Blog

  • JOÃO DO VALE: o Poeta do Sertão

       

                                                                                                        (*)  Por luiz clementino

     

    João do Vale

     

    Ôxente!!! Cunversa!!! Já viu “pau de arara” num passá fome no caminho?

     

     

     

    Nas injustiças sociais do semiárido nordestino, a arte florou de um artista esplêndido, falecido há dezenove anos, que cantou as dificuldades e desigualdades conhecidas e vivenciadas por ele como sertanejo pobre e maltratado: JOÃO DO VALE, nascido em Pedreiras, em 1934, no interior do Maranhão. Um verdadeiro “Rebelde com causa”.

    Vejam bem, para início de conversa, João não sabia escrever, tinha as músicas e as letras de suas composições (mais de 600), na cabeça. Com todas as dificuldades, com talento e sensibilidade extraordinárias, chegou ao topo, admirado e cantado pela alta roda da música popular brasileira. Foi grande em meio aos grandes. Entre muitas atividades, participou do show OPINIÃO, com Nara Leão, Zé Keti e muitos outros famosos, assistido por mais de 25 mil, pessoas somente no Rio de Janeiro. Nesse espetáculo Maria Bethânia iniciou sua carreira como cantora com a música Carcará, composta por ele.

    Chico Buarque produziu e participou de dois discos maravilhosos em sua homenagem com as participações de Alcione, Alceu Valença, Chico Buarque, Ednardo, Edu Lobo, Fagner, Geraldo Azevedo, Ivon Cury, João Bosco, Luiz Vieira, Maria Bethania, Marinês, Miucha, Paulinho da Viola, Quinteto Violado, Sivuca e Ze Ramalho. É mole? Poucos têm tanto prestígio. Intelectuais, poetas, cineastas de todo o país o veneravam. O maestro Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Morais tinham grande admiração por João do Vale. As versões de “Minha História”, cantada por Chico e com arranjos das flautas e banda de pífanos, é bacana pra caramba. Os violinos e toda orquestração em “Carcará”, com introdução da toada “Os Olhos da Cobra Preta”, arranjado por Edu Lobo, é um belo tributo. Geraldinho Azevedo cantando “Coronel Antônio Bento”, com sanfona, e um solo de guitarra, fazem um belo “xote-rock”. Posteriormente o saudoso e estupendo, Tim Maia, o senhor “Me dê Motivo”, responsável pelo “soul brasileiro”, com seus 120 quilos de sensibilidade, regravaria, com sucesso nacional.

     

     

    João do Vale e Chico Buarque

     

     

    Homenagens e resgate de sua história seguiram-se após sua morte, como o livro Pisa na fulô, mas não maltrata o carcará, de Marcio Paschoal (Editora Lumiar); o CD Carcarás da Cidade – Um tributo a João do Vale, lançado pelo selo da Prefeitura de Nova Iguaçu, onde João do Vale morou por cerca de 20 anos; João do Vale mais coragem do que homem, de Andréa Oliveira (Edufitia) e o documentário João – muita gente desconhece, de Werinton Kermes, maravilhoso!

    Suas composições são de um realismo impressionante, expressado pela vida difícil do sertão em poemas biográficos. A canção CARCARÁ, que projetou Maria Bethania nacionalmente, é de uma realidade chocante. O carcará é uma ave de rapina agressiva, um predador voraz, considerado o pássaro malvado do sertão. Nos versos de João ele diz que no flagelo da seca, onde há fome e morte, esse pássaro cruel come até cobra queimada e os bezerrinhos recém-nascidos. O bicho ataca no umbigo até matar.  No refrão, constata que o homem morre de fome no sertão, porém, o “carcará não vai morrer de fome”:

    Carcará

    Lá no Sertão

    Carcará

    Pega, mata e come
    Carcará
    Num vai morrer de fome
    Carcará
    Mais coragem do que home

    Pega mata e come

     

    https://www.youtube.com/watch?v=qA353PWwqd8 – carcará Maria Bethania

     

    Opinião

     

     

    Em  SINA DO CABLOCO, ele não aceita ser “meeiro” e vai embora para o Sul:

    Mas plantar prá dividir
    Não faço mais isso, não.
    Eu sou um pobre caboclo,
    Ganho a vida na enxada.
    O que eu colho é dividido
    Com quem não planta nada.
    Se assim continuar
    vou deixar o meu sertão,
    mesmos os olhos cheios d’água
    e com dor no coração.

     

     

    É interessante registrar, que nessa época de moleque, João do Vale vendia pirulito e outras guloseimas, era chamado de “menino do pirulito”. Criou, então, um refrão para aumentar a venda, assim:

     

    Pirulito

    Enrolado no papel

    Enfiado no palito

    Papai eu choro

    Mamãe eu grito

    Me dê um tostão

    Pra comprar um pirulito

    Quando João e seu irmão Guariba, que tinha pouca grana, saiam para paquerar as mulheres, João compôs uma toada fazendo brincadeira com o irmão, que posteriormente seria sucesso com sanfoneiros do nordeste, que cantavam:

     

    Mané macaco

    Mané Guariba

    Dinheiro pouco

    Não sustenta rapariga

     

    O talento de João do Vale era nato, estava no sangue, nada poderia deter seu processo criativo.
    Meu samba é a voz do povo

    Se alguém gostou
    Eu posso cantar de novo

     

    show-opiniao

     

     

    Há alguns anos, eu fotografava com um equipe de trabalho no interior do Maranhão, quando constatamos que estávamos a 50 km de Pedreiras. Resolvemos conhecer a cidade natal de João do Vale. Nos dirigimos até a casa onde ele viveu. Hoje funciona um restaurante administrado pela viúva. Conversei com pessoas da cidade e muitas histórias desse admirável artista foram narradas. Fomos à famosa “Rua da Golada”, onde se passa o forró descrito no xote “PISA NA FULÔ”. É na verdade a zona da cidade, a casa das primas. Lembrei de uma entrevista onde ele afirmou com orgulho, que o puteiro passou a chamar-se, oficialmente, RUA  COMPOSITOR JOÃO DO VALE.

     

    Existem fatos obscuros em sua vida, que João não gostava de comentar. Parece que fugiu de casa por alguma razão, e isso o emociova e o levava às lágrimas, principalmente quando se referia a sua mãe. Saiu muito cedo de Pedreiras, foi pra S. Luis, andou pela Bahia, Ceará, Piauí, Pernanbuco, Minas e Nova Iguaçu, trabalhou em garimpo, e chegou ao Rio de Janeiro como ajudante de pedreiro. À noite tentava contato com cantores famosos, que interpretavam, no rádio, canções do seu feitio.

    João relata, em entrevista, como largou tudo para se dedicar somente à música. Nessa ocasião, trabalhando em obra, numa casa ao lado, a vitrola da vizinha não parava de tocar a belíssima toada ESTRELA MIÚDA, na voz de Marlene. O radialista dizia “Escutem por favor essa maravilha na versão de Maria Bethania, com Jaime Alem no violão”. João virou para o mestre de obras e perguntou:

    – O senhor gosta dessa música?

    – Gosto, respondeu o patrão.

    – O senhor sabe de quem é?

    – Não. De quem é?

    – É minha, disse João.

    -Então, o patrão bronqueou:

    – Nego tá delirando, bota a massa e vai trabalhar.

     

    João disse que ficou tão puto da vida que largou o balde no chão, e a partir daí, deixou aquela vida e dedicou-se de vez à carreira artística.

     

    Seus xotes e baiões são bem estruturados, com letras de interpretações ambíguas, cômicas e maliciosas como NA ASA DO VENTO, PIPIRA e muitas outras. No baião PEBA NA PIMENTA, a história se passa em uma festa, onde no almoço o cardápio é tatu peba na pimenta. Dona Benta fica receiosa em comer, porém seu Malaquias afirma categoricamente que “pimentão não arde não”. E o refrão envolvente, com interpretação dupla no ritmo e na rima diz:

     

     

    Benta começou a comê
    A pimenta era da braba
    Danou-se a ardê
    Ela chorava, se maldizia
    Se eu soubesse, desse peba não comia
    Ai, ai, ai seu Malaquia
    Ai, ai, você disse que não ardia
    Ai, ai, tá ardendo pra daná
    Ai, ai, tá me dando uma agonia
    Ai, ai, que tá bom eu sei que tá
    Ai, ai, mas tá fazendo uma arrelia

     

    https://www.youtube.com/watch?v=WZo1LVTQOmo peba na pimenta – marinês

     

     

     

    Como grande parte do meu trabalho fotográfico, é junto às comunidades carentes do nosso extenso país, percebe-se essa desigualdade. Ou seja, somos maiores exportadores de alimento do mundo (carne, grãos e café), e milhões de cidadãos passam não só fome como outras necessidades básicas, “o carcará não, pega mata e come, num vai morrer de fome, mais coragem que homem”. O absurdo é de tal maneira, que quem explora os excluídos, acha perfeitamente normal, e quem é explorado também acha natural. Desprovido de qualquer ideologia religiosa ou partidária, sou testemunha ocular e tele-ocular, que os programas sociais, beneficiou e beneficia os que vivem nessas condições. Em qualquer país desenvolvido, a cidadania começa alimentando os carentes. Nos EUA, mesmo com toda política externa nociva, o governo forneceu alimento para os cidadãos durante anos na grande depressão de 1929. O Japão distribui dinheiro aos desempregados devido à grande crise financeira de 2008, e muitas outras nações fazem o mesmo. Aqui não, essa praga do discurso “politicamente correto desprovido de preocupação social”, dos bem vestidos, dos bem empregados e bem alimentados, de que não se deve alimentar os famintos, com argumento sofismático e intelectualizado, que qualquer ajuda sustenta a malandragem, é característica de povo atrasado, elitizado, não humanistas, e de donatários hereditários. Os excluídos ajudaram a construir nosso país, como nenhuma outra população, e nada foi-lhes dado em troca.

    Nossa memória histórica registra, que essa mesma conversa também aconteceu com os mercadores de escravos, quando se sentiram prejudicados com a lei áurea, ficaram furiosos, queriam indenização, e, posteriormente, com as leis trabalhistas de Getulio Vargas , os patrões acharam absurdo, férias remuneradas, carteira de trabalho, pagar horas extras, etc. Outra coisa, claro que a educação é fundamental, MAS NINGUEM APRENDE A LER E A ESCREVER COM FOME. Quando deixamos nossos filhos e netos na escola, eles vão bem alimentados.

    Esses moradores esquecidos desconhecem o direito ao alimento, ao ar puro, à moradia e ao trabalho digno. Não estão concientes que a má remuneração, o desrespeito, o preconceito, a discriminação, a ofença moral, e a dependência, são outras formas de escravidão. Outro fato impressionante, flagelo da fome é hereditário, vem de pai para filho a séculos.

    JOÃO DO VALE é um exemplo de vida em nosso país, principalmente para nós que não conseguiríamos viver sem música. Peitou, com sua arte, todo esse insensato sistema, essa má distribuição de renda crôica e secular, sem ódio ou rancor, porem com tristeza, resignação e poesia.      Afirmava que sua música era mistura de sua região e do seu povo. Toda essa realidade cruel o marcou profundamente e mesmo tendo vencido “a parada”, seu humanismo é comovente, demonstrado na toada “MINHA HISTÓRIA”, gravada também por Chico Buarque.

    Como o “menino do pirulito” aos 11 anos não podia frequentar a escola, pois trabalhava na rua pra ajudar em casa, mais tarde escreveu e musicou “MINHA HISTÓRIA”, onde é relatado esse fato, como também a preocupação com os amigos de infância que moram no sertão. Vejam que maravilha:

    Seu moço, quer saber, eu vou cantar num baião
    Minha história pra o senhor, seu moço, preste atenção

    Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
    Enquanto eu ia vender doce, meus colegas iam estudar
    A minha mãe, tão pobrezinha, não podia me educar
    E quando era de noitinha, a meninada ia brincar
    Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho contar:
    – O professor raiou comigo, porque eu não quis estudar

     

    Hoje todo são “doutô”, eu continuo joão ninguém
    Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser vintém
    Ver meus amigos “doutô”, basta pra me sentir bem
    Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho que eu fiz,
    Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem bis
    E dizem: João foi meu colega, como eu me sinto feliz
    Mas o negócio não é bem eu, é Mané, Pedro e Romão,
    Que também foram meus colegas , e continuam no sertão
    Não puderam estudar, e nem sabem fazer baião!

     

    https://www.youtube.com/watch?v=fOF-KoPiHzw – minha história

    https://www.youtube.com/watch?v=FXHTksch4Hg    estrêla miuda-maria betania

    https://www.youtube.com/watch?v=Pq0MhIZIwqg   pisa na fulô

    https://www.youtube.com/watch?v=Vjm1M5UA7yg coronel antônio bento – tim maia

    https://www.youtube.com/watch?v=4poHPINYuFQ carcará – nara leão

    https://www.youtube.com/watch?v=yHpIMb1JrRs peba na pimenta – joão do vale

    https://www.youtube.com/watch?v=y3T2Pk0E4rs muita gente desconhece – documentário

  • Livrai-nos do mal

    ataque-paris38

     

     

    A escalada de atentados reivindicados pelo movimento denominado Estado Islâmico (EI) na França é apenas a ponta do iceberg que emerge das profundezas das águas turvas que se espraiam pelo mundo.

    O Estado Islâmico não está só. Outras organizações religiosas se proliferam no mundo, com o mesmo ranço de intolerância, ocupando o espaço deixado pelas deficiências da educação, dos partidos políticos e de outras organizações sociais da sociedade em crise.

    Pelo andar da carruagem, em breve podemos ter aqui um Estado Evangélico.

    As balas que cortaram os corpos dos franceses, em nome de Deus, são a expressão do atraso organizado, de sociedades que ainda vivem regidas por códigos religiosos e empresariais, de Estados teocráticos.

    Religião e guerra, mãe e filha, são heranças tribais que ainda persistem e mantém o mundo refém do medo, da opressão e da dominação.

    Os ataques na França são contra o Estado laico, os valores laicos, a educação laica.

    São movidos pelo fundamentalismo, filho da verdade absoluta, besta do apocalipse que vive nas trevas sob as brumas do conservadorismo.

    Mas não é só isso. A França está metida na guerra da Síria, do Iraque e de outros países, onde as bombas derramadas sobre o povo sírio, sobre mulheres, crianças e idosos, já mataram mais de 210 mil pessoas.

    crianças da síria

     

    Mas, por que diabos as bombas e balas que cortam os corpos das populações da Síria, do Iraque, da Líbia, da Palestina e de outros países da região não comovem o mundo?

    Seria porque o mundo estaria anestesiado pelo noticiário editado pelas agências de notícias ocidentais, que demonizam os alvos antes dos ataques para justificar as intervenções militares?

    Essa pergunta ferve o mar das controvérsias.

    Mãe e filho na guerra

     

    A França não é santa. Já foi o país da guilhotina e das fogueiras da inquisição. Cabeças rolaram, hereges, queimados vivos em praça pública.

    As primeiras execuções da inquisição, que se espalharam em seguida pela Europa, surgiram no sul da França, em 1184.

    Joana D’Arc, padroeira da França, canonizada em 1920, quase cinco séculos depois de sua morte, era uma camponesa analfabeta, chefe militar, mártir e heroína de seu povo.

    Foi queimada viva em 1431, em praça pública, por autoridades eclesiásticas e civis, na inquisição, por ter se insurgido contra a igreja católica.

    http://www.kommunicera.umea.se/hemma/mathias/

     

    Se formos escarafunchar a história da França e de outros países colonizadores, para trazer à tona as barbaridades praticadas, em nome de Deus, contra os povos colonizados, vamos perceber que a ponta do iceberg, que abalou Paris, na sexta-feira 13, emergiu de um mar de sangue.

    Mas nada disso, absolutamente nada disso, justifica os atentados do Estado Islâmico contra pessoas inocentes. É inadmissível e merece nosso repúdio.

    É justo que se faça ressalvas a povos muçulmanos que não se alinham com o EI e que não concordam com as ações terroristas.

    Apesar do passado sangrento, a França superou o atraso, tornou-se uma das mais belas e importantes nações do mundo.

    Além da enorme contribuição para a civilização da humanidade, a França é mãe da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão.

    Paris

     

    Um país aberto aos demais povos por princípio constitucional, que acolhe todas as etnias, todas as culturas e religiões. E devia ser respeitado por isso.

    A República Francesa é definida como indivisível, laica, democrática e social pela sua constituição.

    Porém, a França sempre esteve metida em guerras por interesses econômicos, políticos e estratégicos, aliada a países como os Estados Unidos, que ainda vivem com a mão no coldre, estendendo seus tentáculos, suas empresas transnacionais, no domínio dos mercados, no caso, do petróleo. Por isso, também, sofre as consequências.

    O EI é filho da CIA, assim como Saddan Houssein, Bin Laden e outros aliados dos Estados Unidos na divisão do poder interno nos países de origem, para viabilizar interesses geopolíticos e empresariais do ocidente. Todos, posteriormente, transformados em inimigos.

    Guerras são negócios. Movem cadeias produtivas gigantescas. Empresas se organizam, se associam, para participar da destruição e da reconstrução de países.

    Hoje, as regiões de países de orientação muçulmana são palco de guerras permanentes.

    Sob o pretexto de combater o extremismo religioso, países aliados dominam as maiores jazidas de petróleo do planeta.

    Deuses e diabos se entendem quando o assunto é guerra.

    O Deus de Deus e do Diabo é o capital. E o mundo, nessa cena infernal, além de vítima é expectador da tragédia humana.

     

  • A UDN não tolera a democracia

     

    Mulheres simpatizantes de Jânio Quadros aparecem com vassouras, símbolo sempre vinculado ao seu nome

     

    Há muito tempo a “velha UDN” trocou os oratórios de madeira, que faziam parte do mobiliário das salas das residências, por aparelhos de televisão.

    As orações da boca da noite deram lugar às telenovelas e aos telejornais.

    As telenovelas passaram a ser referências tão fortes que são visíveis as mudanças de comportamento provocadas nas famílias.

    Como diz o compositor Jorge Mautner, em uma de suas músicas: “a telenovela é a educação sentimental da classe média nacional”.

    A “velha UDN”, em tempos idos, era uma matriarca católica, dessas de penugem nos cantos da boca, se vestia de preto, andava de bordão de jacarandá com brasão da família, cravejado em latão, a ralhar com os de baixo.

    Ainda hoje, fotos amareladas, emolduradas, de famílias aristocráticas, cobrem paredes de casas e apartamentos ou ocupam lugar de destaque sobre os móveis das salas, nas “modernas” cidades brasileiras.

    A maior parte da “velha UDN” e seus descendentes migraram do campo para as cidades muito antes de se tornar uma sigla, uma agremiação partidária, muito antes de o PSD se enraizar no coração e na mente dos fazendeiros.

    Construiu fortuna e se tornou a matrona do sistema financeiro.

    Quis desfrutar dos produtos do ciclo de industrialização do Brasil, andar de automóvel, beber coca-cola, ir ao cinema, entregar seu coração a Hollywood, ler Seleções Reader’s Digest, revista O Cruzeiro, Veja, Época, Istoé, Caras, O Globo, Folha, Estadão, dar revistas em quadrinhos da Disney aos filhos e incentivá-los a cultivar valores aristocráticos.

    A UDN se encastelou na política, se apoderou do Estado e dos meios de comunicação como se fossem propriedades suas.

    Rotulou o governo de Getúlio Vargas de “mar de lama”, levou-o ao suicídio.

    Tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek, por duas vezes tentou derrubá-lo, organizou a famosa “Marcha da família com Deus pela liberdade”, em 1964, na capital paulista, e em muitas outras cidades brasileiras, para depor João Goulart e apoiou o golpe militar que levou o Brasil a um dos mais obscuros períodos de nossa história. Juscelino foi cassado pelo regime militar.

    janio2

    Impediu a reforma agrária, ajudou a organizar o latifúndio, mecanizou a produção agrícola com crédito subsidiado pelo Banco do Brasil e com as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa.

    Conseguiu banir das fazendas para as periferias das grandes cidades, onde vivem em condições sub-humanas, um contingente populacional gigantesco de remanescentes da escravidão e do extermínio de nações indígenas.

     

     

     

    A cara da “nova UDN”

    A UDN urbanizada, que poderia ser chamada de “nova UDN” tem casas e apartamentos com todos os eletrodomésticos disponíveis. Carros de luxo nas garagens, viaja de férias todo ano, tem celular, computador plugados na Internet, e tv a cabo.

    Busca a paz em templos de consumo (shopping-centers) e em igrejas. Uma parte se “modernizou” em relação à fé. Trocou a igreja católica por igrejas evangélicas.

    A “nova UDN”, quando não está diante da tv ou na internet, nas redes sociais destilando ódio, vaga por shoppings e feiras de produtos de contrabando, comprando um pirata qualquer.

    A “velha UDN” está por aí, não mais travestida,  clandestina.

    Nas praças de alimentação dos shoppings se empanturra nos fast-foods com sanduiches, pizzas e refrigerantes. A balança, a academia, as revistas de boa forma e o colesterol são seu inferno.

    Um “sofrimento doce” – coisa do “status quo” – assuntos para longas conversas nas tardes tediosas e nos finais de semana, nos encontros de família.

    A “nova UDN” é “chique”. “Chique” é diferente de elegante. A “nova UDN” é rastaquera.

    Nas casas e apartamentos “modernos”, a arquitetura mantêm a senzala, a “dependência de empregados”. Um cubículo onde enfiam os novos escravos que cozinham, lavam, passam e cuidam dos filhos.

    A “ama-seca” virou “babá”, depois baby-sitter.

    Livro, revista e jornal, em casa? Às vezes. Ler dá sono. Prefere uma espiada no Jornal Nacional depois da novela.

    É o melhor horário para ver os anúncios de carros novos, telefones celulares e bancos. Aqueles filmes publicitários que embalam os sonhos de tornar-se uma daquelas personagens chiques e bem sucedidas na vida.

    A maior aspiração da “nova UDN” é ser rica, manter o “status” entranhado nas profundezas de sua alma, ter o controle moral da sociedade e recuperar o poder político perdido com a democratização do país.

    Para a “nova UDN” a democracia a leva à ruína política. Na democracia ela perde sempre.

     

     

     

    O mesmo ódio de classe persiste

    Mantém latente o mesmo ódio de classe que levou o ex-governador do antigo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, seu ídolo maior, ao escândalo da “operação mata-mendigo”.

    Nessa operação, agentes do Serviço de Recuperação de Mendigos foram flagrados jogando mendigos no rio da Guarda, na Baixada Fluminense, depois de denúncias de desaparecimento de grande número deles.

    Esse serviço foi o embrião da ideologia do “Esquadrão da Morte” e de outros grupos de extermínio que atuaram no Rio de Janeiro.

    Outro escândalo foi a queima de favelas como a do Pasmado, no Rio, para expulsar os moradores.

    Uma parte da “nova UDN” passou pela universidade, ficou “ilustrada”.

    Participou, tempos atrás da campanha Diretas Já, com novo verniz, mas preferiu juntar-se aos de cima na defesa do projeto neoliberal, do sucesso profissional, da escalada do enriquecimento e na redução dos sonhos da juventude ao fetiche de um automóvel.

    O mais bem acabado exemplar de político  da “Nova UDN” atualmente  é Aécio Neves.  Um autêntico rastaquera.

    Quando governador de Minas Gerais usou e abusou de recursos e bens públicos, andou para cima e para baixo no avião do Estado para agendas suspeitas no Rio de Janeiro, em viagens para Florianópolis, onde morava sua namorada e atual mulher, para carregar seus amigos magnatas, donos de revistas, de jornais, âncoras de TV, e outros aproveitadores.

    Aéciio Avião

    Aécio construiu aeroportos para beneficiar propriedades de familiares, enfim, demonstra achar que o Estado é propriedade dele. Disse na campanha eleitoral que ele iria varrer o PT do Estado brasileiro.

    A “Nova UDN” luta para manter privilégios de classe e nada mais, fecha o vidro do carro quando mendigos se aproximam.

    Para ela os de baixo são invisíveis. Não vê lixeiros, garçons, frentistas, taxistas, mantém disdância das pessoas que andam de transporte coletivo.

    Sabe que essas pessoas existem quando necessitam de seus serviços.

    Vê o noticiário policial nos telejornais e se cerca de muros, viaja de avião e olha lá de cima o amontoado de barracos das das grandes cidades como se as favelas fizessem, naturalmente, parte da paisagem.

    Na imprensa,  jornalista e comentarista udenistas, preferidos dos impérios de comunicação, ladram como cães amestrados pelos patrões com o mesmo ódio que movia Carlos Lacerda. Parece que todos querem ser Carlos Lacerda.

     

     

     

    Os candidatos da nova UDN

    Nas eleições, a “nova UDN” costuma optar por candidatos que representam o ideário aristocrático, meritocrático, condizente com sua escala de valores, de matriz religiosa.

    Muitos, em 2002, fizeram uma concessão, votaram em Lula para presidente, depois dele penar sob a violência da discriminação de classe por muito tempo. Um dos mais fortes fatores que o levou à derrota em três eleições.

    O preconceito foi rompido momentaneamente. Certamente pelo fato de votar num “vencedor”, num homem de mérito, que saiu de Garanhuns, em Pernambuco, enfrentou a pobreza em São Paulo e se tornou um líder respeitado não só no Brasil, mas reconhecido nos fóruns internacionais como um líder mundial.

    Logo depois que ele tomou posse foi chacoteado. Diziam que ele não tinha qualificação para governar. Não falava inglês.

    Diziam que ele era nordestino, cachaceiro e analfabeto.

    Lembra da zombaria da imprensa com “aeroLula”, o novo avião comprado pela Aeronáutica para servir à Presidência da República?

    Fizeram chacota como se ele não tivesse o direito de usar o avião presidencial.

    FHC licitou o avião, mas Lula foi quem sofreu as críticas.

    Outro fator que deve ser considerado, quando se analisa a eleição de Lula, é que em 2002 a “nova UDN” estava inconformada com o governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

    O governo que, na época da paridade do Real com o Dólar, levou-a ao paraíso do consumo de produtos importados, a viagens internacionais – estava acabando em grave crise econômica e financeira – sob denúncias graves de corrupção, sem permitir investigações, principalmente denúncias sobre o processo de privatização das empresas estatais.

    Fernando Henrique chegou a dizer que se ele deixasse instalar CPIs derrubariam o governo dele.

    Ele tinha maioria no Congresso e um “engavetador-geral da República”, o Procurador-Geral, Geraldo Brindeiro, que botava pá de cal sobre todos os escândalos de corrupção do governo Fernando Henrique, que jazem no túmulo da história.

    Aquele paraíso de ilusões ruiu para a “Nova UDN”. Em resumo, em 2002, era “chique” votar em Lula. Afinal, o vencedor tem seu lugar na escala de valores dela como competidor.

     

     

     

    A descoberta de um novo partido

    Logo depois da democratização política do país, na década de 80, após a promulgação da Constituição de 1988, a “nova UDN” ganhou um presente de parte da elite intelectual paulistana. Um partido político pensado para ela: o PSDB.

    Um partido para a chamada “classe dos formadores de opinião”.

    O PFL, neto da velha Arena, que deu sustentação à ditadura militar, andava em dificuldades para se tornar um partido que atendesse às aspirações da “nova UDN”.

    O PMDB avançava no controle institucional do país e os partidos de esquerda, liderados pelo recém-criado PT, avançavam na organização da população operária urbana e no movimento dos trabalhares rurais sem terra.

    Foi nesse contexto que surgiu o PSDB, vendido à opinião pública como um partido “moderno”.

    O PSDB vestiu como uma luva o ideário da “nova UDN”.

    Em 1989, liderado por Mário Covas, que parecia um pássaro fora do ninho, por ter posições à esquerda do partido, o PSDB foi às urnas e, no segundo turno, parte dele até subiu no palanque de Lula, candidato do PT, quando este disputou com Collor.

    No segundo turno, a grande maioria dos votos do PSDB foi para Collor e o elegeu.

    collor

    Collor teve o apoio majoritário da “nova UDN”, que se referenciava no PFL, no PL e no PSDB, em verdadeiro revival da era lacerdista. Era o voto anti-Lula.

    Aquela parte que se engajou na eleição do “caçador de marajás” queria ver “Frei Damião andando de jet-ski”, quem sabe, exportar Padre Cícero robotizado.

    Ou seja, a “velha UDN”, que veio do interior para os grandes centros urbanos, em tempos idos, deixou aflorar seu desejo de ser norteamericana, enfim, pertencer ao primeiro mundo e, quem sabe até dar a mão a um astronauta e sair por aí, a passeio, pelo espaço sideral.

    Queria se desgarrar definitivamente do outro Brasil, aquele da herança colonial, das pessoas invisíveis. Esse parece um desejo latente da “nova UDN” que perdura até hoje.

    Nos anos 1990, quem defendia interesses nacionais e superação da desigualdade era chamado de dinossauro, xenófobo e outros adjetivos não menos pejorativos.

    A ordem era globalizer, promover o liberalismo, seguindo orientações das agências internacionais que pregavam o chamado “Consenso de Washington”.

    Collor foi afastado sob acusação de corrupção, sobretudo, por falta de confiança das grandes corporações financeiras internacionais, que tinham projetos prontos para compra das estatais brasileiras e realização de outros negócios no país.

    O PSDB tratou de articular a herança do legado político do governo Collor. Começou um namoro firme com o PFL. Noivou, casou-se em 1994, e do casamento nasceram dois mandatos para Fernando Henrique Cardoso. Casamento perfeito. A “nova UDN” urbana, representante do capitalismo financeiro, foi ao altar sob as bênçãos do império, do sistema financeiro internacional.

    O PFL reune desde o setor financeiro, passando pelas corporações dos meios de comunicação até o agronegócio.

    O PSDB entrou com a tecnocracia formada em famosas escolas internacionais como a escola de Chicago e de Harvard, com apoio do sistema financeiro nacional e internacional, que tinham seus interesses, evidentemente, na moeda e no livre mercado comercial (ALCA), desde que a meca fosse os EUA.

     

     

    Um modelito estadunidense

    Esse casamento é a cara da “nova UDN”, cuja estética pode ser percebida nas grandes cidades litorâneas do país, que se transformaram em caricaturas de Miami. A Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro tem até Estátua da Liberdade. Outras estátuas estão se espalhando por cidades do litoral.

    Já as cidades do interior, andam com a cara do Texas. Os rodeios dão o tom da música, da vestimenta e do comportamento.

    Essa estética pode ser vista também em coisas simples como num maço de cigarros de palha fabricado em Minas Gerais.

    O maço é ilustrado na parte frontal com desenho de um cowboy de chapéu texano, óculos Ray Ban, calça e jaqueta jeans.

    Suza paiol

    Um modelito estadunidense. Por que não um mineiro pescando num rio, fumando seu cigarrinho de palha?

    Esses pequenos exemplos parecem suficientes para imaginar o ideário da “nova UDN” em ebulição no Brasil.

    No parlamento e na grande imprensa é fácil ver Carlos Lacerdas inconformados com o novo Brasil, espalhando preconceitos, principalmente o preconceito de classe, numa rede de comunicação conservadora, autista, fora do contexto, presa num discurso dos anos 1990, atrasado, superado pelos fatos que culminaram na crise financeira internacional eclodida em 2008.

    Dois brasis

    A imprensa conservadora, num verdadeiro ciclo de retroalimentação com a “nova UDN” constrói um outro Brasil só deles e afundam. Todas as grandes corporações de comunicação estão ruíndo com a chegada da internet.

    As futuras gerações vão estudar a história do Brasil e vão ver a incompatibilidade entre a narrativa da banda podre do jornalismo e a realidade. É impressionante a que ponto se chegou a desonestidade intelectual dos narradores e de politicos que “representam” a sociedade.

    ditadura-da-midia1

    A manipulação da informação se estabeleceu desavergonhadamente. Os casos são muitos, mas os dois exemplos recentes mais emblemáticos são a denúncia de O Globo contra Luiz Cláudio, filho de Lula, de que ele teria sido citado numa delação premiada na operação Lava Jato, em seguida desmentida, e a da revista Veja, que deu na capa informação falsa de que o Senador Romário teria uma conta num banco na Suíça com R$ 7,5 milhões. Romário provou ser mentira da Veja.

    Cada dia que passa fica mais nítido a construção de dois brasis: um narrado pelos conservadores, por gente de ideologia ainda colonialista, de olhos voltados para além do Atlânatico, para o hemisfério norte, incapazes de reconhecer as profundas transformações que o Brasil vem experimentando nas últimas décadas, principalmente em relação à redução da desigualdade, à inclusão social, à afirmação de direitos e no combate à corrupção.

    E outro Brasil das instituições do Estado responsáveis pelo registro de dados e informações oficiais do país.

    A banda podre da imprensa persegue o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores como inimigos público número um da “Nova UDN”, porque, apesar dos erros do PT, os governos Lula e Dilma foram os mais democráticos da história da República, que mais reduziram a desigualdade e promoveram a afirmação de direitos dos de baixo.

    Isso é reconhecido internacionalmente por instituições como a ONU, mas os udenistas não reconhecem.

     

    Na democracia a “Velha UDN” perde

    Nunca se debateu tanto os problemas do país como hoje. Foram realizadas mais de 97 conferências setoriais, desde 2003, na maioria das vezes ignoradas ou atacadas pela imprensa.

    Educação, saúde, meio ambiente, cultura, comunicação, defesa civil, e muitas outras áreas.

    As conferências mobilizaram milhões de brasileiros desde os municípios, passando pelos estados até as conferências nacionais de cada setor.

    Militantes das mais diversas áreas estão no controle social das políticas públicas e na atuação direta com proposições e debates.

    Existem outras redes de comunicação construídas pelos movimentos que debatem as políticas públicas do governo e dinamizam a informação.

    Existe outro Brasil emergindo e rompendo com as cercas que o isolaram por tantos séculos. É esse Brasil que causa tanto incômodo à “nova UDN” e a faz tão raivosa.

    Na eleição de 2006, causou perplexidade a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que o Brasil estaria precisando de um novo Carlos Lacerda.

    manifestaes-negros-nao-entram__thumb

    Essa declaração escapou num ímpeto de intolerância, quando se confirmava a força da liderança de Lula ao resistir aos ataques da “nova UDN” e da banda podre da imprensa.

    No campo ou nas cidades, hoje, a “velha UDN” ainda dispõe de uma cultura política e ideológica poderosíssima.

    Porém, o Brasil não é mais o mesmo e esse caminho não tem mais volta.

    A “Nova UDN” não quer as novas instituições de fiscalização e controle atuando com independência, respaldada na legislação de combate à corrupção sancionada por Lula e Dilma, que possibilitou a prisão de grandes empreiteiros e o desmantelamento de velhos esquemas de financiamento de campanhas eleitorais e de enrriquecimento de grande parte da elite política.

    Ela não quer saber de investigação. Como ela sobreviveria sem as tetas do Estado?

    O que a “Nova UDN” mais teme é a retomada do crescimento econômico e a candidatura de Lula.

    (* ) Esse texto foi publicado em 19 de agosto de 2010, no site Carta Maior. Agora revisado e atualizado, sem perder sua originalidade.

  • Dilma e Lula sitiados pela oposição obscurantista

    Carlos Sampaio Eduardo cunha

     

     

    Lula e Dilma estão sitiados por chacais que se alimentam do fascismo todos os dias. Espalhados principalmente pelo Congresso Nacional e por várias instituições da Republica, atuam em conluio com outros da santa madre imprensa.

     

    Escolheram as presas e estão a persegui-las, determinados a devorá-las. Procuram um jeito qualquer de incriminá-las, de justificar  ações extremas:  impor o impeachment a Dilma e impedir Lula de disputar as próximas eleições presidenciais.

     

    Eles  sabem que não têm candidato para ganhar dele.

     

    Fernando Henrique, líder maior da oposição, foi rolando ladeira abaixo, em franca decadência, acabou de braços dados com os neofascistas, a mesma turma das manifestações que quer a volta dos militares ao poder.

     

    Ele se tornou líder das forças mais conservadoras do país, forças golpistas que querem o impeachment da Presidenta Dilma, que patrocinam o retrocesso, a subtração de conquistas na Constituição que estão possibilitando a cidadania dos de baixo.

     

    images

     

    Fernando Henrique é o porta-voz da oposição, é quem fala com os compadres da velha imprensa. Quase que diariamente ele fala orientando os seus, alimentando os chacais.

     

    No Congresso ele tem Aécio Neves e o tonto do líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio, incensando Eduardo Cunha.

     

    Com todas as provas contra o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha enviadas pelo Ministério Público da Suíça ao Ministério Público do Brasil, o líder do PSDB teve a insensatez de dizer: “Seria leviano da minha parte afirmar que ele (Eduardo Cunha) está envolvido em escândalos”. Francamente!

     

    Com esse conluio  do PSDB com as forças políticas mais atrasadas do país para proteger Eduardo Cunha, visando o impeachment, o Congresso Nacional está parecendo um furúnculo do Brasil.

     

     

    marco-feliciano-aecio-neves-1

     

    Nos últimos dias, como se aproveitando o fim de carreira de Eduardo Cunha, as bancadas da Bala, da Bíblia e do Boi (BBB), aprovaram, com a ajuda dos tucanos, retrocessos inimagináveis no Estatuto do Desarmamento, na demarcação de terras indígenas, e, em relação às mulheres, a criminalização do aborto. Sem falar na redução da maioridade penal e outras barbaridades.

     

    A avaliação do nível dos parlamentares do Congresso, que já era baixo, demonstrou ser muito pior. Ameaçador, diria.

     

    Por incrível que pareça, o presidente da Câmara está prestes a ser preso, cassado, e o PSDB o protege, para tentar, com ele, o golpe institucional.

    Imagina o que se estabeleceria no pais caso acontecesse o golpe.

     

    Salvo as devidas exceções, os parlamentares são de tão baixo nível que não conseguem sequer debater. São extremamente autoritários, estúpidos, se impõem pelo grito, pela agressividade.

     

    Atitudes vistas no período da ditadura militar voltaram a acontecer nas comissões técnicas e nos plenários.

     

    As bancadas do BBB têm se comportado como manadas, para não dizer como quadrilhas comprometidas com os setores que financiaram suas campanhas eleitorais.

     

    O plenário se transformou numa rinha verbal, que tende a evoluir para as vias de fato.

     

    A oposição liderada pelo PSDB está desfigurando a “Constituição cidadã”, esterilizando direitos, levando o país a um grande retrocesso.

     

    As mesmas forças neofascistas que Aécio Neves deu voz ação na campanha `a Presidência da República, que andaram de braços dados com ele, nas ruas, continuam aliadas aos tucanos no Congresso Nacional patrocinando o maior retrocesso institucional do país deste início de século.

     

    São as mesmas forças políticas que ele chamou para ir às ruas nas manifestações pedir o impeachment da Presidenta Dilma,

     

    O Brasil está sendo vítima da maior subtração de direitos individuais e coletivos da Constituição.

     

    Os parlamentares conservadores estão apresentando Propostas de Emendas Constitucionais (PEC) e instalando Comissões Especiais em ritmo alucinante.

     

    Estão ameaçadas as mais importantes conquistas da cidadania brasileira, que colocaram o país no mesmo nível das nações cidadãs do mundo.

     

    Os mesmos chacais que estão sitiando Dilma e Lula são os mesmo que estão desfigurando a Constituição e levando o Brasil ao retrocesso, ao obscurantismo.

  • Entre cidadãos e robôs

    dependencia-internet2

     

    O Brasil saiu da roça para ver televisão na cidade e da televisão saltou, num átimo histórico, para a internet, para o ciberespaço. Não passou pelo livro, a voz da imaginação e do pensamento.

     

    Essa síntese, um tanto simplória, talvez ajude a pensar como tudo foi tão rápido.

     

    Evidentemente a população brasileira não foi apenas ver televisão na cidade. Foi a procura de emprego, de escola e de melhores condições de vida porque, no campo, a pobreza extrema permanecia como herança da colonização, da escravidão dos afrodescendentes e da espoliação das nações indígenas.

     

    A privação do direito ao acesso à terra, à educação, aos trabalhadores rurais, e as condições de trabalho semi-escravo e degradante, conjugados com o novo ciclo de industrialização do país, entre outros fatores, resultou no maior fluxo migratório para as cidades nos anos 1960, 1970 e 1980.

     

    Segundo o IBGE, na década de 1940, o percentual da população residente no campo era de 70%. Em 1980, o percentual se inverteu, 70% das pessoas já estavam vivendo nas cidades, amontoadas nas periferias em condições subumanas.

     

    Em 2000, apenas 22% residiam no espaço rural. Em 2015, essa população passou para 36%.

     

    Houve, portanto, uma inversão do fluxo, tendo em vista a geração de empregos e renda na zona rural e a melhoria das condições de vida dos camponeses que passaram a ter acesso a direitos e a uma vida melhor. A TV e a internet chegaram lá.

     

    O Brasil ultrapassou 200 milhões de habitantes, os grandes centros urbanos ficaram mais adensados e parecidos com o filme de ficção científica, Metrópolis, produzido em 1927, na Alemanha, pelo cineasta austríaco Fritz Lang. Uma obras-prima do expressionismo alemão, à frente do seu tempo.

     

    O filme mostra o futuro, em 2026 (100 anos após a produção do filme), com ricos industriais governando a grande cidade, Metrópolis, das torres de complexos arranha-céus, enquanto a classe trabalhadora e moradores subterrâneos trabalham em turnos de revezamento para operar as máquinas que fornecem cada vez mais poder aos proprietários-governantes.

     

    Metrópolis 2

     

    Em Metrópolis https://www.youtube.com/watch?v=Pqfc1Uxt91o as pessoas são dominadas e exploradas, transformadas em peças a mais das máquinas. Afinal, sem os trabalhadores as máquinas não se movem.

     

    Metrópolis

     

    Essa observação feita por Karl Marx, quando ele escreveu sobre a alienação, https://www.youtube.com/watch?v=gpiZaj_WS1E#action=share

    https://www.youtube.com/watch?v=y6wvReQt-_w

    ajuda a compreender os tempos modernos e como o Brasil está inserido nele.

     

    A imensa massa de pessoas, que vaga de suas casas para o trabalho e do trabalho para casa, no rítimo ditado pela cultura das máquinas nas cidades cidades brasileiras, conectada nos celulares, com fones enfiados nos ouvidos, experimenta uma forma de socialização intermediada também pelas maquinetas de comunicação.

     

    O Brasil, segundo o IBGE, é o país onde mais cresce o acesso à internet no mundo. No final de 2014 chegou a 108 milhões de internautas. Superou o Japão.

     

    É também o 6º país com o maior número de smartphones. Isso quer dizer que os conteúdos estão na palma da mão e não mais na banca de revista ou na tv da sala. Isso é uma conquista extraordinária.

     

    Porém, as maquinetas de comunicação unem e ao mesmo tempo separam as pessoas, as tornam meio catatônicas, robotizadas, diria, cada uma no seu mundo, acessando e repassando automaticamente um volume gigantesco de conteúdos das mídias, como verdadeiros processadores.

     

    O mesmo fenômeno de apropriação de indivíduos pelas máquinas na sociedade industrial se intensifica agora com as novas maquinetas de comunicação (celulares e outras).

     

    Pessoas estão se transformando em transmissores de conteúdos fragmentados. Dá-se notícia sobre tudo, mas nem sempre demonstram conhecimento mais aprofundado sobre os assuntos.

     

    Com o conteúdo na palma da mão, a escola está sendo repensada porque não consegue acompanhar as transformações que estão acontecendo. Aprende-se mais fora da escola do que na sala de aula. Isso não é de agora, mas atingiu níveis inimagináveis.

     

    Muitos acadêmicos no Brasil e no mundo afora estão estudando o impacto cultural, social e econômico da veloz expansão dos meios de comunicação e das novas tecnologias, na sociedade.

     

    O tempo de ocupação com entretenimento, a mecanização e a fragmentação da informação tem merecido maior atenção dos pesquisadores. Não se sabe ainda aonde vai dar isso.

     

    Como o Brasil “não passou pelo livro” e a grande maioria da população foi direto para a tv e depois para a internet, a fim de obter informação e entretenimento, fica a dúvida se as gerações mais recentes estariam desenvolvendo capacidade de pensar, de imaginar e de criar ou se essas habilidades estariam sendo prejudicadas.

     

    Leitura

     

    Evidentemente, não é só o livro que desenvolve essas habilidades, mas, livros são vozes, são expressão de pensamentos, ideias e imaginação.

     

    As pessoas estão muito informadas, mas informação não é conhecimento. Informação se acessa e repassa automaticamente.

     

    Conhecimento requer sensibilidade, desenvolvimento da percepção, intuição, observação, interpretação, capacidade de análise, maturação, habilidades que se contrapõem à instantaneidade, velocidade e senso de urgência provocados pelas maquinetas de comunicação e o enorme volume de conteúdos na rede.

     

    Uma pesquisa do Youtube sobre o perfil da chamada “geração Z”, pessoas nascidas de 1995 para cá, indica que mais de 60% dos jovens se informam pelo Youtube, por vídeos, ou seja, por imagens e áudios. Será que não precisa imaginar, sendo que a mensagem já vem com todos os elementos?

     

    Imaginar, segundo os dicionários, é criar imagem mental, conceber, fantasiar, idear, inventar, projetar.

     

    É possível que o livro, seja ele em papel ou digital, sobreviverá, assim como sobrevive o teatro, que superou o surgimento do rádio, do cinema, da televisão, da internet e continua convivendo bem com as demais mídias, proporcionando um encontro entre dramaturgos, atores e o público.

     

    A literatura também é um encontro de quem escreve com quem lê no plano da imaginação. A arte em todas as linguagens também interage com quem vai ao encontro dela. O que seria da humanidade sem os artistas?

     

    Na Europa, que antes passou pelo livro, educadores, depois do deslumbre com os novos equipamentos de comunicação, amplamente acessíveis aos estudantes, estão recuando, valorizando a sala de aula com estímulo ao debate e à relação com as linguagens artísticas.

  • Na lama de sapato branco

    Parecer - Aécio - Nardes

     

    Surpreendidos com a decisão do Supremo Tribunal Federal, que derrubou a fraude regimental na Câmara, os golpistas liderados por Aécio Neves, que carregavam  Eduardo Cunha no colo desde a eleição dele à presidência da Câmara e  tramavam o impeachment da Presidenta Dilma, agora querem jogar o sujeito no colo do governo.

    O STF mandou avisar que no Brasil não haverá “golpe paraguaio”.

    Comprovadamente um politico corrupto, Eduardo Cunha queria que Dilma trocasse o ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardoso, por Michel Temer.

    Imagino que ele queria trocar também o Delegado da Polícia Federal e  agentes que atuam nas operações de combate à corrupção, como faziam no passado.

    Talvez quisesse se livrar do julgamento do Supremo Tribunal Federal e da cadeia.

    Como não conseguiu, Eduardo Cunha rompeu com o governo. Disse que faria uma tempestade sobre o governo Dilma.

    Aliou-se aos golpistas que se recusam a aceitar o resultado das eleições proclamado pelo TSE.

    Tornou-se um conspirador.

    Na iminência de ser preso, (também sua mulher), Eduardo Cunha tentou uma manobra regimental na Câmara, em parceria com os golpistas, que insistem com a tentativa de impeachment com base num parecer do TCU sobre as contas do governo, produzido pelo ministro Augusto Nardes, um parecer contestado pela Advocacia Geral da União por técnicos, juristas e acadêmicos.

    Enfim, uma peça política.

    O ministro Nardes  está às voltas com a   Operação Pelotes, da Polícia Federal.

    Sobre ele  pesam denúncias gravíssimas de ter sido beneficiário de R$ 1,6 milhão proveniente de fontes ilícitas.

    O tal parecer foi aprovado por unanimidade pelos nove ministros do tribunal.

    Por incrível que pareça, dos nove ministros do tribunal, quase metade (4) deve explicações à Justiça  sobre possíveis desvios e corrupção. Alguns investigados na Operação Lava Jato e na Operação Zelotes, da Polícia Federal.

    A apresentação do tal parecer no TCU foi feita com a prestigiosa presença da turma de golpistas e seu líder maior, Aécio Neves.

    Foi uma festa com direito a todas as câmeras e microfones da mídia que serve à oposição e dá à opinião publica as versões deles.

    Parecer - TCU - Aécio - Nardes 2

     

    O Senador Agripino Maia, investigado no STF em razão de denuncia de ter recebido milhões de fontes ilícitas, estava lá, junto aos seus.

    Eles não demonstram ter senso de ridículo, vergonha ou culpa.

    Essa gente quer voltar a governar o Brasil.

    O parecer tem a cara de uma retaliação arquitetada para afastar Dilma,  estancar de vez as investigações em curso e tirar o apoio dado pelo governo aos órgaos de fiscalização e controle.

    Mas Dilma disse que não sobrará pedra sob pedra e está bancando o que disse.

    O parecer do TCU é uma farsa vendida à opinião pública como verdade, afirmam juristas e autoridades no assunto.

    Antes de formar processo, precisa ser aprovado na Comissão de Orçamento da Câmara para se constituir como peça fundamental do pedido de impeachment. Sem ela o processo fica vazio.

    A Presidenta da Comissão de Orçamento, senadora Rose de Freitas, tem o prazo de 77 dias para analisar e é quem decide quando põe o parecer do TCU para votar.

    Se votar na Comissão, e for aprovado, em seguida é enviado ao presidente do Congresso, senador Renan Calheiros. Ele é quem decide se leva ao plenário do Congresso ou não.

    Estão jogando com a desinformação do povo.

    Os golpistas querem atropelar todos os ritos do regimento, as leis, a Constituição, para fazer valer a sanha deles pela volta ao poder. E a  velha mídia não informa corretamente, confunde, inventa.

    A cena dos golpistas com Hélio Bicudo e o integralista na juventude, Miguel Reale, abraçados com Eduardo Cunha na foto de entrega do pedido de impeachment da Presidenta Dilma é patética.

    Não há como pedir impeachment com base em contas de 2014 e muito menos com base nas de 2015, porque o ano não finalizou nem existe parecer do TCU. Tudo não passa de uma de uma ficção protagonizada pelos golpistas e narrada pela mídia que serve a eles.

    Não há nenhum indício de crime de responsabilidade da Presidenta Dilma.

    Ela é uma mulher honrada, correta, honestíssima.

    No Tribunal Superior Eleitoral, o controvertido ministro Gilmar Mendes tenta por outro meio cassar o mandato da Presidenta Dilma, criando artifícios jurídicos a fim de imputar a ela crime eleitoral.

    O mesmo Gilmar Mendes que engavetou, desde 2006, um processo de investigação do deputado Eduardo Cunha, recém descoberto, se reuniu recentemente com ele na residência oficial da Câmara,  no auge da trama do impeachment.

    A nova manobra no TSE de tentar cassar os mandatos de Dilma e Temer, caso seja aprovada, cabe recurso ao STF.

    O fato é que o poder político dos de sempre se alimenta do Estado. Mas  os golpistas  estão finalmente percebendo  que o país  mudou.

    O que será deles nas próximas eleições sem o Estado e sem o dinheiro das empresas privadas no financiamento de campanhas eleitorais?

    Eles estão desesperados, no ônibus sem banheiro, e a motorista não está nem aí para eles. Toca em frente.

  • Os golpistas querem cortar cabeças?

     

     

    Impossível olhar o Brasil e não ver na paisagem política os conflitos ancestrais emergindo da história, desenhando a crise que corrói as instituições da República.

    Uma história vermelha de sangue. Aqui se dizimou nações indígenas inteiras, tomaram suas terras, arrancaram-lhes a divindade, instalaram o Deus único e a culpa.

    Mantiveram mercado de negros, escravizaram, humilharam, violentaram, açoitaram, e os abandonaram à própria sorte, segregados.

    O senhorio sempre manteve o poder de classe, a subordinação, com a ração numa mão e o chicote na outra.

    A mentalidade colonial   persiste,  patrões e feitores ainda rugem nas ruas, nas manifestações recentes, nas empresas, nas famílias, no jornalismo, nas redes sociais, com o mesmo ranço da escravidão, com a mesma violência que cortaram cabeças de quem se rebelou no passado, contra a dominação e a miséria.

    Felipe dos Santos foi uma das primeiras vítimas a ser liquidada, por lutar pela liberdade, pela independência do Brasil.

    Amarrado braços e pernas numa junta de cavalos bravios foi arrastado pelas ruas de Vila Rica até partir o corpo em pedaços.

    Teve a cabeça decepada, exposta no paço, as partes do corpo salgadas e penduradas em árvores da estrada principal que dava na cidade.

    2

    D

    Enforcaram, cortaram a cabeça e esquartejaram Tiradentes, também salgaram-lhe as partes do corpo e penduraram em postes nas ruas de Vila Rica.

    O mesmo fizeram com Zumbi dos Palmares, cortaram-lhe a cabeça salgaram e levaram ao governador de Pernambuco, Melo de Castro. No Recife, a cabeça foi exposta em praça pública, no paço do Carmo.

    Cortaram também as cabeças de Antônio Conselheiro, Lampião e seguidores deles, as expuseram em praças públicas.

    Esses são apenas alguns exemplos da extrema violência e opressão sofrida pelos de baixo desde a Colônia até os tempos atuais.

    A violência, a negação de direitos elementares e a rejeição à inclusão social continuam vivas na sociedade.

    Sempre encarceraram, torturaram, mataram, para aterrorizar quem ousasse se rebelar contra o poder estabelecido. O Brasil é vermelho de sangue.

    img4a968d9d7b246

    O senhorio esmagou  todos os movimentos libertários no Brasil, sempre teve as Forças Armadas a seu lado, ao longo da história, em vários ciclos de ditaduras, para reprimir movimentos, proteger o patrimônio e os privilégios de classe dos donos das terras,, das empresas e dos bancos.

    Assim, o senhorio se encastelou no topo da pirâmide e resiste a permitir que o povo conquiste os direitos de cidadania.

    Na democracia os conservadores perdem sempre. Nos momentos históricos em que o Brasil adotou modelos de desenvolvimento e políticas de relações internacionais que levou a mais independência, associados a políticas públicas com expansão de direitos e inclusão social, ergueram-se golpes pela via militar ou pela via do Judiciário.

    O senhorio tem sempre maioria conservadora na estrutura do Estado e nas corporações de comunicação, com seus asseclas a postos, prontos para conspirar, solapar e derrubar governos.

    Foi assim com Vargas, que sofreu uma campanha de difamação tão violenta que levou-o ao suicídio.

    Foi assim com Juscelino Kubitscheck, com as tentativas de golpe, foi assim com João Goulart, que foi derrubado, e agora com Lula e Dilma. O enredo é o mesmo.

    Só que na batalha para derrubar os governos Lula e Dilma o ódio de classe ressurgiu das entranhas da sociedade senhorial, instigado pelas corporações de comunicação e nas redes sociais, como reação ao empoderamento dos de baixo, e ao impacto da inclusão social proporcionada pelas políticas do governo federal nos últimos anos.

    Nada menos que 36 milhões de brasileiros saíram da extrema pobreza, graças ao Bolsa Família e 42 milhões ascenderam à classe C.

    Estudo do IPEA mostra que entre 2003 e 2012, os 10% mais pobres tiveram crescimento acumulado da renda real per capita de 107%, enquanto os mais ricos obtiveram incremento de 37% na renda acumulada.

    Os ganhos reais foram quase três vezes maiores para os brasileiros mais vulneráveis socialmente. O muro da desigualdade, que parecia intransponível, começou a ser superado.

    Novas universidades foram criadas (16), o Prouni, o Fies e o Pronatec estão permitindo o acesso da população mais desfavorecida ao ensino superior e ao ensino técnico profissionalizante.

    O ajuste fiscal formulado para enfrentar os efeitos da crise e calibrar os gastos do governo, apesar de questionado pelo caráter recessivo, preservou os investimentos sociais.

    Na política externa, entre outras coisas, em 2014, o Brasil pagou a dívida externa e acumulou reservas de US$ 376 bilhões.

    O Brasil foi um dos articuladores do BRICS e do G-20.

    Foi fundador do Banco do Brics, hoje com US$ 100 bilhões em caixa para investimentos, um banco de desenvolvimento que é alternativa ao FMI e ao Banco Mundial.

    O comércio exterior brasileiro se diversificou, reduzindo a dependência em relação à economia dos Estados Unidos e da Europa.

    A crise internacional de 2008 mostrou que essa foi a opção mais acertada, afinal, o Brasil já não dependia tanto de quem estava afundando na crise.

    Essas são algumas, entre muitas outras conquistas da população da base da pirâmide e da política externa promovidas pelos governos Lula e Dilma, que os conservadores resistem reconhecer.

    O mesmo ódio que cortou cabeças, esquartejou e salgou corpos no passado, cega os opositores ao governo, não permite que vejam os avanços do projeto de desenvolvimento sustentável.

    Querem um golpe. Querem o poder para quê? Para retomar os negócios de colonizadores?

    Alguém vê sensibilidade social no olhar de algum dos golpistas que se apresentam todos os dias nas telas de TV, nos jornais e revistas de final de semana?

    Os opositores ao governo estão agarrados ao presidente da Câmara Eduardo Cunha, comprovadamente um dos políticos mais corruptos do país, e ao relatório do Tribunal de Contas da União, produzido por um ministro sobre o qual pesam denúncias contra ele, apuradas pela Operação Zelotes, da Polícia Federal, publicadas no jornal Folha de São Paulo, de ter recebido R$ 1,6 milhões por meios ilícitos.

    Dos nove ministros do TCU, quase a metade está sendo investigada pela polícia. Que credibilidade tem esses ministros?

    São os mesmos cegos de ódio ancestral.

     

  • Até a Suíça investiga Cunha, a Câmara não

    Até a primeira semana de outubro nenhum partido político havia protocolado, no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara, pedido de investigação para apurar denúncias contra o deputado Eduardo Cunha.

    O Supremo Tribunal Federal está investigando o parlamentar. Até a Suíça está investigando o sujeito e a Câmara não estava.

    As contas, em bancos suíços, enviadas aos órgãos de investigação do governo brasileiro, em nome dele, da sua mulher, a jornalista Claudia Cordeiro Cruz, ex-apresentadora de telejornais da Rede Globo, e da filha, somam US$ 5 milhões.

    Líderes da oposição como Aécio Neves, o deputado Carlos Sampaio, e outros do PSDB, “guardiões da moralidade”, que querem o impeachment de Dilma, saíram  em defesa de Eduardo Cunha e o protege.

  • Pauta proativa

    Evollução

     

    É inegável que a área de comunicação do governo federal deu um salto extraordinário, do ponto de vista da plataforma, da arquitetura de suporte de conteúdos, para atender ao que determina a lei da transparência e a ideia de governo eletrônico.

     

    Mas parece que ainda funciona como assessoria de imprensa. Falta uma política de comunicação que vá além da divulgação do que o governo está fazendo e seja mais proativa, com estratégia de antecipação dos fatos. Afinal o governo é a maior fonte de notícias do país.

     

    O governo precisa definir, para os próximos anos, o projeto de país, e dar-lhe identidade. O projeto não é apenas o enfrentamento dos efeitos da crise internacional com o ajuste fiscal e o combate à inflação. É muito mais que isso.

     

    Por exemplo, não entendo por que a Presidenta Dilma e seus ministros não utilizam a própria estrutura de comunicação da Secom para dar entrevistas regularmente, no mesmo formato das entrevistas que são dadas a âncoras de redes privadas de tvs.

     

    Ou seja, ao invés de ficar respondendo ao que a imprensa tradicional publica, o governo devia subverter essa ordem, falar primeiro, pautar a imprensa e não ser pautado por ela.

     

    As coletivas são importantes, mas têm servido para alimentar a pauta da imprensa tradicional.

     

    Há uma profunda e veloz transformação acontecendo no setor de comunicação, que está fazendo derreter as redações centralizadas dos jornais, revistas, televisões e rádios. Uma descentralização inevitável.

     

    Com as novas tecnologias, órgãos públicos e empresas privadas estão tendo a possibilidade de criar suas próprias redações.

     

    Estão deixando de depender dos grandes grupos de comunicação e fazendo suas próprias redações, mas na maioria das vezes as cabeças que dirigem esses órgãos ainda são de assessoria de imprensa.

     

    A queda de audiências das redes de tv, rádio, e o fim dos jornais e revistas em papel, com demissão em massa de profissionais, impressiona pela velocidade com que esse fenômeno vem ocorrendo.

     

    Consequentemente, a publicidade está migrando para a internet com forte impacto nas receitas dos grandes grupos. Essa mudança veio para ficar.

     

    Talvez o governo precise centralizar a comunicação, estreitar ainda mais os vínculos com as redações dos ministérios e de outros órgãos públicos e orientá-los na perspectiva de superar o formato de assessoria de imprensa e passar a fazer parte de uma política de comunicação proativa.

     

    Para isso, é necessário investir na construção de um órgão de imprensa tão forte quanto a maior rede de comunicação privada do país.

     

  • Malandro rastaquera

    plenário-congresso

     

    Lênin dizia que o bom gosto e os bons modos são virtudes da burguesia que o proletariado deve preservar.

     

    Há um ditado que diz que um homem se conhece pelo chapéu, pela gravata, pelos sapatos e pelo guarda-chuva.

     

    No Congresso Nacional, o que se vê é que foram-se o chapéu e o guarda-chuva, muito pouco usados hoje em dia; permaneceram os sapatos, a gravata, os ternos bem cortados; chegaram a gomalina e a malandragem travestida, dissimulada.

     

    Assim andam por aí certos malandros “de fino trato”, muitos deles afáveis, de fala mansa, carregados de trejeitos, sempre de trapaça velada, armada na ponta da língua.

     

    Chico Buarque diz em uma de suas músicas que o malandro caminha na ponta dos pés, como quem pisa nos corações. O malandro anda assim de viés, diz ele.

     

    Outro dia uma amiga viu um desses, dando uma entrevista. Disse admirada: – que homem elegante, distinto, sensível!

     

    Cá com meus botões, pensei: coitada de minha amiga! Elegância, na amplitude do significado, vai além das aparências visuais. Foi enganada por um rastaquera* de comportamento abominável.

     

    O sujeito é evangélico, vive escondido em ternos bem cortados, usa belíssimas gravatas, e fala como um santo. Um rouba e reza.

     

    É fichado na polícia por vários golpes na praça, há décadas responde a processos por falcatruas na vida pública e agora é investigado pela suspeita de ser um dos políticos mais corruptos do país.

     

    Por mais que faça para se esconder, com ardil e dissimulação, vi a aridez do malandro de gravata e capital estampada no olhar por detrás dos óculos, capturada pela câmera de Orlando Brito, um dos maiores repórteres fotográficos do Brasil.

     

    Não vi naquele olhar nenhuma sensibilidade social. Somente obstinação por negócios e poder, para ostentar.

     

    Um homem capaz de vender geladeira no Polo Norte, a alma ao diabo, tamanho o poder de convencimento e simpatia mecanizada, para conseguir o que quer.

     

    Uma frieza assustadora. Na tribuna da Câmara dos Deputados, muitos parlamentares, de dedo em riste, por incontáveis vezes o desmoralizaram, desmentiram, denunciaram sua falta de ética, suas trapaças.

     

    Frio, imóvel, como um bloco de cimento, às vezes esboçando um riso cínico, no canto da boca, na sua extrema insensibilidade, ele desprezava solenemente seus interlocutores.

     

    O sujeito não demonstra sentir nenhum constrangimento, vergonha, culpa, raiva, indignação ou qualquer outro sentimento.

     

    Um homem sinistro, que faz lembrar aquele que mata, corta o corpo em pedacinhos, coloca numa mala, no bagageiro do carro, e vai ao cinema.

     

    Curioso, é que esse tipo hoje está sendo valorizado, como se a frieza, a insensibilidade, a malandragem na vida pública fossem valores.

     

    Pior, parte da sociedade se identifica com rastaqueras como ele. E os apoia para mudar leis a fim de viabilizar o moralismo religioso, negócios de grandes corporações empresariais nacionais e estrangeiras e o impeatchment da Presidenta Dilma, legitimamente eleita, sem que exista contra ela nenhuma denúncia. Sequer é investigada pelas instituições da República.

    Impressionante a força dos rastaqueras. Uma nova geração de políticos, empresários e religiosos emerge com muita força e insiste em manter a subordinação  da Estado e da sociedade aos  seus desígnios. Gente que demonstra nenhum compromisso com o país, com a superação do atraso, da desigualdade, não demonstra o mínimo de sensibilidade social. Estão preocupados com negócios.

     

    (*) Rastaquera – Ridículo personagem Le Brésilien (O Brasileiro), de uma famosa ópera-bufa de Jacques Offenbach chamada La Vie parisienne, que estreou em Paris em 1866. O Brasileiro em questão era um novo-rico, sujeito dado à ostentação e inteiramente destituído de modos, verniz cultural, de bom gosto e bons modos.

    Fonte: Sérgio Rodrigues (20/09/2011), para a Editora Abril.