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  • Militarismo e religião são duas bolas de ferro nos pés da humanidade.

    O desarmamento do mundo e o fim do militarismo poderiam ser uma utopia civilizatória. Que tal? O mundo gastou US$ 1,73 trilhão com Forças Armadas, em 2019. Somente os Estados Unidos gastaram US$ 684,6 bilhões, 39% do valor global, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Se esse imenso volume de recursos gasto na indústria da morte fosse reduzido ano a ano e investido na indústria da vida, em Educação e saúde, na erradicação da fome e da pobreza extrema, certamente a humanidade começaria a se livrar das misérias obscurantistas.

     

    Esse assunto não é novidade. Já foi virado do avesso ao longo da história do pensamento. Porém, parece que se transformou em tabu. Não se fala mais nisso. É muito pouco comentado, mesmo em círculos restritos de intelectuais e acadêmicos.

    A Idade Média durou mil anos e deixou para os séculos futuros heranças que em certos aspectos, dificultam a humanidade de evoluir para a convivência em paz, em harmonia, com sociedades construídas em bases de concórdia, verdade e fraternidade, sentimentos unificadores do ser humano. Evoluímos em muitos aspectos, mas o ódio, pai da violência, persiste, com seu dedo em riste.

    Nada justifica as cercas físicas, territoriais, as guerras, as cercas morais, a opressão em nome de crenças vazias.

    Obscurantistas negam a ciência, como aconteceu no Brasil, no combate à pandemia da Covid-19, assim como negam os avanços, por exemplo, da astronomia, da física e da genética, em pleno século XXI.

    Na Câmara Legislativa do Distrito Federal, parlamentares religiosos aprovaram um projeto de lei proibindo a nudez em obras de arte no Distrito Federal. O projeto de lei é inconstitucional. Imagina o que seria feito, por exemplo, com as obras do escultor Ceschiatti, distribuídas pelos palácios de Brasília, com exuberante erotismo, como “Contorcionista”, no hall do Teatro Nacional, a estátua da Justiça, com suas avantajadas mamas, na frente do Supremo Tribunal Federal, “As Irmãs”, no Itamaraty, e outras obras, que seriam censuradas. Ir a uma tribo de indígenas, onde vivem nus, seria crime? Visitar o museu do Louvre, em Paris, ver telas de Rafael Sanzio, esculturas de Michelangelo, enfim, seria uma heresia.

    Impérios religiosos transnacionais foram criados, apoiados em crenças tenebrosas, de moral opressiva, bárbara, com suas histórias manchadas de sangue, por práticas de torturas, mortes e perseguições a quem ousasse ou ouse, ainda hoje, discordar das imposições de igrejas.

    Religião e militarismo sempre conviveram de mãos dadas, na manutenção da ordem que interessa aos poderosos. Uma controla o corpo e a outra a mente. Aqui foi assim, quando os portugueses atracaram suas naus nas praias do sul da Bahia. Os indígenas estavam nus, nas areias brancas, em perfeita harmonia com a natureza, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro.

    As primeiras providências dos navegantes foram celebrar uma missa, catequizar, instalar o deus único e a culpa no coração deles, para que, com medo do pecado, aceitassem a dominação.

    Cobriram a genitália dos índios com roupas. Para dominar, as religiões vão direto ao sexo, proíbem. Escravizados, açoitados, torturados, os indígenas viram nações inteiras serem exterminadas e até hoje são mortos para lhes tomarem as terras onde sempre viveram.

    Sem inimigo não há militarismo. Se não há inimigo, criam. O mundo gasta centenas de bilhões de dólares dos contribuintes com academias militares e armas, para atacar o “inimigo externo e/ou interno. Ensinar a matar, lançar bombas incendiárias sobre escolas, famílias indefesas, como os Estados Unidos fizeram no Vietnam, como Israel fez no genocídio dos palestinos em Gaza e também para varrer do mapa cidades com bombas atômicas, como em Hiroshima e Nagasaki, como os mesmos Estados Unidos fizeram na Segunda Guerra Mundial e tantas outras atrocidades praticadas pelo militarismo.

     
     
     
     
     
     
     
    Alexandre Manfrini – Divulgação
     
     
     

    Impedem a democracia de prosperar, com mentiras e golpes, implantam a ferro e fogo regimes ditatoriais, torturam, matam, perseguem, privam de liberdade quem pensa diferente, todas essas barbaridades em nome de Deus e da ordem.

    Guardadas as devidas exceções, as academias militares têm formado monstros assassinos com dinheiro público e têm os Estados Unidos como referência de militarismo. Um país que nasceu com uma bíblia numa mão e na outra um coldre, pronto para matar.

    O governo Bolsonaro tirou R$ 242 bilhões da educação e da saúde, em quatro anos, e destinou às Forças Armadas (indústria da morte), R$ 9,2 bilhões para comprar armas, em plena devastadora pandemia. Num momento em que, segundo o IBGE, o Brasil aumentou a pobreza, chegando a 52,5 milhões de pessoas passando o dia com R$ 7,70.

    Deu aos militares R$ 26,5 bilhões de bonificação, um reajuste de 73%, com acréscimo anual. A União bancou R$ 121,2 mil, em 2019, para cada aposentado das Forças Armadas, 17 vezes o de aposentados do INSS, quase o dobro da despesa por servidor público (R$ 71.600 mil) e (R$ 6.900 mil) para os aposentados do setor privado.

    No governo Bolsonaro, o aumento de gastos com o Ministério da Defesa é maior que os dos ministérios da Educação, Saúde, Agricultura e Relações Exteriores. A maior parte dos gastos é com a folha de pagamento dos militares.


    • Leon Tolstoi, na sua magnífica obra Guerra e Paz, dizia que todas as formas de violência são igualmente más. Não só a guerra, mas todas as formas de compulsão inerentes ao Estado são criminosas. Dizia ele que o verdadeiro cristão deve abster-se de participar das funções do Estado e que a ordem social só poderá melhorar quando todos os homens e mulheres tiverem aprendido a amarem-se uns aos outros.

  • Cobrar estacionamento público agora é colocar o carro na frente dos bois

    
    
    Primeiro oferta de meios de mobilidade urbana decentes, acessíveis e  de qualidade. Depois a taxação da ocupação dos espaços públicos, a ser administrada por uma empresa estatal do Distrito Federal,  criada para essa finalidade e não por empresas privadas de empresários que só querem saber de embolsar o dinheiro da população.
    Muita gente está aderindo à taxação dos estacionamentos públicos sem se dar conta de que o Distrito Federal não tem infraestrutura de mobilidade urbana suficiente e de qualidade para acomodar a população que supostamente deixaria de utilizar os carros para não pagar estacionamento.
    O Distrito Federal tem um sistema de transportes  precário e um dos mais caros do Brasil. A taxação, sem essa disponibilidade de meios de mobilidade decentes, com capacidade de atender a demanda da população, sem duvida irá engordar ainda mais o lucro das empresas privadas de transporte e satisfazer a gana de empresários de Brasília que querem cercar os estacionamentos públicos para tirar dinheiro da população.
    A maioria das cidades europeias, tidas como referência por urbanistas e ambientalistas, na defesa da taxação dos estacionamentos, dispõem de infraestrutura de mobilidade urbana confortáveis, construída antes da taxação dos carros e da criação das chamadas “Zonas Verdes”.
    Ter um carro na Europa é caro. Proprietários de automóveis foram taxados depois que ciclovias, metrôs, VLTs, ônibus elétricos e outros meios decentes de transporte foram disponibilizados para a população . Aqui querem colocar o carro na frente dos bois.
    Que sistema de transporte público tem o DF? Todos sabem do caos e das tarifas escorchantes cobradas pelas empresas de ônibus. Ônibus de modelos superados, muitos caindo aos pedaços, destinados para  atender principalmente a população de baixa renda. Ônibus movidos a biodiesel só no Plano Piloto.
    Essa ideia de  apropriação do espaço público, com cercas e guaritas para tirar dinheiro da população, recorrendo ao discurso ambientalista e de segurança, como justificativas, está  cooptando autoridades e muita gente de boa fé.
    Os empresários que gravitam em torno do GDF, e seus prepostos, estão inflando essa ideia como modernidade. Mas o que eles querem mesmo é a apropriação  do que é público e esse é um caminho sem volta. O que é apropriado não volta a ser público.
    Os estacionamentos dos hospitais privados de Brasília são exemplo dessa privatização. Vendem segurança como marketing, mas o número de registro de ocorrências nas delegacias, de furtos em veículos é alto. Isso devido ao tempo que as pessoas passam nos hospitais, em consultas e internações. Basta verificar o número de ocorrência na Secretaria de Segurança.
    A sensação é de que, nesse debate,  estamos sendo enganados.
    Deveriam primeiro fazer um projeto de transição para mudança da infraestrutura de mobilidade existente para um sistema moderno, de qualidade, que atenda confortavelmente a demanda, depois instituir o plano para taxação. Ou seja, não botar o carro na frente dos bois.
    Uso bicicleta também como meio de transporte e vejo como as ciclovias foram construídas e em que situação se encontram. São uma tripinha, uma vergonha, incompletas, enfim, comparadas com as das grandes cidades europeias, referência de construção de ciclovias.
    E as pessoas que moram em regiões e edifícios que não dispõem de garagem? Pagarão pelo estacionamento dentro das quadras?
    Mais atenção  nesse debate. Cuidado com o andor, para não desequilibrar o Santo.
  • “Florestan é nome para gente de classe alta, não de filho de lavadeira! O nome dele é Vicente!”

     

    Foto: Acervo da família
    Florestan Fernandes criança

    Dona Maria, mãe de Florestan, ouviu isso da patroa como uma ordem, dias antes do batismo dele, de quem ela seria madrinha. Ele ficou sendo chamado de Vicente até que o Florestan, já na universidade, se igualasse a Vicente e os dois pudessem conviver na harmonia possível. 

    Florestan é o nome de um personagem da ópera Fidélio, de Beethoven, e também do namorado de uma amiga de Dona Maria, motorista na casa que ela trabalhava. Esse moço foi tão gentil e generoso com ela, durante a gravidez, que o nome Florestan foi dado ao filho em homenagem a ele. Mais do que uma exaltação ao amor, a ópera é um hino à liberdade, à lealdade e à justiça.

    A madrinha não tinha filhos. Florestan, uma criança astuta, simpática,  tornou-se o centro das atenções na convivência familiar. Ganhava revistinhas, livros infantis, e o casal lia para ele. O Tico-tico era a que ele mais gostava. Dizia que essa o levava a cantos da imaginação nunca antes visitados. 

    Certo dia, num rompante, a patroa pediu a Dona Maria que lhe desse Florestan definitivamente.  Aquela proposta foi a gota dágua. Com sua dignidade ultrajada, ela mirou os olhos da patroa e deu uma resposta à altura: “Não se dá filhos, o que se dá são cães!”. Dona Maria pegou o filho pelo braço foi até o quarto, arrumou as malas e foi embora morar na periferia de São Paulo. 

    Ela voltou a lavar roupas e ele foi para as ruas de São Paulo, trabalhar como um adulto, como dizia, para ajudar nas despesas da casa. Primeiro numa barbearia, varrendo os cabelos cortados dos fregueses. Depois numa alfaiataria, como auxiliar; em feiras, carregando compras para as casas de famílias; numa marcenaria; engraxando sapatos; como vendedor; enfim, em qualquer atividade que lhe rendesse alguns trocados para levar pra casa. 

    Por ser mais rentáveis, os pontos de engraxates, no Largo Ana Rosa, eram disputados na porrada. Apesar de franzino, tinha agilidade com o corpo. Saiu no braço com alguns até conquistar seu ponto. Ali, ele trabalhou por um bom tempo.

    Mas foi como garçom que o Florestan começou a preparar a despedida do Vicente. No Bar Bidú, no centro de São Paulo, onde trabalhava como garçom, um jornalista, frequentador do bar, sempre comentava com os amigos sua admiração por Florestan, impressionado com os livros que ele lia atrás do balcão, nos intervalos entre um atendimento e outro. Àquela altura, ele já havia lido clássicos da literatura, da filosofia, da sociologia, muito influenciado pelo companheiro de sua mãe, também garçom  e leitor voraz. Ambos andavam com livros e liam em qualquer canto.

    Foi o jornalista que o aconselhou a voltar a estudar. Ele havia cursado apenas até o terceiro ano primário, no período em que morou na casa da madrinha. Animou-se, fez o curso supletivo, na época chamado Madureza. Quando comentou com a mãe que estava decidido entrar para a universidade, achando que ela receberia a notícia com alvíssaras, Dona Maria não gostou do que ouviu. Disse  preocupada com a possibilidade dele passar a fazer parte da elite, de ter vergonha dela, por ser analfabeta, e abandoná-la.  

    Ele queria estudar química, certamente influenciado pelo novo trabalho de vendedor de produtos dentários, mas mudou de ideia. Prestou exame para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Logo que chegou na sala de aula, não foi bem recebido, por ser vendedor, trajar roupas e sapatos modestos, sempre suado, por andar muito a pé. A USP, recém criada, era um reduto da alta burguesia paulistana, que antes mandava os filhos estudar na Europa. Aos poucos, ele conseguiu ser respeitado, levava os estudos a sério, tirava boas notas. Os grupos formados para trabalhos passaram a querer Florestan, devido a sua desenvoltura nos estudos. 

    Florestan fez graduação em sociologia, depois mestrado e doutorado em sociologia e antropologia, numa carreira onde conquistou lugar de destaque, como um dos acadêmicos mais importantes do país. Escreveu mais de 50 livros, entre esses, os clássicos: A Revolução Burguesa no Brasil; A Integração do Negro na Sociedade de Classes; e A Organização Social dos Tupinambá.

    A Revolução Burguesa no Brasil começou a ser escrito em 1966, em resposta ao golpe militar de 1964. Num breve resumo, o clássico da sociologia expõe as estruturas e os vínculos que mantém o caráter autocrático da burguesia numa sociedade como a brasileira.

    A Integração do Negro na Sociedade de Classes foi traduzido para o inglês, rendeu ao Professor Florestan Fernandes viagens aos Estados Unidos, para palestras nas universidades, influenciou o movimento radical dos Panteras Negras e dos direitos civis.

    A Organização Social dos Tupinambá foi classificado pelo antropólogo francês, Claude Lévis-Straus – que deu aula na USP – como marco no desenvolvimento da antropologia. O Professor Florestan Fernandes reconstituiu a organização social dos Tupinambá, extinta no século XVII, a partir dos cronistas e de relatos de viajantes.

    O Professor Florestan Fernandes costumava dizer que começou a estudar sociologia ainda criança,  trabalhando nas ruas, quando percebeu as relações de poder, as injustiças sociais, na pedagogia do cotidiano, na gangorra de uma existência privada das facilidades reservadas aos bem nascidos.

    O Professor Florestan Fernandes disse certa vez: ”a coisa mais difícil que fiz na vida foi permanecer fiel à minha classe de origem”. E que “Vicente era a base do Florestan. Sem ele, talvez o Florestan nem existisse”. 

    A universidade finalmente deu a Dona Maria seu Florestan de volta, que não a abandonou, e o Brasil ganhou um dos intelectuais mais importantes da sua história, que soube interpretá-lo como poucos, criou bases científicas para uma geração de acadêmicos e intelectuais, capazes de apontar as raízes das mazelas do Brasil e o futuro da desejada nação democrática, igualitária, justa e livre.

    A coerência com suas ideias, lealdade, rebeldia e o senso agudo de justiça, pareciam ser o esteio de sua vida. Foi assim desde criança,  talvez influenciado por sua mãe, que demonstrou dignidade e firmeza de caráter nos momentos mais difíceis da vida dos dois; durante o  período em que se dedicou à academia; como deputado constituinte;  na vida pública; e até em situações cotidianas. 

    Certo dia, ele passou mal em casa, devido a complicações da hepatite C, (que  mais tarde o levou à morte), chamou um táxi e foi para o Hospital do Servidor. Dona Míriam, sua companheira ligou para filho, Florestan Júnior, na época trabalhando na Globo. Quando Florestan Júnior chegou ao hospital, o pai estava muito abatido e numa fila imensa. Perguntou por que ele estava naquele hospital, se ele era deputado, podia ir para o Sírio Libanês, Albert Einstein, ou outro hospital, e por que ele estava na fila? Ele disse que foi para aquele hospital porque ele era servidor público e que aquele hospital era o que devia cuidar dele. E que ele estava na fila porque havia fila. Disse que cada uma daquelas pessoas estava com necessidade de atendimento como ele.

    Quando a saúde do professor Florestan se agravou a ponto de restar como única alternativa o transplante de fígado, Fernando Henrique, seu ex-aluno e assistente, era presidente da República, ligou e ofereceu-lhe a possibilidade de fazer o transplante numa clínica em Cleveland, nos Estados Unidos. Ele agradeceu a gentileza e disse que não podia aceitar aquele privilégio. Aceitaria se todas as pessoas que estavam em situação de saúde mais grave que a dele tivessem a mesma oportunidade. Ele decidiu fazer o transplante em São Paulo e morreu em decorrência de erro durante a recuperação da cirurgia.

    No Congresso, ele se comportava como aluno disciplinado, chegava pontualmente nos horários das sessões, tanto no plenário como nas comissões, ouvia atentamente cada um dos parlamentares e participava dos debates. Apesar de não ser obrigado, se sentava na mesma cadeira. Percebendo o hábito dele, os parlamentares até protegiam a cadeira para que ninguém se sentasse. A cadeira era do Professor Florestan Fernandes, diziam eles. 

    Certa vez Vicente, o homem rústico, apareceu na tribuna da Câmara. O Professor Florestan Fernandes estava discursando, quando um parlamentar de posições explícitas de direita pediu um aparte e começou a fazer-lhe provocações do mais baixo nível. Florestan, educadamente foi respondendo às provocações e o deputado insistindo, agredindo. Num dado momento, Florestan perdeu a paciência, disse ao parlamentar que não era homem de engolir desaforos, que se ele quisesse fosse para fora do Congresso, que estava disposto a resolver  a pendenga no braço. 

    O deputado Vladimir Palmeira, líder da bancada, avisado que Florestan estava querendo ir às vias de fato com um parlamentar no plenário correu às pressas para tentar acalmar os ânimos. O Professor Florestan estava  furioso, dizendo ao parlamentar : “já que o senhor não tem argumentos, só provocações, vamos lá pra fora!… Vamos! A gente resolve isso de outra maneira.” O deputado Vladimir Palmeira conseguiu demovê-lo daquela porfia.

    O impressionante é que o Professor Florestan Fernandes, furioso, que reagia com indignação às provocações de um parlamentar, desafiando-o a ir às vias de fato, era o mesmo que chegava à Câmara cumprimentava parlamentares, funcionários, desde os que trabalhavam na portaria, nas comissões, no plenário, com aperto de mão. Era amável, atencioso, despojado, bem humorado, sempre com tiradas inteligentes e divertidas. Tudo isso é um pouco do Professor Florestan Fernandes. 

    O Brasil é um país de Vicentes e Florestans. Quanta falta ele faz nesse momento tão dramático que vivemos em nosso país!

     

  • Algo misterioso acontece no subterrâneo de Brasília

     

     

     

    No dia 23 de fevereiro de 1981, um grupo de militares herdeiros do ditador Francisco Franco, liderados pelo tenente-coronel Antônio Tejero Molina, tomou de assalto o parlamento do Governo de Espanha,

     

    De metralhadoras em punho, Molina e sua tropa  invadiram o plenário.Ele subiu na tribuna e gritou: “quieto todo el mundo” e anunciou o golpe de Estado.

     

    Ordenou que todos os parlamentares deitassem no chão com as mãos na cabeça e os militares dispararam rajadas de metralhadoras rentes aos corpos, para intimidar.

     

     

    No final da quartelada, os oficiais Milans del Bosch, Alfonso Armada e Antonio Tejero Molina foram presos, pegaram uma cana de 30 anos, condenados pelo Conselho Supremo da Justiça Militar, e foram expulsos das forças armadas. Os aderentes de baixa patente também foram expulsos e condenados.

     

    Naquele momento, a Espanha havia reconstruído e fortalecido suas instituições, depois do regime fascista de Francisco Franco, e pôs fim às ameaças de regimes ditatoriais. Enquadrou os militares nos quartéis e consolidou a democracia.

     

    No Brasil, parece que as instituições e as autoridades responsáveis pela defesa da Constituição e do Estado democrático de direito  se acovardaram com as bravatas de Bolsonaro e se recolheram num gueto.

     

    Estão se acostumando com a escalada autoritária dele e seus fanáticos seguidores, alimentados pela rede criminosa de fake news, montada para derrubar a presidente Dilma e elegê-lo.

     

    A situação não pode mais ser tratada pelas autoridades competentes com notas e posts no twitter, como estão fazendo. Há crimes de responsabilidade de sobra para abrir o processo de impeachment.

     

    Para derrubar Dilma, condenar e prender o ex-presidente Lula, sem provas de crimes, e impedi-lo de se candidatar nas eleições, as autoridades judiciárias foram ligeiras.

     

    O que está colocado para o país é a incapacidade de Bolsonaro governar  e a constante ameaça à democracia e às instituições.

     

    Ficou claro que ele se transformou num problema para o combate à pandemia e absoluta falta de preparo para enfrentar a grave crise econômica que desponta no horizonte.

     

    Seria patética uma quartelada com Bolsonaro como um Tejero Molina numa invasão do Congresso e do STF. As condições para um golpe militar no novos tempos são muito diferentes das de 1964.

     

    O mundo mudou muito. Os militares saudosistas da ditadura precisam entender que o Brasil não vive entre quatro paredes.

     

    Não só pelo fato de estar exposto ao mundo pelos modernos meios de comunicação, mas porque ali mesmo, nas cercanias da Praça dos Três Poderes, em Brasília, estão instaladas 128 embaixadas que, obviamente, seus serviços de inteligência enviam frequentemente relatórios aos governos dos seus respectivos países com informações sobre os acontecimentos envolvendo o governo brasileiro. E isso tem um peso político considerável nas relações internacionais.

     

    Além disso, Bolsonaro está completamente desmoralizado. Virou chacota em todo o mundo. É considerado um aspirante de ditador, herdeiro de Hitler. Uma figura tragicômica.

     

    O sinal está fechado para Bolsonaro e seus fanáticos seguidores. Ele está desesperado com o isolamento. Os filhos comandam o “Gabinete do Ódio” e a máquina produtora de fake news  está a todo vapor causando um  sério problema, principalmente para a comunidade médica que está à frente do combate à pandemia..

     

    Mas ele começou a perceber que a tática de ataques e recuos está se esgotando e chegou ao limite da tolerância institucional. Algumas instituições já deram sinais de vida.

     

    O STF, a pedido da Procuradoria Geral da República, abriu processo de investigação da organização dos atos, com a presença de Bolsonaro, que pedem fechamento do Congresso, do STF e um novo AI-5.

     

    O Superior Tribunal de Justiça se pronunciou a respeito do processo de Flávio Bolsonaro dizendo haver fortes indícios de crimes graves e  organização criminosa comandada por ele.

     

    A retirada da família Bolsonaro da vida pública pode começar pela condenação e cassação dos mandatos dos filhos.

     

    Dependendo do andar da carruagem,  o impeachment de Bolsonaro poderá ser cirúrgico, rápido, na velocidade da contaminação do Covid-19.

     

    Mourão deve estar esfregando as mãos. A nota do Ministério da Defesa é puro muro. A caserna pode estar articulando o descarte de Bolsonaro para empossar Mourão. Cheira conspiração de gabinete em Brasília, envolvendo PGR, STF e Congresso.

     

    Bolsonaro carrega um Tejero Molina no peito. Resta saber se ele irá conter seu Tejero Molina interior e seguirá silencioso para o matadouro ou tentará, com seus iguais,  invadir o Congresso e o STF, assumindo o risco de todos levarem uma cana, como fez o judiciário da Espanha.

     

     

     

  • Todos são iguais perante o vírus?

     

     

    Parece que os adjetivos atribuídos a Bolsonaro estão esgotados. Restou o que fazer com ele, o mais venenoso fruto do golpe de Estado que derrubou a presidenta Dilma.

     

     

    Por enquanto, ele foi isolado, os governadores assumiram a frente de combate à pandemia, por causa do despreparo, da resistência e da irresponsabilidade do presidente da República em admitir a gravidade da situação e demorar tanto na tomada de decisões.

     

     

    Quando o grande capital, juntamente com a imprensa oligárquica apoiaram a campanha eleitoral de Bolsonaro, (depois que Lula foi preso e impedido de participar das eleições), sabiam muito bem o que estavam fazendo.

     

     

    Queriam o apoio das forças armadas, policiais, judiciárias e legislativas, para proteção dos bilionários negócios dos magnatas nacionais e internacionais. Bolsonaro seria apenas um office boy de Paulo Guedes.

     

     

    Logo depois da posse, ele deixou claro que veio para “destruir”, repetindo um jargão corrente entre os inimigos do Estado, da Constituição, dos direitos sociais, e do legado dos governos Lula e Dilma.

     

     

    Partiram para a destruição dos mecanismos de distribuição da renda e de todas as políticas públicas do projeto de desenvolvimento sustentável, de inclusão social e de superação da pobreza, implementados por Lula e Dilma.

     

     

    Os donos do mercado e os porta-vozes deles na imprensa aplaudiram e disseram: “agora a coisa vai”. Com o preposto “Chicago Boy”, Paulo Guedes, no comando, a máquina destruidora entrou em ação.

     

     

    Guedes, com sua ideia fixa de que o mercado é panaceia para todos os problemas econômicos e sociais do país, e que o Estado teria que ser reduzido ao mínimo, acelerou a máquina nos cortes brutais dos investimentos públicos, de direitos dos trabalhadores e dos mais pobres.

     

     

    Com uma ideologia superada, afogada na crise de 2008, gestada nos Estados Unidos, ele e seu parceiro, Jair Bolsonaro, atacaram os fundos públicos de financiamento do desenvolvimento e das políticas públicas de proteção e inclusão social.

     

     

    Somando-se a isso a maior fuga de capitais das últimas quatro décadas e outros fatores, o país ficou sem investimentos públicos e privados. Liquidaram a economia. O resultado foi o pibinho de 1,1%, em 2019.

     

     

    Depois de assumir a presidência, Michel Temer, com o apoio dos golpistas do Congresso, entre eles Bolsonaro, aprovou o congelamento dos investimentos públicos por 20 anos e hoje está em casa numa redoma, em paga por serviços prestados. Eduardo Cunha numa UTI, Aécio Neves por aí, livre como um antílope, e o Supremo, mais o ex-juiz Sérgio Moro, como estacas de sustentação dos governos do golpe.

     

     

    O grande capital e a imprensa porta-voz do mercado agora são unânimes em dizer que o Estado tem que enfrentar a pandemia e salvar a economia.

     

     

    Nos últimos dias, figuras expoentes da defesa do Estado mínimo, do arrocho fiscal, debulharam rosários de declarações contrárias ao que diziam antes.

     

     

    O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ardoroso militante do neoliberalismo, por exemplo, disse que, para vencer a crise, o Brasil precisa de um Estado forte e que não é hora de restrições fiscais.

     

     

    Carlos Alberto Sardenberg, comentarista de O Globo, sempre implacável na defesa do mercado e do corte de investimentos públicos, disse que “Ninguém lida com uma calamidade fazendo corte de gastos”.

     

     

    Outros inimigos do Estado, quando querem se apropriar dos bens públicos, dos recursos naturais, e explorar comercialmente os serviços públicos, usam e abusam do discurso enganador.

     

     

    Como todos são iguais perante o vírus, a hipocrisia aflorou. Querem agora o “Estado Salvador”, para salvar bancos e empresas, com dinheiro do contribuinte. Paulo Guedes abriu o cofre. Os bancos receberam R$ 1,2 trilhão, a economia real R$ 247 bilhões, e aos trabalhadores o de sempre: desemprego e migalhas.

     

    De bolsos cheios,  os magnatas empurram o problemático Bolsonaro para a linha do descarte, com renúncia ou impeachment, e que ele procure o caminho, quem sabe de Miami, para viver seu ostracismo.

    A máquina do tempo político foi ligada.

     

  • Brasil em vertigem: Bolsonaro não vai a Davos

     

     

    O filme Democracia em Vertigem, da cineasta Petra Costa, retirou definitivamente o véu com o qual tentaram esconder o golpe de Estado que derrubou a Presidenta Dilma, a parceria da imprensa oligarquia  e a eleição de Jair Bolsonaro.

     

     

    A repercussão do filme no mundo, (um dos mais vistos no Netflix) agora indicado para o Oscar, é devastadora. Causou um forte impacto no governo e reações agressivas dos cúmplices da tragédia política, econômica e social do Brasil. 

     

     

    Jair Bolsonaro cancelou a participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, a ser realizado do dia 21 a 24 deste mês, com 3.000 participantes. 

     

     

    Mas não foi apenas a repercussão do filme de Petra que levou o presidente da República a desistir da ida a Davos. Quando ele foi ao Fórum Mundial, em janeiro de 2019, ele mentiu para a platéia dos chefes de Estado e dos maiores investidores do mundo.

     

     

    Pela primeira vez, o Brasil, em 2019, abriu os trabalhos do Fórum e coube a Jair Bolsonaro, recém eleito, fazer o discurso de abertura. Para isso, foi destinado o tempo de 45 minutos, mas ele falou apenas 6 minutos. 

     

     

    O discurso foi considerado decepcionante por grande parte dos participantes e pela imprensa mundial.

     

     

    Jair Bolsonaro assumiu compromisso com os tratados internacionais de combate à degradação do meio ambiente. 

     

     

    Disse que compatibilizaria crescimento econômico com meio ambiente.

     

     

    Mas faz o contrário. Desmonta as instituições que cuidam do meio ambiente, muda a legislação mais moderna do mundo e fustiga organismos internacionais, chefes de Estado, com acusações levianas.

     

     

    Disse que colocaria o Brasil, em pouco tempo, entre os 50 países mais desenvolvidos do mundo. Mas acumula desastres e incompetência em todo seu governo.

     

     

    Jair Bolsonaro não tem nenhum dado positivo para apresentar em Davos.

     

     

    A absoluta falta de projeto para o país, a degradação econômica, social e ambiental, a fragilidade institucional e a insegurança jurídica, são os frutos do golpe de Estado, que, evidentemente, causam receio aos possíveis investidores.

     

     

    A imprensa internacional estaria a postos para perguntar obviamente sobre o filme, sobre a Amazônia e o governo dele.

     

     

    Está cada vez mais claro que a obsessão do governo é apenas desmontar o projeto de desenvolvimento sustentável e inclusão social dos governos Lula e Dilma, que proporcionaram estabilidade política, econômica, redução da desigualdade e melhoria das condições de vida da população.

     

     

    Se fosse a Davos, provavelmente Jair Bolsonaro seria recebido diferentemente de 2019, talvez como burlesco e  despreparado.  Não teria como esconder os escombros do golpe e o isolamento internacional em que se encontra o Brasil. 

     

     

    Os dados da economia, divulgados recentemente, revelam o agravamento da crise e  o país à deriva.

     

     

    O Brasil fechou o ano com o registro da maior fuga de capitais das última quatro décadas,  a retirada de US$ 62,244 bilhões pelos investidores, para aplicar em outros países. 

     

     

    Somente da bolsa foram retirados US$ 44,5 bilhões. Com os cortes de investimentos do Estado e do setor privado não há como o país crescer.

     

     

    Das reservas acumuladas pelos governos Lula e Dilma, um total de RS$ 375 bilhões, o governo Bolsonaro queimou RS$ 34 bilhões tentando segurar a alta do dólar. 

     

     

    Não bastasse as queimadas na Amazônia, os ataques impunes a comunidades indígenas e a trabalhadores rurais, fatores que causam mais desgaste na imagem do Brasil no exterior, a economia apresentou um pibinho , em 2019, de apenas 1,12%.

     

     

    O Brasil tem hoje 12 milhões de desempregados e 38 milhões  de pessoas vivendo de bicos, sem perspectiva de serem inseridas no  mercado de trabalho formal.

     

     

    O Brasil tem a maior concentração de renda do mundo. Segundo pesquisa do IBGE, um em cada brasileiro vive com menos de R$ 420,00 por mês.

     

     

    A indústria, em novembro, das 15 regiões pesquisadas pelo IBGE, 11 tiveram uma queda acentuada, de 1,2%. Nos últimos quatro anos depois do golpe, o Brasil perdeu 17 indústrias por dia.

     

     

    Segundo a Agência Reuters, em outubro, na categoria varejo ampliado, que inclui automóveis, a queda no comércio foi de 0,5%. O mercado havia projetado 1,1%. 

     

     

    Isso acontece no momento de liberação do saque do FGTS, que seria, segundo o governo, para ativar a economia, mas o dinheiro foi parar nas financeiras e nos bancos, para pagar dívidas. Mais de 65% da população está endividada.

     

     

    Cerca de 70% do PIB é composto pelo setor de serviços. Na passagem de outubro para novembro, três das cinco atividades do setor, tiveram queda. 

     

     

    Com destaque para o recuo de transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio (-0,7%), serviços de informação e comunicação (-0,4%) e serviços prestados às famílias (-1,5%).  A queda foi mais acentuada em 16 dos 27 estados.

     

     

    A inflação voltou. O índice acumulado em 12 meses bateu 4,31%,  acima do centro da meta, de 4,25. Com aumento vertiginoso do preço da carne (37%), feijão e combustíveis.

     

     

    A Balança Comercial ficou com saldo positivo em US$ 46,7 bilhões, 19,6% abaixo do registrado em 2018. E deve agravar ainda mais com o acordo assinado entre Estados Unidos e China.

     

     

    Os Estados Unidos são concorrentes do Brasil no comércio internacional de produtos agropecuários, mineração, petróleo e outros produtos.

     

     

    A subserviência do governo Bolsonaro ao governo de Donald Trump tem afetado diretamente a economia brasileira e desgaste nas relações internacionais. A desastrosa ingerência no conflito Iran-Estados Unidos, mais o acordo comercial entre Estados Unidos e China custarão caro ao Brasil. Em breve as consequências virão.

     

     

    Além de tudo isso, Jair Bolsonaro está às voltas com o escândalo da Secom, uma gatunagem do Secretário de Comunicação do governo, Fabio Wajngartn, alertado pela Controladoria Geral da União como caso gravíssimo. E mais, segundo reportagem de O Globo, Bolsonaro sabia dos negócios do seu colaborador direto.

     

     

    Wajngarten aumentou a liberação de verbas de propaganda do governo para as empresas de comunicação, como a Record, a Bandeirantes e outras parceiras, amigas de Jair Bolsonaro. No ano passado, liberou R$ 197 milhões para campanhas do governo e estatais. O chefe da Secom tem empresa que presta consultoria a empresas de comunicação beneficiadas pelas verbas.

     

     

    Com o Brasil em situação tão dramática, não há o que apresentar  em Davos. Essas e outras vão sedimentando o isolamento do Brasil no cenário internacional e amarrando nosso futuro no passado colonial, na bola de ferro do atraso.

  • Paulo Guedes faz de Bolsonaro seu office boy

     

    Paulo Guedes, que Bolsonaro dizia ser seu consultor para assuntos gerais, seu “frentista do posto Ypiranga”, foi se embrenhando no governo e fazendo do presidente da República seu office boy. Firmou-se como gerente-geral, principalmente de interesses das grandes corporações e bancos internacionais, e submete os demais ministérios aos seus mandos.

     

    As paredes dos edifícios da Esplanada dos Ministérios têm vazado informações de que Paulo Guedes está de fato governando, com Bolsonaro reduzido a despachante. Ministros andam bicudos, por estarem sendo conduzidos com rédeas curtas por Guedes.

     

    Um tanto inconformado com seu tonto office boy, por tentar a todo custo manter-se na mídia, Guedes vê a imagem de  Bolsonaro  se desfazer como a de uma esfinge de areia ao vento e anda muito preocupado com isso, por lhe afetar diretamente.

     

    As declarações disparatadas, atitudes bizarras, constrangedoras, tidas como estratégia de comunicação do governo, desandaram. Voltaram-se contra o próprio Bolsonaro, revelaram que ele é uma fraude, um mentiroso, incompetente, despreparado, e fizeram sua popularidade desabar. Os filhos foram contidos, mas o estrago está feito.

     

    Guedes faz tudo que os lobbies das grandes corporações empresariais e financeiras nacionais, principalmente internacionais, querem: tira dos pobres e repassa para os ricos.

     

     

    O ministro destrói os mecanismos de distribuição da renda construídos pelos governos Lula e Dilma, transforma direitos sociais em mercadorias e trama a entrega, para o empresariado e bancos, de áreas como a previdência, educação, saúde, empresas estratégicas de setores do petróleo e gás, energia, e outros ramos de atividade. Ele já anunciou que vai vender todas as empresas estatais.

     

     

    Com 63,2% da população endividada, Guedes, como banqueiro que é, botou na mesa para Bolsonaro assinar e enviar ao Congresso, uma Medida Provisória para liberar o saque de parte do FGTS. Com essa medida, os bancos e financeiras conseguiram a garantia do recebimento das dívidas dos trabalhadores.

     

     

    O bolso do povo sofreu outra investida sorrateira da mão invisível dos bancos e financeiras, com a autorização do governo,  para cobrança de uma taxa de quem tem cheque especial a partir de R$ 500,00. Essa taxa compensa, em grande parte, o que os bancos deixam de ganhar aqui com a queda dos juros em todo o mundo, provocada, entre outros fatores, pelo excesso de dinheiro acumulado nas nações centrais e disponível no mercado financeiro internacional.

     

     

    Essas e outras poderiam ser chamadas de assalto ao país, mas Paulo Guedes e seus parceiros usam as expressões da gramática neoliberal, repetida exaustivamente pelo jornalismo porta-voz da política econômica do governo: privatizar, cortar gastos, reduzir o Estado, “empreendedorismo”, nova denominação para desempregados, e outras expressões fraudulentas, para justificar os negócios que estão fazendo com os direitos, os bens e o dinheiro públicos.

     

     

    A inflação voltou, com remarcação de preços de praticamente todos os produtos e serviços, afetando diretamente a vida dos mais pobres. Até agora, a apresentadora Ana Maria Braga ainda não pendurou um colar de almôndegas no pescoço, como denúncia do preço da carne, para criticar o governo, como ela fez com Dilma, no passado, com um colar de tomates, no momento em que a ordem era destruir a imagem de Dilma.

     

     

    Mas Paulo Guedes parece não dar importância à inflação. Ao contrário, disse que vai taxar todos os produtos da cesta básica. Ao mesmo tempo anuncia uma “cesta básica” para os banqueiros, bilhões do dinheiro público para socorrer bancos em dificuldade financeira.

     

     

    No mesmo Brasil, o lucro dos 4 maiores bancos (Bradesco, Itaú, Santander e Banco do Brasil) bateu um recorde histórico, um crescimento de 15%, no lucro líquido, um acumulado de R$ 59,7 bilhões no ano.

     

     

    Uma “cesta básica” semelhante foi dada, no passado, por Fernando Henrique Cardoso, quando ele criou o famoso PROER, um programa de salvação de bancos privados, do qual os banqueiros levaram R$ 37 bilhões de reais e até hoje não se sabe da prestação de contas dessa montanha de dinheiro público.

     

     

    Guedes é um neoliberal fundamentalista, declaradamente inimigo do Estado, de mecanismos de distribuição da renda, de inclusão social, enfim, da rede de proteção aos mais pobres contra a desigualdade. Mas é a favor da distribuição de recursos do Estado para proteger negócios da classe dos magnatas.

     

     

    Ele parece ter convicção de que o Estado é uma propriedade da elite, dos donos dos meios de produção, dos bancos, e que o aparato militar, judiciário, legislativo, deve continuar trabalhando para os de cima, para manter a ordem capitalista.

     

     

    A contradição é tão flagrante, que o país vive uma das mais dramáticas crises da saúde pública e nenhuma medida foi anunciada para salvar hospitais e pessoas que estão morrendo nas filas por falta de atendimento.

     

     

    Guedes é impiedoso no corte de recursos. O orçamento mínimo da Saúde, de R$ 121,2 bilhões, para 2020, por exemplo, está em vias de sofrer um corte de R$ 8,1 bilhões ou mais. O orçamento da Educação, para 2020, terá um corte de 17%.

     

     

    A pauta de costumes se esgota. Por exemplo, não se fala mais em “escola sem partido”. O Congresso faz sua própria pauta e se articula diretamente com Paulo Guedes. Uma reforma ministerial deve ser anunciada nos próximos dias, para trocar ministros bizarros e incompetentes por outros, como revelou a imprensa recentremente.

     

     

    O ministro Sérgio Moro, por ser possível concorrente de Bolsonaro nas eleições de 2022, deve sofrer duro revés com a reforma. A área da segurança pública, que estava lhe dando mídia positiva quase que diariamente, com anúncio de prisões de quadrilhas de tráfico de drogas, e outras ações semelhantes, será destacada do Ministério da Justiça e entregue ao Coronel Fraga, ex-deputado e amigo pessoal de Bolsonaro.

     

     

    Candidato de estimação da grande mídia, Moro foi vítima de outro golpe de Bolsonaro ao ver seu pacote anticrime, aprovado na Câmara, sofrer 25 vetos do presidente da República,  mantida a parte que trata do “juiz de garantia”, tida por Moro como uma das meninas dos olhos do projeto.

     

     

     

    Bolsonaro tem demonstrado que não quer ser também office boy do Moro.

     

    Moro até tentou passar para a Polícia Federal as investigações sobre corrupção de um dos filhos, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, as ligações da família Bolsonaro com milicianos, mas não conseguiu.

     

     

    Não se sabe se Moro queria a federalização das investigações para proteger o clã, a pedido do presidente ou se para fazer uma investigação rigorosa que levasse membros da família aos tribunais e assim liquidar Bolsonaro politicamente. O fato é que um quer destruir o outro silenciosamente.

     

     

    Parece que não há mais dúvida entre os nativos deste país de que Marielle e Anderson foram mortos por milicianos ligados à família Bolsonaro. O avanço das investigações coordenadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro está muito próximo de descobrir os mandantes. Pode ser que já tenha os nomes. O descontrole de Bolsonaro ao falar com  jornalistas na porta do Palácio da Alvorada é um sintoma de que algo grave deve acontecer nos próximos dias.

     

     

    O monturo fumega na cidade do Rio de Janeiro, queima por baixo, e desmorona aos poucos. Paulo Guedes, em Brasília, também avança dentro do governo, com seu office boy no posto, perturbado, aguardando papéis para assinar e o fim da queima do monturo fumegante, que pode fazer o seu governo transformar-se em cinzas.

     

     

  • Sérgio Moro perdeu o eixo e pode estar saindo de fininho

    O ex-juiz Sérgio Moro parece ter perdido o eixo com o fechamento do cerco contra ele. Pode estar ensaiando sair de fininho da vida pública, depois de ver sua imagem, tal qual a de boneco de arreia, ser desfeita na ventania política. Brasília não é para amadores.

    Para ser ministro do Supremo Tribunal Federal – um dos seus sonhos –, o provinciano ex-juiz precisaria passar pelo portal do Senado Federal. A chance minguou, é quase zero, depois da revelação das ilegalidades praticadas por ele, pelo procurador Deltan Dallagnol, e seus subordinados na operação Lava Jato.

    Sua possível candidatura à presidência da República foi descartada por Jair Bolsonaro recentemente, ao lhe oferecer a vice, num de seus gestos intempestivos, sem consultar Hamilton Mourão, que anda um tanto decorativo, como queria Olavo de Carvalho.

    Ainda no mesmo campo da direita e da extrema-direita João Dória e Rodrigo Maia estão ocupando quase todo o espaço. Na política não existe espaço vazio. Um desses possíveis candidatos, dependendo do que o jornalista Glenn Greenwald tem em seu poder, a ser revelado, sequer o convidaria para ser vice. Diz o jornalista Ricardo Noblat que Greenwald tem mais de 2 mil áudios das conversas entre integrantes da Lava jato.

    Ou seja, Sérgio Moro se perdeu no labirinto da política, sem partido, e ninguém parece querer dar-lhe a mão para a saída. Apenas usam o prestígio dele – agora rolando ladeira abaixo – e surfam na onda de combate à corrupção que ele criou, que deu sustentação para o golpe e para a eleição de Jair Bolsonaro.

    Querem o ex-juiz apenas para tirar proveito, como fez Bolsonaro no Maracanã, no jogo da seleção. Se nos áudios em poder de Glenn Greenwald forem revelados segredos mais indecentes, Jair Bolsonaro descartará Sérgio Moro com tapinha nas costas e um “passe bem”. Ele não é mais juiz e pode não ser mais candidato a nada. Estudar nos Estados Unidos talvez seja uma saída. Lá ele é amigo do rei.

    A última pesquisa Datafolha, a estrondosa vaia no Maracanã e as ilegalidades praticadas pela operação Lava Jato, divulgadas pelo site The Intercept, em parceria com o jornal Folha de S. Paulo, revista Veja, TV BandNews e o jornalista Reinaldo Azevedo, são fatos muito fortes. Devem ter abalado Sérgio Moro, levando-o a fazer uma parada para balanço do caminho percorrido até o Ministério da Justiça.

    Caso as novas revelações do conluio da Lava Jato com o ex-juiz sejam ainda mais graves, é possível que outros órgãos de imprensa descolem do alinhamento incondicional a ele e se juntem aos parceiros do The Intercept. A Globo tem dado sinais de que deve desembarcar.

    A economia vai de mal a pior, com o
    desemprego corroendo a popularidade de Bolsonaro e do desastroso governo. Agências internacionais como Bloomberg, Reuters e outras já noticiam até a possível queda de Paulo Guedes, devido a absoluta inoperância do governo diante do precipício da recessão, da falta de medidas que apontem saída da crise e volta do crescimento econômico. Ninguém aguenta mais fundamentalismo.

    O que o governo Bolsonaro está fazendo nas áreas econômica, do meio ambiente, educação, saúde, direitos humanos, segurança pública, entre outras, é indefensável numa campanha eleitoral futura.

    Prender o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, ou qualquer outra pessoa da equipe que investiga as ilegalidades da Lava Jato, seria mexer numa caixa de marimbondos. Seria comprar uma briga com jornalistas no Brasil e no mundo, na questão do direito sagrado à liberdade de imprensa, com consequências políticas imprevisíveis. Isso liquidaria definitivamente a imagem de Sérgio Moro, já bastante danificada internacionalmente.

    No segundo semestre, será instalada no Congresso uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (Câmara e Senado), para investigar as fake news.

    Respaldada pelo Supremo Tribunal Federal, que também investiga o caso, deve colocar para depor, no banco de inquisição, diante das câmeras, gente graúda do governo, políticos do PSL, partido de Jair Bolsonaro, empresários, pessoas envolvidas nesses crimes, que atuaram na campanha eleitoral.

    Como dizem no Congresso, “CPI, sabe-se delas quando começa. Mas nunca se sabe como acaba”, Em um mês de trabalho, com transmissão ao vivo, o desgaste do governo será devastador.

    No Tribunal Superior Eleitoral, arrasta-se um processo de investigação da campanha que elegeu Jair Bolsonaro, desde novembro de 2018.

    A denúncia é de que a campanha teria sido beneficiada pelo impulsionamento de fake news contra o PT, por empresas que prestam esse tipo de serviço e que teriam sido pagas com recursos de Caixa Dois.

    Dependendo do andamento das investigações da CPI, o TSE deverá enfrentar uma situação bastante constrangedora. Caso constatado o Caixa Dois pela CPI, ao tribunal restará a única alternativa, de cassar a chapa Bolsonaro-Mourão. Ou será decretado o fim da justiça brasileira, que anda mal aos olhos do Brasil e do mundo.

    No caso de cassação da chapa, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assumiria a presidência da República e, num prazo de 90 dias, o Brasil realizaria novas eleições. Assim determina a Constituição.

    Se Rodrigo Maia e David Alcolumbre estiverem à altura dos cargos que ocupam, se tiverem grandeza cidadã e percepção clara da gravidade situação do país, chamarão o povo para o grande debate da restauração institucional, para o restabelecimento do Estado democrático de direito e para decidir soberanamente sobre os destinos da nação.
    “Mais fortes são os poderes do povo”.

  • O escândalo da Lava jato é de conhecimento público em todo o mundo

    Foto: Lula Marques / AGPT

     

     

     

     

     

     

     

    O escândalo da “operação Lava-jato”, revelado pelo site The Intercept, -agora em parceria com o jornal Folha de S. Paulo, revista Veja, BandNews e Reinaldo Azevedo –, se espalha pelo mundo e é recebido com perplexidade nos núcleos centrais de governos de poderosas nações, de instituições como a ONU, em universidades e nos mais importantes centros de debate internacionais.

     

     

     

    O golpe de estado e as eleições no Brasil são objeto de estudos acadêmicos em várias universidades.  O caso brasileiro tornou-se referência como novo modelo adotado pelo serviço de inteligência dos Estados Unidos para intervir na governança de outros países, por corromper os sistemas policial, judiciário, parlamentar e de mídia, e constituir-se na mais perigosa ameaça à democracia no mundo.

     

     

     

    O escândalo da Lava jato causou tanta repercussão quanto a que revelou a rede de espionagem dos Estados Unidos, montada para monitorar chefes de estado e outras autoridades. Reportada, em 2013, pelo jornalista Glenn Greenwald, para o site WikiLeaks, com a colaboração do ex-agente de inteligência da NSA, Edward Snowden, rendeu-lhe o Prêmio Pulitzer, o mais importante prêmio de jornalismo do mundo. Outro Prêmio Pulitzer pode ser conquistado por Glenn Grenwald pelo extraordinário trabalho de jornalismo investigativo no Brasil.

     

     

     

    O ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol deviam deixar de lado o provincianismo, a arrogância, de tentar tapar o sol com a peneira. Deviam entender, de uma vez por todas, que eles estão lidando com um profissional que faz jornalismo, e por isso é respeitado internacionalmente. Glenn Greenwald está preparado e determinado a retirar, a cada semana, um dos véus que cobrem o escândalo da “operação Lava jato”.

     

     

     

    Não é mais suposição. Os diálogos conspiratórios entre procuradores, policiais, o coordenador da operação, Deltan Dallagnol, e o então juiz Sérgio Moro, provam que a Lava jato foi o motor do golpe de estado contra a presidente Dilma Roussef, da prisão do ex-presidente Lula e da eleição do capitão de extrema direita Jair Bolsonaro. Isso já está claro para as autoridades e para a mídia internacionais. Não há mais como abafar o escândalo.

     

     

     

    As informações estão sendo publicadas numa escalada crescente, conforme o grau de gravidade das ilegalidades para, evidentemente, se proteger dos ataques de desqualificação e tentativas de criminalização do trabalho de jornalismo investigativo, pelos sócios do golpe de estado.

     

     

     

     

    Os ataques dos detratores estão sendo rebatidos com provas cabais. Antes de serem divulgados, áudios e diálogos estão sendo periciados. Foi assim que Glenn Greenwald enfrentou agentes da NSA e autoridades do governo dos Estados Unidos quando revelaram a espionagem de chefes de estado, em 2013, no site WikiLeaks.

     

     

     

     

    A estratégia adotada por Glenn Greenwald, de divulgar também nas mais importantes redes da imprensa internacional, simultaneamente, colocou em xeque a mídia oligárquica brasileira, autoridades judiciárias e policiais envolvidos no escândalo.

     

     

     

    O Supremo Tribunal Federal tem agora, expostas na imprensa mundial, as flagrantes ilegalidades praticadas por Moro e Dallagnol, referendadas pelos desembargadores do TRF-4 e pelo próprio STF. Se quiserem sobreviver à intempérie da história, autoridades brasileiras e certos colaboradores da mídia, envolvidos no liame do serviço de inteligência dos Estados Unidos, devem abandonar a ilegalidade de uma vez por todas.

     

     

     

    Os jornais Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e a revista Veja, por exemplo, perceberam que quem estiver de mãos dadas com Moro e Dallagnol vai afundar junto com eles no turbilhão das provas do escândalo que começa a arrastar a “operação Lava jato” para o fundo do pântano.

     

     

     

    Os editoriais dos jornais e as capas das revistas são sinais claros de recuo e de que, nos próximos dias, a divulgação dos áudios provará definitivamente o conluio do ex-juiz Sérgio Moro com procuradores e policiais. Com isso, TVs, rádios, jornais e revistas podem não conseguir permanecer na posição de proteção dos militantes da Lava jato e se juntarão ao The Intercept, Folha de S. Paulo, revista Veja, BandNews e ao jornalista Reinaldo Azevedo.

     

     

     

    Cada onda de ataque de desqualificação do trabalho jornalístico será respondida com provas. A “operação Lava jato”, o golpe de estado que derrubou a presidente Dilma Roussef, a prisão do ex-presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro são um escândalo internacional a céu aberto, que serve de alerta a outras nações, do risco que corre a democracia no mundo.

     

     

    O esforço da sociedade brasileira nesse momento deve voltar-se para o resgate das instituições das mãos dos vândalos, travestidos de combatentes da corrupção. Restabelecer a legalidade e a justiça, esteio da democracia.

  • Bob Dylan, na asa do vento

    Luiz Clementino
    21 de junho às 21:28

    PRÓLOGO


    Na década de 1960, o clima artístico nos USA, apresentava um cenário voltado à igualdade racial e de direitos. A guerra no Vietnã era contestada, onde aviões B-29 disparavam toneladas de bombas em populações civis, semeando morte e destruição. Milhares de jovens norte-americanos eram recrutados, e morriam sem nunca entender o porquê de tanta violência.


    • O pastor Martin Luther King tinha um sonho, que todos cidadãos fossem iguais. Malcom X, defensor do Nacionalismo Negro, lutava a favor dos direitos dos negros. O cantor folk Peter Seguer e a bela chicana Joan Baez trovejavam as injustiças. Jack Koreac e Allen Ginsberg inovavam na literatura pop. No esporte, o fabuloso Classius Clay recusou sua convocação para guerra e renegou seu nome norte-americano, adotando o nome islâmico Muhammad Ali-Haj. No cinema, Marlon Brando e Montgomery Clift mostravam nova forma de atuar pelo método da famosa escola de arte cênica Actors Studio.


    Surge o incomparável fenômeno musical, The Beatles, inovando todo o cenário pop internacional, enquanto os Rolling Stones apresentavam um revival de blues raiz do Mississipi, eram jovens branquelos cantando como negros.


    Era época de quebrar as regras, de liberdade de expressão, de contestar, de viver livres das amarras convencionais de uma sociedade capitalista.


    Então neste contexto, surge encantando a todos, um garoto franzino de olhos azuis, com violão, gaita e voz, cantando lindos poemas em defesa dos direitos civis, no mais puro revival folk raiz. E o fascínio foi tão grande que todo esse movimento artístico rebelde, encharcado de insatisfação contra o establishment é afunilado em sua pessoa e em sua bela arte.


    E não deu outra. Bob Dylan foi adorado e venerado, tornando-se um ícone da elite folk. Sua fama cresceu e foi além das fronteiras, chegando em todo o planeta. Todos queriam saber sua procedência. E em seu primeiro e estupendo sucesso, DYLAN cantava em versos:

    “Quantas estradas um homem precisará
    Até que possam chamá-lo de homem?
    Sim, e quantos mares uma pomba branca precisará voar
    Até que ela possa descansar na areia?
    Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar
    Até serem banidas para sempre?”


    E o fato é que a música “Blowin in The Wind” representou e representa a abominação à violência social em todo o mundo. E outra coisa, como o tempo atua em favor dos artistas, essa canção, com o passar de décadas cresceu, consolidou-se e hoje é um hino poderoso e atual.


    E nós geração de adolescentes, que vivemos a época, a coisa ficou cravada para sempre em nossos corações e mentes. Até hoje nos encanta.


    Muitos grandes cantores a gravaram. Aqui no Brasil, Zé Ramalho e Diana Pequeno cantaram suas versões. Dentre muitos, selecionamos as versões do maravilhoso Trio Peter, Paul and Mary e também a versão original do próprio Dylan, com violão gaita e voz anasalada. Por favor não deixem de conferir, impossível não se emocionar:

    https://www.youtube.com/watch?v=aJE9rMZm-zE Peter, Paul and Mary
    https://www.youtube.com/watch?v=MMFj8uDubsE original
    https://www.youtube.com/watch?v=Ocd8bM5L3oQ
    Bob Dylan completou 74 anos mês passado. Agora, em nova turnê, documentada novamente em filme de Martin Scorsese, “Rolling Sthunder Revue”, vejam o trailer:

    https://www.youtube.com/watch?v=PS4gsWDSn68

    Bob Dylan

    Robert Zimmerman, cidadão do mundo, nome artístico BOB Dylan, considerado o maior poeta da história do rock, um cara sério com um fascinante trabalho, porta voz de toda uma geração.

    A quintessência da expressão da arte, vive e se mantem ativo em função da sua criação. Porém tudo isso, parece que não é significativo para Dylan, o negócio é criar, inovar, produzir canções e versos belíssimos, o cara é uma lenda viva, um monstro sagrado, ouvido e admirado nos 4 cantos do mundo, admirado e cultuado pela nata da nata do rock.

    Autêntico camaleão no cenário musical internacional, artista de mil facetas e de vários estilos musicais, tudo coerente com seus sentimentos. O universo é mutante e dinâmico, DYLAN também é, não há estagnação ou repetição, em sua arte. Maravilhosas canções de outrora, parece que não tem significado para esse músico.

    Cantar antigos sucessos, nem pensar, isso é passado, o que importa é próxima criação, é o novo som, que brota do fundo de sua alma, muitas vezes totalmente diferente do anterior, gostem ou não. O cara é uma mina de ouro de altíssimo quilate, onde o veio nunca tem fim.

    Em sua longa trajetória, foi um puro cantor e compositor folk de protesto, depois transformou-se em um roqueiro desafiador, quebrando as estruturas tradicionais, gerando espanto e ódio naqueles que o admiravam.

    Noutra ocasião era judeu ortodoxo e afirmam que chorou no muro das lamentações em Jerusalém, depois cristão católico fervoroso produzindo álbuns totalmente diferente do anterior, mas com a mesma energia cativante.

    Será um niilista ou um homem tentando canalizar a alavanche de sensibilidade que vem através de sua pessoa?

    O cara é uma metamorfose ambulante!
    O que impressiona em Bob Dylan é que, durante quase meio século, entre seu primeiro disco em 1962 até os atuais, foram em torno de 50 álbuns, fora as coletâneas, seu estilo mudou constantemente: folk, country rock, country, blues, rock, rockabilly, R&B, gospel, soul e reggae e por aí vai. Porém, o som produzido em conjunto com a obra poética, mantém uma qualidade espantosa, muita autencidade, simplicidade, sentimento e beleza. Tudo compatível com uma introspectiva visão particular vigente em cada momento.

    Mas para chegar a esse ponto, Dylan teve um grande mestre, que o fascinou e o atingiu como um raio, um músico que lhe abriu uma trilha sólida e determinou que rumo a tomar, seu nome, o Woody Guthrie o lendário trovador. Esse cara era fabuloso, tinha uma consciência social que desafiava o Estado. Cantava contra as injustiças nos sindicatos, nos campos de colheita de algodão, era aliado aos negros, e nas manifestações populares. Para se ter ideia, em seu violão era cravada uma frase: “Máquina de matar fascista”.

    A ascendência desse grande artista sobre Bob Dylan no seu período revival folk, foi tão intensa que Dylan se apresentava com a mesma roupagem de seu ídolo, haja visto que suas imagens em um dos primeiros LPs, “The Times They are Changin” foram copiadas de fotos de Woody Guithrie. E em seu primeiro vinil compôs a canção “Song to Woody”:
    https://www.youtube.com/watch?v=lOWfCVQBixs

    De acordo com seus biógrafos, outras influencias vão desde a tradicional família Carter ao trovador Hank Willians, passando pelos bluesmen do Mississipi, e roqueiros negros até chegar no grande Elvis.

    No sentido de melhor assimilar o que vamos comentar a seguir, abro aqui um parênteses. Houve tempos atrás no universo musical, uma batalha homérica entre violão acústico versus guitarra elétrica. A patota do violão não aceitava a guitarra, e vice versa a recíproca era verdadeira.

    Aqui no Brasil, por exemplo, a MPB considerava sacrilégio introduzir a guitarra em suas músicas. Quando Caetano Veloso cantou e tocou “Alegria, Alegria”, no Festival da Record no ano de 1967, foi um reboliço sem tamanho. Nos USA a mesma coisa ocorria, o Folk Raiz era somente no violão acústico.

    E aconteceu que Bob Dylan, abalando toda estrutura dos artistas puristas do violão acústico, no qual pertencia, muda repentinamente, e ninguém entende pôrra nenhuma. Surge com álbuns eletrificados e nos festivais toca com banda de blues-rock, chocando Deus e o mundo. Uma tragédia não anunciada, e de amado virou odiado. De herói virou traidor, foi chamado de Judas, “filho da puta” e tudo mais, e pagou um preço alto. Seu passado, que ele próprio escondia inventando histórias fantasiosas e estereotipadas, no intuito de construir uma falsa imagem, é desmascarado pela mídia.

    Em reportagem sobre sua vida de , visitam sua cidade natal no Natal, e constatam que se trata de um judeu, ou seja, o grande líder de protesto, não passava de um mentiroso. E o tempo fechou para o seu lado com cobranças, pichações, ódio e decepções. Assim, ele esbraveja o refrão na canção “Like a Rolling Stones”:
    “você está invisível agora,
    você não tem mais segredos a esconder…
    como você se sente,
    estar completamente desconhecido, sem um lar,
    vivendo como as pedras que rolam.”

    https://www.youtube.com/watch?v=9JLKOexqyms original
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    Em decorrência de tanta pressão e cobranças, Bob Dylan pira de vez, surta e, para complicar, tem um sério acidente de moto. Aí se retira do cenário pop internacional. Desaparece do mapa, a imprensa especula, investiga e cala, e quem acompanhava seu trabalho, fica apreensivo. Tempos depois aparece em apresentações efêmeras. No festival da ilha Wight, é visível sua insegurança, também teve participação no Concerto beneficentes de Bangladesh, organizado por George Harrison e Ravi Shankar.


    Após alguns anos, retorna com carga total em uma turnê que gera um álbum ao vivo “Before the Flood”, com o conjunto canadense The Band. A capa desse vinil é uma bela foto da platéia com velas. O resultado desse trabalho, é de um vigor e uma energia admirável, as baterias foram recarregadas, ele canta com fúria, dedilhando vorazmente a guitarra, como melhor lhe convém, desafiando a tudo e a todos. E por que não? “Eu sou apenas um músico!!!”. Estava livre para voar bem alto.
    Daí não teve mais volta. Bob Dylan não olhou mais para trás e nadou e nada hoje num grande oceano de várias maneiras e em muitas profundidades. Diz em entrevistas:
    “eu não podia continuar sendo aquele cantor solitário, dedilhando hinos folks acústicos durante três horas todas as noites”.

    Outro fato interessante que merece comentário é um seguinte: Em 1973, Bob Dylan compôs a trilha sonora do filme “Pat Garrett e Billy The Kid”, direção de Sam Peckinpah com atuações de James Coburn, Kris Kristofferson , o próprio Dylan e a saudosa atriz mexicana Katy Jurado, entre outros. O tema musical é latino-mexicano com baladas country onde se destaca a belíssima “Knockin’ on Heaven’s Door” :

    https://www.youtube.com/watch?v=yjR7_U2u3sM

    A produção artística desse músico, é caracterizada pela espontaneidade de sua obra, nada é pautado ou projetado, tudo escoa de um campo não racional. Tentar moldá-lo em padrões intelectuais pré-estabelecidos e exigir continuidade de uma fase, é um grande erro. Deixe o cara trabalhar em sua arte, ele nasceu pra isso, e, ademais, o produto é extremamente gratificante.

    Porém, a preocupação com as injustiças permaneceram, quando Dylan abraçou a causa do pugilista Rubin “Hurricane” Carter, condenado injustamente por assassinato. Em uma longa balada com direito a violino, violão e gaita, é narrada a verdadeira história do “furacão”, denunciando a grande sacanagem que aprontaram para um cidadão negro que poderia ser campeão mundial dos pesos médios. A canção foi sucesso mundial, e interferiu substancialmente para que a condenação fosse anulada e a injustiça reparada. Talvez ele tenha razão quando disse em não permanecer por toda uma vida cantando belas canções de protesto acústicas, de maneira demagógica.
    https://www.youtube.com/watch?v=bpZvg_FjL3Q

    Outra coisa, Bob Dylan tinha grande admiração por Johnny Cash, tanto é, que no documentário Bob Dylan-No Direction Home, de Martin Scorsese, afirma que Johnny Cash foi uma espécie de Deus para ele , e que mal conseguiu dedilhar seu violão ao tocarem juntos, tamanha era a emoção. Existe um efêmero vídeo de ambos bêbados, cantando uma canção de Hank Williams, com Dylan ao piano. Posteriormente os dois gravaram juntos no álbum “Nashiville Skyline”, e outras canções do “Homem de Preto”.
    https://www.youtube.com/watch?v=UYKS0jZpARI
    https://www.youtube.com/watch?v=g77wH68dFC8

    Anos atrás, fomos vê-lo em apresentação ao vivo, e mais uma vez o camaleão mudou de cor, apresentou um rhythm and blues vigoroso, tocando guitarra, gaita e teclados, com excelentes músicas desconhecidos. A coisa não funciona como “Bob Dylan e Banda”, e sim uma banda na qual Dylan é também um integrante, parece que só assim tem sentido suas apresentações. Mega apresentações, telões, holofotes, hits antigos, como também, artefatos piroténicos, não é seu estilo. Mas, a bem da verdade, tocou a antológica “A Like Rolling Stones”, com um arranjo tão belo e diferente, que mais parecia outra canção, e no meio da música Margareth perguntou: é “a like Rolling Stones. Há sim, Bob Dylan antes de tudo é um chato, não deixou eu entrar com a câmera.

    Para encerrar citamos que, o crítico de música Bill Flanagan, editor da revista “Musican” dos USA, escreve em seu livro “Dentro do Rock:
    “Anos atrás a Columbia Records, sua gravadora, promoveu uma festa em sua homenagem. Compareceram os velhos folkies: Judy Collins, Arlo Guthrie, Roger McGuin, a primeira fornada de punks: Lou Reed, John Cale, Iggy Pop, roqueiros britânicos: Peter Townshend, David Bowie, Ian Hunter, os grupos: Talking Heads, The Band e também: Martin Scorsese, Harvey Keitel, Yoko Ono, Roy Orbison, John Hammond Jr. e Jerry Wexler.” Todos eles concordaram que tinham uma dívida de gratidão com Bob Dylan, não somente por grandes artistas de vários segmentos, como também todos nós que adoramos música. E com simplicidade afirma em uma das canções:
    “os grandes livros foram escritos, os grandes ditos foram ditos e só quero tentar pintar um quadro do que acontece aqui de vez em quando.”
    Sabemos com toda certeza que Dylan fez muito mais que isso. Ninguém tem uma definição satisfatória de sua obra, seu trabalho advém de várias direções e de formas diferenciadas, sem dimensões ou limites. E como podemos entender essa “máquina azeitada de criatividade”, um cara que sempre renasce, com nova estrutura musical? Bem, aí teremos que retornar à estaca zero afirmando: a resposta meu amigo, está soprando com o vento…

    Considerações finais:

    -perguntado ao músico Bono Vox, do U2, como poderia definir Bob Dylan afirmou: “é como uma grande pirâmide, que sentamos e apreciamos.”
    -Jimmi Hendrix afirmava algo assim de Bob Dylan: “incrível diz coisas fabulosas e desafinado.”


    -na adolescencia eu ouvia muito Dylan, na fase folk, (violão e gaita) em vinil, na casa de meus pais. De tanto ouvir, certo dia, meu querido pai, nordestino da gema, o Dr Luiz, que tá no céu, perguntou: meu filho, esse rapaz é cego?

    PS-1 – sobre Woody Guithrie :
    Nos anos 1930, os Estados Unidos passava pela época da “grande depressão”, e muitos americanos viajavam para a Califórnia em busca de emprego e melhores condições de vida. O cantor e compositor Woody Guthrie foi um desses migrantes, que saiu do devastado Texas para encontrar trabalho e, durante sua busca, acabou descobrindo a força e o sofrimento que há na classe trabalhadora americana. Guthrie, não somente um excelente músico, como também um texano rebelde e brigão, em vez de querer o sucesso fácil do rádio, procurou conscientizar politicamente a população humilde dos Estados Unidos. Isso é narrado no filme “Essa é Minha Terra” , de 1976, com interpretação de David Carradine o (Kung Fu da TV) vejam o trailer e a interpretação de seu grande sucesso “This Land Is Your Land”:
    https://www.youtube.com/watch?v=gNled6wh18c trailer
    https://www.youtube.com/watch?v=wxiMrvDbq3s This Land Is Your Land
    ,

    PS- 2 – Com relação ao The Band, em novembro de 1976, uma grande festa aconteceu em São Francisco com presença de Dylan. Ele foi uma espécie de padrinho do conjunto. Um concerto aconteceu para comemorar então, o final da carreira ao vivo do grupo, porém virou uma grande celebração. O evento reuniu vários convidados especiais, entre eles: Paul Butterfield, Eric Clapton, Neil Diamond, Emmylou Harris, Ronnie Hawkins, Dr. John, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Ronnie Wood e Neil Young, como também o bluesman Muddy Waters. Apesar dos contratempos, foi sem dúvida um grande momento do rock. Em alto astral, os convidados executaram canções do grupo e próprias, e no encerramento todos no palco cantaram em uníssino I Shall Be Released, de BOB DYLAN. Tudo registrado magistralmente por Martin Scorsese, que conseguiu transmitir todo o maravilhoso clima, apesar de muita loucura. Tanto é fato, que LAST WALTZ é considerado um dos melhores filmes de rock já feitos. Foi lançado um álbum triplo em 1978, e o documentário relançado em DVD em 2002.
    Para se ter uma idéia de toda piração, consta na internet:
    “ …Scorsese admitiu posteriormente que durante esta época estava viciado em cocaína. Drogas estavam presentes em grandes quantidades durante o concerto. Nos bastidores, um cômodo foi pintado de branco e decorado com narizes tirados de máscaras de plástico, enquanto uma fita de áudio com ruídos de inspiração era tocada ao fundo. No momento que Neil Young entra no palco, e canta seu mega sucesso Helpless, com violão e gaita, a camera em close, capta uma bolha de cocaína saindo do seu nariz. Tudo porém foi removido posteriormente, na edição final, através de rotoscopia durante o processo de pós-produção.”

    http://www.youtube.com/watch?v=be6ONrqyqGg&feature=channel