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  • Rio: cantos e encantos

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    Numa caminhada da Lagoa a Ipanema, manhã quente, céu de azul infinito, peguei a sombreada Rua Vinícius de Moraes para um mergulho no mar, num dia de águas caribenhas.

    Desde o início da Rua, percebi incríveis grafites com Tom e Vinicius estampados em fachadas de bares e tapumes, não consegui descobrir os autores. Tirei fotos ao lado das belas estampas.

    Repentinamente, fui tomado por uma forte sensação de que estava pisando no chão da Bossa Nova. Mesmo tendo morado no Rio, no início da década de 1980, e frequentado o território, a sensação da força histórica me pegou.

    Apesar de nascida e cultivada em Copacabana, Ipanema foi quem ficou com mais fragância da Bossa Nova.

    Não só por causa da “Rua Nascimento e Silva, 107”, onde Tom “…ensinava pra Elizete as canções de canção do amor demais…” ou por causa da “Garota de Ipanema”, aquela moça “…mais linda, mais cheia de graça…”,  por ter “Desafinado” o “Samba de uma nota só”, no “Corcovado”, no “Barquinho”. “..Ipanema era só felicidade…”  “Chega de saudade”! Mas por causa da iluminada presença de João Gilberto, Tom, Vinícius, e tantos outros músicos extraordinários, da música brasileira, que conseguiram erguer uma onda tão forte ao ponto de transbordar as fronteiras do Brasil e inundar o mundo com “água de beber”.

    Para completar a jornada pela Rua Vinícius de Moraes, visitei a Toca do Vinicius, onde fui recebido carinhosamente pelo professor Carlos Alberto Afonso, um simpático senhor,  apaixonado e aguerrido lutador pela monumentalização da Bossa Nova. Já conhecia virtualmente a Toca, mas nunca havia visitado.

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    Conversamos bastante. Ele sabe tudo do movimento, me contou muitas e boas, falou da sua luta e me mostrou preciosidades.

    Algumas delas, placas em cimento com gravações das mãos de Pixinguinha, de Maria Betânia, quando ela chegou ao Rio, para substituir Nara Leão, (Acometida por uma gripe), no espetáculo Carcará, do Grupo Opinião, em 1964, e de muitos outros artistas e colaboradores.

    Tem mãos gravadas de Chico Buarque, Edu Lobo, até de Lula, pela importância do governo dele no reconhecimento da Bossa Nova como Patrimônio Histórico Imaterial.

    Carlos Alberto dirige o Instituto Bossa Nova, uma entidade criada por uma associação de amigos, que visa popularizar o movimento, fazer chegar às comunidades mais distantes um dos maiores patrimônios artísticos do Brasil e do mundo.

    O professor Carlos Alberto Afonso é dessas pessoas que cultivam e alimentam o Brasil que há em nós,  para crescermos fortes.

    Dia 7 de agosto, a Toca do Vinicius fechou as portas, abertas desde 1993. Uma pena! Mais uma baixa na cultura brasileira. Tempos sombrios.

  • A voz de Tolstoi ecoa até hoje

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    Outro dia revisitei a obra de Liev Nicolaevitch Tolstoi ( 1828-1910) e postei no Facebook um comentário sobre minha admiração pela vida e pela obra dele.

    Livros são vozes. Confesso que ele reacendeu em mim muitas coisas adormecidas. Duas delas:  o matuto que sou e uma saudade surda de mim. Mas que não me atrapalha. A gente se entende bem.

    Que pessoa humana extraordinária foi Tolstoi!

    Um príncipe russo que renunciou aos bens materiais para viver uma vida simples, sem posses, no campo, plantando o que necessitava para comer. Ele costurava as próprias roupas e fazia as próprias botas.

    Tolstoi simplesmente resolveu seguir radicalmente os ensinamentos de Jesus Cristo. Diziam que ele era um anarquista pacifista.

    Tornou-se um dos maiores escritores da história da literatura mundial.

    Na juventude, Tolstoi bebia muito, vivia jogando e em companhia de prostitutas. Após sua “conversão” à vida simples, como ele dizia, deixou de beber e fumar, tornou-se vegetariano.

    Tudo a ver com uma moçada de hoje que anda ligada na sustentabilidade, na redução do consumo, na vida simples e alimentação saudável.

    Tolstoi recusava a autoridade de qualquer governo organizado e de qualquer igreja, por considerá-las instituições a serviço da dominação: os mais ricos e proprietários sobre os pobres, trabalhadores e artesãos.

    Não aceitava também o direito à propriedade privada nem os tribunais e pregou o conceito de não-violência.
    Sua vida simples e suas ideias influenciaram Gandhi (1869-1948), com quem trocou algumas cartas.

    Tolstoi não acreditava em guerras e revoluções violentas como solução para quaisquer problemas, mas sim em revoluções morais individuais que levariam às verdadeiras mudanças.

    Ele era contra o militarismo e o serviço militar obrigatório. Era um pacifista.

    Abriu mão dos direitos autorais dos livros que escrevia para que sua obra pudesse chegar às pessoas mais simples.

    Apenas no momento em que precisou angariar fundos para transportar para o Canadá uma comunidade de camponeses perseguidos pelo governo, ele usou o dinheiro proveniente de sua obra.

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    Tolstoi era apaixonado por sua mulher, Sophia, e pelos filhos, mas, acostumada ao luxo e à riqueza, Sophia, que tinha o apoio dos filhos, não aceitou  a vida que o escritor levava.

    Sophia cobrava que Tolstoi lhe deixasse um testamento com os direitos autorais das obras. Mas ele não atendeu ao apelo de Sofia, fez um testamento secreto, passou os direitos autorais a um tolstoiano de nome Chertkov, que tornaria sua obra pública.

    Aos 82 anos, o grande escritor morreu no dia 20 de novembro de 1910, em Astapovo, provincia russa de Riazan.

    Como Tólstoi era uma pessoa carismática e muito conhecida, a notícia da morte dele correu o mundo. O trem funerário que transportou o corpo foi recebido por camponeses e operários que viviam próximos à propriedade de Tolstoi.

    O caixão foi seguido por uma multidão de aproximadamente 4 mil pessoas. Temendo que o cortejo se transformasse em grande manifestação, o governo de São Petesburgo proibiu o deslocamento de trens especiais de Moscou.

    Mas, como disse nosso Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.”

    Tenho saudade de livros.

    (*) A obra dele é vasta, destaco apenas três livros que são referências na literatura mundial: Ana Karenina e Guerra e Paz e A Morte de Ivan Ilyich.

  • Quando você dança, a África ferve dentro de você

    Haitians dance under a sacred ceibo tree called Lisa as they participate in a Voodoo ritual on the third day of the annual week-long gathering in the Souvenance community, April 1, 2013. Hundreds of Haitians participate in the ceremonies which begin the Saturday before Easter in Souvenance, where descendants of the people of Dahomey, a former kingdom in what is now present-day Benin, show their devotion to their ancestors and various lwa, or spirits, This third day of ceremonies represents their journey back to Africa. Picture taken April 1, 2013. REUTERS/Marie Arago (HAITI - Tags: SOCIETY RELIGION)

    Há aproximadamente 160 mil anos, surgiu no continente africano o homo sapiens. De lá, os habitantes se espalharam e formaram os primeiros núcleos urbanos em vários cantos do mundo.

    No século XVII, escravos levados da África resistiram, não se deixaram destruir, espalharam sua arte, sua cultura e tradições por todos os continentes. Nos séculos XIX, XX e XXI,  a cultura africana ganhou mais força, passou a influenciar o mundo.

    A influência mais forte veio da música. Nos EUA, os africanos nos deram o blues, o rock, o jazz, o funk e muitas outras formas de expressão.

    Na América Central e Caribe, uma profusão de ritmos: salsa, mambo, merengue, reggae e outros, com Cuba comandando a festa, na batida repetitiva da percussão, na cadência de tambores pulsantes.

    Na América do Sul, da mesma forma, o Brasil desponta com o samba e tantos outros ritmos enraizados, derivados e espalhados pelo  vasto país, por comunidades africanas.

    Essa onda percorre a Colômbia, a Venezuela, as guianas, o Peru, o Paraguai, o Uruguai, vai até a Argentina reger os passos sedutores dos casais com a marcação do tango.

    E não para por aí. Ligados os sentidos e os movimentos, percebe-se que na estrutura  da música popular moderna predomina a  estética africana.

    O mais impressionante é a preservação dos ritmos  mântricos, que chacoalham o corpo sem parar, no transe, na busca da transcendência.

    As raízes estão nos centros de busca de conforto espiritual, de crenças religiosas africanas. No rock, no blues, no mambo, no samba, no tango, lá estão os ritmos repetitivos, os mantras. Basta se deixar levar pela força.

    Não é a gente que dança a música. É a música que dança a gente.

  • As mina da beirada da piscina

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    Atraído pela íris do olhar felino de uma delas, entrei para a roda de risos fáceis e prosas emendadas. Arriei minha mochila e encostei. Onde tem mimos, abraços e beijos fartos, viro gato de pensão, enrosco, só largo quando troveja.

    Na roda, sou tratado como um paxá. Olha, trouxe uma pamonha pra nós. Quer um pedacinho? Vai um gole de café? Hoje eu trouxe cuscuz, quer? Granola, tapioca, bolo, pão de queijo, maçã cortada, tangerina, manga, é tanta coisa que parece um setor de engorda da Água Mineral. Mas ninguém engorda.

    Acostumei-me tanto que o dia que chego para nadar e não tropeço no pé de uma cadeira de alumínio no meio do caminho, na beira da piscina, o céu não acende a luz.

    Mas quando chego, atravesso  o portal dos quadros de avisos, aquele do lado do bebedouro, olho à esquerda, por entre as folhas das palmeirinhas, vejo as cadeiras coloridas, enfileiradas, quase fechando a passagem de quem vai para a fonte pegar água, e elas sentadinhas de olhos fechados tomando o primeiro sol da manhã, digo pra mim mesmo: um pedaço da minha felicidade de hoje está  garantido.

    São tão doces que tem hora que ao redor delas parece um formigueiro, de tanta gente dando uma bicada no lanche, tomando um gole de café, fazendo uma graça, contando uma piada, jogando um galanteio, alguns até repetem piada. A vibração delas é tão forte que raramente alguém passa sem abanar a mão, sem dizer: oi, bom dia!

    Aquele cantinho parece um tear onde se tece a felicidade. Depois a gente a veste e sai por aí pelos dias da vida.

    Salve as mina da beirada da piscina da Água Mineral!

  • O dinheiro é um bem público

     

     

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    A frase “O dinheiro é um bem público”, misturada a ruídos e imagens distorcidas no filme Film Socialism, do cineasta Jean-Luc Godard, salta como um chamado à Europa para enxergar a decadência na qual
    se encontra.

    Não só à Europa, mas ao mundo, que se afoga em dívidas. Com ela, os desvalidos, os trabalhadores e os setores médios da humanidade hipotecam o futuro nos bancos.

    Imagine se a humanidade compreendesse que o dinheiro é mesmo um bem público, que a dívida pública é uma fraude, e mandasse os banqueiros às favas!

    No ano passado, o Credit Suisse divulgou um estudo com dados assustadores sobre a concentração financeira no mundo.

    A projeção para o final de 2016 é de que a riqueza de 1% da população deve ultrapassar a dos 99%, numa velocidade de acumulação inimaginável, fruto da ganância estúpida que se espraia deixando no planeta feridas da crise, pobreza, guerras, mortes, e migração de multidões de pessoas como nunca se viu na história da humanidade.

    Toda a produção mundial atualmente é mais que suficiente para prover as necessidades básicas da população. Se fosse repartida pelos habitantes da Terra, cada família receberia em média R$ 9 mil por mês.

    As mega corporações do sistema financeiro mundial funcionam como grandes aspiradores de dinheiro e riquezas para as nações centrais.

    A organização não governamental britânica Oxfam também divulgou um estudo mostrando que o mundo tem hoje 62 bilionários com mais riqueza acumulada do que as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres.

    No novo relatório da Rede de Justiça Tributária (Tax Justice Network) consta que cerca de 10 milhões de pessoas esconderam, em paraísos fiscais, uma quantia equivalente às economias dos EUA e Japão combinadas.

    Os paraísos fiscais estão com esconderijos, para o dinheiro dos milionários, cada vez mais sofisticados, a fim de não pagarem impostos às Repúblicas.

    James S. Henry, ex-economista da McKinsey & Co., autor do livro “Os banqueiros de sangue”, estima que há cerca de US$ 32 trilhões em paraísos fiscais, enquanto o PIB mundial é de US$ 72 trilhões.

    Ou seja, um capital parado, se multiplicando com especulação, sem produção e sem pagamento de impostos.

    O professor François Morin, da Universidade de Toulouse, membro do conselho do Banco Central da França, autor do livro A Hidra, o Oligopólio Bancário, afirma que a espiral especulativa é governada pelos 28 maiores bancos do mundo, que controlam 90% dos ativos internacionais. Segundo ele, o total é superior às dívidas de 200 países do planeta.

    Enquanto os bancos têm ativos (bens, dinheiro, clientes, empréstimos, entre outros) que somam US$ 50,3 trilhões (R$ 178 trilhões), a dívida pública mundial é de US$ 48,9 trilhões (R$ 173,7 trilhões), diz Morim.

    A consultoria McKinsey, que trata de estratégia de negócios no mundo, divulgou recentemente uma pesquisa com informações impressionantes.

    Os dados apurados mostram que houve uma explosão da dívida total (dívida pública, privada e individual) em mais de US$ 57 trilhões nos últimos sete anos.

    Superou US$ 200 trilhões (R$ 710,7 trilhões), cerca de três vezes o PIB mundial. A situação se inverteu: quem tinha pequena poupança nas últimas décadas, agora tem dívida com bancos em cartão de crédito e outros mecanismos de endividamento da população.

    A Comissão Europeia, Estados Unidos e Grã-Bretanha resolveram, em 2012, investigar como a alta concentração dos bancos leva à manipulação do mercado.

    Foram investigados 11 dos 28 maiores bancos que controlam 90% dos ativos no mundo: Bank of America, BNP-Paribas, Barclays, Citigroup, Credit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland e UBS.

    No final constataram, obviamente, que as instituições financeiras manipulam as taxas de juros chamadas “Libor”, diz o relatório. A taxa Libor é fechada diariamente em Londres e determina as taxas de empréstimo e outras operações.

    Foi observado que as instituições não são exatamente concorrentes, por trabalharem para manipular taxas de juros, mercados de câmbio e de crédito, mas um cartel mundial.

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    O sistema financeiro mundial subordina as nações com políticas econômicas e financeiras extremamente recessivas e antinacionais ditadas por seus gerentes encrustados nos governos locais.

    O capital se apropria das riquezas, dos bens e dos serviços públicos com governos subservientes às grandes corporações multinacionais. Essa praxe está estabelecida no mundo. O governo local que resolve enfrentar as corporações é derrubado.

    Há poucos dias o Tesouro Nacional divulgou um rombo histórico de R$ 25,3 bilhões, em setembro, arrecadação com queda de 7,5% e 12 milhões de desempregados. É o saldo de mais de dois anos de empreitada da oposição para derrubar o governo Dilma.

    Eduardo Cunha na presidência da Câmara, Michel Temer na vice-Presidência da República conspirando e Aécio Neves, derrotado nas eleições de 2014, se juntaram e bloquearam todas as medidas, para saída da crise, enviadas pelo governo ao Congresso Nacional. Asfixiaram e derrubaram o governo.

    Ultrapassamos a marca de R$ 3 trilhões em dívida no último mês. Feitas as contas, concluiu-se que um brasileiro já nasce devendo R$ 15 mil.

    Os juros extorsivos estabelecidos pelo Banco Central elevaram a dívida à estratosfera. Só no último ano, foram R$ 650 bilhões de juros e amortizações embutidos nos R$ 3 trilhões. Ao longo do tempo, quase toda a dívida resultou de juros.

    Por outro lado, a sonegação de impostos no Brasil deve ultrapassar R$ 500 bilhões, em 2016.

    Em 2015, o Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional (Simprofaz) divulgou um estudo mostrando que a sonegação chegou a R$ 415 bilhões por ano, o equivalente a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), o mesmo percentual previstos no Plano Nacional de Educação, para aplicação no sistema educacional brasileiro.

    Segundo o Sinprofaz a arrecadação brasileira poderia crescer 23% se a evasão fiscal fosse eliminada.

    Mas esqueça isso, o governo Temer veio para proteger o capital financeiro, o grande empresariado, e passar a conta para os de baixo, com um corte brutal de investimentos públicos por 20 anos (PEC-241), e outras loucuras mais, para entregar ao setor empresarial privado a exploração dos serviços públicos.

    A dívida pública é uma farsa, alimentada por taxas de juros manipuladas e mecanismos criados por tecnocratas.

    Por incrível que pareça, tudo isso acontece sob proteção rigorosa de leis, de sistemas judiciários, de forças armadas e policiais.

    Imagine se todo esse aparato do Estado, ao invés de trabalhar para os de cima, na manutenção da ordem estabelecida pelas grandes corporações bancárias multinacionais estivesse do lado dos de baixo na defesa intransigente dos direitos dos desvalidos, dos trabalhadores, e dos setores médios da sociedade, ou seja, da população que gera a riqueza com seu trabalho, o Brasil seria outro.

  • O livrinho desintegrou-se no suor das minhas mãos

    Uma imagem dos planetas girando em torno do sol e um texto de dois parágrafos com o título “O Universo”, que li ainda criança, foram  suficientes para eu ficar dias pelos cantos da casa, e pedaços de noites, pensando quem sou eu no infinito.

    Até então, via o sol nascer, brilhar no céu o dia inteiro, e se por atrás dos morros.

    À noite, via a lua nascer, fazer o mesmo que o sol, e as estrelas brilharem pregadas no céu. Às vezes, uma delas mudava de lugar. A gente fazia pedidos.

    Via o “Caminho de Santiago”, que tempos depois fiquei sabendo ser a Via Láctea; as ” covinhas de Adão e Eva”, que são duas galáxias-satélite chamadas de Nuvens de Magalhães; as Três Marias ou Três Irmãs; e o Cruzeiro do Sul, pelo qual se orientava quem andava à noite.

    Era tudo que eu sabia sobre o céu e a terra.

    Nunca havia me dado conta que eu era parte do imenso Universo e vivia no sistema solar, num astro iluminado por uma estrela.

    Tudo isso, partes de uma das galáxias que também fazem parte de infinito número delas, impossível até de serem contadas pela matemática.

    Li “O Universo” num livrinho de leitura que reunia desde pequenos contos de grandes autores brasileiros a textos de geografia, história e ciências físicas e biológicas.

    Era o primeiro da série de geografia que emendei com os de história.

    Com a Geografia me situei no espaço. Com a História me situei no tempo.

    Os textos de literatura foram encontros, como leitor, com quem escreveu, no plano do imaginário, do absoluto.

    Os de ciências físicas e biológicas me ensinaram que somos matéria feitos de partículas (átomos) tão pequenas que, se divididas ainda mais, chegam ao nada.

    E as células, ticos de vida.

    Sinto saudade de livros. Esse é um deles. Desintegrou-se no suor das minhas mãos.

    Deu-me o necessário para perceber que vivo exatamente no limite entre o universo externo e o universo interno. Que a vida é um mistério.

    Conheço mais o universo externo, com meus sentidos. O universo interno, sei pouco dele. Apenas que ele me move vida afora.

    Dizem que ele é infinitamente maior que o universo externo.

  • O cerrado é forte

    O sol promete. Aquela bola vermelho-sangue que desaparece no horizonte do cerrado, todos os dias, nesta época do ano, cresce como vista por uma lente de grau, na turva névoa seca das tardes do Planando Central, adensada por partículas suspensas, poeira e fuligem de queimadas.

     

    E nós, em Brasília,  em brasa, a respirar de boca seca e a serpentear as trilhas dos gramados pardos da cidade, feitas com nosso andar, como répteis, cascudos, resistentes a tudo.

     

    Quando chega a chuva, o vento varre, a água lava,  os insetos que estavam enfiados debaixo da terra, grudados nas raizes úmidas das árvores e plantas, para, no limite da seca, se salvarem, sobem por caules e troncos a procura de boas refeições nos brotos e folhas novas,  nutridas pela seiva que subiu desde as raizes.

     

    As folhas são os narizes das plantas, são por onde respiram, fazem a fotossíntese e tingem a paisagem de um verde novo, viçoso, renovando tudo.

     

    Os insetos (cigarras e outros), nos passeios, por sua vez, viram refeição da passarada.

     

    De papo cheio, cantam, fazem a festa.

     

    A alegria vem da barriga, já dizia meu pai, Genésio Cerqueira, camponês que sabia tudo de mato e bicho.

     

    Lembro muito bem quando ele me disse isso.

  • Senhor juiz: o direito à vida ou à morte assistida

     

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    Neon Cunha é negra, de cabelos compridos, bem penteados, usa batom, brincos, esmaltes coloridos nas unhas, salto alto, tem corpo com seios adornados por roupas e adereços esteticamente preferidos por mulheres. Tem 44 anos, é profissional em designer. É uma mulher bem formada intelectualmente e corajosa. No início deste ano ela colocou o Judiciário em xeque com uma ação inédita.

    Neon entrou na justiça com um pedido de retificação de registro civil e, ao mesmo tempo, garantia do direito a morte assistida, caso lhe seja negado o direito de ser como ela é.

    O direito à morte assistida existe em muitos países europeus de cidadania avançada.

    Neon se recusa a ser diagnosticada como portadora de “disforia de gênero”, classificada nos manuais médicos DSM/CID, pelo “poder médico”. Ela não quer fazer cirurgia, quer apenas ser respeitada e  reconhecida legalmente como ela é.

    “Não quero passar pelo processo transexualizador e me submeter às regras impostas governamentalmente e socialmente”. Diz ela.

    A onda conservadora, que está causando inadmissível retrocesso no Brasil, chegou a esse ponto, em que uma cidadã coloca a própria vida como condição para fazer valer direitos elementares, os mais importantes deles, o direito à identidade, à dignidade e à felicidade.

    Os direitos garantidos pela Constituição e pelas leis do país estão sendo negligenciados por juízes, não só nas perseguições politico-partidárias recentes, decorrentes da articulação do golpe de Estado, mas ameaça cidadãos e cidadãs com negação de direitos inalienáveis, em razão de padrões morais particulares.

    Não bastassem certos juízes, médicos e corporações também se arvoram em tomar decisões com base em um certo “poder médico”, constrangem e ameaçam direitos líquidos e certos ao negar ou retardar procedimentos legais.

    O Estado, e muito menos corporações profissionais, não podem negar o direito à identidade. A sexualidade não é algo restrito à genitália.

    O Estado não pode legislar sobre o domínio do corpo. O direito ao corpo é inalienável, é o direito à integridade, à personalidade, à dignidade, à intimidade e à saúde. A dignidade humana é um dos fundamentos da República.

    Na Constituinte, o direito ao corpo foi amplamente debatido, mas os fundamentalistas religiosos não permitiram que constassem explicitamente no texto constitucional o direito à transgenia, à não transgenia, ao uso de drogas, ao aborto, ao suicídio, à eutanásia, à prostituição, ou seja, o direito à própria vida.

    Diziam os conservadores, na Constituinte, que esses direitos estariam contemplados no artigo 5º e em outros dispositivos da Constituição. Mas estão até hoje sem regulamentação por leis ordinárias porque os conservadores não permitem. Eles são maioria no Congresso.

    Até 1997, as cirurgias eram proibidas no Brasil. A partir de 2008, no governo Lula, um programa do Sistema Único de Saúde (SUS) possibilitou atendimento integral aos transexuais com acesso a hormônios, cirurgias, medicamento, e outros benefícios.

    O fato é que a transexualidade e a transgenia ainda são consideradas, pela medicina, uma patologia intitulada “disforia de gênero”. Para ter acesso a hormônios, cirurgias e mudança no registro civil, as pessoas que estão providenciando a transição obrigatorimente precisam do humilhante laudo médico com diagnóstico, como se o desejo de optar por redesignação sexual fosse uma patologia.

    Neon encara o atraso organizado, expõe as contradições do conservadorismo com uma atitude extrema, coloca dois direitos sobre a mesa do magistrado: o direito ao corpo e o direito à vida. Se lhe for negado o direito ao corpo que lhe seja garantido o poder de   dispor da própria vida, ou seja de não continuar viva se assim o quiser, por não aceitar a condição de vida imposta a ela.

    Neom expressou sua indignação numa declaração contundente, que ecoa como um alerta a todas as mulheres que vivem drama semelhante, como se convocando à uma rebelião contra o conservadorismo. Diz ela:

     “… o que é a morte? É a não existência, é a ausência de vida. Do que adianta eu ser documentada? Sou uma morta-viva? A negação de direito à vida eu já tenho. A condição posta é essa: eu preciso ficar mendigando que os outros permitam que eu seja quem eu sou. Eu tenho 16 anos de consultório terapêutico. Eu converso sobre não querer ser patologizada. Eu não sou doente. Eu não tomo hormônio de jeito nenhum. Tomei por uns dois anos, mas é muito ruim, muito desconforto. Eu tenho que respeitar quem vai fazer, mas não é uma opção, é regra. Sou mais uma mulher lutando pelo direito à dignidade que todas nós merecemos e poucas têm acesso. Não há nada mais primário do que a garantia de dignidade, nem mesmo a vida. Não tenho medo da morte. Tenho medo de morrer sem dignidade. A morte assistida seria morrer com os meus queridos ao redor, saber que eu ia ser enterrada com o modelão que eu escolhesse”.

    O atraso organizado vem semeando conflitos, sofrimentos, privações de direitos na sociedade brasileira, coincidentemente em pleno momento de realização da Olimpíada do Rio, considerada a que teve o maior número de atletas gays assumidos na história deste evento esportivo.

    Um avanço extraordinário da afirmação da cidadania, da consciência da liberdade, da tolerância e do respeito aos direitos humanos.

    Que o espírito olímpico permaneça aqui por muito tempo para ajudar a dissipar as brumas medievais que ameaçam o Brasil e pessoas como Neon, que lutam todos os dias por respeito a direitos elementares de serem felizes, com vida digna e bem adaptadas à redesignação de sexo livremente escolhida.

  • Ordem na Senzala & Progresso na Casa-Grande

     

     

     

     

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    O governo provisório de Michel Temer é analógico, rodando um filme preto e branco de piratas pilhadores, que tentam a qualquer custo restaurar as pontes com o passado mais atrasado do Brasil e reestruturar as bases de poder oligárquico para os negócios com as metrópoles.

     

    Depois do período colonial, as nações centrais mantiveram profundos vínculos econômico-financeiros com as nações periféricas por meio de suas corporações empresariais. Com seus liames políticos impuseram a arquitetura do Estado e do poder.

     

    Foi assim no Império e na República, que resultou do golpe militar do Marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamim Constant, logo após a proibição da escravidão pela Lei Áurea.

     

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    Os militares não se aliaram aos republicanos abolicionistas, mas aos proprietários das terras, das minas, das empresas e dos bancos que se estabeleciam no país.

     

    As forças armadas e policiais brasileiras, por serem originárias historicamente dos reinados e mantidas por eles, para defenderem o patrimônio da Coroa,  dos proprietários das terras e das corporações, têm  se comportado, no Brasil, salvo raras exceções, como combatentes do “inimigosinterno”, respaldadas por “Juízes de Pelourinho”, autoridades forjadas na cultura colonial do açoite, da degola, do esquartejamento e salgamento de corpos de líderes populares. Sempre foi assim em Pindorama e a história tem os fatos emoldurados e pendurados na parede da memória.

     

     

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    Por ter manifestado sentimento nativista e desejo de independência do Brasil, Felipe dos Santos foi amarrado a uma junta de cavalos bravios e arrastado pelas ruas de Vila Rica, em Minas Gerais, até o corpo partir em pedaços. As partes foram salgadas e penduradas nas árvores da entrada da cidade. Tiradentes foi enforcado, esquartejado, as partes do corpo também salgadas e amarradas em postes de Vila Rica. A cabeça ficou exposta no paço da cidade.

     

     

    Tiradentes-Pedro-AmericoZumbi teve a cabeça cortada, levada ao governador de Pernambuco, Melo de Castro, e exposta no paço da cidade do Recife. Antônio Conselheiro, Lampião e muitos dos seus seguidores também tiveram as cabeças cortadas e expostas em praças públicas. Assim se comportam as forças armadas e policiais do Brasil, em nome da ordem e do progresso ditadas pelos de cima.

     

    A violência policial-militar está entranhada nos corações e mentes das autoridades inimigas da democracia, que servem a proprietários e rentistas. Nos períodos recentes das ditaduras civil-militares torturaram com requinte de crueldade, aniquilaram pessoas, fizeram-nas mortas-vivas, tamanha a violência dos facínoras nos porões dos cárceres.

     

     

    A Presidenta Dilma foi uma das vítimas da tortura. Na sessão da Câmara dos Deputados, que a afastou da Presidência da República e deu posse a Michel Temer, o deputado Jair Bolsonaro homenageou o torturador Brilhante Ustra com seu voto a favor do golpe.

     

    Ditadura 2

    A República brasileira é fruto de um golpe militar, manobrado politicamente por gerentes de interesse dos bancos e das grandes corporações nacionais e multinacionais. Por incrível que pareça, o Brasil não consegue se livrar da sombra do passado, do atraso organizado, e se firmar como uma República democrática, livre e soberana.

     

    O lema dos golpistas da República colonial, inscrito na bandeira brasileira, “Ordem e Progresso”, é o mesmo do golpista Michel Temer e seu governo, que se adianta na tentativa de subtração de direitos conquistados pela população trabalhadora e na entrega de suas riquezas a empresas multinacionais, como as jazidas de petróleo do pré-sal, a maior jóia de Pindorama, de empresas estatais estratégicas para o desenvolvimento, como as do setor elétrico e outros bens públicos.

     

    Os golpes civil-militares que se seguiram na história do Brasil, nos ciclos de vigência do Estado democrático de direito, foram dados por militares em parceria com gerentes de interesses externos, para realinhar o Brasil aos vínculos econômico-financeiros das nações centrais impostos pelas corporações empresariais.

     

    Nos momentos de crise, como o que o mundo atravessa, com efeitos extremamente perversos sobre as economias mais dependentes e vulneráveis, as nações centrais buscam nas nações periféricas compensações de suas perdas.

     

    O golpe de Estado que derrubou a Presidenta Dilma e a imposição de Michel Temer, tramado pelo Congresso, setores do Judiciário e da mídia, é resultado de uma sofisticada conspiração que atende a essa finalidade.

     

    Desde os tempos coloniais, as nações periféricas contam com categorias nativas, de gerentes de interesses estrangeiros que vivem a pregar uma ideologia que só serve aos exploradores e seus negócios.

     

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    São tipos que transitam na política e no mercado, e estão sempre participando de governos, principalmente no comando de áreas estratégicas com as grandes corporações de mídia a disposição, onde formam a opinião pública e comandam a massa.

     

    Não gostam de pagar impostos. Costumam ser sonegadores contumazes. Se dizem inimigos do Estado, mas sempre contam com a proteção e a salvação dos seus negócios pelo Estado.

     

    Não têm compromisso com a cidadania, com as populações desfavorecidas. O negócio deles é negócio.

     

    Bancam golpes, repassam para os trabalhadores os prejuízos decorrentes das crises e defendem com unhas e dentes as margens de lucro de suas empresas.

     

    Para os golpistas de sempre, nada de política externa que proporcione independência e soberania.  Nada de falar grosso com as nações centrais.

     

    Para eles,  “Ordem e Progresso ” significa baixar as cabeças, trabalhar, produzir, consumir, não questionar e deixar os destinos nas mãos dos poderosos. Afinal, não atrapalhem os piratas, eles querem continuar explorando Pindorama.

     

     

     

     

  • Gerentes de negócios da colônia

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    A renúncia de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara foi articulada atrás das cortinas de uma peça grotesca que se encena em Brasília, para esconder o balcão de negócios que se estabeleceu no Palácio do Planalto na tentativa de efetivar o afastamento definitivo da Presidenta Dilma e entregar o Pré-Sal, a jóia mais preciosa de Pindorama, disputada por empresa petroleiras dos colonizadores.

    O Brasil entrou para a geopolítica do petróleo. Nosso petróleo está sendo tomando sem guerra, com os militares longe do golpe. A tomada do petróleo do Brasil ficou por uma pechincha.

    Precisaram apenas de Eduardo Cunha e Michel Temer para fazerem o serviço, um Congresso de maioria corrupta, e um povo desavisado que foi às ruas vestidos de amarelo bradar contra a corrupção.

    Vai jorrar muito dinheiro dos poços de petróleo nos fundos do galinheiro do Sítio do Pica-pau Amarelo. As petroleiras estrangeiras e os rentistas vão levar tudo.

    Tucanos como Gustavo Franco, Percio Arida, Arminio Fraga, Lara Rezende e outros, membros da equipe econômica privatista do governo Fernando Henrique, gente que vive de grandes negócios, gerentes de interesses externos, rentistas de mega corretoras de ações em bolsa, devem estar esfregando as mãos para entrar na privataria do patrimônio público, das maiores riquezas do país, e das estatais estratégicas para o desenvolvimento.

    Deputados, senadores, ministros, provavelmente vão levar um troco pelos serviços prestados aos colonizadores de Pindorama.

    Diante das TVs, dos rádios, da Internet, ou lendo jornais e revistas de fim de semana, golpistas vão comemorar, aplaudir dizendo que as privatizações irão acabar com a corrupção. Esse discurso está forte nas tribunas eletrônicas das praças das redes sociais.

    Na Presidência da Câmara ou fora dela, Eduardo Cunha manda do mesmo jeito, comanda a malta de chacais da lamacenta sessão da Câmara, do dia 17 de abril.

    Não há no Congresso ninguém melhor talhado do que ele para fazer o serviço sujo do governo. Ele se comporta como o gerente dos gerentes dos negócios das grandes corporações nacionais e internacionais, no Congresso Nacional.

    Temer age como se fosse um office-boy dele. Os encontros clandestinos, dos dois, nas brumas das noites à beira do Lago Paranoá, em Brasília, demonstram que as negociações vão de vento em popa.

    Além da conspiração para afastar Dilma, Eduardo Cunha articulou o Centrão, tudo indica que ele está comandando a eleição do novo presidente da Câmara para manter a base de Temer unida. Uma base que come na mão dele ou comerá na mão de seu preposto, para aprovar a pauta do golpe.

    A manobra dos dois para salvar Eduardo Cunha foi tramada na cara dura com o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado Osmar Seraglio, PMDB-PR, o mesmo deputado que foi relator da CPI dos Correios, em 2005, que condenou José Dirceu no relatório da comissão e entregou-o às feras para cassação do mandato, sem nenhuma prova.

    Eduardo Cunha vai ver aprovada a pauta do golpe, de privatização das empresas publicas e de desmonte das políticas de Estado construídas nos governos Lula e Dilma, da mesma forma que ele viu unida a base do governo na aprovação do projeto de lei do senador e ministro de relações exteriores, José Serra, na comissão, que retira da Lei sancionadas pela presidenta Dilma, o controle da Petrobras, da produção de petróleo do Pré-sal, e entrega a petroleiras estrangeiras.

    Há suspeitas de que a visita do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, ao Juiz Sérgio Moro, recentemente, foi uma articulação de Eduardo Cunha com Michel Temer, tendo em vista a iminência do pedido de prisão de Cláudia Cruz, esposa, e da filha, Danielle Dytz da Cunha Doctorovich, milionárias na Suíça.

    Cunha entrou em pânico. Certamente as prisões com possíveis delações premiadas levariam ao chão o governo Temer. Nenhuma autoridade judiciária nem policial põe a mão em Eduardo Cunha nem em ninguém da família dele, nem em ninguém da cúpula do PMDB que está no governo e no Congresso.

    São 15 ministros investigados e cerca de 200 parlamentares em listas de propina. Os privatistas e Michel Temer precisam de Eduardo Cunha no Congresso para fazer o serviço. Sem o cargo de Presidente da Câmara, o golpe fica mais branco e ele pode reinar nos bastidores.

    No Senado, Renan Calheiros corre contra o tempo para aprovar o projeto de lei que trata do abuso de autoridade e muda a lei da delação premiada. Ele anunciou que quer aprovar o projeto até dia 13 de julho, antes do recesso.

    Ou seja, instituições da República estão sendo mobilizadas para proteger o réu Eduardo Cunha, sua família, e a cúpula do PMDB que faz parte do núcleo central do governo interino de Michel Temer. As autoridades judiciárias e policiais estão em silêncio, e o barcaça do cinismo corre pelas águas turvas de mares coloniais.

    O governo interino de Michel Temer é um governo de negócios. Ponto.