Anota aí e não se esqueça: dia 11 de novembro Fiódor Dostoiévski faz 200 anos. Ele está vivo, é imortal!
A festa? Os jornais de São Petersburgo vão dar nas primeiras páginas.
Vamos comemorar o aniversário dele com muita vodka, em “Noites Brancas”. Não sou “O Idiota”. Tomei “Notas do Subsolo”, para não me esquecer.
Convidei “Demônios”, “Gente Pobre”, “Humilhados e Ofendidos”, “Os Irmãos Karamázov”, “O Jogador”, “O Ladrão Honesto” e “O Eterno Marido”. Todos disseram que vão.
Gostei muito da confirmação dos personagens. Tive que relevar aquela história de “Crime e Castigo”.
Raskólnicov, finalmente vai sair daquela espelunca onde vive a maquinar coisas de gente Ordinária e Extraordinária. Uma pena! Ele é um rapaz inteligente, mas refém da obsessão por vingança e por aqueles planos para assassinatos.
Fiquei em dúvida se convido Sônia. Paixão e mágoa são nitroglicerina pura. Não faço a menor ideia de como seria o encontro dos dois: Raskólnicov e ela. Alguém me ajuda? O que faço?
Combinei com ele não convidar Aliona Ivanovna, aquela velhinha agiota, avara, e sua bondosa irmã, Lisavieta. Pode dar bode bárbaro. E, também, para não levar o machado, para evitar tragédia, sangue. Conheço a persona: quando bebe perde o juízo.
Fiquei muito feliz com as confirmações de Natasya Filippovna, o Príncipe Michkin, Sonhador, Nástienka, I. I. Ivanov, Sergey Nechayev e todos os outros personagens que devem suas existências ao grande gênio da literatura russa Fiódor Dostoiévski. A lista é grande.
Já imaginou toda essa gente junta numa festa de arromba? Quero alegria, farra! Não me venha com “Recordações da Casa dos Mortos”.
“Não dou like para textos escritos com erros gramaticais”, escreveu o professor universitário de artes plásticas ao comentar o post de uma amiga no Facebook.
E disse mais, “escrevo e falo em português castiço.” Curiosamente, outras pessoas o seguiram nos comentários com um “eu também!”.” Como se isso fosse território que os separa dos incultos. Um rompante típico de certas pessoas da classe média de crachá.
A amiga simplesmente foi “cancelada”, como se diz hoje. Ou seja, o que ela expressou não vale nada. Vale a higiene do texto, o “português castiço” aprendido nas escolas reservadas aos bem-nascidos. Não leva em consideração a condição social da amiga, a provável precariedade do ensino oferecido aos de baixo.
“Português castiço”, do qual o professor tanto se orgulha, significa “de casta, próprio para reproduzir a raça e a casta”. Provavelmente o professor não sabe que a língua portuguesa é filha do denominado “latim vulgar” falado no dia a dia do povo analfabeto, artífices, trabalhadores rurais, escravos, marinheiros, soldados, enfim, moradores oriundos de províncias da região central da atual Itália, de onde foi levado para a península ibérica, e do galego, da região ocidental de Portugal.
A palavra você, por exemplo, já foi Vossa Mercê, Vomicê. Hoje, já estão dicionarizadas as formas Ocê e Cê.
Exatamente por isso é uma língua viva, rica, democrática, aberta a mudanças, sujeita a variações diversas e frequentes. O português falado no Brasil tornou-se ainda mais rico com as contribuições dos povos africanos e indígenas, do falar na labuta cotidiana, sem o rigor léxico do “português castiço”. Mas, certas pessoas da classe média de crachá insistem em nega-lo. Um dizer intolerável na casta separatista.
Por falar ou escrever diferente da “norma culta”, pessoas vítimas de preconceito linguístico são julgadas, humilhadas, discriminadas, sofrem assédio moral, danos psicológicos graves por se comunicarem numa linguagem de menor prestígio social.
O professor, linguista e filólogo Marcos Bagno, combate o preconceito linguístico e todo juízo de valor negativo de reprovação, de repulsa ou mesmo de desrespeito a quem fala e escreve deferente.
Esse debate esquentou quando os governos Lula e Dilma abriram as portas de escolas e universidades para que a população mais pobre tivesse acesso ao ensino.
Isso abalou as estruturas do andar de cima e a intolerância ganhou ainda mais força. Certas pessoas da classe média de crachá, do alto do seu sapato Luiz XV, atacaram o governo com críticas agressivas, defendendo a meritocracia, reprovando a política de cotas e a democratização do acesso à educação formal.
Recentemente, a reedição da obra da escritora brasileira Carolina de Jesus, pela editora Companhia das Letras, trouxe novamente à ribalta a discussão sobre preconceito linguístico.
Por escrever do seu jeito, à revelia do padrão da “norma culta”, ou seja, com “erros gramaticais”, surgiu um impasse entre os editores: fazer revisão nos textos ou publicar a obra na forma original? Depois de longa discussão, decidiu-se publicar exatamente como a autora escreveu. Alguns torceram o nariz, outros aplaudiram.
Considerada uma das mais importantes escritoras do país, Carolina de Jesus viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo, sustentando seus três filhos como catadora de papel.
Com apenas dois anos de ensino formal, Carolina de Jesus se tornou um fenômeno literário. Sua obra foi reconhecida internacionalmente por críticos de vários países, pela força de sua narrativa e pelo primor literário.
Carolina de Jesus e sua obra foram capas de revistas no Brasil, no exterior, e destaque em documentário da TV alemã. Seu livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960, chegou a ser traduzido para catorze línguas.
O professor, mais conhecido pela falta de pendor artístico, que humilhou publicamente a colega de Facebook, provavelmente se privará de ler a obra de Carolina de Jesus, por não ter sido escrita em “português castiço”. Não deve ter lido autores como Guimarães Rosa, Manoel de Barros e outros do mesmo naipe, pelo mesmo motivo.
De lupa em punho, vejo as formigas enfileiradas, chegando em casa.
A expedição foi penosa, para conseguir víveres.
A aranha, na porta do buraco, tão pequena, esmagaria com o dedo mindinho, mas preferi deixar a pernuda viva.
Na espreita, ela escolhia uma das formigas para o abraço fatal. Alguns passos para trás, uma dentada demorada, um esperneio, e a vítima é deixada no chão.
Novamente, passos à frente, para perto da fileira de formigas, puxa outra, outro abraço, e a cena se repete, fazendo sua refeição, até se fartar.
Quem já viu formigas num laboratório sabe das pernas peludas que têm. Engolir uma inteira deve arranhar a garganta. Pode ser que a aranha saiba exatamente onde as formigas carregam o néctar sugado das flores e vai no ponto certo.
Os cadáveres de formigas espalhados pela teia, na porta do buraco, lembram um campo de batalha, depois de um confronto sangrento.
Quando a aranha me percebeu, como testemunha ocular do acontecimento, recolheu-se à toca e não saiu mais de casa. Deve ter ido tirar uma soneca, depois do almoço.
São filhos do bico do lápis e do papel manteiga, do urbanista Lúcio Costa, certamente em estado de graça, quando desenhava as quadras de Brasília, os primeiros blocos sobre pilotis. São irmãozinhos das paradas de ônibus. No meio do gramado, lá estavam eles, imaginados para acolher os moradores e suas prosas, nos banhos de sol das manhãs brilhantes, de céu azul da cor do mar. Para contemplar tardes silenciosas, de sombras compridas, até a boca da noite, antes de subir para o apartamento, tomar banho, jantar e dormir.
Os banquinhos espalhados por Brasília são patrimônio arquitetônico da cidade. Deveriam ser cuidados pelos governos, feitas manutenções periódicas, mas estão abandonados feito cães sardentos, alguns nem existem mais nos lugares que foram colocados.
Certas pessoas, aquelas que vêem o mal por todos os cantos, não gostam dos banquinhos. Dizem que servem para jovens fumar maconha, atrair bandidos, pintados pela violência massificada por programas de TV, esses que vendem sangue todos os dias. Não percebem que os banquinhos são pontos de encontros amorosos, de alegria, de gargalhadas excitadas nas paqueras de adolescentes.
Que tal recuperar os banquinhos? O correto seria o governo fazer esse trabalho, os impostos para isso foram pagos, mas as dúvidas, se vão assumir a responsabilidade ou não, são maiores do que a esperança.
Com certeza geraria empregos para quem trabalha na construção civil, impostos de materiais vendidos para a obra e recolhimento de contribuições previdenciárias para os trabalhadores de carteira assinada.
Caso o governo continue sem dar importância à recuperação dos banquinhos, moradores deviam assumir essa tarefa cidadã, mas, com uma condição: consultar os órgãos que cuidam do patrimônio arquitetônico da cidade sobre essa possibilidade.
Se concordarem, fazer respeitando rigorosamente o padrão original, com supervisão técnica dos órgãos do governo. Isso é fundamental. Quem está recuperando precisa ter consciência de que está lidando com um patrimônio histórico e cultural da cidade, que ficará para as gerações futuras. Não poderia, portanto, meter as mãos na obra conforme seu gosto pessoal.
Não sei quem, talvez pessoas obtusas, cobriram alguns com azulejos coloridos, pintaram e bordaram com cores vibrantes. Espalharam outros tipos por aí, de formato diferente, nada a ver com os banquinhos originais planejados por Lúcio Costa.
“Da tradição quero apenas o fogo, a cinza não me interessa”. Ouvi essa frase nas noites de Brasília. Não sei de quem é. Perdoe-me autor e leitores, mas não poderia deixar de citá-la. Afinal, a gente quer a chama, que ilumina. Antropofágicos que somos, costumamos cultivar a ancestralidade reinventando a tradição. Porém, os banquinhos, bom seria recuperá-los preservando a originalidade deles, imaginada pelo criador.
Enfim, o desprezo pelos banquinhos precisa acabar. Foram criados para o convívio dos moradores, assim como os pilotis, os parquinhos para as crianças, os gramados, jardins, árvores, quadras de esporte, tudo isso imaginado e desenhado amorosamente para o bem viver.
Lúcifer ficou bastante machucado, mas está bem. Conversou o tempo todo. Humorado, contou até piadas. Arrancou boas gargalhadas dos visitantes.
Tem gente que vai visitar um doente, para dar uma força,e o doente acaba dando força ao visitante.
Mas, apesar do bom estado de espírito, ele está muito magoado. Achou uma covardia o que Deus fez com ele. Estava inconformado. Disse que a briga foi por motivo fútil, uma bobagem.
Tudo começou porque Deus veio com a velha historia de que foi ele quem criou o ser humano e tudo que existe. Como o Diabo não é de ouvir certas coisas e ficar calado, os chifres federam a enxofre e começou a botar fumaça pelas ventas.
Chamou Deus de arrogante e mentiroso na frente de todos os anjos. Deus, muito cheio de si, disse o diabo, revidou num bate-pronto:
– Não só criei o universo, Lúcifer, como também criei você, Encardido! Sete Peles!
Lúcifer disse que na hora quase voou no pescoço de Deus, para esganá-lo, mas se deu conta de que não tinha dedos, tinha cascos, como os das vacas.
Aguentou firme e ironicamente perguntou:
– E quem lhe criou, Deus? Diga pra todos aqui! Acaba logo com essa dúvida! Até hoje ninguém sabe quem é sua mãe e muito menos quem é seu pai. A gente só sabe quem é a mãe e o pai de Jesus. Aliás, Jesus é seu filho com a Virgem Maria ou filho de Maria e José?
Deus retrucou:
– E você que só tem pai, Diabo dos infernos?
Indignado, Deus partiu pra cima de Lúcifer. Trocaram sopapos, rolaram no chão. Lúcifer disse que a partir de certo momento não se lembra de mais nada. Acordou numa maca, no hospital, com as ventas quebradas com socos, um corte no lábio inferior e dores por todo o corpo.
Todo enfaixado, Lúcifer disse que o pior não é a dor no corpo, mas a vergonha, a ressaca moral, que derruba qualquer filho de Deus.
Manuel Francisco dos Santos, nosso Mané Garrincha, nosso “anjo das pernas tortas”, teve seu corpo exumado, em 2007, “para liberar espaço” no cemitério Raiz da Terra, em Magé/RJ. Descobriu-se que não se sabe o paradeiro dos “restos mortais” do nosso Garrincha.
O desprezo, a estupidez e a ignorância, parecem ter contaminado o Brasil, como micróbios. Estão comendo a história, a identidade cultural do povo.
O corpo foi exumado pela administração do cemitério sem nenhuma notificação à família.
Misturaram os ossos à terra que sem dignidade, sem história, sem importância nenhuma. Eram apenas “restos mortais”.
Filho de uma família de 15 irmãos, da cidadezinha de Pau Grande, Rio de Janeiro, Garrincha sofreu a dor da rejeição social desde cedo, mas foi no Flamengo, Fluminense e Vasco que doeu mais. Nas avaliações dos clubes, o preconceito, a discriminação, por ele ter as pernas tortas, pesaram mais que o talento.
Foi recusado pelos clubes. Mas o Botafogo o acolheu, para a felicidade do Brasil. Corações de todos brasileiros pulsaram forte de emoção, nos jogos das copas do mundo ao ver os drible desconcertantes e os gols de placa de Garrincha.
Garrincha é o nome de um pássaro, que costuma visitar as frestas dos telhados das casas, igrejas, onde fazem ninhos para os ovos e depois abrigar os filhotes. Garrincha não anda como outros pássaros. Ele anda aos pulinhos com os pés alinhados. Talvez por isso, Manuel Francisco dos Santos foi apelidado Garrincha.
Tornei-me botafoguense por causa dele, ouvindo os jogos no rádio, no Sertão da Bahia, narrados por Waldir Amaral, com suas frases curtas, descrições precisa das cenas dos dribles, que elevavam minha imaginação às alturas e me faziam sentir dentro do estádio, em tardes de domingo ensolaradas.
Para nossa tristeza, não há mais “restos mortais” da “alegria do povo”, como ele era chamado pela torcida e pelos cronistas esportivos. Mas há uma multidão de Garrinchas no Brasil, que, apesar da arbitragem contra o povo, vai vencer esse jogo.
Quando a barra do dia começava a vermelhar atrás dos morros, no silêncio da manhã, logo se ouvia ecoar ao longe: tem.. tem.. tem… tem… tem… Era Jesuíno Ferreiro de marreta na bigorna, cigarrão de palha no canto da boca, olhos esbugalhados, avental de couro surrado, trabalhando na forja, derretendo ferro no braseiro soprado com o fole, fazendo ferraduras para os cavalos.
No ar, o cheiro do café no bule sobre a chapa quente e a fumaça das chaminés das casas tingindo o céu, dando sinais de vida.
Sábado, dia de feira e de entrega das encomendas, na frente da oficina, os cavaleiros cravavam as ferraduras nas patas dos animais.
Calçados de ferro, era hora de experimentar a novidade dando voltas nas ruelas e na pracinha de chão batido. Os cavaleiros mudavam até a pose na montaria. Queriam ouvir o tinido das ferraduras e exibir, felizes, para as moças, os cavalos de sapatos novos. Quem sabe motivo para uma conversa? Da conversa um namoro, do namoro um casamento?
À noite, na estrada, de volta para casa, no tropel viageiro, as ferraduras nas patas dos animais tiravam faíscas das pedras, riscando o breu.
No dia seguinte, quando vermelhava a barra do dia atrás dos morros: tem… tem… tem… tem… tem… assim era o compasso do tempo no oco do mundo.
Livros são vozes, diz Alberto Manguel, em “A Biblioteca à Noite”.
Podem ser ouvidas em silêncio. Talvez por isso não se calaram e não se calarão.
Bem que tentaram muitas vezes. Proibiram, queimaram em praças públicas, mas sobreviveram e estão aí para contarem a história.
Livro deixa nossa imaginação voar, se encontrar com o leitor nas alturas.
Reinventa a realidade, expande nossa consciência para seguirmos vida a fora.
O livro não desaparecerá, assim como o teatro e outras formas de expressão.
Que venham os meios de comunicação modernos.
Livros são vozes.
Nada os deterão.
Viva o livro vivo!
Ele, magrinho, branquinho, meio calvo. Um fiapo de gente, encostado num poste em frente a uma galeria, na Avenida Visconde de Pirajá, em Ipanema.
Vestia uma camisa branca de mangas curtas, para dentro da calça bege, folgada, de cós bem alto, cinto preto, sapatos mocassim, sem meia, também pretos, e os inconfundíveis óculos de tartaruga, de aros grossos.
Numa mão, carregava jornais e revistas espremidos contra o peito. Olhar atento, para o fundo da rua, esperava alguém que viria buscá-lo, de carro.
Eu também esperava alguém que viria me buscar.
De repente ele colocou o jornal e a revista sobre a cabeça para se proteger do sol. Ao fazer isso, virou-se na minha direção, olhou para mim e se reacomodou no encosto do poste.
Como eu estava relativamente próximo, num impulso, disse:
– bom dia seu Carlos!
Ele respondeu:
– bom dia, como vai o senhor!
Fiquei mudo e tomado por um turbilhão de pedaços de poemas dele, das entrevistas que li e vi na TV.
A voz frágil, meio entalada, familiar, a mesma dos versos doces e fortes como aço, que ele andou espalhando por aí.
Em seguida chegou o carro que esperava.
Gentilmente despediu-se de mim:
– até logo!
E eu, ali, tentando lidar com a emoção, respondi:
– até logo seu Carlos!
Meus olhos acompanharam os passos dele até o carro com o máximo da atenção, mirando os detalhes das roupas , o jeito dele andar, como abriu a porta e entrou, até desaparecer no intenso trânsito da rua.
Fiz isso para guardar um pouco dele comigo e nunca mais esquecer daquele instante com o poeta.