Autor: admin

  • Hello world!

    Welcome to WordPress. This is your first post. Edit or delete it, then start writing!

  • Petróleo e mar de lama

    1. 1-1Na Era Vargas, as “três irmãs” Texaco, Shell e Esso, que vendiam gasolina e óleo diesel para o Brasil diziam que no Brasil não havia petróleo.

      Elas praticamente bancavam a imprensa da época com os mais gordos anúncios. E a imprensa repetia o que elas diziam à exaustão.

      O melhor exemplo disso é o Repórter Esso, da Rádio Globo, uma espécie de porta-voz da velha UDN, que foi ao ar pela primeira vez em 28 de agosto de 1941, para atacar Getúlio Vargas e seu governo.

      O prefixo do programa, por incrível que pareça, era: “um serviço público da Esso Brasileira de Petróleo”.

      Eis a última transmissão do famoso Repórter Esso, em 1968, no governo do ditador general Costa e Silva: https://youtu.be/cIgSWgWH2kg

      Ao criar a Petrobras, Vargas desafiou o conluio das petroleiras com a imprensa golpista. O ódio da imprensa veio imediatamente destilado em manchetes garrafais contra ele.

      Entre os inúmeros ataques, o jornal O Estado de São Paulo guarda em seus arquivos um memorável editorial, radicalmente contrário à criação da Petrobras. Uma pérola da imprensa golpista.

      Vargas, homem sóbrio e de moral rígida, que nunca ostentou riqueza, foi atacado dia e noite, sem trégua, com acusações de corrupção.

      O governo dele foi rotulado de “mar de lama” pelos jornais e rádios da época. Virou chacota nos bares de esquina.

      Se quiser conferir vá ao Centro de Documentação e Informação da Câmara, ou a outros arquivos, e peça para ler os jornais da época. Vale a pena, para ver a semelhança com o que estão fazendo com Dilma e Lula.

      Acuado pelos ataques da UDN, de seu líder maior, Carlos Lacerda, da imprensa golpista que servia a ela, arrasado moralmente pelo massacre de notícias levianas, Vargas se matou. Mas, certamente para alertar as gerações futuras, como as de hoje, deixou registrado na carta-testamento: “Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.”

      Hoje assistimos no Brasil a uma disputa gigantesca na área do petróleo. O Brasil está ameaçado na geopolítica do petróleo.

      Foi no governo Lula que se revelaram as informações sobre as imensa jazidas de petróleo do pré-sal e foi feita a Lei que coloca a Petrobras no controle da produção.

      Outra Lei, sancionada por Dilma, destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Esse montante de recursos vai se somar às demais fontes para complementar o percentual de investimentos, de 10% do PIB na educação, previsto na lei que instituiu o Plano Nacional de Educação, em 2014.

      No governo Fernando Henrique, tentou-se privatizar a Petrobras com pré-sal e tudo mais. O sindicato dos trabalhadores da empresa conseguiu barrar a sanha privatista com um movimento contrário fortíssimo.

      Note que o conluio petroleiras e imprensa parece estar de volta com a ladainha de que tem que revogar a Lei que estabelece o controle da produção de petróleo pela Petrobras.

      O Senador José Serra já apresentou o projeto de lei no Senado para revogar a Lei de Dilma. Na cara dura.

      Aécio Neves e seus aliados estão chamando o povo para a rua. Eles querem o golpe. Mas um golpe cirúrgico, parlamentar ou judicial. Um golpe “paraguaio”. A conspiração está em curso.

      Eles não querem saber de militares. Militares, para eles, são coisa velha. Militares são nacionalistas. Com eles não dá. Como vender a estatal símbolo do nacionalismo brasileiro, uma estatal conquistada com o grande movimento “O Petróleo é Nosso”, liderado pela União Nacional dos Estudantes e sindicatos de várias categorias profissionais e muitas outras entidades civis?

      Eles têm Globo, Folha, Correio Braziliense, Estadão, Veja, Época, Istoé, as TVs, sites e rádios sobretudo o Facebook, para conduzir a massa.

      A manada está indo tão bem para o que eles querem, para que militares?

      As petroleiras internacionais, penhoradamente, agradecem o serviço que certos políticos estão fazendo.

  • É preciso dar um basta na corrupção no jornalismo

    1-1
    A categoria de jornalista devia se mobilizar num movimento pela ética no jornalismo.Isso por que a corrupção no jornalismo ganhou proporções inimagináveis. É chegada a hora de dar um basta nisso!Grosseiramente, convencionou-se que corrupção é roubar dinheiro público. Estão restringindo o significado da palavra a isso. Mas é muito mais que isso.

    A denúncia falsa, a mentira, a deturpação, a adulteração, a manipulação, da informação, é um ato de corrupção, tão pernicioso quanto afanar dinheiro do povo.

    Se for uma imposição dos patrões das corporações de comunicação, que exploram as concessões de serviço público, aos profissionais, que sejam denunciados nas instâncias devidas, que o Estado dê respaldo aos profissionais para o exercício digno de suas funções.

    O que não pode continuar é a formação de impérios empresariais como as Organizações Globo, grupo Abril, Folha, Estado, e outros, por exemplo, que fazem o que querem, muitas vezes acima da lei, impunemente. As concessões de TV e rádio são um serviço público da sociedade com finalidade definida na Constituição. Precisa ser disciplinado, sim.

    É o que diz o artigo 221 da Constituição, que não foi regulamentado por nenhum governo. Tornou-se um tabu falar em regulamentação dos dispositivos constitucionais.

    Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
    I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
    II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
    III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
    IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

    Por que o Ministério Público não investiga as empresas de comunicação para verificar se elas estão cumprindo o que determina a Constituição?

    Um médico, no caso de um erro, pode acabar com a vida de uma pessoa. Imediatamente pode ser processado e, se condenado, o médico perde o registro profissional.

    Um jornalista, ou o órgão de imprensa onde trabalha, pode acabar com a vida de alguém, fazendo da pessoa uma morta viva a carregar a chaga de uma informação falsa sobre ela, como uma cruz, num calvário vida afora.

    E tudo bem? Fica por isso mesmo? O jornalista continua trabalhando e aprontando inconsequentemente e a empresa onde trabalha tendo picos de audiência ou vendendo suas publicações com recordes de tiragens?

    O profissional devia sofrer restrições por falta de ética ou inabilidade no exercício da sua função social, como qualquer outro profissional de qualquer categoria. Deveriam ser cassados o direito de exercer sua profissão e a concessão da oferta do serviço do órgão de imprensa em que trabalha.

    Isso porque a profissão e os meios de comunicação são um dos mais importantes instrumentos para o desenvolvimento da sociedade, para a democracia, para a cidadania, para a civilização humana. Tão importantes quanto a escola é para a educação e a construção da nação.

    Para citar apenas um caso recente, entre tantos, a revista Veja acusou o Senador Romário de ter R$ 7,5 milhões num banco, na Suíça, uma informação falsa da revista, dada como de costume com imenso estardalhaço.

    Romário fez questão de ir à Suíça checar a informação e, de lá, desmentiu, solenemente, os repórteres Thiago Prado e Leslie Leitão, que assinaram a matéria e toda a equipe da revista, responsáveis pela publicação: o diretor de redação Eurípedes Alcântara, os redatores-chefes Lauro Jardim, Fábio Altman, Policarpo Junior e Thaís Oyama.

    Postou fotos dos perfis dos repórteres no Facebook e os internautas fizeram o maior furdunço, dispararam críticas e perguntas a eles, ao ponto de retirarem os perfis do Facebook. Mas isso só não basta.

    Sem falar no ex-presidente Lula, que se tornou o preferido na perseguição implacável dos impérios de comunicação, com objetivo claro de barrá-lo na disputa pela presidência da República em 2018. As capas das revistas de final de semana, Veja, Época, Istoé, jornais, telejornais, são de uma estupidez inimaginável. Ele está processando, mas depende do Judiciário reconhecer essa venalidade.

    Está demais. O que pseudorepórteres de polícia, desses programas de sanguera, tipo Datena e Rezende, Brasil afora, que são os maiores recordistas de audiência, estão fazendo com as pessoas, principalmente com os mais pobres, mais vulneráveis, é uma barbárie.

    Nesse vale-tudo pela audiência, pelos acessos aos sites, pelas tiragens de publicações, estão praticando os maiores absurdos com as pessoas, destruindo vidas.

    Esses pseudoprofissionais não estão à altura da liberdade de imprensa e de expressão que a sociedade lhes assegura com a Constituição e com a legislação em vigor.

    Antes que seja tarde, precisa ser aberto um debate sobre essa questão, e a apresentação de uma proposta de lei, de iniciativa popular, com coleta de assinaturas, que preserve a liberdade de imprensa e de expressão, mas que garanta da mesma forma os direitos humanos, afim de proteger o cidadão da corrupção no jornalismo.

    Sei que estou arriscando criticar a categoria, da qual sou integrante e que costuma ser melindrosa e refratária a críticas.

    Mas, antes que seja tarde demais, proponho lutarmos pelo fim da corrupção no jornalismo!

    Pela ética na imprensa!

    Corromper – Segundo o Dicionário Aurélio, significa ” 1. Deteriorar, decompor. 2. Alterar. 3. Perverter. 4. Induzir a realizar ato(s) contrário(s) ao dever, à ética. P. 5. Apodrecer, adulterar-se, deteriorar-se. 6. Perverter-se.”

  • Narciso à procura da câmera

    “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, diz Caetano Veloso, na música Sampa. Hoje, o espelho não é d’água. É eletrônico, é um celular smartphone. Esse é o novo espelho.

    A avidez por se ver na tela de um terminal qualquer, seja da velha TV, seja de um celular, nas redes sociais, pode estar levando pessoas de todas as categorias, sem exceção, a delírios narcísicos sem precedentes.

    Como se as maquinetas-espelho tivessem potencializando o afloramento de misérias humanas.

    O delírio narcísico, ou de importância, como queira o freguês, parece estar contaminando também, da mesma forma, o mundo das autoridades, como uma peste social.

    Muitos demonstram buscar os postos na hierarquia do serviço público não apenas para exercício cidadão da função pública, mas pelo que o status representa, para eles, na sociedade.

    Exemplo disso são as patéticas cenas protagonizadas cotidianamente por autoridades que trabalham nas investigações dos escândalos de corrupção no Brasil.

    Fruto de nefasto envolvimento entre imprensa oligárquica e órgãos de investigação, agentes públicos, à procura de câmeras, se acotovelam para alcançar posições ao lado do preso, mais visíveis para fotos de revistas e jornais, ou para filmagens das redes de TV.

    Desprovidos de senso de ridículo, policiais trajam roupas de combate, empunham fuzis, como se estivessem indo para uma frente de batalha, quando, na verdade, estão apenas buscando alguém para prestar um simples depoimento.

    Um dos agentes da PF, de feições orientais, tornou-se conhecido frequentador das revistas, dos jornais e dos telejornais.

    Policiais, agentes do Ministério Público, convocam coletivas como se estivessem participando de um espetáculo, de um filme qualquer, desses enlatados dos Estados Unidos.

    Como fez o Procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa encarregada das investigações da operação “Lava Jato”, ao convocar entrevista coletiva.

    Outro procurador, Carlos Fernando de Santos Lima, diz querer, com o trabalho deles , “Refundar a República”, ou seja, o delírio narcísico e de importância andam pulsantes.

    Pretencioso, o distinto procurador se posiciona acima dos demais poderes, como se, por canetadas, pudesse decretar a “Refundação da República”.

    Admirável o momento pelo qual passa o país ao enfrentar a corrupção com órgãos de fiscalização e controle e recursos humanos, bem estruturados, respaldados pela nova Constituição e por leis, recentemente aprovados pelo Congresso Nacional, como a Lei do Corruptor, sancionada pela Presidenta Dilma, que está possibilitando prender empresários corruptos.

    Mas é deplorável o comportamento de agentes públicos responsáveis por tão importante atribuição, conferida pela sociedade brasileira a esses servidores públicos. Faltam-lhes recato, cidadania.

    Ao não respeitar o que prescrevem as leis e a Constituição, os direitos e garantias fundamentais, arriscam-se a se igualar àqueles que estão investigados. Estes ainda podem, ao fim e ao cabo, serem declarados inocentes. Já as ações – ilícitas – das autoridades não podem ser revertidas.

    Aqui, prende-se, e o preso é quem tem que provar que é inocente. Juristas renomados estão preocupadíssimos com a violação das garantias constitucionais. Segundo eles, o ônus da prova foi invertido deliberadamente, sem nenhum amparo legal.

    Juristas estão apontando erros processuais e de condução das investigações que podem comprometer a “Operação Lava Jato” e se tornar uma “Operação Satiagraha”, arquivada pelo Supremo Tribunal Federal devido a erros crassos na condução dos trabalhos.

    Justamente no momento em que o país está preparado institucionalmente para enfrentar a corrupção, com os instrumentos necessários, autoridades se comportam de tal forma que sabotam a confiança da sociedade nas instituições.

    A sociedade, em pleno estado democrático de direito, não pode se tornar refém de facções políticas encrustadas nos poderes da República.

    Quem não gostaria de ver os malandros, parasitas de recursos públicos, na cadeia? Há quanto tempo se espera por isso?

    Mas, nessa relação entre policiais, procuradores e imprensa oligárquica, com vazamentos seletivos, talvez para prejudicar certa corrente política, pode ser consolidado um perigoso grupo de pessoas “acima da lei”. Isso é tão grave quanto o conluio entre corruptos e corruptores. Investigar sim, tripudiar não.

    A Constituição de 1988, chamada pelo Dr. Ulysses de “Constituição cidadã”, em razão dos avanços na conquista de direitos, pela sociedade brasileira, proporcionou ao Brasil uma institucionalidade avançadíssima, com os três poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário) estruturados por legislações que colocam o país na galeria das nações mais modernas do mundo.

    Porém, a nação está padecendo de um descompasso entre as garantias constitucionais e as autoridades responsáveis pelo cumprimento dos preceitos constitucionais e das leis estabelecidas pelos representantes do povo.

    As autoridades, guardadas as devidas exceções, estão aquém, muito aquém das instituições constituídas. Faltam cidadania, espírito público republicano, democrático, sobram despreparo, autoritarismo, prepotência e arrogância.

    O Ministério Público e a Polícia Federal conquistaram autonomia, conseguiram recursos, equipamentos, fizeram concursos públicos, dispõem de sistemas de inteligência e de apoio de última geração para o exercício das suas funções, mas, pelo que têm demonstrado, parecem aquém da autonomia garantida às respectivas instituições.

    Uma insuficiência, quem sabe, ancestral. O Estado brasileiro ainda está impregnado da cultura monárquica. A transição do Império para a República foi mais uma conciliação pelo alto, como dizia o mestre Florestan Fernandes.

    Autoridades ainda se comportam como semideuses, como membros da corte, a serviço de El Rei, muitas vezes acima das instituições e das leis.

    Servidores públicos, guardadas as devidas exceções, não costumam demonstrar que são servidores da sociedade, mas, uma casta privilegiada, detentora de estabilidade no trabalho e outras regalias. Entre os mais graduados, muitos se posicionam como aristocratas, descolados da sociedade, defensores do stablishment a qualquer custo.

    Os concursos públicos precisam ser mudados, para deixarem de ser uma mera averiguação de conhecimentos da educação enciclopédica. A burocracia do Estado precisa de servidores cidadãos.

    Governantes, parlamentares, juízes, procuradores, policiais, militares, servidores públicos, de forma geral, não costumam considerar-se prestadores de serviço público à sociedade, cada um com sua função pública. Seja serviço executivo, legislativo ou judiciário.

    Muitos serviços são controlados por agências autárquicas, como é o caso do fornecimento de energia, telefonia, defesa do consumidor, enfim. Por que o serviço público ainda não tem uma agência de controle, como os demais serviços?

    O Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, para não pairarem acima das leis e observarem com mais rigor a autonomia conferida pelos marcos legais, deveriam ter um controle externo.

    Em nações de democracia avançada como os Estados Unidos, juízes são eleitos diretamente pelo voto. Aqui, juízes e procuradores são selecionados por concurso público, tornam-se burocratas do Estado.

    Sem dispensar o poder fiscalizador do Congresso, que é o mais soberano dos poderes da República, por ter vínculos com a sociedade pelo voto direto, deveria ser constituído um órgão de controle externo do judiciário e dos órgãos auxiliares, com candidatos representantes da sociedade civil, eleitos por voto direto, de quatro em quatro anos, junto com a eleição presidencial.

    Essa proposta é defendida por um movimento nacional de grandes juristas, defensores da democratização do Judiciário.

    O descompasso entre autoridades e instituições pode estar relacionado com o fato de que a elite brasileira não se enraizou no país. Tem os olhos ainda voltados para além do Atlântico e para o hemisfério norte.

    Isso talvez explique o fato de termos sido o último país da América Latina a abolir a escravidão; de sermos um dos últimos a criar a primeira universidade; de termos uma educação, por séculos, dominada pela igreja católica, que ainda adestra crianças e jovens para o mercado de trabalho e não forma cidadãos; de termos um Estado aristocrático, de vícios monárquicos; e um judiciário e Ministério Público burocráticos, discrepante da moderna institucionalidade do país.

    Sem cidadania, não há democracia, não há República, não há Federação. Falta compromisso com a construção da Nação. Aqui ainda reina a mentalidade dos brancos europeus. Nossa independência ainda é uma pendência.

  • Assédio moral: uma peste social

    Quem não conhece a exploração, o tratamento degradante e desumano de patrões e chefes nas relações de trabalho? Nas relações entre marido e mulher, entre pais e filhos?

    2

    Quem não sabe de pessoas destruídas psicologicamente pela violência no trabalho? Muitas vezes se deprimem, chegam ao suicídio.

    Pessoas que no dia a dia, no vai e vem da casa para o trabalho, do trabalho para casa, vivem tomadas por sofrimento pesaroso, provocado por açoites verbais, humilhações e desqualificações de “feitores” travestidos de coordenadores.

    Quem ainda não viu aquela secretária, aquela assessora, aos prantos nos banheiros dos lugares onde trabalham por terem sido ofendidas, agredidas verbalmente, zombadas, por “seu superior”.

    Ninguém tem o direito de faltar com o respeito, humilhar, gritar com quem quer que seja no ambiente de trabalho, usando a posição de chefe ou patrão.

    A violência nas relações de trabalho não é algo novo, é latente, faz parte da formação cultural da sociedade brasileira.

    A violência do colonizador branco deixou marcas na pele e na alma de negros, indígenas e de seus descendentes. Os campos conhecem o sangue o suor e as lágrimas deles em razão dos maus tratos dos feitores e patrões.

    Na história recente, as relações de trabalho no Brasil ganharam novos ares com a industrialização e as técnicas gerenciais.

    A ideologia fordista do trabalho e a administração científica do taylorismo e outras, nos tempos modernos, vestiram como uma luva a herança da escravidão brasileira.

    Não se açoita mais escravos nos pelourinhos, açoita-se a alma de trabalhadores, com requinte de crueldade, atitudes manipuladoras, nova gramática, palavras cortantes, destruidoras da psique, para mais submissão, mais domínio, mais servidão, mais exploração.

    No Brasil, é possível que a violência no trabalho seja mais cruel devido a fatores culturais, e ao mesmo tempo aceita, sem os devidos questionamentos, como algo inerente à ordem.

    Nem os sindicatos falam mais na violência patronal, parece coisa do passado remoto. Parece que está tudo bem.

    De certa forma tornou-se um tabu. Fala-se na violência policial, na violência contra a mulher, contra os homoafetivos, contra os afrodescendentes, contra jovens e adolescentes, contra os indígenas, mas não se fala na violência de patrões e chefes com a mesma consideração.

    Essa cultura está viva. As vítimas da violência de patrões e chefes estão em situação igual à das vítimas da violência sexual, racial, de gênero, e homofóbica.

    Vivem imersas na bruma do “pacto de silêncio”, oprimidas, fragilizadas pela condição de necessidade, de dependência do trabalho como fonte de subsistência própria ou da família.

    Curiosamente, a violência nas relações de trabalho não é algo apenas do mundo patronal ou gerencial, avançou por outros setores da sociedade.

    Contraditoriamente, dirigentes de instituições populares que trabalham com afirmação da cidadania, da democracia no país, pessoas responsáveis pela pedagogia libertária, por incrível que pareça, também reproduzem violência hierárquica, patronal.

    São cada vez mais frequentes relatos de casos graves no ambiente de trabalho de organizações partidárias, sindicais, de movimentos populares.

    Muitos dirigentes, de microfones em punho, nos ambientes públicos, fazem discursos inflamados na defesa dos direitos humanos, contra o autoritarismo, a opressão e a exploração dos trabalhadores, pela igualdade e fraternidade. No entanto, nos ambientes privados, muitos são algozes, verdadeiros tiranos com assessores, auxiliares, e com a própria família. E isso se transformou também em tabu. Como se fosse proibido falar que nesses setores se reproduz os mesmos mecanismos opressores em estruturas orgânicas.

    Dirigentes referem-se ao educador Paulo Freire, em discursos, como o mais importante educador da pedagogia libertária, mas muitos deles são contraditórios nas relações de trabalho e familiar.

    Quando isso ocorre, podem reproduzir com mais crueldade ainda a opressão sofrida na sociedade. O mestre Paulo Freire chamava isso de “opressão do oprimido”.

    Ou seja, o sujeito vive um estado de esquizofrenia. Aprendeu uma gramática política, ostenta publicamente falsa generosidade, alimenta com discurso seu delírio narcísico, seu próprio orgulho, sua vaidade, sem se dar conta da contradição. Porém, se o sujeito tem consciência disso e mantém a perversidade, não passa de um manipulador barato.

    Um falso humanista que inventou um personagem para viver, com discurso e performances prontas, completamente descoladas da própria personalidade, um lobo em pele de cordeiro.

    O compositor Cazuza mandou um recado a esses autoritários contraditórios em uma de suas músicas: “Sua piscina está cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos”.

    O crescimento da violência nas relações de trabalho atinge os próprios setores responsáveis por combatê-la. Instituições educacionais convencionais e entidades populares como sindicatos, partidos políticos e outras organizações do movimento social que promovem, de forma alternativa, a cidadania e a democracia, e lutam por direitos, com pedagogia libertária, precisam olhar para si mesmos, observar a coerência e a conduta ética na construção da sociedade de direitos humanos.

    Isso demonstra que o Brasil está longe de superar a cultura monárquica e escravocrata. Na vida pública, salvo raras exceções, parlamentares, juízes, governantes, e outras autoridades, desprovidas de sentimento de igualdade, ostentam ares monárquicos, se comportam como semideuses, membros da corte. No setor empresarial, o patronato, da mesma forma, ainda age como colonizador, que veio para explorar, no país, recursos naturais e pessoas.

    O sistema hierárquico costuma seguir a ordem monárquica, aristocrática, não a republicana e democrática.

    A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (2000), criou o conceito “assédio moral” para definir a violência nas relações de trabalho, caracterizada como sendo qualquer conduta abusiva, configurada por gestos, palavras, comportamentos e atitudes que fogem do que é comumente aceito pela sociedade.

    Segundo a autora, essa conduta abusiva, atenta contra a personalidade, a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa e não ocorrem apenas na relação vertical patrão e empregado, mas entre os próprios trabalhadores.

    Os exemplos da violência no trabalho são muitos:

    “Eu levo esse pessoal no chicote!” Ouvi isso de uma coordenadora de assessoria de imprensa de importante órgão estatal, referindo-se ao modo como ela coordenava a equipe de jornalistas sob sua responsabilidade.

    Vi, na Câmara dos Deputados, um ex-deputado federal humilhar publicamente um assessor que queria falar-lhe algo urgente, simplesmente porque não admitiu ser interrompido na roda de conversas sobre amenidades, com seus iguais.

    O deputado enxotou o rapaz de forma tão violenta que nem a um cachorro, nos dias de hoje, se admite tal tratamento. Constrangido, o assessor, ao sair, relatou a pessoas que assistiram a cena, outros casos absurdos de violência verbal e tratamento degradante que a equipe vinha sofrendo no gabinete do parlamentar. Nenhuma das vítimas denunciou a violência sofrida, por medo de perseguição.

    Os autoritários, que costumeiramente mantém conduta abusiva contra pessoas, inventaram uma caixinha chamada “isso é do humano” onde depositam suas agressões. Uma forma, talvez, de justificar para si próprio e para o outro seu autoritarismo. E onde são depositadas as atitudes “desumanas”?

    Quem trata o outro de forma degradante não respeita diferenças, características pessoais, danos psíquicos ocorridos por toda a vida, que fizeram as pessoas como elas são.

    Aproveita-se, de forma perversa, das fraquezas, das vulnerabilidades das pessoas, para manipular, subjugar, submeter a seus desígnios, à alimentação de suas misérias pessoais, pusilanimidades, obsessões, carreirismos, por que não dizer, para submeter a seus “feitores interiores”, tão perversos e presente na cultura brasileira.

    O trabalho, numa sociedade capitalista colonial como a brasileira, não costuma ser o resultado da convergência de talentos, habilidades e prazer de realização, mas uma necessidade de sobrevivência, que mais parece, de certo modo, uma representação do calvário de Cristo: uma cruz, o trabalhador como mártir a carregá-la, sob açoites verbais e atitudes opressoras, a crucificação, coroação, para no final ganhar o reino dos céus, no final de cada mês. Com direito a Madalenas (para enxugar o suor e as lágrimas no caminho), e torrões de açúcar (elogios manipuladores e prêmios).

    O sistema atinge níveis inimagináveis de aceleração, imposta por novas máquinas e maquinetas (computadores, celulares e afins), que transformam os usuários em verdadeiras peças complementares, processadores de conteúdos, provocando mais alienação, hiperatividade, síndromes de baixa autoestima por não conseguirem manter-se no ritmo das maquinetas, e, consequentemente, sofrimento, depressão, como atesta estudos acadêmicos sobre a cultura urbana.

    Quem não corresponde a esse estado de aceleração e alienação são estigmatizados, segregados, colocados à margem da produção e consumo, como se fossem seres exóticos.

    Para amenizar o sofrimento, igrejas e farmácias crescem de forma assustadora com a oferta de seus sedativos.

    Como se esse sofrimento social não bastasse, as forças empresariais, aristocráticas, investem contra direitos sociais dos trabalhadores já consolidados, como, por exemplo, entre outros, a terceirização do trabalho, a fim de obter mais lucros, mais acumulação de capital. Com isso, mais opressão, mais exploração e violência no trabalho.

    Um dos maiores problemas para conter a escalada da violência no trabalho é a falta de legislação específica, que possa tipificar o crime. Existem vários projetos de lei no Congresso Nacional nesse sentido, mas são barrados pelos lobbies empresariais, que impedem a aprovação.

    A Convenção nº 155/1981, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, prevê, no âmbito da saúde, o bem estar físico e mental, como direito, no ambiente do trabalho, mas não se consegue avançar na aprovação de leis no Congresso.

    Enquanto a legislação não vem, o governo devia promover campanhas nos meios de comunicação focando a violência no trabalho, pelo menos como problema de saúde pública e afirmação da cidadania, para amenizar o sofrimento de imensa parcela da população trabalhadora.

    A Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República, em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, editou uma cartilha voltada para a contenção da violência gerencial no serviço público, mas ainda é muito pouco.

    No mesmo sentido, poderiam ser criadas delegacias especializadas para acolher vítimas da violência patronal e gerencial, que vivem a situação de “pacto de silêncio”, assim como as delegacias de proteção à mulher, de proteção à criança e ao adolescente, contra a discriminação racial e a homoafetiva, enfim, esse problema ganha proporções inimagináveis como uma das raízes da violência social generalizada e precisa ser enfrentado.

    A pressão e a violência no trabalho, evidentemente, estouram nos lares. As crianças são as vítimas mais atingidas. E assim se prolifera a peste moral na sociedade.

  • Ver para crer

    Na semana passada o plenário da Câmara foi transformado num templo pseudoreligioso pelas bancadas evangélica e da bala, numa manifestação fundamentalista de parlamentares com faixas e cartazes, orações e xingamentos do mais baixo calão, contra os homoafetivos que realizaram a tradicional parada gay em São Paulo.

    Surpreendentemente, o jornal Folha de S. Paulo estampou recentemente editorial violento contra o que considera “intimidação ideológica”, liderada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

    Eduardo Cunha anda em maus lençóis no Ministério Público, com as delações premiadas e com as investigações, que podem tirá-lo da Câmara e da disputa pela Presidência da República, ambicionada por ele. Esse rompimento com Eduardo Cunha é sintomático, os dias dele podem estar contados.

    Na mesma linha, o jornal também publica entrevista da procuradora Deborah Duprat, que entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas e o uso de símbolos religiosos e realizações de cultos e outras manifestações em espaços públicos do Estado. O STF vai marcar o dia do julgamento para os próximos dias.

    Uma demonstração de compromisso com a laicidade do Estado num momento de ameaça à democracia e ao estado democrático de direito, que merece ser comemorado com alvíssaras.

    Porém não se pode esquecer que, em janeiro deste ano, a Folha incensou, ungiu o deputado Eduardo Cunha para derrotar o deputado Arlindo Chinaglia, do PT/SP, na campanha pela Presidência da Câmara.

    Naquele momento, no rescaldo das eleições, a onda erguida, sob a liderança de Aécio Neves, era surfar na tentativa de impeachment de Dilma, recém empossada.

    A Folha incensou Aécio Neves, que andou na campanha eleitoral, e ainda anda de braços dados com o atraso organizado – como candidato à Presidência da República e como presidente do PSDB.

    Isto é, os mesmos setores que fizeram manifestação no plenário da Câmara contra a parada gay.

    Aécio Neves, do alto da presidência do PSDB, se aliou com Eduardo Cunha para aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que reduz a maioridade penal, orientou a bancada a votar na reforma política proposta por ele, entre outras, que constitucionaliza o financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas.

    Aécio Neves, Eduardo Cunha e Folha de S. Paulo, numa relação simbiótica, apoiaram abertamente as manifestações dos setores mais atrasados e despolitizado do país contra o governo Dilma.

    Agora a Folha dá sinais de rompimento com a turma liderada por Eduardo Cunha, coincidentemente no mesmo momento em que Geraldo Alckmin é lançado candidato à Presidência da República na convenção realizada em São Paulo.

    Interessante o que o jornal Folha de S. Paulo publicou e os sinais emitidos de adoção de nova postura em relação ao obscurantismo sintonizado entre o Congresso Nacional e as ruas.

    Interessante seria se o jornal apoiasse a reação dos setores que sempre lutaram pela democracia, pela afirmação da cidadania e do Estado laico, pela superação do atraso organizado, e pela soberania nacional.

    A soberania nacional, no setor de petróleo e gás, está ameaçada pelo projeto de lei do senador José Serra, que tira da Petrobras o controle da produção, instituído pela lei sancionada pela Presidenta Dilma.

    Interessante seria se a Folha abandonasse a sanha de destruição do PT e reconhecesse o partido como uma das mais importantes instituições políticas construídas no país, que conseguiu organizar a base da pirâmide social, os excluídos, os remanescentes da escravidão, da dizimação das nações indígenas, deu voz e ação na luta pela conquista de direitos, entre outras, e elegeu democraticamente governos que estão transformando o Brasil.

    Reuniões de vários movimentos populares estão acontecendo em todo o país, numa demonstração de forte reação, para discutir estratégias para barrar o retrocesso, conter a ofensiva dos conservadores, que estão tentando, no Congresso Nacional, subtrair direitos da população e a soberania nacional, consagrados na “Constituição cidadã”, assim denominada por Ulysses Guimarães. A Folha vai apoiar os movimentos?

    Mais interessante seria se a Folha tivesse, de verdade, deixado de ser um panfleto partidário, servente de candidaturas, e tivesse decidido se comprometer definitivamente com a defesa do Estado laico, a civilização da sociedade, praticando o jornalismo cidadão.

  • Laurez, a informação está na palma da mão

    A principal tela da informação e do entretenimento não está mais na TV mas no celular. É na palma da mão e não na banca de jornal ou na sala diante do vídeo, que chegam as notícias, a novela, o futebol e a música, via internet. Esta tese é desenvolvida por Laurez Cerqueira, jornalista e escritor, na entrevista da semana a FC Leite Filho, do Café na Política.

  • Retribalização?

    Observando a internet, hoje dá impressão que estamos vivendo algo parecido com uma retribalização de parte da sociedade, uma espécie de estratificação horizontal, diria, com a formação de grupos cada vez mais homogêneos cultivando valores, verdades absolutas, e se retroalimentado delas, em círculos fechados de agregação e segregação.

    A internet, particularmente as redes sociais, está facilitando isso. Veja bem, não se trata de culpar a internet. Ela é “inocente”, apenas um meio democrático e moderno de comunicação.

    Um meio onde predomina a liberdade de expressão quase absoluta, apesar da censura moral, seletiva, das redes sociais, baseada em normas privadas e convenções empresariais próprias, enquanto é permitido, por exemplo, o ativismo de grupos organizados de apologia à discriminação generalizada, à violência, à intolerância, dá espaço a fanatismos de todo tipo e vandalismo com conteúdos assustadores.

    Mas nada disso pode justificar qualquer forma de censura. A internet deve ser livre. O que está em questão são as relações sociais, as organizações e grupos que ganharam força e voz na internet, conseguiram espaço para ações generalizadas.

    A rede é apenas uma praça, que nos permite ver de nossas janelas o que está acontecento e participar, tendo em vista a disponibilidade de informações, o fácil acesso ao conhecimento, o compartilhamento e a comunicação direta entre cidadãos.

    Mas, por incrível que pareça, o que tornou-se bom para a democracia, para a melhoria das condições de vida das pessoas, o acesso ao conhecimento, à diversidade cultural, a civilização, pode estar também proporcionando segmentação, retribalização social, em muitos casos amalgamada com costumes, valores, posturas, já superados pelas sociedades democráticas modernas.

    “Haters” e “trolls”, grupos de verdadeiras bestas do apocalipse, muito próximas das bestas de certos filmes e jogos eletrônicos difundidos em larga escala ganham força nas redes sociais destilando ódio e intolerância.

    É como se algo do medievalismo tivesse escapado, ressurgido das trevas, das brumas do obscurantismo, e estivesse dizendo: “aqui estou!”

    Evidentemente com a ajuda dos impérios de comunicação tradicionais, que não estão nem aí para a cidadania, nem para a civilização, estão preocupados com o que vai lhes render mais dinheiro. Por esse motivo, parece terem predileção pela violência, pelo que há de pior do ser humano.

    Nessa mesma esteira, figuram grupos religiosos, que se tornaram organizações transnacionais, com poder, dinheiro e meios de comunicação, com projeto político e estratégia definida para ocupar os espaços dos partidos politicos, entidades civis e das instituições do Estado.

    O fanatismo religioso, baseado em valores, na sua maioria medievais, é o que mais ameaça a democracia.

    Põe em risco o Estado laico, ameaça as conquistas da agenda de direitos humanos, a ideia de nação cidadã, que sempre se renova diante dos novos desafios da humanidade.

    A eleição do deputado Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara dos Deputados é um exemplo dessa ameaça.

    O atraso organizado cravou uma bandeira no Congresso Nacional, tornou uma ponta de lança de grupos conservadores, fundamentalistas e intolerantes, que nas suas “tribos” criaram um mundo próprio, à margem da cidadania e da construção da nação democrática.

    Segmentos como bancada evangélica, bancada da bala, bancada ruralista e outras, não querem diálogo, estão determinados a impedir a agenda de direitos humanos e subtrair conquistas dos trabalhadores. Isso é fato. Querem, por exemplo, reduzir a maioridade penal, o fim do estatuto do desarmamento, a terceirização da mão de obra entre outras conquistas sociedade brasileira.

    Nada menos do que seis projetos de lei da agenda de direitos humanos, que estavam prontos para votação na Câmara, foram barrados pelo presidente.

    E há movimentação de religiosos no sentido de impor uma pauta ainda maior de projetos de lei de retrocessos, exatamente contrários às conquistas democráticas.

    Na internet, uma grande massa de pessoas vive nas mãos de manipuladores, se alimentam de verdades absolutas criadas e difundidas pelos próprios membros dos grupos, formando uma rede de ódio e intolerância sem precedentes na história.

    Gente de ouvidos moucos, insensata, sem discernimento, desprovidas de espírito democrático.

    São incontáveis grupos de diversos segmentos, de extrema radicalidade: vão de veganos, salvo excessões, que se acham seres especiais – alguns acreditam até na purificação da raça por meio da alimentação, passando por pessoas que querem mudar o mundo montado numa bicicleta – a extrema direita: racistas, homofóbicos, machistas, misógenos, e nazi-fascistas assumidos, declaradamente inimigos da democracia.

    A grande maioria, no seu mundo privado, na sua aldeia eletrônica, numa onda de que a voz da mídia é a voz de Deus.

    Reverter esse quadro é uma tarefa, para as entidades democráticas da sociedade civil, à altura da luta pelo fim da ditadura militar. E das instituições educacionais, para fazer frente ao avanço do atraso organizado e formar cidadãos e não apenas adestrar crianças e jovens para o mercado de trabalho.

    A preservação do Estado laico tornou-se uma das prioridades. No Congresso há movimentação nesse sentido. Está sendo criada uma Frente Parlamlentar em Defesa do Estado Laico.

    As entidades civis, principalmente as de direitos humanos, deveriam se articular com a Frente Parlamentar a fim de promover debates e ações para deter essa ameaça.

  • INTERNET ACELERA MORTE DA MÍDIA IMPRESSA NO BRASIL

    INTERNET ACELERA MORTE DA MÍDIA IMPRESSA NO BRASILimages|cms-image-000428634

     

     

    Semana marcada por cortes drásticos na Folha e no Estado terminou com uma parceria entre o governo federal e o Facebook para levar internet gratuita a 200 mil pessoas na favela de Heliópolis, em São Paulo; “A escalada de demissões de profissionais da imprensa nos últimos dias, Folha 50 jornalistas, Estadão 100, Jornal Nacional despencando sua audiência, mostra que o setor está arruinando numa velocidade inimaginável”, diz o jornalista e escritor Laurez Cerqueira; “A internet deu voz a todo mundo, criou verdadeiras praças, que são as redes sociais, tribunas eletrônicas com liberdade de expressão quase absoluta e a possibilidade de checar informações”; “Sobreviverá nessa selva eletrônica quem produzir informações confiáveis, um jornalismo honesto, e que tenha bons intérpretes da realidade”

    Pensando alto e em rascunho

    A escalada de demissões de profissionais da imprensa nos últimos anos e nos últimos dias, 50 jornalistas da Folha, 100 do Estadão, Jornal Nacional e outros telejornais despencando as audiências, mostra que o setor está arruinando numa velocidade inimaginável.

    Grandes grupos como Estado, Abril, SBT e outros estão colocando à venda patrimônios, maquinários, antenas, rotativas gigantescas, e não conseguem compradores. O destino delas pode ser os museus.

    O Grupo Abril, por exemplo, fechou várias revistas, demitiu 150 funcionários, desocupou metade do prédio, sede da empresa. O jornal O Sul deixou de circular a edição impressa recentemente, editores de revistas semanais já discutem manter apenas a edição eletrônica.

    O Brasil, segundo o IBGE, é o país onde mais cresce o acesso à internet no mundo. No final de 2014 chegou a 108 milhões de internautas. Superou o Japão.

    É também o 6º país com o maior número de smartphones. Isso quer dizer que os conteúdos estão na palma da mão e não mais na banca de revista ou na tv da sala.

    Ou seja, grandes grupos de comunicação estão agora disputando espaço na rede em condições iguais com qualquer outro estabelecido ou que queira se estabelecer.

    A questão é a capacidade instalada de produzir conteúdo. Pequenas equipes podem gerar grandes negócios.

    A queda de audiência e das tiragens dos impressos fizeram com que os anunciantes buscassem outros meios para veiculação da propaganda de seus produtos, migraram na internet ou criaram seus próprios sites.

    Com isso as receitas dos meios tradicionais, TVs, jornais, revistas e rádio despencaram. Começou a ganhar força a desconcentração da publicidade e a pulverização para alcance de maior número de internautas.

    Um importante jornal de Brasília, em 2010, tinha uma tiragem de 70 mil exemplares no domingo, numa população de mais de dois milhões de habitantes. Hoje não passa de 30 mil.

    Isso por que a internet chegou para ficar e está colocando em xeque um modelo, principalmente de imprensa, que sofre como nunca a perda de credibilidade, conforme apontam pesquisas de opinião.

    A internet deu voz a todo mundo, criou verdadeiras praças, que são as redes sociais, tribunas eletrônicas com liberdade de expressão quase absoluta e a possibilidade de checar informações instantaneamente, caso haja dúvida da publicação.

    Cada um pode montar seu canal de comunicação. Tamanho agora não é documento. No Congresso Nacional, por exemplo, a onda agora são os parlamentares chamarem seus eleitores nas redes sociais para vê-los falar no Plenário ou nas comissões.

    Os mais versados no uso do WhatsApp e em outras redes, são acompahados de um assessor de imprensa munido de celular que filma, edita e posta os pronunciamentos ou entrevistas curtas de opinião deles sobre qualquer assunto.

    Além das redes sociais, eles têm seus sites onde postam todas as informações que consideram importantes para seus eleitores.

    A decadência dos grandes grupos atingiu também o jornalismo ficcionista, a manipulação da informação, hoje frequentemente desmentida na internet.

    A chamada grande imprensa, guardadas devidas excessões, anda desmoralizada e, nesse vácuo, surge com força um novo modelo de imprensa, ainda tentando se equilibrar.

    As redações tradicionalmente centralizadas estão sendo fragmentadas, dando lugar às assessorias de imprensa, que crescem nos órgãos públicos e nas empresas.

    Sem falar na imensa diversidade de sites especializados, cresce o número de blogs de analistas dos mais variados assuntos: de política, economia, artes, a comportamento de cães.

    O que está se desenhando é que sobreviverá nessa selva eletrônica quem produzir informações confiáveis, um jornalismo honesto, com bons intérpretes da realidade, para ajudar a sociedade a entender as transformações do mundo e poder avançar na afirmação da cidadania e na democracia.

    Afinal, a credibilidade é a essência do jornalismo.

    O fato é que ainda estamos sob impacto do surgimento das novas mídias. A revolução tecnológica nos meios de comunicação ainda é muito recente. Tudo isso está se decantando.

    O setor de comunicação é tão importante para o desenvolvimento do país quanto os setores de transporte, indústria, agricultura. Mas não costuma ser tratado com a devida consideração.

    Os estudos para verificar o que representa esse setor na composição do PIB ainda são insuficientes, pelo fato de estar passando por intensa transformação.

    O governo Dilma vai anunciar em breve um projeto, que está sendo finalizado no Ministério das Comunicações, chamado de Banda Larga para Todos, de universalização da internet para 98% dos domicílios até 2018, com velicidade de 25 Mbps. Hoje a média é de 2,9 Mbps.

    Com isso o Brasil se equipara aos países mais desenvolvidos do mundo em oferta de internet de alta velocidade.

    Serão investidos R$ 50 bilhões. O governo entra com R$ 15 bilhões e as operadoras com R$ 35 bilhões. Os recursos são do FISTEL – Fundo de Fiscalização das Telecomunicações que tem hoje em caixa R$ 47 bilhões.

    É um setor que precisa de um marco regulatório para organizá-lo do ponto de vista econômico, social, cultural e político, pela importância estratégica que representa para a construção da nação democrática e soberana que desejamos.

    Creio que seremos capazes de criar meios comprometidos com a civilização para que possamos superar a barbárie.

  • Nossa democracia está madura

    Aos trancos e barrancos estamos construindo nossa nação, sempre nesse jogo duro entre democratas, libertários e autoritários herdeiros das oligarquias coloniais que sempre mantiveram os descendentes das comunidades negras escravizadas e das nações indígenas dizimadas sob seu domínio. Mas a dialética salva.

    Nessa disputa, os democratas estão vencendo e conquistando espaço para a conquista de direitos, a inclusão social, a redução da desigualdade e afirmação da soberania, entre outras causas não menos importantes.

    Eleições estão sendo realizadas e os mandatos garantidos. As tentativas de desestabilização de governos é que precisam acabar. Não somos nem seremos mais uma “República de bananas”. O Brasil é a sétima economia do mundo, um país moderno em franca superação de seus problemas.

    Temos uma constituição e instituições que, bem ou mal, funcionam, apesar do ar monárquico que predomina nelas, com governantes, parlamentares e juízes ainda se comportando como reis e príncipes.

    O déficit de cidadania é muito grande. O pouco que temos conseguimos com todo nosso esforço, contra a vontade da elite que sequer admite os direitos do povo. Uma elite que não gosta da democracia porque na democracia ela perde sempre.

    Nossos parlamentos vivem grave crise de representatividade, um descompasso enorme entre os anseios da sociedade e o que fazem seus representantes. Tanto que, nas manifestações, políticos foram vaiados e impedidos de falar.

    Certamente isso tem a ver com a destruição da política não só pelos políticos inescrupulosos, mas também pela imprensa conservadora, que ultrapassou todos os limites na criminalização da política, e pelo mercado.

    O mercado quer que as pessoas baixem a cabeça, trabalhem, consumam e deixe o destino nas mãos dele.

    Isso acontece, em grande parte, devido às deficiências da educação. Escolas ainda adestram pessoas para o mercado de trabalho ao invés de formar cidadãos. Melhorou um pouco, mas é trabalho para longo prazo.

    Primeiro é necessário formar professores, depois alunos. Isso leva tempo, mas a lei que instituiu o Plano Nacional de Educação promete.

    Serão aplicados 10% do PIB na educação até 2024. Desses, 75% provêm dos royalties do petróleo do Pré-sal.

    Os profissionais do magistério das redes públicas serão valorizados de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente.

    Tudo indica que ao longo dos próximos dez anos o sistema educacional estará oferecendo educação de qualidade aos cidadãos.

    Falta também democracia participativa. Votar e achar que o representante eleito vai resolver os problemas do país ou da cidade sem a participação direta da população nos debates e na formulação das políticas públicas está provado que não funciona.

    O Judiciário, ainda dominado pelo direito positivo, parece sofrer a doença cultural de Corte monárquica. Juízes posam de semideuses e a inércia o faz o poder mais ineficiente da República.

    As manifestações do dia 15 de março foram bastante numerosas, mas vazias, desprovidas de agenda, de reivindicações e propostas.

    Xingamentos, pedidos de impeachment e volta da ditadura militar, como aconteceu, não parecem atitudes cidadãs.

    Essa massa de pessoas precisa ser incluída no debate político para ajudar a construir a nação democrática. Elas precisam também se comprometer, se responsabilizarem pelas mudanças, mas sem a postura tola de golpista.

    Afinal, quem protesta pelo fim da corrupção deveria se alinhar com quem quer a reforma política e o fim do financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas, que é a raiz dos desmandos e da corrupção na administração pública.

    Sem medo de manifestações! Em dezembro de 2014, inúmeras cidades dos Estados Unidos foram sacudidas com protestos pedindo justiça em razão da morte de um jovem negro por um policial branco. E o mundo não acabou.

    Multidões se concentram nas praças de cidades em diversos países da Europa, atingidos pela crise internacional, em manifestações gigantescas contra a política econômica dos governos, baseada no arrocho fiscal, que têm levado a população a desemprego em massa.

    Nossa democracia está madura. A dialética salva.