{"id":47,"date":"2015-07-02T21:03:10","date_gmt":"2015-07-03T00:03:10","guid":{"rendered":"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=47"},"modified":"2015-11-11T22:54:57","modified_gmt":"2015-11-12T00:54:57","slug":"uma-peste-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/laurezcerqueira.com.br\/?p=47","title":{"rendered":"Ass\u00e9dio moral: uma peste social"},"content":{"rendered":"<p>Quem n\u00e3o conhece a explora\u00e7\u00e3o, o tratamento degradante e desumano de patr\u00f5es e chefes nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho? Nas rela\u00e7\u00f5es entre marido e mulher, entre pais e filhos?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-49 size-full aligncenter\" src=\"http:\/\/laurezcerqueira.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/2.jpg\" alt=\"2\" width=\"494\" height=\"370\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quem n\u00e3o sabe de pessoas destru\u00eddas psicologicamente pela viol\u00eancia no trabalho? Muitas vezes se deprimem, chegam ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Pessoas que no dia a dia, no vai e vem da casa para o trabalho, do trabalho para casa, vivem tomadas por sofrimento pesaroso, provocado por a\u00e7oites verbais, humilha\u00e7\u00f5es e desqualifica\u00e7\u00f5es de &#8220;feitores&#8221; travestidos de coordenadores.<\/p>\n<p>Quem ainda n\u00e3o viu aquela secret\u00e1ria, aquela assessora, aos prantos nos banheiros dos lugares onde trabalham por terem sido ofendidas, agredidas verbalmente, zombadas, por &#8220;seu superior&#8221;.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m tem o direito de faltar com o respeito, humilhar, gritar com quem quer que seja no ambiente de trabalho, usando a posi\u00e7\u00e3o de chefe ou patr\u00e3o.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o \u00e9 algo novo, \u00e9 latente, faz parte da forma\u00e7\u00e3o cultural da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia do colonizador branco deixou marcas na pele e na alma de negros, ind\u00edgenas e de seus descendentes. Os campos conhecem o sangue o suor e as l\u00e1grimas deles em raz\u00e3o dos maus tratos dos feitores e patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria recente, as rela\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil ganharam novos ares com a industrializa\u00e7\u00e3o e as t\u00e9cnicas gerenciais.<\/p>\n<p>A ideologia fordista do trabalho e a administra\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do taylorismo e outras, nos tempos modernos, vestiram como uma luva a heran\u00e7a da escravid\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o se a\u00e7oita mais escravos nos pelourinhos, a\u00e7oita-se a alma de trabalhadores, com requinte de crueldade, atitudes manipuladoras, nova gram\u00e1tica, palavras cortantes, destruidoras da psique, para mais submiss\u00e3o, mais dom\u00ednio, mais servid\u00e3o, mais explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, \u00e9 poss\u00edvel que a viol\u00eancia no trabalho seja mais cruel devido a fatores culturais, e ao mesmo tempo aceita, sem os devidos questionamentos, como algo inerente \u00e0 ordem.<\/p>\n<p>Nem os sindicatos falam mais na viol\u00eancia patronal, parece coisa do passado remoto. Parece que est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n<p>De certa forma tornou-se um tabu. Fala-se na viol\u00eancia policial, na viol\u00eancia contra a mulher, contra os homoafetivos, contra os afrodescendentes, contra jovens e adolescentes, contra os ind\u00edgenas, mas n\u00e3o se fala na viol\u00eancia de patr\u00f5es e chefes com a mesma considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa cultura est\u00e1 viva. As v\u00edtimas da viol\u00eancia de patr\u00f5es e chefes est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o igual \u00e0 das v\u00edtimas da viol\u00eancia sexual, racial, de g\u00eanero, e homof\u00f3bica.<\/p>\n<p>Vivem imersas na bruma do &#8220;pacto de sil\u00eancio&#8221;, oprimidas, fragilizadas pela condi\u00e7\u00e3o de necessidade, de depend\u00eancia do trabalho como fonte de subsist\u00eancia pr\u00f3pria ou da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Curiosamente, a viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho n\u00e3o \u00e9 algo apenas do mundo patronal ou gerencial, avan\u00e7ou por outros setores da sociedade.<\/p>\n<p>Contraditoriamente, dirigentes de institui\u00e7\u00f5es populares que trabalham com afirma\u00e7\u00e3o da cidadania, da democracia no pa\u00eds, pessoas respons\u00e1veis pela pedagogia libert\u00e1ria, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, tamb\u00e9m reproduzem viol\u00eancia hier\u00e1rquica, patronal.<\/p>\n<p>S\u00e3o cada vez mais frequentes relatos de casos graves no ambiente de trabalho de organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, sindicais, de movimentos populares.<\/p>\n<p>Muitos dirigentes, de microfones em punho, nos ambientes p\u00fablicos, fazem discursos inflamados na defesa dos direitos humanos, contra o autoritarismo, a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, pela igualdade e fraternidade. No entanto, nos ambientes privados, muitos s\u00e3o algozes, verdadeiros tiranos com assessores, auxiliares, e com a pr\u00f3pria fam\u00edlia. E isso se transformou tamb\u00e9m em tabu. Como se fosse proibido falar que nesses setores se reproduz os mesmos mecanismos opressores em estruturas org\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Dirigentes referem-se ao educador Paulo Freire, em discursos, como o mais importante educador da pedagogia libert\u00e1ria, mas muitos deles s\u00e3o contradit\u00f3rios nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e familiar.<\/p>\n<p>Quando isso ocorre, podem reproduzir com mais crueldade ainda a opress\u00e3o sofrida na sociedade. O mestre Paulo Freire chamava isso de &#8220;opress\u00e3o do oprimido&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, o sujeito vive um estado de esquizofrenia. Aprendeu uma gram\u00e1tica pol\u00edtica, ostenta publicamente falsa generosidade, alimenta com discurso seu del\u00edrio narc\u00edsico, seu pr\u00f3prio orgulho, sua vaidade, sem se dar conta da contradi\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, se o sujeito tem consci\u00eancia disso e mant\u00e9m a perversidade, n\u00e3o passa de um manipulador barato.<\/p>\n<p>Um falso humanista que inventou um personagem para viver, com discurso e performances prontas, completamente descoladas da pr\u00f3pria personalidade, um lobo em pele de cordeiro.<\/p>\n<p>O compositor Cazuza mandou um recado a esses autorit\u00e1rios contradit\u00f3rios em uma de suas m\u00fasicas: &#8220;Sua piscina est\u00e1 cheia de ratos, suas ideias n\u00e3o correspondem aos fatos&#8221;.<\/p>\n<p>O crescimento da viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho atinge os pr\u00f3prios setores respons\u00e1veis por combat\u00ea-la. Institui\u00e7\u00f5es educacionais convencionais e entidades populares como sindicatos, partidos pol\u00edticos e outras organiza\u00e7\u00f5es do movimento social que promovem, de forma alternativa, a cidadania e a democracia, e lutam por direitos, com pedagogia libert\u00e1ria, precisam olhar para si mesmos, observar a coer\u00eancia e a conduta \u00e9tica na constru\u00e7\u00e3o da sociedade de direitos humanos.<\/p>\n<p>Isso demonstra que o Brasil est\u00e1 longe de superar a cultura mon\u00e1rquica e escravocrata. Na vida p\u00fablica, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, parlamentares, ju\u00edzes, governantes, e outras autoridades, desprovidas de sentimento de igualdade, ostentam ares mon\u00e1rquicos, se comportam como semideuses, membros da corte. No setor empresarial, o patronato, da mesma forma, ainda age como colonizador, que veio para explorar, no pa\u00eds, recursos naturais e pessoas.<\/p>\n<p>O sistema hier\u00e1rquico costuma seguir a ordem mon\u00e1rquica, aristocr\u00e1tica, n\u00e3o a republicana e democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (2000), criou o conceito &#8220;ass\u00e9dio moral&#8221; para definir a viol\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, caracterizada como sendo qualquer conduta abusiva, configurada por gestos, palavras, comportamentos e atitudes que fogem do que \u00e9 comumente aceito pela sociedade.<\/p>\n<p>Segundo a autora, essa conduta abusiva, atenta contra a personalidade, a dignidade ou integridade ps\u00edquica ou f\u00edsica de uma pessoa e n\u00e3o ocorrem apenas na rela\u00e7\u00e3o vertical patr\u00e3o e empregado, mas entre os pr\u00f3prios trabalhadores.<\/p>\n<p>Os exemplos da viol\u00eancia no trabalho s\u00e3o muitos:<\/p>\n<p>&#8220;Eu levo esse pessoal no chicote!&#8221; Ouvi isso de uma coordenadora de assessoria de imprensa de importante \u00f3rg\u00e3o estatal, referindo-se ao modo como ela coordenava a equipe de jornalistas sob sua responsabilidade.<\/p>\n<p>Vi, na C\u00e2mara dos Deputados, um ex-deputado federal humilhar publicamente um assessor que queria falar-lhe algo urgente, simplesmente porque n\u00e3o admitiu ser interrompido na roda de conversas sobre amenidades, com seus iguais.<\/p>\n<p>O deputado enxotou o rapaz de forma t\u00e3o violenta que nem a um cachorro, nos dias de hoje, se admite tal tratamento. Constrangido, o assessor, ao sair, relatou a pessoas que assistiram a cena, outros casos absurdos de viol\u00eancia verbal e tratamento degradante que a equipe vinha sofrendo no gabinete do parlamentar. Nenhuma das v\u00edtimas denunciou a viol\u00eancia sofrida, por medo de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os autorit\u00e1rios, que costumeiramente mant\u00e9m conduta abusiva contra pessoas, inventaram uma caixinha chamada &#8220;isso \u00e9 do humano&#8221; onde depositam suas agress\u00f5es. Uma forma, talvez, de justificar para si pr\u00f3prio e para o outro seu autoritarismo. E onde s\u00e3o depositadas as atitudes &#8220;desumanas&#8221;?<\/p>\n<p>Quem trata o outro de forma degradante n\u00e3o respeita diferen\u00e7as, caracter\u00edsticas pessoais, danos ps\u00edquicos ocorridos por toda a vida, que fizeram as pessoas como elas s\u00e3o.<\/p>\n<p>Aproveita-se, de forma perversa, das fraquezas, das vulnerabilidades das pessoas, para manipular, subjugar, submeter a seus des\u00edgnios, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o de suas mis\u00e9rias pessoais, pusilanimidades, obsess\u00f5es, carreirismos, por que n\u00e3o dizer, para submeter a seus &#8220;feitores interiores&#8221;, t\u00e3o perversos e presente na cultura brasileira.<\/p>\n<p>O trabalho, numa sociedade capitalista colonial como a brasileira, n\u00e3o costuma ser o resultado da converg\u00eancia de talentos, habilidades e prazer de realiza\u00e7\u00e3o, mas uma necessidade de sobreviv\u00eancia, que mais parece, de certo modo, uma representa\u00e7\u00e3o do calv\u00e1rio de Cristo: uma cruz, o trabalhador como m\u00e1rtir a carreg\u00e1-la, sob a\u00e7oites verbais e atitudes opressoras, a crucifica\u00e7\u00e3o, coroa\u00e7\u00e3o, para no final ganhar o reino dos c\u00e9us, no final de cada m\u00eas. Com direito a Madalenas (para enxugar o suor e as l\u00e1grimas no caminho), e torr\u00f5es de a\u00e7\u00facar (elogios manipuladores e pr\u00eamios).<\/p>\n<p>O sistema atinge n\u00edveis inimagin\u00e1veis de acelera\u00e7\u00e3o, imposta por novas m\u00e1quinas e maquinetas (computadores, celulares e afins), que transformam os usu\u00e1rios em verdadeiras pe\u00e7as complementares, processadores de conte\u00fados, provocando mais aliena\u00e7\u00e3o, hiperatividade, s\u00edndromes de baixa autoestima por n\u00e3o conseguirem manter-se no ritmo das maquinetas, e, consequentemente, sofrimento, depress\u00e3o, como atesta estudos acad\u00eamicos sobre a cultura urbana.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o corresponde a esse estado de acelera\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o s\u00e3o estigmatizados, segregados, colocados \u00e0 margem da produ\u00e7\u00e3o e consumo, como se fossem seres ex\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Para amenizar o sofrimento, igrejas e farm\u00e1cias crescem de forma assustadora com a oferta de seus sedativos.<\/p>\n<p>Como se esse sofrimento social n\u00e3o bastasse, as for\u00e7as empresariais, aristocr\u00e1ticas, investem contra direitos sociais dos trabalhadores j\u00e1 consolidados, como, por exemplo, entre outros, a terceiriza\u00e7\u00e3o do trabalho, a fim de obter mais lucros, mais acumula\u00e7\u00e3o de capital. Com isso, mais opress\u00e3o, mais explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia no trabalho.<\/p>\n<p>Um dos maiores problemas para conter a escalada da viol\u00eancia no trabalho \u00e9 a falta de legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, que possa tipificar o crime. Existem v\u00e1rios projetos de lei no Congresso Nacional nesse sentido, mas s\u00e3o barrados pelos lobbies empresariais, que impedem a aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Conven\u00e7\u00e3o n\u00ba 155\/1981, da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, prev\u00ea, no \u00e2mbito da sa\u00fade, o bem estar f\u00edsico e mental, como direito, no ambiente do trabalho, mas n\u00e3o se consegue avan\u00e7ar na aprova\u00e7\u00e3o de leis no Congresso.<\/p>\n<p>Enquanto a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem, o governo devia promover campanhas nos meios de comunica\u00e7\u00e3o focando a viol\u00eancia no trabalho, pelo menos como problema de sa\u00fade p\u00fablica e afirma\u00e7\u00e3o da cidadania, para amenizar o sofrimento de imensa parcela da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora.<\/p>\n<p>A Secretaria de Direitos Humanos, da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, em parceria com o Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego, <a href=\"http:\/\/portal.mte.gov.br\/data\/files\/8A7C812D3CB9D387013CFE571F747A6E\/CARTILHAASSEDIOMORALESEXUAL%20web.pdf\" target=\"_blank\">editou uma cartilha<\/a> voltada para a conten\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia gerencial no servi\u00e7o p\u00fablico, mas ainda \u00e9 muito pouco.<\/p>\n<p>No mesmo sentido, poderiam ser criadas delegacias especializadas para acolher v\u00edtimas da viol\u00eancia patronal e gerencial, que vivem a situa\u00e7\u00e3o de &#8220;pacto de sil\u00eancio&#8221;, assim como as delegacias de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a e ao adolescente, contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial e a homoafetiva, enfim, esse problema ganha propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis como uma das ra\u00edzes da viol\u00eancia social generalizada e precisa ser enfrentado.<\/p>\n<p>A press\u00e3o e a viol\u00eancia no trabalho, evidentemente, estouram nos lares. As crian\u00e7as s\u00e3o as v\u00edtimas mais atingidas. E assim se prolifera a peste moral na sociedade.<\/p>\n<div class=\"cs_img \"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem n\u00e3o conhece a explora\u00e7\u00e3o, o tratamento degradante e desumano de patr\u00f5es e chefes nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho? Nas rela\u00e7\u00f5es entre marido e mulher, entre pais e filhos? Quem n\u00e3o sabe de pessoas destru\u00eddas psicologicamente pela viol\u00eancia no trabalho? Muitas vezes se deprimem, chegam ao suic\u00eddio. 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