3o envolvente, com interpreta\u00e7\u00e3o dupla no ritmo e na rima diz:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Benta come\u00e7ou a com\u00ea<br \/>\nA pimenta era da braba<br \/>\nDanou-se a ard\u00ea<br \/>\nEla chorava, se maldizia<br \/>\nSe eu soubesse, desse peba n\u00e3o comia<br \/>\nAi, ai, ai seu Malaquia<br \/>\nAi, ai, voc\u00ea disse que n\u00e3o ardia<br \/>\nAi, ai, t\u00e1 ardendo pra dan\u00e1<br \/>\nAi, ai, t\u00e1 me dando uma agonia<br \/>\nAi, ai, que t\u00e1 bom eu sei que t\u00e1<br \/>\nAi, ai, mas t\u00e1 fazendo uma arrelia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WZo1LVTQOmo\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WZo1LVTQOmo<\/a> peba na pimenta &#8211; marin\u00eas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como grande parte do meu trabalho fotogr\u00e1fico, \u00e9 junto \u00e0s comunidades carentes do nosso extenso pa\u00eds, percebe-se essa desigualdade. Ou seja, somos maiores exportadores de alimento do mundo (carne, gr\u00e3os e caf\u00e9), e milh\u00f5es de cidad\u00e3os passam n\u00e3o s\u00f3 fome como outras necessidades b\u00e1sicas, <em>\u201co carcar\u00e1 n\u00e3o, pega mata e come, num vai morrer de fome, mais coragem que homem\u201d<\/em>. O absurdo \u00e9 de tal maneira, que quem explora os exclu\u00eddos, acha perfeitamente normal, e quem \u00e9 explorado tamb\u00e9m acha natural. Desprovido de qualquer ideologia religiosa ou partid\u00e1ria, sou testemunha ocular e tele-ocular, que os programas sociais, beneficiou e beneficia os que vivem nessas condi\u00e7\u00f5es. Em qualquer pa\u00eds desenvolvido,\u00a0a cidadania come\u00e7a alimentando os carentes. Nos EUA, mesmo com toda pol\u00edtica externa nociva, o governo forneceu alimento para os cidad\u00e3os durante anos na grande depress\u00e3o de 1929. O Jap\u00e3o distribui dinheiro aos desempregados devido \u00e0 grande crise financeira de 2008, e muitas outras na\u00e7\u00f5es fazem o mesmo. Aqui n\u00e3o, essa praga do discurso \u201cpoliticamente correto desprovido de preocupa\u00e7\u00e3o social\u201d, dos bem vestidos, dos bem empregados e bem alimentados, de que n\u00e3o se deve alimentar os famintos, com argumento sofism\u00e1tico e intelectualizado, que qualquer ajuda sustenta a malandragem, \u00e9 caracter\u00edstica de povo atrasado, elitizado, n\u00e3o humanistas, e de donat\u00e1rios heredit\u00e1rios. Os exclu\u00eddos ajudaram a construir nosso pa\u00eds, como nenhuma outra popula\u00e7\u00e3o, e nada foi-lhes dado em troca.<\/p>\n<p>Nossa mem\u00f3ria hist\u00f3rica registra, que essa mesma conversa tamb\u00e9m aconteceu com os mercadores de escravos, quando se sentiram prejudicados com a lei \u00e1urea, ficaram furiosos, queriam indeniza\u00e7\u00e3o, e, posteriormente, com as leis trabalhistas de Getulio Vargas , os patr\u00f5es acharam absurdo, f\u00e9rias remuneradas, carteira de trabalho, pagar horas extras, etc. Outra coisa, claro que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, MAS NINGUEM APRENDE A LER E A ESCREVER COM FOME. Quando deixamos nossos filhos e netos na escola, eles v\u00e3o bem alimentados.<\/p>\n<p>Esses moradores esquecidos desconhecem o direito ao alimento, ao ar puro, \u00e0 moradia e ao trabalho digno. N\u00e3o est\u00e3o concientes que a m\u00e1 remunera\u00e7\u00e3o, o desrespeito, o preconceito, a discrimina\u00e7\u00e3o, a ofen\u00e7a moral, e a depend\u00eancia, s\u00e3o outras formas de escravid\u00e3o. Outro fato impressionante, flagelo da fome \u00e9 heredit\u00e1rio, vem de pai para filho a s\u00e9culos.<\/p>\n<p>JO\u00c3O DO VALE \u00e9 um exemplo de vida em nosso pa\u00eds, principalmente para n\u00f3s que n\u00e3o conseguir\u00edamos viver sem m\u00fasica. Peitou, com sua arte, todo esse insensato sistema, essa m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda cr\u00f4ica e secular, sem \u00f3dio ou rancor, porem com tristeza, resigna\u00e7\u00e3o e poesia. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Afirmava que sua m\u00fasica era mistura de sua regi\u00e3o e do seu povo. Toda essa realidade cruel o marcou profundamente e mesmo tendo vencido \u201ca parada\u201d, seu humanismo \u00e9 comovente, demonstrado na toada \u201cMINHA HIST\u00d3RIA\u201d, gravada tamb\u00e9m por Chico Buarque.<\/p>\n<p>Como o \u201cmenino do pirulito\u201d aos 11 anos n\u00e3o podia frequentar a escola, pois trabalhava na rua pra ajudar em casa, mais tarde escreveu e musicou \u201cMINHA HIST\u00d3RIA\u201d, onde \u00e9 relatado esse fato, como tamb\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o com os amigos de inf\u00e2ncia que moram no sert\u00e3o. Vejam que maravilha:<\/p>\n<p>Seu mo\u00e7o, quer saber, eu vou cantar num bai\u00e3o<br \/>\nMinha hist\u00f3ria pra o senhor, seu mo\u00e7o, preste aten\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunz\u00e1<br \/>\nEnquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar<br \/>\nA minha m\u00e3e, t\u00e3o pobrezinha, n\u00e3o podia me educar<br \/>\nE quando era de noitinha, a meninada ia brincar<br \/>\nVixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:<br \/>\n&#8211; O professor raiou comigo, porque eu n\u00e3o quis estudar<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje todo s\u00e3o \u201cdout\u00f4\u201d, eu continuo jo\u00e3o ningu\u00e9m<br \/>\nMas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vint\u00e9m<br \/>\nVer meus amigos \u201cdout\u00f4\u201d, basta pra me sentir bem<br \/>\nMas todos eles quando ouvem, um bai\u00e3ozinho que eu fiz,<br \/>\nFicam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis<br \/>\nE dizem: Jo\u00e3o foi meu colega, como eu me sinto feliz<br \/>\nMas o neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 bem eu, \u00e9 Man\u00e9, Pedro e Rom\u00e3o,<br \/>\nQue tamb\u00e9m foram meus colegas , e continuam no sert\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o puderam estudar, e nem sabem fazer bai\u00e3o!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fOF-KoPiHzw\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fOF-KoPiHzw<\/a> &#8211; minha hist\u00f3ria<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FXHTksch4Hg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FXHTksch4Hg<\/a>\u00a0\u00a0 \u00a0estr\u00eala miuda-maria betania<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pq0MhIZIwqg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pq0MhIZIwqg<\/a>\u00a0\u00a0 pisa na ful\u00f4<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Vjm1M5UA7yg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Vjm1M5UA7yg<\/a> coronel ant\u00f4nio bento \u2013 tim maia<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4poHPINYuFQ\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4poHPINYuFQ<\/a> carcar\u00e1 \u2013 nara le\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yHpIMb1JrRs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yHpIMb1JrRs<\/a> peba na pimenta &#8211; jo\u00e3o do vale<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y3T2Pk0E4rs\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y3T2Pk0E4rs<\/a> muita gente desconhece &#8211; document\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 (*)\u00a0 Por luiz [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-396","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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