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  • INTERNET ACELERA MORTE DA MÍDIA IMPRESSA NO BRASIL

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    Semana marcada por cortes drásticos na Folha e no Estado terminou com uma parceria entre o governo federal e o Facebook para levar internet gratuita a 200 mil pessoas na favela de Heliópolis, em São Paulo; “A escalada de demissões de profissionais da imprensa nos últimos dias, Folha 50 jornalistas, Estadão 100, Jornal Nacional despencando sua audiência, mostra que o setor está arruinando numa velocidade inimaginável”, diz o jornalista e escritor Laurez Cerqueira; “A internet deu voz a todo mundo, criou verdadeiras praças, que são as redes sociais, tribunas eletrônicas com liberdade de expressão quase absoluta e a possibilidade de checar informações”; “Sobreviverá nessa selva eletrônica quem produzir informações confiáveis, um jornalismo honesto, e que tenha bons intérpretes da realidade”

    Pensando alto e em rascunho

    A escalada de demissões de profissionais da imprensa nos últimos anos e nos últimos dias, 50 jornalistas da Folha, 100 do Estadão, Jornal Nacional e outros telejornais despencando as audiências, mostra que o setor está arruinando numa velocidade inimaginável.

    Grandes grupos como Estado, Abril, SBT e outros estão colocando à venda patrimônios, maquinários, antenas, rotativas gigantescas, e não conseguem compradores. O destino delas pode ser os museus.

    O Grupo Abril, por exemplo, fechou várias revistas, demitiu 150 funcionários, desocupou metade do prédio, sede da empresa. O jornal O Sul deixou de circular a edição impressa recentemente, editores de revistas semanais já discutem manter apenas a edição eletrônica.

    O Brasil, segundo o IBGE, é o país onde mais cresce o acesso à internet no mundo. No final de 2014 chegou a 108 milhões de internautas. Superou o Japão.

    É também o 6º país com o maior número de smartphones. Isso quer dizer que os conteúdos estão na palma da mão e não mais na banca de revista ou na tv da sala.

    Ou seja, grandes grupos de comunicação estão agora disputando espaço na rede em condições iguais com qualquer outro estabelecido ou que queira se estabelecer.

    A questão é a capacidade instalada de produzir conteúdo. Pequenas equipes podem gerar grandes negócios.

    A queda de audiência e das tiragens dos impressos fizeram com que os anunciantes buscassem outros meios para veiculação da propaganda de seus produtos, migraram na internet ou criaram seus próprios sites.

    Com isso as receitas dos meios tradicionais, TVs, jornais, revistas e rádio despencaram. Começou a ganhar força a desconcentração da publicidade e a pulverização para alcance de maior número de internautas.

    Um importante jornal de Brasília, em 2010, tinha uma tiragem de 70 mil exemplares no domingo, numa população de mais de dois milhões de habitantes. Hoje não passa de 30 mil.

    Isso por que a internet chegou para ficar e está colocando em xeque um modelo, principalmente de imprensa, que sofre como nunca a perda de credibilidade, conforme apontam pesquisas de opinião.

    A internet deu voz a todo mundo, criou verdadeiras praças, que são as redes sociais, tribunas eletrônicas com liberdade de expressão quase absoluta e a possibilidade de checar informações instantaneamente, caso haja dúvida da publicação.

    Cada um pode montar seu canal de comunicação. Tamanho agora não é documento. No Congresso Nacional, por exemplo, a onda agora são os parlamentares chamarem seus eleitores nas redes sociais para vê-los falar no Plenário ou nas comissões.

    Os mais versados no uso do WhatsApp e em outras redes, são acompahados de um assessor de imprensa munido de celular que filma, edita e posta os pronunciamentos ou entrevistas curtas de opinião deles sobre qualquer assunto.

    Além das redes sociais, eles têm seus sites onde postam todas as informações que consideram importantes para seus eleitores.

    A decadência dos grandes grupos atingiu também o jornalismo ficcionista, a manipulação da informação, hoje frequentemente desmentida na internet.

    A chamada grande imprensa, guardadas devidas excessões, anda desmoralizada e, nesse vácuo, surge com força um novo modelo de imprensa, ainda tentando se equilibrar.

    As redações tradicionalmente centralizadas estão sendo fragmentadas, dando lugar às assessorias de imprensa, que crescem nos órgãos públicos e nas empresas.

    Sem falar na imensa diversidade de sites especializados, cresce o número de blogs de analistas dos mais variados assuntos: de política, economia, artes, a comportamento de cães.

    O que está se desenhando é que sobreviverá nessa selva eletrônica quem produzir informações confiáveis, um jornalismo honesto, com bons intérpretes da realidade, para ajudar a sociedade a entender as transformações do mundo e poder avançar na afirmação da cidadania e na democracia.

    Afinal, a credibilidade é a essência do jornalismo.

    O fato é que ainda estamos sob impacto do surgimento das novas mídias. A revolução tecnológica nos meios de comunicação ainda é muito recente. Tudo isso está se decantando.

    O setor de comunicação é tão importante para o desenvolvimento do país quanto os setores de transporte, indústria, agricultura. Mas não costuma ser tratado com a devida consideração.

    Os estudos para verificar o que representa esse setor na composição do PIB ainda são insuficientes, pelo fato de estar passando por intensa transformação.

    O governo Dilma vai anunciar em breve um projeto, que está sendo finalizado no Ministério das Comunicações, chamado de Banda Larga para Todos, de universalização da internet para 98% dos domicílios até 2018, com velicidade de 25 Mbps. Hoje a média é de 2,9 Mbps.

    Com isso o Brasil se equipara aos países mais desenvolvidos do mundo em oferta de internet de alta velocidade.

    Serão investidos R$ 50 bilhões. O governo entra com R$ 15 bilhões e as operadoras com R$ 35 bilhões. Os recursos são do FISTEL – Fundo de Fiscalização das Telecomunicações que tem hoje em caixa R$ 47 bilhões.

    É um setor que precisa de um marco regulatório para organizá-lo do ponto de vista econômico, social, cultural e político, pela importância estratégica que representa para a construção da nação democrática e soberana que desejamos.

    Creio que seremos capazes de criar meios comprometidos com a civilização para que possamos superar a barbárie.

  • Nossa democracia está madura

    Aos trancos e barrancos estamos construindo nossa nação, sempre nesse jogo duro entre democratas, libertários e autoritários herdeiros das oligarquias coloniais que sempre mantiveram os descendentes das comunidades negras escravizadas e das nações indígenas dizimadas sob seu domínio. Mas a dialética salva.

    Nessa disputa, os democratas estão vencendo e conquistando espaço para a conquista de direitos, a inclusão social, a redução da desigualdade e afirmação da soberania, entre outras causas não menos importantes.

    Eleições estão sendo realizadas e os mandatos garantidos. As tentativas de desestabilização de governos é que precisam acabar. Não somos nem seremos mais uma “República de bananas”. O Brasil é a sétima economia do mundo, um país moderno em franca superação de seus problemas.

    Temos uma constituição e instituições que, bem ou mal, funcionam, apesar do ar monárquico que predomina nelas, com governantes, parlamentares e juízes ainda se comportando como reis e príncipes.

    O déficit de cidadania é muito grande. O pouco que temos conseguimos com todo nosso esforço, contra a vontade da elite que sequer admite os direitos do povo. Uma elite que não gosta da democracia porque na democracia ela perde sempre.

    Nossos parlamentos vivem grave crise de representatividade, um descompasso enorme entre os anseios da sociedade e o que fazem seus representantes. Tanto que, nas manifestações, políticos foram vaiados e impedidos de falar.

    Certamente isso tem a ver com a destruição da política não só pelos políticos inescrupulosos, mas também pela imprensa conservadora, que ultrapassou todos os limites na criminalização da política, e pelo mercado.

    O mercado quer que as pessoas baixem a cabeça, trabalhem, consumam e deixe o destino nas mãos dele.

    Isso acontece, em grande parte, devido às deficiências da educação. Escolas ainda adestram pessoas para o mercado de trabalho ao invés de formar cidadãos. Melhorou um pouco, mas é trabalho para longo prazo.

    Primeiro é necessário formar professores, depois alunos. Isso leva tempo, mas a lei que instituiu o Plano Nacional de Educação promete.

    Serão aplicados 10% do PIB na educação até 2024. Desses, 75% provêm dos royalties do petróleo do Pré-sal.

    Os profissionais do magistério das redes públicas serão valorizados de forma a equiparar seu rendimento médio ao dos demais profissionais com escolaridade equivalente.

    Tudo indica que ao longo dos próximos dez anos o sistema educacional estará oferecendo educação de qualidade aos cidadãos.

    Falta também democracia participativa. Votar e achar que o representante eleito vai resolver os problemas do país ou da cidade sem a participação direta da população nos debates e na formulação das políticas públicas está provado que não funciona.

    O Judiciário, ainda dominado pelo direito positivo, parece sofrer a doença cultural de Corte monárquica. Juízes posam de semideuses e a inércia o faz o poder mais ineficiente da República.

    As manifestações do dia 15 de março foram bastante numerosas, mas vazias, desprovidas de agenda, de reivindicações e propostas.

    Xingamentos, pedidos de impeachment e volta da ditadura militar, como aconteceu, não parecem atitudes cidadãs.

    Essa massa de pessoas precisa ser incluída no debate político para ajudar a construir a nação democrática. Elas precisam também se comprometer, se responsabilizarem pelas mudanças, mas sem a postura tola de golpista.

    Afinal, quem protesta pelo fim da corrupção deveria se alinhar com quem quer a reforma política e o fim do financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas, que é a raiz dos desmandos e da corrupção na administração pública.

    Sem medo de manifestações! Em dezembro de 2014, inúmeras cidades dos Estados Unidos foram sacudidas com protestos pedindo justiça em razão da morte de um jovem negro por um policial branco. E o mundo não acabou.

    Multidões se concentram nas praças de cidades em diversos países da Europa, atingidos pela crise internacional, em manifestações gigantescas contra a política econômica dos governos, baseada no arrocho fiscal, que têm levado a população a desemprego em massa.

    Nossa democracia está madura. A dialética salva.

  • Deixem a Dilma investigar!

    A Petrobras está sendo saneada para dar o maior passo de sua história desde quando foi criada nos anos 1950, – contra a vontade dos conservadores udenistas e da imprensa que servia a eles -, para explorar as jazidas do pré-sal, tornar-se uma das três maiores petrolíferas do mundo e, com parte dos recursos (royalties), ajudar a financiar a revolução educacional, a saúde e o desenvolvimento científico e tecnológico para conquistarmos nossa soberania.

    Imagina se Petrobras iniciasse a exploração do petróleo do pré-sal, uma das maiores jazidas do mundo, com essa máfia operando os negócios. O que seria do Brasil?

    Ficaria talvez como a Venezuela, no governo de Carlos Andrés Perez, e de outros anteriores a Hugo Chaves, que sugaram enquanto puderam a estatal de petróleo venezuelana e deixaram a população a míngua.

    Segundo o jornal Valor Econômico, já são mais de 2 mil funcionários da Petrobras investigados pela auditoria interna contratada pela empresa, por envolvimento em esquemas de corrupção.

    Envolvidos diretamente 150, que estão sendo investigados pela Polícia Federal. Entre eles, diretores, alguns presos. Funcionários com até 30 anos de empresa.

    Curiosamente, nenhum deles filiado ao PT. Mas, por incrível que pareça, a imprensa udenista conseguiu cravar em corações e mentes do povo que o PT é o responsável por todas as mazelas que ocorrem na Petrobras.

    Quem teve a oportunidade de ler o conteúdo das delações premiadas sabe quem é quem nessa história.

    Os que ficaram sabendo do escândalo por meio da imprensa udenista ou por certas pessoas em redes sociais, sinto muito dizer, estão desinformados.

    Vai sair um livro mostrando isso e não é de petista, mas de um profissional do jornalismo de reputação ilibada. Desculpe, mas não estou autorizado a revelar o nome do jornalista.

    O Brasil está vivendo um momento inédito quanto ao funcionamento dos órgãos de fiscalização e controle que atuam no combate à histórica corrupção.

    Desde o primeiro mandato do ex-presidente Lula e agora, com a Presidenta Dilma, as instituições de fiscalização e controle e judiciárias atuam com absoluta independência, sem nenhuma interferência da Presidência da República ou de qualquer instância política governamental.

    Diferentemente de governos anteriores, que não investigavam. Procuradores do Ministério Público, diretores e delegados da Polícia Federal, da Receita Federal, do Banco Central, eram nomeados para os cargos, mas a fim de bloquear qualquer investigação. E quem ousasse investigar qualquer denúncia era transferido e/ou afastado de suas funções.

    Esses órgãos nunca tiveram leis tão eficazes e um corpo de funcionários tão preparado para o exercício da função pública como dispõem hoje.

    A partir de 2003, no âmbito da União, foi fortalecido o sistema institucional de defesa do Estado responsável pela prevenção e pelo combate à corrupção.

    No governo Lula foram instituídas leis e articulados os órgãos de fiscalização e controle para atuarem de forma coordenada, e garantida plena autonomia das instâncias públicas, sem nenhuma interferência da Presidência da República ou de qualquer instância governamental.

    Na mesma época, foi sancionada a lei que criou a Controladoria Geral da União (CGU).

    O então Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, promoveu a reestruturação da Polícia Federal, a Reforma do Judiciário, criou o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional e a Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro.

    Em 2004, foi criado o Portal da Transparência; em 2005, regulamentado o pregão eletrônico; e em 2008, criado o Cadastro de Empresas Inidôneas (CEIS).

    Em 2009, foi sancionada a Lei da Transparência, que determina a disponibilização, em tempo real, de todas as informações sobre a execução orçamentária e financeira da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

    Em 2012 foi aprovada a Lei de Acesso à Informação.

    Todas essas normas jurídicas consolidam a transparência do exercício da função pública e o controle social da gestão dos recursos públicos e dos atos governamentais.

    Todos os órgãos de fiscalização e controle tiveram seu corpo funcional ampliado e qualificado por meio da realização de concursos, capacitação, dotação de recursos financeiros e tecnológicos modernos para dar suporte às atividades dos agentes públicos.

    O orçamento da Polícia Federal, por exemplo, teve um aumento de R$ 2,9 bilhões, mais do que duplicou o efetivo com a realização de concursos públicos, foram treinados e equipados os funcionários com o que há de mais moderno.

    O Ministério Público também teve o orçamento duplicado, assim como o Banco Central, Receita Federal e outros órgãos tiveram melhorias significativas.

    Em 2013, a Presidenta Dilma sancionou a lei que define a figura do corruptor e responsabiliza pessoas jurídicas por atos contra a administração pública.

    Essa lei está possibilitando ao Ministério Público, à Polícia Federal e ao Judiciário irem fundo nas investigações da “Operação Lava Jato”.

    Políticos e empresários estão apreensivos, incomodados com os novos tempos. A certeza da impunidade acabou.

    São sintomáticas as reações de Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Sarney, Agripino Maia e outros caciques da política brasileira às investigações do escândalo da Petrobras.

    Eles ainda operam a política na velha lógica oligarca da impunidade, de quem está acima de tudo, de todos, da lei e das instituições: “Como assim, me investigar?”

    Se observarmos bem, há uma rebelião de poderosas forças políticas, que vão desde as que sempre governaram o país de forma fisiológica, a megaempresas de mídia, construção civil, sistema financeiro, indústria, agronegócio e tantos outros setores, que historicamente dominam o país desde a colonização usando o Estado a favor de seus interesses. Isso está ficando cada vez mais claro.

    Essas forças políticas querem impedir o combate à corrupção e o desmantelamento dos grupos que se estruturaram sugando o Estado. Afinal, sem as velhas tetas elas não resistirão.

    Curiosamente, são as mesmas forças que não querem a Reforma Política que ponha fim ao financiamento privado de campanhas eleitorais por empresas privadas

    São as mesmas forças políticas que se alinham ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, na sua decisão de segurar a ação declaratória de inconstitucionalidade que proíbe o financiamento empresarial de campanhas eleitorais.

    São as mesmas forças que aprovaram a Emenda Constitucional do Orçamento Impositivo, que reserva, no Orçamento da União, uma verba no valor de R$ 10 milhões para cada parlamentar destinar a projetos de sua região de origem.

    Com o conjunto de iniciativas e a determinação de enfrentar os grandes esquemas de desvios, os governos Lula e Dilma entram para a história como os que mais fizeram pelo combate à corrupção no Brasil.

    Deixem a Dilma investigar!

    Resta saber se nossa democracia aguenta.

  • As mãos de sangue de Suharto e a pena de morte na Indonésia

    Shuarto

    Para ajudar a entender o desprezo do governo da Indonésia pelos direitos humanos, ao executar o traficante brasileiro, Marco Archer Cardoso Moreira, vale a pena visitar um trecho da história recente daquele país, feita de sangue, suor e lágrimas.

    Ainda estão vivas as marcas deixadas por um dos mais bárbaros ditadores de todos os tempos, Hadji Mohamed Suharto, entre elas a pena de morte, banalizada desde a “Guerra fria”.

    O general Suharto fechou eternamente os olhos no dia 27 de janeiro de 2008, em Jacarta, e deixou para a história o assassinato em massa de cerca de um milhão de pessoas, coberto por um manto de silêncio.

    Velado por uma multidão, incensado por admiradores, afagado com condolências de chefes de Estado das grandes potências ocidentais, Suharto foi enterrado com honras militares, como estadista.

    Este fato foi tratado pela imprensa como outro qualquer e misturado no turbilhão do noticiário que desaparece todos os dias no túnel do tempo.

    O Jornal Nacional, por exemplo, em sua manchete, não o tratou como ditador, mas como líder, na voz grave e aveludada do apresentador William Boner: “ex-líder indonésio, Suharto, morre aos 86 anos em Jacarta”.

    Líder de quem?

    O jornalista e documentarista australiano, John Pilger, um dos mais premiados jornalistas investigativos do mundo, esmiuçou a ditadura de Suharto, levantou um volume extraordinário de informações ao longo de sua vida, publicou em jornais, livros, documentários, revelou para o mundo o submundo de um dos regimes mais cruéis da história da humanidade, que deixou cicatrizes profundas na vida do povo indonésio.

    Alguns órgãos de imprensa, acanhadamente, falam em 500 mil pessoas, mas Pilger afirma que o número de execuções do regime de Suaharto é muito maior, chega a um milhão.

    É considerado o segundo maior massacre da segunda metade do século XX. Perde apenas para o ditador haitiano “Papa doc”, outro facínora apoiado pelos EUA.

    Só no Timor Leste, sob domínio indonésio, foram mortas 200 mil pessoas, em 1975, segundo Pilger.

    Além disso, Suharto lidera a lista dos ditadores mais corruptos de que se tem notícia.

    Depois de 30 anos no poder, o ditador acumulou uma fortuna avaliada em 15 bilhões de dólares, o equivalente a 13% da dívida externa do país, da qual o Banco Mundial, em grande parte, é credor.

    A família Shuarto controla pedágios, bancos, rede hoteleira, extensões de florestas, rede de imobiliárias, shopping-centers, revendedoras de automóveis e empresas de muitos outros ramos de atividade.

    Uma ditadura para proteger negócios

    Shuarto Time

    A história da ditadura de Suharto começou por volta de 1965/66, quando comandou as tropas que derrubaram o presidente nacionalista Achmed Sukarno, no governo desde o fim da colonização holandesa.

    Em 1967, logo depois do golpe, em plena “Guerra Fria”, o grupo Time-Life Corporation promoveu em Genebra uma conferência, realizada em três dias, na qual foi discutida a partilha corporativa da Indonésia.

    Suharto dividiu a mesa dos trabalhos da conferência com os representantes dos maiores grupos capitalistas do mundo, gigantes dos negócios do Ocidente, como David Rockefeller e outros do mesmo porte.

    Mandaram representantes, os principais bancos, empresas petrolíferas, montadoras de automóveis, indústria química, de comunicação, de papel e outras.

    O grupo Time-Life Corporation, que promoveu essa conferência, é o mesmo que injetou na Rede Globo, em 1962, US$ 6 milhões de dólares a fim de estruturar a TV e outros veículos de comunicação da família Marinho, segundo o livro “A História Secreta da Rede Globo”, do jornalista Daniel Hertz.

    Grande parte dos técnicos indonésios, que acompanhavam Suharto na conferência havia chegado de uma jornada de estudos nas universidades da Califórnia e Berkeley e estavam ali para apresentar as informações sobre os principais atrativos do país: mão-de-obra abundante e barata, recursos naturais à vontade e um mercado potencial inestimável.

    Na reunião foram discutidas as linhas gerais do que seria uma economia de mercado e os técnicos se encarregaram de detalhar as medidas a serem adotadas.

    A Fundação Ford bancou o plano através do Centro de Estudos Internacionais e do Instituto de Pesquisas Stanford.

    O economista Dave Coler, da Universidade de Harvard, foi encarregado de chefiar a equipe e redigir o plano em detalhes.

    Coler havia concluído a reforma bancária na Coréia do Sul para adaptar o sistema financeiro daquele país ao mercado financeiro internacional. O mesmo foi feito na Indonésia.

    A Indonésia repartida

    A Indonésia foi repartida em cinco setores: mineração, serviços, indústria leve, finanças e sistema bancário.

    Assim as empresas montaram a infraestrutura dos negócios e estabeleceram as condições para entrada no país.

    A Freeport Company ficou com o cobre de Papua Ocidental (Henry Kissinger, até recentemente fez parte do conselho diretor da Freeport); um consórcio americano e europeu ficou com o níquel; a Alcoa ficou com a maior parte da bauxita; um grupo de empresas americanas, japonesas e francesas ficou com as florestas tropicais de Sumatra, Papua Ocidental e Kalimantan.

    A Cargil, que hoje domina o comércio mundial de alimentos, ficou com as regiões de terras mais férteis, para o agronegócio.

    Suharto baixou um decreto isentando os grupos estrangeiros de impostos por cinco anos e criou o Intergovernamental Group on Indonésia (IGGI), formado por representantes dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e da Austrália, mais o FMI e o Banco Mundial, para gerir a economia do país.

    A partir de 1967 a Indonésia foi inundada de dólares. O Banco Mundial, em seus relatórios, referia-se ao governo de Suharto como “O menino-modelo da globalização” e do “Milagre da Ásia Ocidental”.

    Shuarto torturas

    Entre os anos 1960 e 1990, os chamados “Tigres asiáticos” (Indonésia, Coréia do Sul, Taiwan ou Formosa, Cingapura, Tailândia, Malásia e Hong-Kong), eram considerados modelo de desenvolvimento.

    Seguiam religiosamente as regras impostas pelas agências internacionais, cresciam vertiginosamente à custa do capital estrangeiro, de recursos naturais e de mão-de-obra barata da região.

    Margareth Tacher, em meados dos anos 80, chegou a dizer à imprensa: “Suharto é um de nossos melhores e mais valiosos amigos”.

    Um dos maiores massacres da segunda metade do Século XX

    O golpe militar, iniciado em 1965, levou a Indonésia a um banho de sangue. Depois da conferência, Suharto se convenceu de que era necessário liquidar toda a oposição que ainda restava no país.

    Assinou vários acordos de cooperação militar e de segurança, principalmente com os EUA e com a Inglaterra.

    Foi deslocado para a Indonésia o maior contingente de agentes da CIA e de instrutores para treinamento das forças armadas e da repressão policial de que se tem notícia.

    O país foi transformado no maior laboratório da CIA de repressão política no CIA no mundo.

    Essa operação, denominada “operação modelo”, pelos agentes da CIA serviu de experiência para a “Operação Fênix”, no Vietnã, onde esquadrões da morte mataram cerca de 50 mil pessoas, e para preparar grupos para atuar em outros países, muitos deles na América Latina.

    Essa escolha da Indonésia para ser um laboratório de repressão política não foi à toa. Entre 1959 a 1965, mais de 15 milhões de pessoas filiaram-se a partidos políticos ou organização de massa no país, estimuladas a desafiar a influência britânica e norte-americana na região.

    Segundo o historiador australiano, Harold Crouch, o PKI – Partido Comunista da Indonésia, era o maior partido comunista do mundo fora da URSS e da China, com mais de três milhões de filiados.

    Um partido que não dispunha de organização suficiente para uma insurreição armada, se restringia à defesa dos interesses dos pobres dentro do sistema vigente. Crescia, aceleradamente, mais que qualquer outro, e se popularizava com as grandes manifestações de massa.

    Aos olhos da CIA e de Suharto, o crescimento do PKI representava um perigo para a região. No vizinho Vietnã a situação não era boa para os Estados Unidos e aliados.

    Entre 1965 e 1966, de posse da lista de filiados e ativistas, Suharto, com a colaboração da CIA e do serviço secreto britânico, segundo a jornalista americana, Kathy Kadane, dividiu a Indonésia em regiões de maior concentração de membros do partido comunista e deu início à perseguição numa chamada “operação limpeza”.

    Milhares de pessoas foram retiradas de suas casas e executadas em plena luz do dia.

    Kadane escreve que os agentes da CIA que acompanhavam os militares na operação iam riscando os nomes das listas, à medida que as pessoas iam sendo executadas.

    Os relatos das torturas e execuções são inimagináveis, tal a brutalidade dos militares de Shuarto.

    Pessoas eram sequestradas e decapitadas, as cabeças apareciam sob muros nas ruas de Jacarta ou de outras cidades.

    As matanças foram mais monstruosas em Bali. A escritora inglesa Carmel Budiardjo, ex-presa política, conta que na ilha de Bali foram executadas 80 mil pessoas.

    As pessoas eram dominadas, as mãos amarradas e executadas. Nas aldeias indonésias, jovens foram trucidados, os pênis arrancados e alinhavados em fileiras para depois contar os mortos.

    Testemunhas relataram ter visto rios com incontáveis corpos boiando sobre as águas, como toras.

    Os métodos de tortura adotados nos interrogatórios eram os mesmos utilizados no Vietnã, no Cambodja, na Coréia, no Chile, na Argentina, no Brasil e noutros países.

    A ilha de Buru durante muitos anos recebeu milhares de prisioneiros sem alojamento, alimento ou água. Lá morriam.

    Haru Atmojo, um ex-oficial da aeronáutica, leal a Sukarno, julgado por um tribunal militar especial e condenado à prisão perpétua, hoje vive em Jacarta e conta que passou quinze anos na prisão, em grande parte numa solitária.

    A primeira cela, nas montanhas geladas de Bandung, conta ele, era tão pequena que não conseguia sequer se deitar. Uma forma de tortura que matava lentamente.

    Essa prisão foi construída pelos holandeses na época da colonização para encarcerar pessoas pelo prazo de doze dias, antes dos interrogatórios.

    Atmojo amargou 15 anos nessa prisão e sobreviveu para contar esta e outras histórias terror na Indonésia.

    Agentes da CIA, que recusaram se identificar para imprensa, na época, revelaram que os métodos utilizados nos interrogatórios e na repressão política foram pesquisados em relatos de livros do período da inquisição. Segundo eles, os métodos do Santo Ofício eram muito eficientes e estavam sendo testados na “operação modelo” com muito sucesso.

    Robert J. Martens, ex-adido político da embaixada americana em Jacarta e Joseph Lazarsky, subchefe do escritório da CIA também em Jacarta, confirmaram à imprensa que eles passaram ao exército de Suaharto uma lista de 5 mil pessoas, consideradas as mais importantes cabeças do PKI, para serem executadas.

    Muitas delas queriam vivas para serem interrogadas, mas ao resistir à prisão e foram fuziladas. Outras morreram nos interrogatórios. Os agentes da CIA se queixaram de que no início das operações Suaharto não dispunha de esquadrões de matadores e inquisidores suficientes para eliminar e interrogar todas as pessoas da lista. Tiveram que preparar os esquadrões.

    A CIA, no início, avaliou o exército de Suharto e o considerou precário para as operações planejadas. Sugeriu a Washington, em relatório, investir em equipamentos. O pedido foi atendido prontamente.

    Uma rede completa de comunicação foi levada em voos noturnos a Jacarta, por aviões da força aérea americana baseada nas Filipinas.

    Os equipamentos eram de última geração com frequências altas, conhecidas da CIA e da Agência de Segurança Nacional que assessorava o ex-presidente Lyndon Johnson.

    A indústria de armas, naquela época, crescia a níveis inimagináveis. As ditaduras se espalhavam pelo mundo como erva daninha e os acordos de cooperação militar proliferavam nos moldes da doutrina de segurança nacional.

    Além da Indonésia, Índia, Paquistão, Iraque, Israel e outros, são exemplos de países que foram às compras no mercado de armas. Estados Unidos e Inglaterra lideravam a venda.

    Na década de 80, no governo de Margareth Tatcher, quase metade das verbas destinadas à pesquisa e desenvolvimento foram destinadas à pasta da defesa.

    Naquela época, a Indonésia foi beneficiada por um empréstimo subsidiado pelo governo britânico, quase uma doação, de 1 bilhão de libras esterlinas para compra de caças-bombardeiros.

    O serviço secreto britânico já dispunha de informações suficientes para sugerir à Primeira-Ministra algo do gênero, tendo em vista os negócios britânicos na região.

    O mundo girou, o tempo passou e a crise chegou

    Shuarto 4 caveiras

    Na segunda metade dos anos 1990 a crise chegou aos “Tigres asiáticos” de forma devastadora. Os “Tigres asiáticos” se transformaram em “tigres de papel”.

    As economias que eram centradas no direcionamento da indústria para exportação de bens de consumo, em altos investimentos externos e no aproveitamento de mão-de-obra barata e qualificada, começaram a dar sinais de esgotamento no início dos anos 1990, com o declínio das exportações, aumento do déficit público e maior dependência de empréstimos estrangeiros.

    Essa necessidade de financiamento externo tornou os “Tigres asiáticos” presas fáceis dos ataques especulativos, que começaram a ocorrer em julho de 1997 e tiveram seu ápice em meados de 1998.

    As bolsas despencaram na região e as economias daqueles países foram à bancarrota. Naquela época a grande gambiarra eletrônica e financeira internacional movimentava mais de US$ 2 trilhões por dia. Hoje supera US$ trilhões.

    Em essência, esse mercado é responsável pela captação da poupança da sociedade para aplicá-la nos negócios mais lucrativos, realizam lucros espetaculares e migram para outras praças.

    A crise tinha como epicentro as economias do Japão e da Federação Russa. No final de 1997, a quarta maior instituição financeira do Japão, a Yamaichi Securitis, decretou falência.

    As autoridades monetárias japonesas revelaram naquele momento que as instituições financeiras do país totalizavam mais de US$ 580 bilhões em títulos podres, de difícil recebimento. O sistema financeiro japonês entrou em colapso.

    Os bancos pararam de emprestar dinheiro, levando à falência inúmeras empresas. Para compensar as perdas causadas pela inadimplência, os bancos japoneses resolveram retirar dinheiro de outros mercados, principalmente dos “Tigres asiáticos”.

    Suharto não servia mais aos negócios do Ocidente. O país estava com uma dívida de US$ 262 bilhões, valor correspondente a 170% do PIB do país.

    O Tribunal de Contas do governo dos Estados Unidos examinou a situação financeira da Indonésia e constatou que o Banco Mundial havia perdido US$ 10 bilhões naquele país.

    O Tribunal informou ao Senado detalhes sobre propinas, desvios e fraudes, que o Banco ignorara nos relatórios internos, para não contrariar a família Suharto e seus amigos.

    Os relatórios indicavam que pelo menos 30% dos empréstimos do Banco estavam sendo desviados para funcionários e políticos do Governo da Indonésia.

    Uma onda de protestos, puxada pelos estudantes, contra o governo e a intervenção do Banco Mundial e FMI, tomou as ruas de Jacarta e de outras cidades.

    Nos confrontos os militares levaram para as ruas os veículos blindados britânicos antimotim, mas já era tarde. Shuarto não resistiu aos protestos e caiu em junho de 1998, deixando em seu lugar Jusuf Habibie, um de seus delfins, que continuou com a linha dura na política.

    A Indonésia é hoje um dos países de maior desigualdade no mundo, com mais de 70 milhões de pessoas pobres, condenadas a pagar as dívidas contraídas pelo ditador.

    A agricultura familiar deu lugar ao agronegócio, milhões de famílias foram expulsas das terras, numa verdadeira diáspora, e se amontoaram nas periferias das grandes cidades, em condições subumanas, vivendo em favelas, com esgotos a céu aberto, condenadas ao mercado de trabalho informal ou, quando na indústria, ganhando salários que mal dá para a ração de subsistência.

    A agricultura autosustentada foi varrida do mapa, dando lugar ao sistema diarista, concebido pelo Banco Mundial, como “solução” para a multidão que perdeu suas terras.

    Enfim, esse é um breve resumo da história de um dos maiores massacres da segunda metade do século XX, de entrega de um país aos grandes negócios, de condenação de uma enorme população à pobreza e à violência.

    Suharto cerrou os olhos, definitivamente, sem nunca ter sido julgado por um tribunal. Certa imprensa brasileira olhou de soslaio o ditador em seu leito de morte e o chamou de “Líder”, talvez pelos serviços prestados ao Ocidente.

    Se ele tivesse sido um governante anti-Ocidente, seguramente seria chamado de ditador, seu currículo de atrocidades teria sido divulgado com estardalhaço.

    Como o mundo dá muitas voltas, na cobertura da execução do  Marco Archer, repórteres da TV Globo tiveram seus passaportes confiscados pelo governo indonésio.

    Certamente a Globo faria imagens do brasileiro para explorá-las à exaustão, como sempre faz, e com isso ganhar mais dinheiro. Não devia estar interessada em mostrar a barbárie estabelecida na Indonésia, onde a banalização da pena de morte é apenas um detalhe de toda a violência no país.

    Quanto ao que representou Shuarto para os EUA, Inglaterra e outros países do ocidente, o governo dele pode ser resumido no que disse, em tempos idos, Franklin Roosevelt, sobre o ditador dominicano, Rafael Trujilo: “Ele pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”.

    (*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra; e O Outro Lado do Real.

  • A era da estupidez

    O medievalismo expresso no fanatismo religioso é a maior ameaça à democracia.

    Não é de hoje que a sociedade é regida por códigos empresariais e religiosos, verdadeiras prisões, mas nos últimos tempos isso ganhou força e está levado grupos ao extremismo e à intolerância.

    Tudo isso cresce no vácuo das deficiências da educação, que não consegue se firmar como esteio da democracia e da República.

    A faixa por onde transitam os libertários, os democratas e toda gente laica está cada vez mais estreita.

    A angústia existencial, turbinada na aceleração da crise do capitalismo, tem causado um aumento vertiginoso das doenças sociais. A busca por abrigo em religiões para amenizar o sofrimento avança e as religiões ganham poderes transnacionais.

    Sob forte moral, pessoas são dominadas, aniquiladas, manipuladas, extorquidas.

    Por outro lado, os laboratórios e a medicina, com seus manuais, medicam pessoas como nunca antes. A cada dia surgem novos rótulos de doenças psiquiátricas e novos remédios.

    O que mais cresce no mundo são as igrejas e as farmácias.

    A padronização do comportamento está sendo fixada também por medicamentos.

    Nos EUA, os laboratórios das forças armadas desenvolveram um medicamento que tira completamente o sono dos soldados, para uso em frentes de batalha, sem prejudicar em nada a atenção.

    Em breve esse medicamento estará no mercado para ser usado na escravização voluntária. Ou seja, as empresas vão querer pessoas que não dormem, para produzirem mais e com mais atenção.

    As maquinetas eletrônicas como computadores, celulares, transformam gente em peças dessas máquinas, assim como as máquinas das indústrias transformam os operários também em peças.

    Hiper-estimulam e imprimem um ritmo alucinante na população acelerando tudo. (Sou usuário e uso bem as maquinetas, mas com moderação).

    A hiperatividade tornou-se um valor no mercado. As empresas querem hiperativos, eles produzem mais. As igrejas oferecem o amparo no desespero.

    As redes sociais estão retribalizando as pessoas, criando nichos de verdades absolutas e grupos que se retroalimentam completamente separados uns dos outros, criando uma espécie de estratificação horizontal.

    Talvez Mac Luhan estivesse certo quando disse que a “Aldeia Global”, formada pela expansão dos meios de comunicação, distancia as pessoas, separa as pessoas.

    As religiões, por sua vez, separam mais ainda as pessoas porque cada uma prega suas verdades absolutas.

    Enquanto a concepção de Deus estiver ocupando todo o espaço do absoluto do ser humano haverá violência, intolerância.

    As religiões, na sua grande maioria, são as mães dos conflitos, das guerras, por serem construídas sobre pilares morais de dominação, de alienação, por princípios medievais, por culturas de intolerância que ameaçam a democracia e todos os valores libertários.

    Quem une a humanidade é a arte. Se o espaço do absoluto estivesse ocupado pela arte, pela criação, a humanidade certamente seria outra, como nos mostra o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Mas a arte não pode também ser usada para insultar, para hostilizar, humilhar quem quer que seja. A arte é para libertar.

    Não podemos esquecer que a liberdade de expressão tem os contornos da democracia.

    Com a sociedade cada vez mais regida por códigos religiosos e empresariais, a violência pedala as estatísticas.

    O atentado em Paris tem esse componente. Um jornal que, para vender, ignora todos os limites, agride a crença alheia, ridiculariza, e uma religião intolerante, que é capaz de matar em nome de Deus. Os dois são frutos medievais.

    Precisamos aprofundar esse debate. Há muito mais coisa envolvida nessa barbárie. Enfim, democracia, liberdade e respeito ajudam a criar uma sociedade civilizada, que trabalhe menos, e laica.

  • Uma defesa da política econômica de Dilma

     Laurez Cerqueira
    Gustavo Antônio Galvão dos Santos
    Luis Carlos Garcia de Magalhães

     

    fotorartigoeconomia

    Dilma conduziu a política econômica com grande habilidade até agora. É de conhecimento geral que os resultados sociais melhoram significativamente em termos de emprego, salários, inclusão social e oferta de serviços públicos, como educação e saúde. Se fizermos uma comparação internacional, concluiremos que os resultados econômicos e sociais do Brasil justificam uma medalha de ouro, especialmente se considerarmos os obstáculos políticos e econômicos que foram enfrentados. A capitã de nossa nau fez uma travessia exitosa em meio a tormentas.

    Essas não são informações novas. O debate eleitoral deixou isso claro. O que consideramos novo é a nossa tese de que a baixa taxa de crescimento média durante o mandato não mancha o fato de que a estratégia geral da política econômica foi sábia e estava no caminho correto.

    O Tripé

    Para chegarmos a essa conclusão herege, precisamos compreender que o condicionante principal da política econômica, o Tripé, é uma camisa de força que só pode levar a 3 resultados: crescimento muito baixo, apreciação cambial, que causa desindustrialização, ou o estouro das próprias metas. Nenhum outro resultado é possível.

    Podemos dividir o Tripé em quatro fases, FHC, Lula 1, Lula 2 e Dilma. Na fase FHC, tivemos crescimento baixo, estouro da meta de inflação e estouro da meta de superávit primário. No período Lula 1, tivemos forte apreciação cambial, que levou à desindustrialização no mandato seguinte. O câmbio começou seu 1º mandato em um patamar muito competitivo, mas terminou valorizado. No período Lula 2, houve apreciação cambial com desindustrialização acelerada, que continuou no início do período Dilma em razão do efeito retardado do câmbio sobre a indústria. No mandato de Dilma, tivemos crescimento baixo e estouro da meta de superávit primário.

     

    Inflação e Sistema de Metas de inflação no Brasil

    O Tripé é uma jabuticaba. Só existe no Brasil. E ele não foi criado de forma como um arcabouço único como exibem hoje. Foi resultado de diferentes soluções conjunturais para resolver problemas de curto prazo que restringiam o governo em 1999, no início 2º mandato do FHC.

    O câmbio flutuante não foi uma escolha, mas uma derrota que o mercado impôs sobre a teimosia do Gustavo Franco, Presidente do Banco Central no 1º mandato de FHC. Essa insistência quebrou o Brasil e lhe obrigou a se submeter ao FMI em busca de empréstimos para sobreviver.

    O FMI exigiu que o Brasil deixasse o câmbio flutuar. E de fato não havia alternativa a isso. Na impossibilidade de manter o câmbio fixo, como desejava, o governo FHC desistiu de sua antiga política cambial.

    O FMI também exigiu que o governo adotasse uma meta de superávit primário. Ele preferia uma meta de superávit nominal, que inclui os gastos com juros. Porém, os juros extremamente elevados e suas oscilações na época tornavam o superávit nominal incontrolável a partir de políticas fiscais. A única forma de o governo ter controle sobre o superávit nominal seria reduzindo as despesas com juros para patamares próximos ao de outros países. Isso desagradaria o setor financeiro. A solução foi uma meta de superávit primário, mantendo assim a política de juros altos intocada.

    A meta de superávit primário passou assim a funcionar como um mecanismo de estabilização da dívida líquida, que seria útil em um contexto de juros muito altos e crescimento muito baixo. Foi uma forma de dar legitimidade e sustentabilidade aos juros muito altos e ao baixo crescimento.

    A meta de inflação teve como função impor uma regra rígida e clara de conduta para a política monetária. Com isso o governo limitaria as expectativas de desvalorização cambial, pois os especuladores poderiam calcular a partir das estimativas de inflação, quando o governo iria aumentar os juros. Em tese, como o aumento dos juros prejudica os especuladores, esses parariam coordenadamente de especular antes que fosse necessário que o governo aumentasse os juros para inibi-los. Assim as meta de inflação foi útil para reduzir os custos da política de controle da taxa de câmbio, custo esse que é medido pela necessidade de aumentar a taxa de juros. Foi útil em 1999, quando as expectativas de desvalorização cambial eram muito elevadas.

    O problema do Tripé é que ele a torna a política econômica pró-cíclica e, portanto, limita a capacidade do governo retirar a economia da recessão ou estagnação. O Tripé impede o governo de fazer política econômica de forma independente dos humores e da “confiança” do mercado financeiro nacional e internacional. Através dele, a política fiscal é constrangida pela meta de superávit primário. A política monetária é completamente atrelada à corrida atrás da meta de inflação. E essas metas são definidas, até por pressão do setor financeiro, de forma a que o governo tenha pouca margem de manobra.

    Somente anos depois de criado, o Tripé foi promovido como “Deus ex-machina”, a solução sagrada para todos os problemas. Isso aconteceu principalmente depois da eleição do Lula. Essa sacralização do Tripé pela imprensa brasileira acabou tornando a política econômica do governo Lula e Dilma muito limitada e manteve o governo com baixa capacidade de tirar a economia da recessão. Tripé faz com que o crescimento econômico dependa do “humor” e “confiança” do mercado e não das políticas governamentais de estímulo à demanda. O governo fica assim dependente dos “mercados”, que foram favoráveis em boa parte do governo Lula e desfavoráveis em boa parte do governo Dilma.

    O Tripé impõe uma regra previsível e rígida de conduta ao governo, uma regra reativa ao mercado e, portanto, sob o controle indireto dos “humores” desse último. Quando o humor do setor financeiro nacional ou internacional piora, esse para de financiar os investimentos e a bolsa ou passa a comprar dólares. Com isso a economia para de crescer ou a inflação sobe e o governo é obrigado a aumentar os juros para conter o câmbio, ou cortar planos de investimentos públicos para fazer com que o crescimento dos gastos acompanhe o baixo crescimento da arrecadação. O Tripé é uma regra que torna o governo refém do “mercado” financeiro.

    O Tripé de Lula

    Por isso, em situações normais, o Tripé produz baixo crescimento ou o descumprimento das próprias metas. Foi assim com FHC e com Dilma. A grande diferença foi a forma como cada um deles reagiu à tendência estagnacionista do modelo.

    Lula deu sorte de poder manter a taxa de câmbio em permanente valorização e, só por isso, pôde cumprir as metas de inflação e superávit sem ter um crescimento médio muito baixo. Felizmente, o Presidente Lula é um estadista que sabe utilizar a sorte. Sua sorte foi começar o governo com o dólar muito desvalorizado, e, quando não podia mais contar com isso, ser beneficiado pelo boom das commodities. As exportações e as reservas cambiais cresceram a taxas muito altas em todo seu governo. Por essa razão, a permanente valorização cambial não levou a um déficit no balanço de pagamentos e a um ataque especulativo sobre o câmbio. No gráfico abaixo, as barras verdes mostram o grande diferença entre o governo Lula e Dilma, a valorização cambial no primeiro, representada pelas barras para baixo e a desvalorização na segunda, representada pelas barras para cima.

    Inflação 2Dilma: Tripé, desindustrialização e contenção de tarifas.

    Dilma, não pôde contar nem com o câmbio competitivo e nem com commodities ou exportações crescentes. Para manter os salários e empregos em crescimento, teve elaborar um plano muito engenhoso, precisou trabalhar no limite das metas e utilizou como saída conter as tarifas de serviços públicos e reduzir os impostos da cesta básica e, portanto, seus preços.

    A política de contenção de tarifas e preços foi correta e essencial para que a Dilma pudesse dar continuidade às conquistas do governo Lula. Mas não apenas isso. Essa política permitiu que fosse parcialmente corrigido o maior erro da era Lula, a valorização cambial e a desindustrialização, porque o efeito dessas políticas de redução da inflação abriu espaço para que o câmbio fosse desvalorizado sem que isso implicasse em rompimento da meta de inflação.

    Isso foi uma grande realização conduzida eficazmente pelo Ministro Mantega com essencial colaboração do Presidente do Banco Central Tombini e do Secretário Nelson Barbosa, na primeira metade do governo.

    Desvalorizar o câmbio ao mesmo tempo em que melhora salários, emprego e serviços públicos é difícil. Fazer isso ao mesmo tempo em que garante o cumprimento de uma meta de inflação rígida, é uma obra admirável. Dilma conseguiu com isso estancar o processo de desindustrialização, como se pode ver no gráfico abaixo, sem romper com os compromissos sociais, como muitos sugeriram.

    Inflação 3

     

    É preciso entender que o aumento dos salários, a desvalorização cambial e elevada indexação na economia brasileira impossibilitam o país ter um nível de inflação tão baixo quanto o padrão dos países já desenvolvidos.

    A nova política industrial

    Ainda assim o governo conseguiu manter a inflação na meta. Para atingir essa proeza, foi não suficiente a contenção das tarifas. Outro fator importante foi a política de competitividade empreendida pelo Ministro Pimentel com a formulação do Presidente da ABDI, Mauro Borges. A política de competitividade ajudou a indústria a sobreviver sem que fosse necessária uma desvalorização ainda maior do câmbio, o que implicaria em uma taxa de inflação superior à meta.

    Uma das políticas mais inovadoras e mal compreendidas do governo foi a desoneração da folha de pagamentos. Ela tem um efeito similar à desvalorização sobre a competitividade externa da indústria, mas sem impacto sobre a inflação. Porém, é muito raro um técnico ou intelectual defendê-la. Na Receita Federal muitos acham que isso gerou um aumento da complexidade tributária. Muitos economistas temem que ela prejudique o financiamento da previdência, apesar de sabermos que, no mundo inteiro, o déficit na previdência é sempre financiado parcialmente pelo Tesouro, e que essa é uma forma de financiamento socialmente mais justo do que a tributação sobre a folha de pagamento, porque a previdência acaba, assim, sendo financiada, na prática, por impostos sobre a renda, o patrimônio ou o consumo e, portanto, atinge relativamente menos os trabalhadores.

    O MDIC com contribuição do BNDES e da Fazenda concebeu também o Reintegra, o Inovar-auto e diversas outras políticas dentro do guarda-chuva do Plano Brasil Maior, que tiveram um impacto importante sobre a competitividade da indústria brasileira. Não há dúvidas de que a Dilma empreendeu a política industrial mais ativa em um presidente eleito democraticamente desde JK.

    Os resultados podem não ter sido considerados tão evidentes em razão do câmbio ainda valorizado, da crise internacional, da feroz guerra cambial e competitiva que está sendo travada no mundo e do acelerado desenvolvimento de novas tecnologias cujas cadeias produtivas o Brasil ainda não participa de forma tão ativa, apesar de o governo ter investido pesadamente em inovação e educação.

    Esses fatores tornaram o soerguimento da indústria uma tarefa hercúlea neste primeiro mandado. Combinados com a camisa de força pró-cíclica do Tripé, tornaram muito difícil superar o baixo crescimento.

    As políticas pró-competividade são importantes para combater a desindustrialização e o déficit no balanço de pagamento, porém tem baixo impacto em estimular a demanda, que estava em descenso desde 2011.

    A crise internacional permanente, os juros ainda elevados – apesar da tentativa audaciosa de reduzi-los – e o esgotamento de vários ciclos, como da construção civil e do endividamento para consumo de bens duráveis, implicavam em demanda decrescente e tendendo à recessão.

    O maior erro da política econômica da Dilma foi o exagero no corte de gastos e aumento dos juros nos 1º semestre do governo. Isso comprometeu todo o mandato, porque não pudemos contar com um cenário externo favorável. Uma vez colocado o crescimento no chão, o Tripé passa a ser uma camisa de força que obriga o governo a ter uma política econômica “pró-cíclica”, e, no caso, estagnacionista, a menos que adote instrumentos considerados “heterodoxos”.

    A queda da demanda e a política tributária de estímulo à competitividade reduziram a taxa de crescimento da arrecadação. Porém, ao invés de cortar investimentos e gastos sociais como foi pedido pelo setor financeiro, Mantega e Arno Augustin optaram, sabiamente, por buscar receitas extraordinárias, adiantamentos de receitas e reduções efetivas na meta de superávit que não comprometessem a Lei de Responsabilidade Fiscal. Essas políticas foram indevidamente chamadas de “contabilidade criativa”.

    Graças elas, pudemos continuar avançando nos programas sociais, nos investimentos e estimular a indústria para impedir a continuidade da desindustrialização. E sem grandes problemas, apesar da histeria dos financistas ao dizer que o governo tinha perdido a “credibilidade”. Ao contrário do que os jornais falaram, as chamadas “manobras contábeis” foram legítimas e seu impacto positivo. Essas políticas ajudaram a impedir uma recessão e a paralisação do governo para cumprir de forma rígida uma meta de superávit que não faz nenhum sentido em momentos de crise econômica internacional. Nenhum outro país soberano tem uma meta rígida de superávit primário e poucos tem superávit primário. Quando tem, isso quase sempre é resultado da melhoria da situação econômica.

    Não há nenhuma razão econômica para achar que a meta deve ser cumprida todo ano de forma rígida, como se fosse prioritária a manter a economia não estagnada e os gastos sociais e investimentos em crescimento. A menos talvez que o Brasil tivesse um endividamento líquido extremamente alto. Porém, nosso endividamento líquido é baixo e o endividamento bruto é estável e bem inferior à média das 10 maiores economias do mundo. Nada justifica colocar a meta de superávit primário como prioridade absoluta. Se a forma menos conflituosa de se fazer isso foi como fizeram Mantega e Arno Augustin, a atitude foi correta.

    O papel do BNDES

    Depois que percebeu que precisaria estimular a demanda, em 2012, o governo optou corretamente em não usar o estímulo ao consumo como locomotiva, em razão dos elevados déficits no comércio de manufaturas e em conta corrente. Dilma preferiu estimular a demanda principalmente através dos investimentos industriais e em infraestrutura.

    O papel central nessa tarefa coube ao BNDES. Nos últimos anos o BNDES virou a Geni do Brasil. A direita e a parte da esquerda o elegeram como inimigo público nº 1. Nada mais distante da verdade.

    A crise de 2008 pegou o Brasil em cheio. Como o Tripé impedia políticas fiscal e monetária anti-recessivas, como foram adotadas nos países desenvolvidos, só escapamos de uma crise econômica mais séria do que a Europa está enfrentando hoje, por causa do BNDES.

    A resposta dos EUA, Europa, Japão, China e outros emergentes à crise de 2008 foi invariavelmente déficit público muito elevado e política monetária expansionista sem precedentes. O primeiro para manter a renda e o emprego em níveis socialmente aceitáveis, a segunda para impedir que toda a economia entrasse em falência financeira. No Brasil, essas duas saídas foram vetadas pelo Tripé. Então, o BNDES cumpriu os dois papéis de política monetária e fiscal que não estavam à mão dos presidentes Lula e Dilma em razão do Tripé. Para isso, o BNDES foi obrigado a crescer muito. Em pouco tempo passou de R$ 40 bilhões de empréstimos anuais para quase 200 bilhões hoje.

    Mais de 200 grandes empresas estavam próximas de quebrar em 2008 em razão de apostas especulativas com derivativos de câmbio. O investimento e exportações entraram em colapso. O BNDES foi a salvação em todas essas áreas. O Programa de Sustentação do Crescimento PSI-BNDES suportou a maior parte do investimento em máquinas e equipamentos do país desde então.

    Mas o BNDES foi além. Ajudou a reorganizar as finanças de estados e municípios que ficaram abaladas com a crise, com as políticas de desoneração de IPI e com o contínuo aumento do salário mínimo.

    Também financiou toda nova política de infraestrutura que a Dilma promoveu. Foi o maior investimento em infraestrutura feito por um presidente eleito democraticamente desde JK.

    Nada disso seria possível sem o conhecimento, experiência, ousadia e capacidade de articulação do Presidente Luciano Coutinho. O BNDES é uma instituição muito complexa e criativa, que costuma tragar os presidentes que não conseguem decifrá-la. No passado, quando era um banco relativamente pequeno, já era assim. Hoje é pior. O tamanho que ele atingiu e o nível de dependência que a economia e o governo brasileiro têm dele fazem com que a tarefa de geri-lo deva ser conduzida com extremo cuidado e competência. São dezenas de programas e linhas de financiamento. Centenas de modalidades de financiamento e de objetivos estratégicos. Milhares de projetos de investimento em implantação. R$ 614 bilhões em estoque de crédito concedido.

    Desde seu início, o BNDES foi gerido por intelectuais de alto nível acadêmico. No governo Lula teve o professor e ex-reitor Carlos Lessa, o mais criativo e original economista vivo do país, e agora o professor Luciano Coutinho. No governo JK foi gerido por Roberto Campos. Celso Furtado, Rômulo de Almeida, Antônio Barros de Castro e entre outros grandes intelectuais já foram seus diretores e presidentes.

    É difícil encontrar um quadro político na ativa, hoje, tão bem preparado para a função que o Luciano exerce. É inconcebível abrir mão de um político, técnico e gestor como ele em um momento de crise tão agudo como vamos passar nos próximos quatro anos. E o Luciano não é apenas isso. O conhecimento e experiência acumulada por ele no BNDES é algo que terá um valor incomensurável nos próximos anos.

    Os inimigos do BNDES

    E o ataque da imprensa à instituição só torna a tarefa mais difícil. A oposição e os mercados financeiros querem ver um governo refém e com pouca autonomia na área econômica. Por isso o ataque feroz à instituição.

    Por mais de 3 décadas, os economistas mantiveram a dívida líquida como referência de “saúde fiscal”. Agora, de repente, alguém inventou que não é mais a dívida líquida que importa para avaliação da “saúde fiscal” do governo. Agora, o que importaria é a dívida bruta.

    Não houve nenhuma mudança na teoria econômica que justificasse essa mudança de critério. É possível que ela seja decorrente do objetivo encontrar algum indicador que pudesse justificar as críticas às operações do BNDES com o Tesouro. Ora, as operações do BNDES com o Tesouro, que viabilizaram o crescimento e estabilidade depois da crise de 2008, não afetam a dívida líquida, mas podem ter levado a um pequeno crescimento da dívida bruta.

    Como as operações BNDES-Tesouro “burlam” a camisa de força do Tripé, pode ter sido conveniente “amarrar” o BNDES através da mudança do critério de avaliação de “saúde fiscal” da dívida líquida para a dívida bruta.

    Se for designado alguém para o BNDES, que não compreenda bem o papel atual da instituição e seus desafios e não saiba dialogar de forma qualificada com a imprensa, mercados financeiros e Ministério da Fazenda, perderemos a última saída que pode permitir ao governo manter a estabilidade e o crescimento sem abandonar o Tripé.

    Um BNDES gerido com competência, cuidado e ousadia é fundamental para a governabilidade hoje. Isso não implica que o Luciano seja o único brasileiro capaz de manter essa função. Há outros quadros com experiência e conhecimento necessários para a função.

    Todavia, é recomendável não abrir mão da sua experiência. O BNDES hoje está muito bem encaminhado. Mas existem funções em importantes empresas públicas e ainda não preenchidas pela Presidenta que estão enfrentando desafios tão grandes, ou até maiores, quanto o que o BNDES enfrentou em 2008 com a crise financeira. A experiência dele como gestor de grande empresa pública durante 7 anos tumultuados é única.

    Minas, São Paulo e a Unidade Nacional

    O governo poderia se beneficiar ao dar um espaço maior para o PT de Minas. A bancada de Minas é hoje tão grande quanto a paulista. Minas está incrustada entre o Centro-Oeste e o Centro-Sul, que são majoritariamente contrários ao governo.

    Minas poderá cumprir novamente o papel que, segundo o professor Carlos Lessa, lhe cabe desde o período colonial. Ser o “cimento”, o fator de união nacional, e, portanto, a “ponta de lança” das mudanças agregadoras. As diferenças geográficas, econômicas, culturais e políticas entre o Sul, representado por São Paulo e o Norte, representado pelo Nordeste sempre foram marcantes e muitas vezes caminharam em direções opostas. Essas partes diferenciadas da Nação são os motores das experimentações, das mudanças e, consequentemente, dos conflitos.

    Porém, quando as diferenças de visão entre o Sul e o Norte são muito grandes, o país pode entrar em impasse político. Normalmente coube a Minas, apoiar uma saída que junte novamente os polos divergentes, pois compreendem ambos os lados. Minas tem um pouco de Nordeste e um pouco de São Paulo.

    Nas últimas eleições, se acentuou muito a divergência de opinião entre o Centro-Sul e o Norte. Para que o país não tropece em um impasse político de consequências imprevisíveis, alguém precisa mostrar de forma muito convincente que esses dois brasis, o pobre e desejoso por progresso e o rico e desejoso por estabilidade e mérito podem ser complementares.

    O governo Pimentel poderá cumprir essa função. Ele pode mostrar como o Brasil se unirá para superar a crise. O Brasil das políticas sociais, que acredita na solidariedade e no otimismo, unido com o Brasil da indústria, da tecnologia e da meritocracia. Ambos precisam ser respeitados e trocarem suas experiências de forma a reduzir suas diferenças. Minas pode ser o modelo, pelo seu papel agregador e por ser o maior estado em que o PT já assumiu.

    O PT de Minas precisa de mais espaço na área econômica do governo federal, até para poder trocar melhor as iniciativas que serão experimentadas. Pimentel e Mauro Borges constituíram uma dupla eficiente. É razoável que a estrutura que ajudaram a construir, no federal, tenha alguma continuidade e troca de experiência com a futura gestão estadual. Além disso, o que Minas mais precisa hoje é de desenvolvimento econômico. Coincidentemente, o PT de Minas é pródigo em economistas desenvolvimentistas. Na área técnica da economia, juntam conhecimento, moderação e habilidade de negociação.

    Mas dar maior espaço a Minas não significa tirar o espaço do PT de São Paulo. O perfil do PT de São Paulo é mais rico na área social e cultural, de educação, saúde e C&T. São Paulo é o grande centro irradiador de ideias e debates políticos relevantes. Os políticos do PT paulista estão na linha de frente dos movimentos sociais e entidades civis ligadas à educação, saúde, cultura e diversas outras causas civis e sociais. Colocá-los nas áreas sociais levará os movimentos sociais se sentirem reapresentados e compreendidos.

    Boa sorte

    A presidenta Dilma conduziu o Brasil de forma exímia por uma das conjunturas políticas e econômicas mais difíceis que um presidente teve que passar e conseguiu isso sem se abater pelas exigências inerentes de ter que dar continuidade ao presidente mais popular de nossa história.

    Isso não significa que o governo não tenha cometido erros. A comunicação do governo, o relacionamento com o congresso e a gestão de crises, especialmente na área que envolve justiça e segurança ainda está sendo aperfeiçoada. A gestão energética e de petróleo também poderiam se beneficiar de maior criatividade e do rompimento de certos dogmas. A política industrial, apesar dos avanços, ainda não é tão agressiva quanto a dos nossos concorrentes.

    Os próximos 4 anos serão muito mais difíceis. Os erros terão consequências mais graves. Nesse sentido, “queimar a largada”, como aconteceu no primeiro mandato, pode deixar o governo preso em uma “sinuca” por 4 anos em razão do Tripé e da radical campanha contra o BNDES e a Petrobrás.

    Não queremos dizer com isso que a escolha da nova tríade na economia não vá funcionar. Toda escolha tem pontos fortes e fracos. A equipe é muito competente e deve ser apoiada com firmeza por todos os brasileiros para que atinja o máximo da potencialidade que pode ser obtida de seus pontos fortes. Gerenciar os pontos fracos será uma etapa posterior que dependerá de consequências que não são necessariamente previsíveis. Não é o momento de focar neles.

    Desejamos ótima sorte à Presidenta! Estamos em uma encruzilhada de nosso destino como Nação. Poucas vezes um presidente terá uma responsabilidade tão grande quanto ela terá no próximo mandato. Os inimigos do nosso progresso pensam que o governo está suficientemente vulnerável para ser inviabilizado ou se tornar refém. Por isso serão capazes das apostas muito mais arriscadas.

    Gustavo Antonio Galvão dos Santos é Doutor em economia pela UFRJ e analista do BNDES;

    Laurez Cerqueira é escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan Fernandes Vida e Obra e o Outro Lado do Real;

    Luis Carlos Garcia de Magalhães é Doutor em economia pela Unicamp e técnico do IPEA

  • A grande política e a política de grotão

    Alkmin e DilmaAécio e Alkmin

    TER, 11/11/2014 – 10:21
    ATUALIZADO EM 11/11/2014 – 11:39

    O Brasil tem uma Constituição moderna e instituições sólidas, republicanas, com ajustes a serem feitos, sim, mas nada que a grande política não dê conta de fazer. Vivemos um momento de consolidação da democracia, da cidadania, da afirmação de direitos, de colaboração federativa a fim de superar as desigualdades sociais e regionais.

    De todos os ajustes institucionais, a reforma política se destaca como a mais urgente. Uma imensa mobilização popular comandada por partidos políticos e entidades civis está em curso para por fim ao financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas. Não é possível continuar com parlamentos e governos controlados pelo poder econômico.

    Quem tem compromisso com o projeto de nação cidadã, de desenvolvimento sustentável, e com medidas necessárias para conter os efeitos da crise financeira internacional sobre a economia está fazendo a grande política.

    O momento é de debate de projetos para o País. Não há mais lugar para a mesquinhez, para a política de grotão, para imprensa rastaquera. A sociedade brasileira amadureceu, se modernizou, quer avançar mais nas conquistas democráticas. A proposta de diálogo da Presidenta Dilma sinaliza nesse sentido.

    Com o estado de São Paulo vivendo uma situação dramática com a escassez de água, já impactando a economia, sem falar na vida das pessoas, tendo que se valer da colaboração do governo federal, o governador Geraldo Alckmin deu um baile em Aécio Neves e José Serra, possíveis concorrentes à Presidência da República nas eleições de 2018, ao aceitar o diálogo com o governo federal.

    E mais, estimulou os governadores eleitos, Simão Jatene, do Pará, e Beto Richa, do Paraná, ambos do PSDB, a fazerem o mesmo e não o oposicionismo inconsequente. Com isso, ele empurrou os dois concorrentes para mais à direita dele e tenta atrair o espectro de forças políticas do PSDB que não se identifica com a extrema direita.

    Ao recusar o diálogo para enfrentar a crise, Aécio está fazendo a política pequena, de grotão. Lidera as forças de extrema direita que estavam sem lugar na democracia, trouxe para o centro da política brasileira, deu-lhes voz e espaço para ação, e quer continuar com elas, mesmo na contramão da história. Forças que estão bradando contra a democracia, pedindo a volta dos militares ao poder e o impeachment da Presidenta Dilma, democraticamente eleita.

    Aécio, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, que publicou um artigo radicalmente contra a proposta de diálogo, e o líder do PSDB na Câmara, Deputado Carlos Sampaio, de São Paulo, que entrou com uma ação na justiça eleitoral pedindo “recontagem de votos eletrônicos”, estão entrando para a história como políticos fora do contexto, por não reconhecerem o resultado das urnas, as instituições de fiscalização e controle que estão investigando os casos de corrupção, a Justiça, a autonomia constitucional dos poderes públicos, e apostam na divisão do País, no impasse, na desestabilização política e da economia. Uma posição que pode impactar fortemente os investimentos em grandes projetos de infraestrutura nas áreas de petróleo, hidrovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrelétricas, refinarias, indústria da defesa, mobilidade urbana, e muitas outras em pleno desenvolvimento.

    No xadrez da grande política, tudo indica que o deputado Eduardo Cunha, que flerta com parlamentares aecistias, pode não vir a ser presidente da Câmara dos Deputados. A política está sendo operada noutro nível. Os governadores do PMDB querem o diálogo com o governo federal. Por outro lado, são eles que definem a composição dos governos estaduais, em parceria com deputados e senadores. Essa construção está sendo feita longe dos holofotes de Brasília, mas que terá efeitos sobre a sucessão na presidência da Câmara.

    As eleições deixaram claro que a oposição e parte da imprensa não conhecem o PT, não se dão conta da força e da capacidade de organização e mobilização do partido. A eleição foi definida a partir do momento em que a Presidenta Dilma demonstrou preparo muito superior ao do candidato Aécio nos debates e foram veiculadas, na campanha, as informações sobre os feitos do governo, bloqueadas pela imprensa familiar. Até então os apoiadores não tinham informações suficientes para defender a candidatura Dilma. As militâncias do PT e dos aliados foram às ruas e às redes sociais, enfrentaram a mídia comprometida com a oposição e viraram o jogo. Essa experiência mostrou que o governo não dispõe de uma política de comunicação, mas apenas de uma assessoria de imprensa. Não está sendo considerado que a informações sobre o que o governo faz é um direito do cidadão e um dever do Estado. Uma falha que precisa ser corrigida.

    O fato é que a organização e o poder de mobilização do PT e das demais forças aliadas não podem ser ignorados, subestimadas. São partes da grande política que está sendo articulada. Para a posse da Presidenta Dilma, por exemplo, fala-se em botar 1 milhão de pessoas na Esplanada dos Ministérios. Espera-se a presença de grande número de chefes de estado das nações mais poderosas do mundo.

    A política de grotão perde força e cresce a grande política.

    (*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra; e O Outro Lado do Real.

  • Vargas, JK, Jango, Lula, Dilma, e a oposição ao desenvolvimento, com inclusão social e soberania.

    Vargas, JK, Jango, Lula e Dilma

    Todos os governos republicanos, desenvolvimentistas brasileiros de afirmação da soberania e de Direitos sociais, foram atacados, solapados, alguns deles derrubados. Foi assim com Getúlio Vargas, com Juscelino Kubitschek, com João Goulart, com Lula e com Dilma. Um ranço da República Velha e da Revolução de 1930, que insiste em retardar o desenvolvimento do Brasil. Não querem o País soberano.

    Nunca perdoaram Getúlio Vargas por ter criado o contrato de trabalho e as estatais de infraestrutura para o desenvolvimento.  Antes o trabalhador era quase um escravo. A CLT garantiu o direito a férias, décimo terceiro salário, FGTS, hora-extra e outros direitos.

    Além desses, Vargas estabeleceu o salário mínimo, a previdência social, a escola pública e a saúde pública. Criou estatais estratégicas para o desenvolvimento do Brasil como a Eletrobrás, o Banco do Nordeste, a Vale do Rio Doce, a CSN, para processar nosso aço, a Petrobras, empresa criada com apoio do movimento sindical e estudantil na campanha “O petróleo é nosso”.

    Naquele momento as petroleiras, principalmente a Esso, a Shell e a Texaco, que faziam parte do cartel internacional chamado “sete irmãs”, diziam que não havia petróleo no Brasil. Evidentemente para o Brasil continuar comprando gasolina, querosene e óleo diesel delas.

    As “três irmãs” bancavam a imprensa brasileira da época com gordos anúncios. O melhor exemplo disso foi a criação do Repórter Esso, pela Rádio Globo, uma espécie de porta-voz da UDN, que foi ao ar, pela primeira vez, em 28 de agosto de 1941 (uma versão norte-americana de “Your Esso Reporter”).

    Ao criar a Petrobras, Vargas desafiou o conluio de petroleiras e imprensa. O ódio da imprensa da época veio imediatamente, destilado em manchetes garrafais contra ele. Entre os inúmeros ataques, o jornal O Estado de São Paulo guarda em seus arquivos um memorável editorial, radicalmente contra a criação da estatal.

    Repórter Esso

    Vargas, que nunca ostentou riqueza, foi bombardeado dia e noite com acusações de corrupção. Seu governo era chamado pelos jornais e rádios da época de “mar de lama”. Acuado pelos ataques da UDN, de seu líder maior, Carlos Lacerda, da imprensa que servia a ela, e dos militares golpistas. Arrasado moralmente pelo massacre de notícias levianas, Vargas se matou.

    As mesmas forças que o levaram ao suicídio tentaram, em seguida, impedir a posse de Juscelino Kubitschek, mas foram frustradas pela operação comandada pelo general Henrique Lott, que garantiu a cerimônia. JK retomou o projeto desenvolvimentista de Vargas com o Plano de Metas “50 anos em 5”.

    Com JK, o Brasil, que era uma grande fazenda de agricultura, na sua grande extensão, ainda rudimentar, onde fazendeiros de Goiás se divertiam nos finais de semana cassando índios, atirando só para ver o tombo, cresceu, deslanchou a industrialização, expandiu a malha rodoviária, elétrica e telefônica, e construiu Brasília, como parte da “Marcha para o Oeste”.

    No governo dele, a cultura floresceu com o Cinema Novo, o teatro, a literatura, o futebol, com a vitória do Brasil na Copa de 1958. Tudo isso embalado pela Bossa Nova elevou a autoestima dos brasileiros, projetou o Brasil no mundo e proporcionou um sentimento de futuro promissor.

    Mas, mesmo assim JK comeu o pão que o diabo amassou. Durante seu mandato, as mesmas forças políticas juntamente com a imprensa oligárquica, que servia a elas, atacou JK diuturnamente com acusações de corrupção, dizendo ser “o governo mais corrupto da história do Brasil”. JK sofreu duas tentativas de golpe, apoiadas por civis e militares. Morreu num controvertido acidente de carro em agosto de 1976, durante a ditadura militar.

    O massacre midiático com acusações de corrupção contra JK criou o ambiente para a candidatura do desengonçado gramático Jânio Quadros. Jânio foi lançado como o grande salvador da pátria, o homem que iria varrer a corrupção do Brasil. O símbolo da campanha dele era uma vassoura. Mas apenas varreu a sujeira para debaixo do tapete.

    Jânio foi uma marionete nas mãos dos conservadores, para barrar as forças políticas progressistas lideradas por Leonel Brizola e outros políticos ligados à reforma social. Sete meses depois da posse, Jânio renunciou.

    Com a renúncia de Jânio, o vice, João Goulart, ex-ministro do trabalho de Getúlio Vargas, assume a Presidência da República. João Goulart, o Jango, resgata o projeto de desenvolvimento de Vargas e JK, amplia os direitos sociais, dobra o salário mínimo e tenta governar aliado aos trabalhadores.

    Jango quis fazer as reformas de base, políticas públicas para inclusão social, centradas na educação, na saúde, na reforma agrária, e em outras áreas, que ajudaria o Brasil a superar as injustiças, principalmente com as populações de origem africanas e indígenas, escravizadas e vilipendiadas desde o período colonial.

    Em 1964, o Brasil pulsava, vivia um raro momento de liberdade e de criatividade na música, no teatro, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, nas universidades, na política e na vida social.

    Ditadura 2

    Os conservadores reagiram a isso e começaram a atacar Jango barbaramente da mesma forma que Getúlio e JK foram atacados no passado, acusado pela imprensa oligárquica de corrupção e de querer implantar  no Brasil uma “República Sindicalista”.

    Durante todo o seu curto governo foi vítima de uma cruzada da imprensa, devastadora, e finalmente deposto pelo golpe civil-militar articulado no Congresso juntamente com a Embaixada dos EUA, com a participação da CIA, como mostram documentários produzidos recentemente. Em seguida, o Brasil entra para o calvário durante 21 anos de uma ditadura torturadora, sanguinária.

    Ditadura Censura

    João Goulart morreu em sua fazenda, na Argentina, também de forma suspeita, com versões controvertidas sobre sua morte. Ele era um dos nomes de políticos, vigiados por militares brasileiros, constante da lista da “Operação Condor” para ser eliminado, segundo depoimentos prestados na Comissão da Verdade e em livros publicados sobre o caso. A Operação Condor era formada por militares e policiais mercenários, que serviam a ditaduras da América do Sul, coordenada pela CIA, para eliminar líderes opositores aos regimes ditatoriais.

    Com o fim do regime militar e a volta das eleições diretas, setores conservadores, com forte apoio da imprensa oligárquica, inventaram a candidatura de Fernando Collor, nos mesmos moldes da candidatura Jânio Quadros, a fim de barrar as candidaturas de Lula e de Brizola, que despontavam como alternativas da esquerda com forte respaldo nos movimentos sociais. Movimentos organizados, que lutaram contra a ditadura, fizeram a campanha por eleições diretas, participaram dos debates no Congresso Constituinte, além de outros movimentos que ampliaram direitos para consolidação da democracia e da cidadania.

    Collor, vendido à opinião pública como “moderno”, declarou guerra à “Era Vargas”, ao Estado e aos direitos sociais e trabalhistas. Cumpria a agenda neoliberal do chamado “Consenso de Washington “.

    Articulado com os governos de Margareth Thatcher, da Inglaterra, e Ronald Reagan, dos EUA, Collor avançava na redução do Estado ao mínimo, com privatização irrestrita de empresas públicas, subtração da soberania e de direitos dos trabalhadores garantidos pela CLT. Eleito como “caçador de marajás”, o homem que também iria varrer a corrupção no País, por ironia da história, acabou sofrendo impeachment por corrupção.

    Fernando Henrique Cardoso foi outro presidente obstinado pelo fim da “Era Vargas”. Determinado a levar a cabo o que Collor começou, Fernando Henrique deu continuidade à redução do Estado com a venda de empresas estatais, conhecida como “privataria tucana”, tendo em vista a promiscuidade entre governo e mercado, na formação dos consórcios compradores.

    privatizacoes-psdb-300x217Privatização FHC

    Além disso, tinha a ideia fixa de que o “mercado”, as empresas, resolveriam os problemas do Brasil. Investiu contra conquistas sociais dos trabalhadores, mas os trabalhadores organizados não permitiram que o estrago fosse maior.

    Lula e Dilma fizeram exatamente o inverso dos governos Collor e Fernando Henrique. Colocaram o Estado como indutor do projeto de desenvolvimento sustentável com inclusão social, redução das desigualdades sociais e regionais, é soberania nacional.  Fizeram governos democráticos, de diálogo, aberto à participação de trabalhadores e empresários. O famoso “Conselhão”, e outras instâncias, foram criados para isso.

    O fato é que, com essa estratégia, o Brasil passou de 13ª maior economia do mundo, em 2002, para a 7ª posição. O PIB que era R$ 1,55 trilhão, em 2003, saltou para R$ 4,84 trilhões em 2013. Outros robustos indicadores demonstram melhoria generalizada em muitas outras áreas, principalmente em relação à inclusão social e à superação da pobreza.

    Ocorre que os governos Lula e Dilma, de caráter desenvolvimentista e de inclusão social, têm sofreram as mesmas perseguições que os governos Vargas, JK e Jango. Sobreviveram, desde 2003, a ataques quotidianos, impiedosos, com o mesmo ranço golpista que caracterizaram momentos históricos passados. Como se o Brasil não pudesse tornar-se uma potência econômica desenvolvida e soberana. As informações sobre os feitos do governo foram deliberadamente bloqueadas pela velha imprensa familiar e, em seu lugar, ataques incessantes. Mesmo no limite da indignação, em nenhum momento a liberdade de imprensa foi violada.

    Isso ficou claro nas eleições de 2014, com a transformação de publicações semanais e telejornais em verdadeiros panfletos eleitorais em favor do candidato da oposição, Aécio Neves.  Destilaram ódio e preconceitos à exaustão, de forma subliminar, na disputa eleitoral, jogando o povo contra o governo. O candidato Aécio Neves dizia que iria “varrer” o PT do governo, como se o Estado fosse uma propriedade da elite, como se o Partido dos Trabalhadores estivesse usurpando o poder das oligarquias. Um verdadeiro ralhado da Casa Grande conta a Senzala.

    Lá no fundo da história, revirado pelo vale-tudo, para ganhar a eleição a qualquer custo, estava o atraso, mergulhado no pântano da intolerância, dos preconceitos de todo tipo, sobretudo se alimentando do ódio de classe. Aécio Neves não teve o menor pudor de trazê-lo de volta à tona.
    Andou de braços dados durante toda a campanha eleitoral com setores mais atrasados do país, que o processo de democratização havia se encarregado de colocá-los no ostracismo. Hoje o atraso se enrola na bandeira do Brasil e brada contra a democracia, se espraia pela internet, em redes de fake news, e pelas ruas em ondas de intolerância, principalmente entre jovens vulneráveis a seus apelos. O atraso está por aí, vociferante, atacando cidadãos e a democracia.

    Quem deu voz e trouxe a extrema direita para o centro da política brasileira, e flerta com ela, foi o PSDB é seu candidato Aécio Neves, um partido que assumiu a ideologia da velha UDN. Isso não começou agora. O candidato Alkmin com sua Opus Dei, o candidato Serra se valendo do extremo conservadorismo, o candidato Aécio com Bolsonaro, o ex-presidente Fernando Henrique escrevendo contra o diálogo proposto pela Presidenta Dilma, e o Líder do PSDB, Carlos Sampaio, com ação na justiça pedindo recontagem de votos digitais, todos alimentando o ranço golpista, são os verdadeiros responsáveis pelo retrocesso na política, pelas ameaças à democracia e aos governos de desenvolvimento sustentável, inclusão social e, sobretudo, soberania nacional.

    (*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes – vida e obra; e O Outro Lado do Real.

  • Os conservadores e a inclusão social

    1-1Estive recentemente no Chile e vi de perto a Presidenta Michelle Bachelet ser massacrada dia e noite pela imprensa conservadora. E, quando puxei conversa com alguns chilenos, ouvi a mesma história que ouço aqui: “Está demais! O Chile está um caos, nunca vivemos algo parecido.”

    Estão fazendo com Bachelet o mesmo que fazem aqui com Dilma, com Lula e na Argentina com Cristina Kirchner: bloqueiam informações sobre o que o governo está fazendo e pau. Constroem a ideia de caos e fazem acusações de todo tipo. Instalam o ódio nas pessoas de forma subliminar e jogam o povo contra o governo.

    Isso acontece com todos os governos de caráter socialista que ousam mudar a ordem social em países capitalistas, principalmente de tradição colonial como a nossa, num regime democrático.

    Aconteceu o mesmo com Salvador Allende, presidente socialista do Chile, morto no Palácio de La Moneda, no golpe do general Augusto Pinochet, líder dos conservadores. Veja o filme-documentário “A Batalha do Chile”, de Patrício Gusmán. Está tudo lá igualzinho ao que está acontecendo lá e aqui.

    O Chile hoje é o maior produtor de cobre do mundo. O mundo depende do cobre do Chile. O Brasil tem o pré-sal, a maior jazida de petróleo do mundo . O mundo depende de petróleo.

    Veja o filme-documentário “The Corporation”, para ver como as mega corporações elegem e depõem governos. Veja o filme-documentário “Iraque à Venda” para ver como grandes petroleiras tomaram de assalto o petróleo do Iraque com um exército de mercenários contratados por empresas de segurança dos EUA (29 mil homens) e enforcaram Saddam Hussein. O mesmo fizeram com a Líbia, mataram Muammar al-Gaddafi, tentam fazer com a Venezuela e com outros países. As petroleiras dispõe de forças armadas privadas.

    No Brasil, a ascensão e inclusão social de dezenas de milhões de pessoas mexeram com toda a ordem social tradicional do País. Há uma reação dos conservadores contra essa mudança, algo que acontece com pessoas que poderiam estar a favor das mudanças que estão acontecendo no País. Os sintomas estão nos fatos.

    Lembra-se dos “Rolezinhos”? Os adolescentes que começaram a frequentar os shoppings em grupos para fazer fotos e postar no Facebook, num gesto de celebração de sua ascensão social, do seu poder de compra, foram tratados como ameaça, como horda de bandidos. Um juiz de São Paulo chegou a conceder uma autorização para o shopping impedir a entrada dos jovens.

    Lembra-se da “glamourosa” professora carioca que postou no Facebook seu inconformismo com um senhor que trajava camiseta regata, chinelo de dedo e saboreava um sanduíche no saguão do aeroporto do Rio, comparando o aeroporto com uma rodoviária?

    Lembra-se da senhora de um condomínio de luxo em Brasília que comprou uma briga num salão para expulsar a empregada doméstica de uma amiga que cuidava das unhas e dos cabelos no mesmo salão frequentado por ela?

    Pois é, os conservadores estão impactados com essa nova ordem, impactados com a insubordinação dos que ganharam poder, postura, e pleno emprego. O PT, ao longo de sua história, organizou, deu voz e ação para essa imensa parcela da população brasileira. Talvez por isso o PT sempre foi tratado como um intruso na política brasileira. Por mais que o partido tenha feito concessões, os conservadores nunca perdoaram o PT por ter organizado a base da pirâmide, chegado ao poder e aliviado os de baixo do peso da dominação de classesse. Assim como nunca perdoaram Getúlio Vargas por ele ter instituído o contrato de trabalho (CLT), e outros direitos sociais, e criado estatais estratégicas para o desenvolvimento como a Petrobras para avançar na independência do País.

    Os incluídos socialmente hoje têm celular, computador, geladeira, TV, conta bancária, viajam de avião, frequentam restaurantes, shoppings, a empregada usa o mesmo perfume da patroa, como bem lembrou Lula, outro dia, têm seu carrinho, constroem ou reformam suas casas, enfim, melhoraram de vida. Estão protegidos da grande crise internacional com a estratégia do emprego.

    As “dependências de empregados” das residências das classes média e média alta, melhor dizendo, a senzala, que a arquitetura “moderna” levou para dentro de casa, estão virando depósitos de qualquer coisa, porque os empregados domésticos tiveram seus direitos igualados com os demais trabalhadores, não querem mais morar na casa do patrão, nos cubículos antes destinados a eles. O patrão e a patroa não controlam mais o voto dos seus empregados, nem dos porteiros dos edifícios.

    Essa reação dos conservadores e esse incômodo de setores das classes média e média alta com a nova ordem foram muito bem aproveitados pela oposição, e pela imprensa que serve a ela, na construção subliminar da “necessidade de mudança”, pregada pela oposição em parceria com a grande mídia. Na campanha eleitoral virou slogan de Aécio e Marina. Aécio chegou a dizer que ele iria varrer o PT do poder, como se o Estado fosse uma propriedade dos ricos e a ocupação de cargos por pessoas do PT fosse uma anomalia da República e não um direito na democracia. Na democracia os conservadores perdem sempre.

    O Chile não tem desigualdade tão grande como a do Brasil, não tem uma herança colonial racista como a nossa, mas tem um conservadorismo tão impregnado de ódio de classe quanto o do Brasil. Lá os conservadores comemoraram o aniversário do golpe de Pinochet com três atentados a bomba.

    Tem também imensas jazidas de cobre, assim como o Brasil tem de petróleo, recursos estratégicos no mundo de hoje, cobiçados por mega corporações multinacionais e mega empresas de comunicação, aliadas para jogar o povo contra os governos de caráter socialista e viabilizar governos favoráveis aos seus negócios.

    Essa parceria das grandes corporações de mídia com os grandes negócios multinacionais, potencializada nas redes sociais, criou o “Brasil caos” completamente descolado da realidade. Hoje parece que somos dois brasis.

    As candidaturas da oposição (Aécio e Marina) apoiadas pelos conservadores, têm reforçado os códigos empresariais e religiosos predominantes e regentes da sociedade, ameaçado conquistas democráticas de redução da desigualdade e de afirmação de direitos humanos. Aqui os conservadores não admitem sequer a cidadania do povo, a afirmação de direitos.

    O desafio agora é fazer com que a cidadania possa superar as reações dos conservadores, a força dos grandes negócios, principalmente dos bancos que puseram um pé na candidatura de Aécio e outro na candidatura de Marina, na tentativa de subordinar o Estado ao mercado com a autonomia do Banco Central e a privatização de empresas públicas.

    Além disso, é necessário organizar a defesa do petróleo do pré-sal, recurso estratégico para o desenvolvimento do País e superação da desigualdade. Essa riqueza corre risco. Caso os conservadores eleja um de seus candidatos, certamente o Estado perderá o controle para os grandes grupos ligados aos negócios de petróleo.

    Aqui como no Chile e em outras partes do mundo, a política está sendo destruída, transformada na inimiga pública número um, no mal dos tempos. Querem que o povo baixe a cabeça, trabalhe, consuma e deixe o destino da nação nas mãos do “Senhor Mercado”.

     

  • A sociedade sob códigos empresariais e religiosos

    Os sintomas são cada vez mais evidentes. A sociedade brasileira está sendo regida fundamentalmente por códigos empresariais e religiosos.
    Valores que inspiraram a República e a Democracia estão se afogando na água turva que brota de fontes medievais. 

    A democracia e as instituições estão ameaçadas pela força dos grandes negócios e das organizações confessionais com suas ramificações ideológicas, que solapam o Estado laico e a cidadania de forma assustadora, levando o país a retroceder, a ver aviltados direitos conquistados na história recente, inscritos na Constituição de 1988.

    As igrejas se expandem no vácuo das deficiências da educação, da escola laica que não consegue se firmar como pilar da democracia, da cidadania e da República. O grande capital se impõe operando por meio dos imperativos ideológicos, econômicos e tecnológicos, monopolizando o tempo, a consciência, esterilizando vidas.

    Partidos políticos e instituições populares, que historicamente promoveram a cidadania e as lutas libertárias estão, na prática, perdendo espaço para as igrejas. Tornaram-se reféns dos poderes empresariais e religiosos.

    No Congresso Nacional essas forças atuam à luz do dia. Bloqueiam a aprovação de leis fundamentais para consolidação de direitos humanos, da laicidade do Estado, e de muitas outras iniciativas que teriam como finalidade ampliar as conquistas democráticas e a cidadania.

    Igrejas tentaram impedir a aprovação até do Plano Nacional de Educação (PNE) por não aceitarem que as escolas abordassem a questão de gênero em sala de aula e, entre outras ações, apoiaram aberrações como a aprovação do projeto da “cura gay” na Comissão de Direitos Humanos, na época presidida pelo pastor e deputado Marcos Feliciano.

    Bloqueiam a aprovação de todos os projetos de reforma política que põem fim ao financiamento empresarial de campanhas eleitorais porque o poder econômico e confessional não abrem mão do controle político do Congresso e dos governos. Aqui, vale ressalva à CNBB, que integra o conjunto de entidades que apóiam o projeto de lei da OAB, de reforma política.

    As forças políticas empresariais e religiosas têm projeto de poder e estratégia. Pelo andar da carruagem, o risco maior é, em breve, efetivarem uma aliança suficiente para promover ampla reforma na Constituição, suprimir direitos e garantias consagradas ou até mesmo convocar uma Assembleia Constituinte e fazer outra Constituição de caráter teocrático e plutocrático. A continuar os ataques aos setores democráticos, a tendência é de um perigoso retrocesso institucional.

    O poder das organizações empresariais e religiosas não são nenhuma novidade nas relações econômicas, sociais, culturais e políticas numa sociedade capitalista selvagem e de herança colonial como a nossa. Mas avança como nunca, turbinado com os oligopólios de mídia.

    Na história recente, os anos 1990 foram o período de maior investida do grande capital na apropriação indiscriminada, quando aqui a campanha contra o Estado como induto do desenvolvimento se estabeleceu já no governo de Fernando Collor e ganhou força no governo Fernando Henrique Cardoso.

    O Estado passou a ser o diabo e o mercado, Deus, senhor das soluções de todos os problemas do país.

    Evidente que o Estado não é panaceia para solução dos nossos problemas. Se fosse não teríamos chegado ao Século XXI com cerca de 50 milhões de pessoas ainda vivendo na pobreza e a riqueza concentrada nas mãos de uma minoria opulenta que vive no topo da pirâmide social.

    Até porque não há capitalismo sem Estado. Mas as investidas contra a “Constituição cidadã”, como a denominou o ex-presidente da Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, para suprimir dela garantias econômicas e sociais, tornou-se uma obsessão do poder econômico e das igrejas desde o início dos anos 1990, com Fernando Collor.

    Ganhou uma dimensão inimaginável nos últimos tempos com a expansão de meios de comunicação, novas tecnologias, conglomerados empresariais de mídias, e a adesão voluntária de setores das classes média e média-alta a ideais neoliberais e religiosos.

    Empresas que monopolizam as concessões do Estado, de meios de comunicação, como, por exemplo, as organizações Globo, cujos proprietários se tornaram os mais ricos do país, segundo a revista Forbes, assumiram publicamente em recentes editoriais em tv e jornais, que apoiaram o golpe civil-militar em 1964, mas não disseram que apoiaram a ditadura durante 21 anos.

    Cinicamente pediram desculpa ao país e agora apostam todas as fichas na definição do pleito eleitoral deste ano apoiando desavergonhadamente, juntamente com os donos do grupo Abril, do grupo Folha, do grupo Estado, e outros, o candidato escolhido por setores do capital financeiro nacional e internacional para que possam retomar o projeto interrompido em 2002 com a eleição de Lula.

    Guardadas as devidas exceções, a grande mídia tornou-se uma espécie de “Feitor”, de chicote em punho, dos grande negócios, pregadora ideológica do projeto do grande capital e das religiões.

    Submete instituições ao açoitá-las com suas manchetes. Constrói versões de fatos com o jornalismo manipulativo e se estabelece como instrumento político dos grandes negócios na coação do poder republicano e democrático.

    Como fez com o Ministério Público e o STF no episódio do julgamento dos réus da AP-470 ao transformá-lo num espetáculo midiático.

    A maioria do STF, sob a presidência do ministro Joaquim Barbosa, se curvou ao “Feitor”. Se curvou à versão dos fatos. Imagina se o STF tivesse absolvido os réus por falta de provas. Estaria hoje na vala de esgoto da história.

    A manipulação da informação corre solta, opera no subliminar, instala nos confins dos corações e das mentes dos desavisados o ódio, preconceitos generalizados, a negação da política, como se a política fosse para a sociedade o mal dos novos tempos.

    A cidadania está sendo sorrateiramente esterilizada, o debate interrompido e a participação da sociedade nas decisões, na escolha do futuro, desmobilizada.

    As manifestações de junho parecem ter sido muito mais um fenômeno das redes sociais, principalmente do Facebook.

    Tanto que os manifestantes, passado o furor, não se organizaram, não se associaram para outras jornadas. Nada de novo aconteceu. O que se viu foi uma desconfiança generalizada de que os usuários foram vítimas de algo estranho. Esse sentimento foi manifestado em grande escala, logo depois, nas redes sociais.

    O que querem com a tentativa de destruição da política? Que todos baixem as cabeças, trabalhem, consumam, e deixem o futuro nas mãos do mercado, o “senhor dos destinos”? Como despertar a nova geração para a política se a política, como querem impingir os manipuladores, representa “o mal para a sociedade?”.

    A política é a mais perfeita invenção do ser humano para resolver os problemas da sociedade e do Estado, para fazer avançar no processo de civilização. Matar a política é matar a democracia, a cidadania e o desenvolvimento.

    As grandes redes de tv/rádio, os portais de internet, ganharam níveis de alcance e sofisticação inimagináveis com a expansão e os novos recursos tecnológicos.

    Os donos das grandes empresas de comunicação, na política, têm lado, usam e abusam das concessões a favor de suas ideologias, de seus negócios e de seus correligionários, sempre foi assim. Chega de hipocrisia. Isso é uma realidade.

    As concessões de canais de serviços de rádio e tv passam de pais para filhos como capitanias hereditárias. As empresas se agigantaram e se tornaram as mais poderosas armas para a manutenção do poder econômico e político no país.

    Nenhum governo, em 26 anos da nova Constituição, ousou regulamentar os artigos 221 e 222 da Carta Magna, que definem a prestação de serviços de comunicação.

    O monopólio dos meios de comunicação continua intacto. Esses veículos são, na sua grande maioria, das mesmas famílias que manipularam o povo e levaram Getúlio Vargas ao suicídio e multidões às ruas para derrubar o ex-presidente João Goulart, em 1964.

    São os mesmos grupos que hoje atuam, na política, em parceria com a oposição ao governo, e formam a opinião de gerações.

    O atraso organizado retoma posições semelhantes às de antes do golpe militar de 1964. Quem tiver curiosidade histórica pode ir aos arquivos dos jornais daquela época para ver a semelhança da forma pela qual a imprensa de hoje, que serve à oposição, trata o governo atual, com a imprensa que derrubou o ex-Presidente João Goulart.

    Em outras palavras, “a UDN saiu do armário”, mostra a cara com ranço conservador e ideológico inimaginável, numa clara reação pela manutenção do status quo a qualquer custo.

    A reação dos setores conservadores é visível no ódio de classe que permeia as relações sociais, trazendo à tona conflitos ancestrais da colonização, cristalizados na disputa política e no medo da perda de poder no atual ciclo de democracia. Na democracia eles perdem sempre.

    É perceptível, na histeria cotidiana, a gana pela ressubordinação dos trabalhadores, que estão se libertando do domínio da aristocracia senhorial. Querem recolocá-los nos lugares de antes, colocá-los para fora dos shoppings, como fizeram no episódio dos “rolezinhos” em São Paulo, com decisão judicial; para fora dos aeroportos, como desejou a “glamourosa” professora de letras da PUC-Rio ao ver um senhor saboreando um sanduíche na sala de embarque; para fora do salão de beleza, como tentou uma moradora de um condomínio de luxo em Brasília, ao ver a empregada doméstica de uma amiga cuidando das unhas e dos cabelos no mesmo salão frequentado por ela.

    A reconfiguração de classe está levando a arquitetura a mudar a ordem residencial colonial. O modelo sala, cozinha e dependência de empregados (senzala) não cabe mais na realidade brasileira.

    Estão tendo que retirar a senzala de dentro de casa, cubículo onde famílias senhoriais enfiam os empregados domésticos. Os empregados domésticos conquistaram igualdade de direitos com a “lei das domésticas”. Ou seja, tudo junto e misturado está causando um grande incômodo à elite.

    Essa obsessão da oposição, e da mídia que serve a ela, pela destruição do Partido dos Trabalhadores, por exemplo, não é de agora. O PT sempre foi tratado como um intruso na política brasileira desde quando nasceu, no final dos anos 1970.

    A elite não o perdoa, por ter sido capaz de organizar a base da pirâmide social e dar voz e ação aos trabalhadores.

    Garantiu um governo que aprofundou a cidadania, cria condições para libertação da população oprimida do domínio de aristocratas, exploradores e opressores de todo tipo; retira da pobreza extrema dezenas de milhões de pessoas, reduz a desigualdade em tempo recorde, como reconheceu a ONU, e promove a inclusão social com acesso aos serviços públicos. Sem desconsiderar os demais partidos de esquerda, PT é o que restou de maior força organizada da luta democrática do pais.

    Tristes trópicos, que tem uma elite branca que sequer admite a construção da cidadania. Ela continua desenraizada, com os olhos para além do Atlântico e para o hemisfério norte. De mentalidade ainda colonial, se interessa apenas pelos grandes negócios na colônia.

    A “velha UDN” está por aí, travestida, clandestina. Dispõe ainda de uma cultura política e ideológica poderosíssima. Hoje, nos salões, nos cafés, nas redações, ricaços, celebridades, artistas, jornalistas, âncoras de TV e de rádio, comentaristas, pessoas expressivas dessa tendência, diria, exemplares da nova versão da UDN, pessoas muito bem pagas, fazem a pregação conservadora.

    Têm microfones e câmeras à disposição para destilar preconceitos generalizados e ódio contra os agora empodeirados pela participação popular na política, nos movimentos das últimas décadas, e incluídos socialmente.

    Comentaristas de economia malham o governo dia e noite, nas grandes redes de TV, radio e jornais, com um discurso surrado, atrasado, da década de 1990, fora do contexto, na defesa cega de ideias derrotadas, superadas na crise internacional.

    Organizações empresariais multinacionais, principalmente do sistema financeiro, não admitem que nenhum pais de porte econômico como o Brasil esteja fora da malha e da estratégia de negócios delas.

    Por ter conseguido, em parte, certa autonomia, com um projeto de desenvolvimento sustentável, tendo o Estado como indutor, o Brasil sofre uma ofensiva virulenta dessas organizações, que tentam reconduzi-lo aos desígnios do sistema financeiro internacional com a ajuda de gente daqui, operadores do mercado financeiro, donos de grandes corretoras de fundos de grandes negócios dos maiores conglomerados internacionais.

    Para eles, o Estado é o inimigo número um. Têm um candidato à Presidência da República e prestam assessoria a ele. Vêem as imensas jazidas de petróleo, recém-descobertas na camada do pré-sal, como as maiores oportunidades de negócios do país e do mundo fora da malha do sistema financeiro internacional e a Petrobras como entrave por controlar a produção.

    O senador Aécio Neves bradou no dia do lançamento da sua candidatura à presidência da República que quer varrer o PT do poder com um tsunami. Diz ele que quer tirar o PT porque o PT ocupa órgãos do Estado. Disse isso deixando claro sua visão patrimonialista que considera o Estado uma propriedade da Elite.

    Ou seja, a “Casa Grande” mandou um recado à “Senzala”.

    Resta aos setores democráticos da sociedade brasileira defender intransigentemente a Constituição, a República, a Federação, articular um movimento capaz de deter o avanço das forças dos grandes negócios, das religiões e dos “feitores” da grande mídia, para que possamos avançar na consolidação da democracia, na superação da desigualdade e na inclusão social.