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  • Omissão ou conivência?

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    Ou o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça fazem respeitar as garantias constitucionais e cumpram suas funções de guarda do Estado democrático de direito ou serão responsáveis por uma escalada de violência no país de proporções inimagináveis.

     

    Se o STF está subordinado à mídia senhorial, por vaidade de muitos de seus membros, faz-se conivente com os recentes acontecimentos.

     

    A Suprema Corte é lustradora de vaidades, um templo de “vacas sagradas”, como dizia o jurista e ex-senador José Paulo Bisol. Disso já se sabe.

     

    Ministros do STF até se manifestam contra os desmandos. Mas não agem, talvez por medo de serem atirados na vala dos condenados pelo chamado “Quarto poder”? E por isso parecem cumprir scripts determinados pela mídia?

     

    O fato é que a cidadania do povo brasileiro está sendo ultrajada por um juiz que, por baixo da toga, veste a camisa de torcedor fanático da oposição, sem que nenhum dos órgãos competentes da República a proteja.

     

    No Ministério Público e na Polícia Federal, alguns procuradores e policiais vão no mesmo sentido, condenam levianamente investigados e xxx vazam depoimentos, de forma seletiva, a setores da imprensa que fazem parte da conspiração para o golpe de Estado liderado pelo candidato derrotado em 2014, Aécio Neves.

     

    A sequência de ações do juíz Moro, que culminou na detenção ilegal do ex-Presidente Lula, ao ser levado de forma humilhante para depor, deixou claro que a Operação Lava Jato foi criada para fins político-partidários e eleitorais.

     

    Por outro lado, tornam-se intocáveis políticos de oposição, como o próprio senador Aécio Neves, delatados, nas mesmas condições dos demais, e protegidos na opera Lava Jato.

     

    Os indícios estão cada vez mais evidentes de que o juiz Moro está sendo orientado politicamente pelo senador Aécio Neves e seu grupo conspirador, os mais interessados no golpe de Estado.

     

    Esse espetáculo vem sendo mostrado todos os dias nas telas de TV, no rádio, na internet, nas páginas dos jornais e das revistas, da forma mais vil, sem que as autoridades democráticas, competentes, tomem providências e impeçam o país de mergulhar num conflilto de consequências imprevisíveis.

     

    Enquanto isso, ministros do Supremo, envoltos em suas capas pretas, no aconchego do alto de seus gabinetes, miram o horizonte e fingem não ver a violência das garantias constucionais, deixando dormir nas gavetas da corte ações de cidadãos que clamam por justiça.

     

    O Supremo Tribunal Federal, o Conselho Nacional de Justiça e o Congresso Nacional são hoje os responsáveis por permitir o estabelecimento de um tribunal de exceção no Brasil presidido por um juiz de segunda instância que milita a favor de um golpe de Estado judicial e midiático. Os fatos comprovam isso.

     

    Diante da omissão dos órgãos competentes da República, imensa parte da população do país se levanta para fazer valer a ordem democrática e constitucional, e os direitos conquistados de viver na legalidade, com estabilidade política e paz social.

     

    Brasília deve receber no dia 13 de março aproximadamente 1 milhão de manifestantes vindos de todos os Estados da Federação. O que seria uma manifestação de 100 mil pessoas, segundo organizadores, se transformou numa marcha dos indignados sobre o Planalto Central.

     

    Os desdobramentos do conflito estão se tornando imprevisíveis. Uma coisa é certa, a ilegalidade não prevalecerá. O Brasil de hoje não é o Brasil de 1964. Ninguém conseguirá deter o avanço da democracia.

  • A oposição quer saber de grandes negócios, o povo que se dane

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    A  pesquisa CNT/MDA, que mostrou elevação do índice de aprovação do governo, de 8,8% em outubro do ano passado, para 11,4%, e crescimento de 7,6 pontos percentuais de apoio a Dilma pode ser sinais de que a população começou a perceber o jogo da oposição e da mídia, que, convenhamos, tem exagerado na dose de manipulação diária do noticiário.

    A pesquisa mostra também que a população tem percebido que há uma crise internacional e efeitos dela sobre a economia brasileira.

    Essa percepção pode estar refletida na elevação dos índices da pesquisa e na filiação em massa no PT, que aconteceu nos últimos meses, principalmente de jovens, contrariando as expectativas negativas sobre o partido e o governo.

    As ações da imprensa que serve à oposição, do juiz Sérgio Moro, na Operação Lava Jato, de setores do Ministério Público e da Polícia Federal, a proteção de integrantes do PSDB, denunciados, a perseguição ao PT e ao ex-Presidente Lula, se tornaram cada vez mais explícitas e indecentes. Isso está desmoralizando a Operação Lava Jato, e o Juiz Moro certamente perdendo credibilidade.

    “No tribunal, quando a política entra por uma porta, a justiça se retira por outra”. (Do jurista austro-húngaro Hans Kelsen)

    Da mesma forma a oposição, que age de braços dados com Eduardo Cunha, seu mais importante aliado na tentativa de golpe parlamentar contra Dilma. Quando  a elite senhorial vê  minguar suas chances nas urnas, arma tomadas do poder por golpes.

    Qual é o projeto da oposição?  O golpe, os grandes negócios das privatizações da Petrobras, a entrega do petróleo do Pré-Sal, a entrega de empresas do setor elétrico, a venda dos bancos públicos, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, a volta do financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas para se perpetuarem no poder e a restrição da autonomia dos órgãos de fiscalização e controle que combatem a corrupção. “Como assim, prender os financiadores de sempre, de campanhas eleitorais?”.

    A oposição quer tirar o Brasil do BRICS e recolocá-lo nas malhas do sistema financeiro dos Estados Unidos e da Europa.

    E os pobres e os trabalhadores que se danem. Para eles, programas sociais são gastos.

    As corretoras dos tucanos que atuam nas bolsas de valores do Brasil e das grandes praças financeiras do mundo estão prontas para fazerem os negócios.

    O Senador José Serra, junto com o Senador Renan Calheiros, Presidente do Senado,  já enfiaram o projeto de lei de privatização da Petrobras e da entrega do petróleo do Pré-Sal na pauta do Congresso.

    Gostaria muito de ver uma pesquisa de opinião pública, honesta, sobre a atuação do juiz Sérgio Moro à frente da Lava Jato, sobre a credibilidade dele hoje e dos partidos da oposição.

    É muito provável que o eleitorado que elegeu Lula duas vezes, que elegeu Dilma duas vezes, e escolheu o projeto de governo do PT para o Brasil, tenha começado a perceber o que quer a oposição, o que está em jogo, e começou a reagir, a voltar às posições anteriores à campanha do golpe.

    O projeto de governo que está em jogo, iniciado em 2003, com o ex-Presidente Lula, é de desenvolvimento sustentável com o Estado como indutor do crescimento, da distribuição de renda e da inclusão social, e da soberania nacional na política internacional.

    O grande apartheid social que vivia o Brasil, com o abandono de imensa parcela da população, está sendo rompido com a criação de oportunidades de inclusão social.

    O que o governo do PT está fazendo é viabilizar direitos  inscritos na Constituição. O  direito à segurança alimentar, o direito à educação e à saúde pública de qualidade, o direito à previdência social, à habitação, ao meio ambiente, entre outros, estão sendo atendidos por meio de programas como o Bolsa-Família, Pro-Uni, Cotas, Minha Casa Minha Vida, Mais Médico, e muitos outros programas.

    Mas sequer direitos como esses, que são dever do Estado provê-los, a elite senhorial admite. Sequer admite a cidadania do povo. Essa é a oposição que quer tomar o poder.

  • Um jogo combinado para “midiotas”

    A máscara da operação Lava Jato está no chão há muito tempo. Moro quer prender Lula e derrubar Dilma, mas não consegue encontrar nada contra eles. Aí apela.

    O jogo é combinado com a imprensa senhorial para gerar manchetes, pedalar o ódio dos “midiotas” e provoca-los para as manifestações do dia 13 de março. Isso porque o movimento pelo golpe minguou.

    Para tirar o caso Fernando Henrique Cardoso e sua amante Míriam Dutra da mídia, o juiz Moro mandou prender o publicitário João Santana simplesmente porque ele e a mulher têm duas contas no exterior e fizeram campanha para o PT.

    Ele faz campanhas eleitorais em vários países e recebe os pagamentos no exterior como qualquer empresário que presta serviços fora do país. Ele agora virou o “marqueteiro do PT”.

    Veja o mau cartismo do colunista da Folha Josias de Souza, ele estampa uma manchete dizendo “Campanha de Dilma vai à cadeia com Santana”, mesmo sabendo que a Polícia Federal isentou Dilma. Trata-se de um sujeito mentiroso, serviçal, tarefeiro do patrão. E ainda chamam isso de jornalismo.

    “No relatório da Polícia Federal, o próprio delegado que subscreve a ação fez questão de ressaltar que os pagamentos feitos a João Santana nas eleições de 2010-2014 foram legais e que não há indícios de que tais pagamentos sejam de fontes ilícitas.

    Josias de Souza está levando um pau federal na internet. Pessoas como ele, Eliane Cantanhede, Merval Pereira, ainda vivem em delírios de auto-referência como se ainda reinassem incólumes com suas versões e invenções.

    Coitados desses tipos de colunistas e comentaristas! Estão perdendo leitores e seguidores  numa velocidade inimaginável. Estão desesperados. Vão acabar no lixo da história.

  • A Lava Jato está fazendo água

     

     

    “No tribunal, quando a política entra por uma porta, a justiça se retira por outra”. (Do jurista austro-húngaro Hans Kelsen)

     

     

    operação LAVA JATO

     

     

     

    Uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar setores do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, sobre possíveis violações de garantias constitucionais, irregularidades na condução de processos, abuso de poder, associação espúria com setores da imprensa para publicação de conteúdos sob sigilo e guarda do Poder Judiciário, visando objetivos políticos, é perfeitamente cabível, necessária, e restauradora do Estado democrático de direito, da ordem institucional vigente e preservação das prerrogativas dos órgãos de fiscalização e controle da República.

     

     

     

    O Supremo Tribunal Federal (STF) encontrou até o momento mais de 11 erros que comprometem a lisura do processo de investigação da Operação Lava Jato, a cargo do juiz Sérgio Moro, e a segurança institucional e jurídica do país. Vazamentos seletivos de informações de delações premiadas sob responsabilidade do Judiciário, em conluio com empresas de comunicação previamente escolhidas, têm demonstrado flagrante perseguição política ao ex-presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores. Entre outras irregularidades consideradas graves figura o desprezo pelas iniciativas da defesa dos réus, de direitos universais de cidadãos, coloca o exercício da advocacia numa situação delicada, e o advogado como uma categoria desnecessária nos fóruns judiciais.

     

     

     

    Em São Paulo, o promotor Cássio Conserino, que não faz parte da equipe de investigação de corrupção na Petrobras, abriu um processo contra o ex-Presidente Lula e sua mulher, Dona Marisa Letícia, com uma acusação estapafúrdia, em evidente abuso de poder, numa manobra que resultou em manchetes na imprensa e preencheu o vazio em que caiu a oposição após sofrer o grande revés no STF, que tenta a qualquer custo um golpe parlamentar contra a Presidenta Dilma, liderado pelo Senador Aécio Neves em aliança com o presidente da Câmara Eduardo Cunha.

     

     

     

    Essas e outras ações do gênero são indícios mais que suficientes para que setores do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal, que participam das operações Lava Jato e Zelotes, sejam chamados a dar explicações ao Congresso Nacional sobre possíveis desvios de conduta, abuso de autoridade e erros considerados graves na condução dos trabalhos de investigação a cargo dessas instituições, que não só põem em risco toda a política de combate à corrupção em curso no país, mas a credibilidade e a confiança nas instituições do Estado.

     

     

     

    Por que o Congresso Nacional? Porque ele é o Poder mais soberano da República, devido aos vínculos diretos com a sociedade por meio do voto dos cidadãos. O Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal, que gozam de autonomia, e órgãos auxiliares, não podem agir perseguindo ou protegendo quem quer que seja, muito menos negligenciar garantias constitucionais, prerrogativas funcionais, nem o ordenamento jurídico do país.

     

     

     

    Evidentemente o Congresso Nacional não anda muito bem na opinião pública, tendo em vista o fato de um grande número de seus membros estarem sendo investigados, entre eles os presidentes da Câmara e do Senado, mas, nas duas Casas, há parlamentares de estatura republicana, em plenas condições de promover um trabalho que seja capaz de recuperar as garantias constitucionais e institucionais do Estado brasileiro.

     

     

     

    O que não é possível continuar é essa situação de indigência ética de funcionários públicos desprovidos de cidadania, despreparados para o exercício de suas prerrogativas, a usá-las como instrumento político. Isso é grave e precisa ser investigado.

     

     

     

    Justamente no momento em que o país está preparado institucionalmente para enfrentar a corrupção e outras mazelas, com leis e instrumentos necessários, autoridades se comportam no limite da irresponsabilidade, de tal forma que corrompem a confiança da sociedade nas instituições.

     

     

     

    A sociedade, em pleno Estado democrático de direito, não pode se tornar refém de possíveis facções políticas incrustadas no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal ou em qualquer instituição de fiscalização e controle. É preciso dar um basta nisso antes que seja tarde.

     

     

     

    Quem não gostaria de ver os malandros, parasitas de recursos públicos, na cadeia? Há quanto tempo se esperava por ações concretas de combate à corrupção? Mas não com seletividade e perseguição política deliberada como está ocorrendo,  envolvendo procuradores, juizes, policiais e imprensa oligárquica.

     

     

     

    O ativismo político explicito na Operação Lava Jato está levando à consolidação de um perigoso grupo de funcionários públicos que se julgam “acima da lei”. Isso é tão grave quanto o conluio entre corruptos e corruptores.

     

     

     

    O Estado brasileiro ainda está impregnado da cultura monárquica, aristocrática. Como a transição do Império para a República foi uma mera conciliação pelo alto, sem ruptura, grande parte das autoridades e de funcionários públicos não costumam se comportar como membros de uma República, mas como monarcas, como casta privilegiada, membros de corte “a serviço de El Rei”, muitas vezes acima das instituições e das leis.

     

     

     

    Uma Comissão Parlamentar Mista (deputados e senadores) a ser formada por representantes de elevado espírito público poderá realizar extraordinária tarefa política republicana, democrática e cidadã, capaz de por fim à galhofa e à desmoralização institucional do país.

     

  • Entre replicantes e fundamentalistas

     

     

     

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    Outro dia Ray Kurzweil, diretor de Engenharia do Google, chamou atenção do mundo para o extraordinário avanço tecnológico nas áreas da genética e da informática, ramos da ciência que se encontraram  nos últimos tempos para realizações incríveis, talvez vistas apenas em livros e filmes de ficção científica.

    Kurzweil disse que, em breve, impressoras 3D irão imprimir órgãos humanos utilizando células-tronco modificadas com o próprio DNA do paciente, proporcionando um suprimento inesgotável de órgãos sem nenhum risco de rejeição.

    “Seremos capazes de reparar órgãos danificados – por exemplo, um coração que sofreu um ataque cardíaco – com células-tronco reprogramadas.”.

    “Por volta de 2025, impressoras 3D irão imprimir uma série de coisas. Haverá muitos projetos de código aberto, mas as pessoas ainda terão que pagar, por exemplo, para fazer o download de arquivos das roupas desenhadas pelos estilistas mais celebrados, assim como hoje pagam para baixar eBooks, músicas e filmes. As roupas serão impressas a um custo muito baixo.” Diz ele.

    “Nós iremos passar um tempo considerável usando realidade virtual e realidade aumentada. Poderemos visitar amigos e parentes, mesmo que separados por grandes distâncias. Será possível até tocar um no outro. Algumas das ‘pessoas’ que visitaremos nestas novas realidades serão avatares bastante fiéis ao original humano.” Alerta Kurzweil.

    As projeções do homem do Google, que percorreram a rede de internet, acordaram muita gente que ainda não havia se dado conta dos últimos acontecimentos científicos.

    Parece até que estamos chegando ao mundo preconizado pelos filmes Blade Runner – O caçador de andróides, Metrópolis e outras obras do gênero.

    Blade Ranner, com roteiro de Hampton Fancher e David Peoples, baseado na obra do escritor Philip K. Dick, mostra a cidade de Los Angeles em novembro de 2019 vivendo um colapso da civilização humana, material e moral, com animais clonados, seres similares ao humano, chamados replicantes, produzidos em laboratórios por engenheiros genéticos de empresas terceirizadas sendo usados em atividades perniciosas, na Terra e fora dela.

    Metrópolis, uma obra prima do expressionismo alemão produzido em 1927, pelo cineasta austríaco Fritz Lang, mostra o futuro, em 2026 (100 anos após a produção do filme), com ricos industriais governando a grande cidade, Metrópolis, das torres de complexos arranha-céus, enquanto a classe trabalhadora e moradores subterrâneos trabalham em turnos de revezamento para operar as máquinas que fornecem cada vez mais poder aos proprietários-governantes.

    Ficção científica à parte, pesquisas recentes aplicadas na medicina, com células-tronco, estão possibilitando pessoas cegas enxergar; diabéticos serem curados definitivamente, deixando de usar insulina; portadores de doenças degenerativas do sistema nervoso sendo tratados com êxito; e estudos avançadíssimos para que cadeirantes voltem a andar. Essas e outras conquistas extraordinárias da medicina fazem parte do início de um ciclo virtuoso de desenvolvimento científico muito pouco difundido.

    Cientistas estão considerando os avanços das pesquisas com células-tronco aos da descoberta, no passado, da penicilina, tamanha a abrangência da cura de doenças que os medicamentos estão proporcionando.

    A medicina está repondo tecidos danificados por doenças, traumas e envelhecimento, substituindo órgãos e, em tempo não muito distante, poderá regenerar corpos inteiros. Células embrionárias conseguem produzir células para todos os tecidos.

    O Brasil é atualmente referência mundial em pesquisa com células-tronco, ao lado de países como Estados Unidos, Inglaterra e Japão . O uso de células-tronco no tratamento de enfermidades cardiovasculares, da visão e da diabetes, no Brasil, é o mais importante no momento.

    O Instituto da Visão, da Universidade Federal de São Paulo, conseguiu recuperar a visão de um paciente a partir de células-tronco encontradas em dentes-de-leite humano, a mesma célula-tronco que forma tecidos do olho. Os pesquisadores estão a um passo de reconstituir, por exemplo, tecidos como o da retina.

    Ensaios clínicos estão sendo realizados com Células Progenitoras Hematopoéticas (CPH) de alta capacidade de auto-renovação, encontradas na medula óssea, na placenta e no cordão umbilical, para tratamento de câncer e outras aplicações.

    Uma revolução silenciosa está acontecendo na medicina. Uma simples célula pode ser transformada em gordura, músculo ou até mesmo em neurônios. É possível pegar células do paciente, reprograma-las, derivar linhagens e promover correções de gens defeituosos causadores das doenças.

    As pesquisas estão possibilitando criar órgãos completos. Nos Estados Unidos cientistas já estão produzindo em laboratórios órgãos de animais como pulmão, coração, rins, glândulas, e realizando transplantes com sucesso. O próximo passo seria promover procedimentos semelhantes em humanos.

    Mas as conquistas científicas, tão necessábrias para o tratamento de doenças fatais, estão ameaçadas por fundamentalismo religioso e pela iminente apropriação capitalista. O fundamentalismo quer impedir os avanços e o capital quer transformá-los em mercadoria.

    O capitalismo poderá produzir, entre outras coisas, “replicantes andróides” em laboratórios para uso em atividades inimagináveis, assim como no filme Blade Ranner.

    As comissões de Bioética acompanham o desenvolvimento das pesquisa em vários países, debatem e procuram estabelecer critérios e padrões éticos de utilização dos resultados das pesquisas científicas na medicina.

    Mas não dispõem de recurso e força política suficientes para influenciar governos e muito menos organismos internacionais como a ONU para dialogar com os setores fundamentalistas religiosos e tentar deter a utilização indiscriminada do resultado das pesquisas por empresas privadas.

    Esse talvez seja o maior desafio da sociedade no momento, que quer usufruir dos benefícios das pesquisas científicas.

    Pelo andar da carruagem, com a possibilidade de regenerar todos os tecidos, e, por conseguinte, o corpo humano inteiro, teremos que debater, em breve, o direito ou não de permanecermos vivos ou de interrompermos a vida quando quisermos e de forma assistida.

    Por incrível que pareça, tudo isso acontece sem que problemas como o da pobreza extrema, da desigualdade, a consolidação e afirmação dos direito humanos tenham sido resolvidos, sem que o atraso cultivado por certas religiões, as guerras, a sanha capitalista e outras misérias humanas tenham sido reconhecidas e superadas.

    O fato é que os passos da ciência têm sido muito mais avançados do que os da cidadania e da política.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • O PT está sendo tratado como penetra na festa

     

     

    Os fatos recentes que estão escandalizando o país simplesmente expõem parte do que ocorre no submundo da política brasileira.

     

    O problema é que as investigações estão tomando o rumo de uma degradação institucional gravíssima, marcada por espetacularização dos fatos, superando todos os limites éticos, morais, funcionais, que ameaçam a ordem constitucional e a maior conquista de uma nação: o Estado democrático de direito.

     

    Concluída essa fase com tamanho desvirtuamento, é muito provável que a República passe a viver imenso desequilíbrio e desarmonia entre os poderes e, talvez, até uma subordinação dos demais poderes ao judiciário, a seus órgãos auxiliares, ao poder policial e ao chamado “quarto poder”: a imprensa senhorial, que tem se encarregado de legitimar o espetáculo para a opinião pública.

     

    A hipocrisia aparece reluzente nas faces de autoridades e jornalistas.

     

    As câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do caráter de personagens desse espetáculo.

     

    O roteiro das tais investigações, até o momento, parece ter final previamente estabelecido: transformar contribuição legal de campanhas eleitorais em “propina”, criminalizar o PT e impedir seu líder maior, Lula, de disputar as eleições de 2018, porque sabem que as chances de ele ser eleito são reais e a oposição perderia a perspectiva de voltar ao poder.

     

    As investigações não vão além da superfície do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais de governos anteriores a 2003 e muito menos de alguns candidatos da oposição que disputaram as eleições em 2014.

     

    As campanhas eleitorais no Brasil estão entre as mais caras do mundo e sempre esconderam as relações entre o público e o privado. Isso é fato.

     

    Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que nas eleições municipais de 2004, que deram origem às investigações do “Mensalão”, por exemplo, cerca de 400 mil políticos empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de trabalhadores, para uma disputa de 55 mil vagas de vereador e 5.600 cargos de prefeito no país.

     

    A infraestrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 – propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de comunicação – comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais. O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor.

     

    Os estudos estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas.

     

    Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não são registrados como manda a lei. O que daria em média geral 1 real para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois.

     

    Quem adota o “caixa dois” costuma dizer que as contribuições sem registro são feitas a pedido dos contribuintes que não querem se expor para não revelarem preferências políticas.

     

    O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota, pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e chegou à conclusão que as candidaturas à Presidência da República são financiadas com maior volume de recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço, a petroquímica e a agroindústria.

     

    Isso por que a Presidência da República é quem responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de subsídios.

     

    Os setores financiadores das campanhas à Presidência da República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no Senado e na Câmara são também do âmbito da União.

     

    Já as candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras, isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados.

     

    Os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das empresas concessionárias de transporte público e de coleta de lixo.

     

    A campanha à reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país.

     

    A campanha à reeleição já nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo jornal Folha de São Paulo, do jornalista Fernando Rodrigues, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra de voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

     

    No início da campanha presidencial de 1998, segundo informações e documentos amplamente divulgados na época, o comitê eleitoral responsável pelas articulações da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seriam necessários R$ 73 milhões.

     

    Esse orçamento prévio foi comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral. Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões.

     

    Um grande número das empresas que contribuíram com a campanha eleitoral, na época, tinha contratos com empresas estatais e com órgãos públicos governamentais. No entanto, em nenhum momento foram investigadas e nem a contribuição delas para as campanhas eleitorais foram denominadas “propina”.

     

    A revista Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou das finanças, dias depois do envio da lista ao Tribunal, refez as contas e

    concluiu que os gastos foram de R$ 45,931 milhões, uma quantia muito superior ao total declarado ao TSE.

     

    Esse desencontro de valores, entre o que se arrecadou, o que se gastou e o que se declarou ao TSE, jamais foi explicado pelos coordenadores, diz a revista. Paira sobre esse assunto uma nuvem de mistério.

     

    Curioso é que na campanha de 1998 o candidato Fernando Henrique Cardoso viajou menos, fez menos comícios do que em 1994, mas gastou R$ 10 milhões a mais, segundo a revista.

     

    O comando da campanha na época, diante do volume das dívidas deixadas pelo comitê, foi obrigado a reunir a equipe financeira e colocá-la de novo em campo para arrecadar mais dinheiro dos empresários para cobrir o rombo.

     

    A revista Época informou ainda que as solicitações foram deliberadamente concentradas nos grupos empresariais que compraram as estatais.

     

    Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, por que isso não foi investigado? Por que as contribuições de campanha não foram consideradas “propina”?

     

    Na segunda quinzena de outubro daquele ano (período proibido pela lei), foram arrecadados R$ 8,2 milhões. Essa decisão foi absolutamente imoral e contrariou a legislação eleitoral, mas mesmo assim a arrecadação de recursos foi feita, diz a revista.

     

    A matéria segue dizendo que, entre as empresas que doaram recursos após o pleito, estão a Vale do Rio Doce, Companhia Petroquímica do Sul (Copesul) e Telebras.

     

    As subsidiárias da Vale do Rio Doce doaram R$ 1,5 milhão. Os donos da Copesul, R$ 1 milhão e os grupos La Fonte/Jereissati/Andrade Gutierrez e Inepar, que haviam comprado as empresas do sistema Telebras, doaram R$ 2,5 milhões, informa a reportagem.

     

    A matéria diz também que no final da ofensiva dos coletores, os dirigentes do comitê disseram que ficaram faltando R$ 2,9 milhões para liquidar as contas.

     

    Na mesma matéria, Época destacou o setor financeiro como o que mais contribuiu para a campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso.

     

    Em 1994, os banqueiros deram R$ 7,1 milhões. De cada R$ 10,00 que entraram no caixa da campanha, R$ 4,30 originaram-se do setor financeiro.

     

    Em 1998, a aposta do setor no candidato à reeleição atingiu 43% (R$ 18,6 milhões) do total arrecadado, mais que o dobro da campanha anterior.

     

    Conforme a revista, apenas cinco conglomerados financeiros contribuíram com quase R$ 10 milhões.

     

    Somados, responderam por 66,1% das doações feitas pelo setor financeiro e 28,6% do total de contribuições declaradas na campanha presidencial.

     

    As controvérsias sobre o financiamento da milionária campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso não pararam por aí.

     

    Para complicar ainda mais a vida do tucanato a Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2000, publicou uma vasta matéria com informações comprometedoras, obtidas de planilhas eletrônicas datadas de 30 de setembro de 1998, vazadas do comitê eleitoral do candidato tucano. Essas planilhas, segundo o jornal, revelam a existência de uma contabilidade paralela de arrecadações e gastos da campanha.

     

     

    O jornal informou que pelo menos R$ 10,120 milhões deixaram de ser declarados ao TSE e que, de cada R$ 5,00 arrecadados R$ 1,00 era desviado para uma contabilidade particular desconhecida.

     

    Segundo a reportagem além dos R$ 10,120 milhões não declarados oficialmente ao Tribunal, feitos os cálculos, tomando por base a planilha completa, ficaram de fora R$ 4,726 milhões, doados por empresas que constam da lista do TSE, com valores menores do que os da planilha que aparecem sob a rubrica de uma associação de classe dos empreiteiros.

     

    O dinheiro arrecadado pelo comitê financeiro, descrito em 34 registros na planilha principal, obtida pelo jornal, totaliza R$ 53,120 milhões.

     

    É importante lembrar que na data constante da planilha, a qual os repórteres tiveram acesso, o comitê ainda não havia registrado todas as contribuições o que leva a crer que o volume de recursos não declarados devia ser muito maior, levando em consideração que o orçamento estimado inicialmente pelo comitê para os gastos, e comunicado ao TSE, era de R$ 73 milhões.

     

    Nota-se que havia margem suficiente para declarar os recursos constantes na contabilidade paralela em questão. Mas parece que a equipe financeira não o fez.

     

    As razões não foram esclarecidas à imprensa, que insistentemente tentou sem sucesso obter explicações dos responsáveis pelas contas. Toda essa história acabou envolta num manto de mistério.

     

    Na época da divulgação das informações das planilhas pelo jornal, os repórteres andaram escarafunchando a lista de contribuintes da campanha da reeleição e trouxeram à tona informações preciosas.

     

    Os colaboradores, ao verem seus nomes e os nomes de suas empresas publicados nos jornais, não conseguiram esconder o constrangimento.

     

    Muitos deles acabaram dando informações contraditórias. A lista mais parecia um condomínio de interesse.

     

    A maior doação constante na planilha publicada foi de R$ 3 milhões e não teve registro no TSE, segundo o jornal.

     

    O jornal atribuiu a coleta dessa contribuição ao ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo.

     

    Ele negou dizendo que não participou do grupo de arrecadadores e que apenas realizou alguns jantares com empresários. Mas, membros da equipe financeira afirmaram ao jornal que Andrea Matarazzo fazia parte sim do grupo de coletores.

     

    Um detalhe: os repórteres do jornal dizem que na planilha não constava registro da procedência do dinheiro.

     

    O publicitário Roberto Duailibi, dono da agência DPZ, em entrevista à Folha de São Paulo, disse no primeiro momento que havia contribuído com R$ 7,5 mil.

     

    Quando ficou sabendo que a sua doação não estava registrada no TSE ligou para o jornal e disse que a empresa dele não havia contribuído com a campanha.

     

    Porém, consta na planilha, segundo o jornal, que a DPZ contribuiu com R$ 200 mil. Outro publicitário, Geraldo Alonso, da agência Publicis Norton disse ao jornal que contribuiu para a campanha com serviços de publicidade.

     

    O valor do trabalho prestado pela agência dele registrado na planilha foi de R$ 50 mil. Em seguida ele negou que havia prestado serviços.

     

    A empresa Atlântica Empreendimentos Imobiliários, da banqueira Kátia Almeida Braga, (Grupo Icatu), uma das coletoras de recursos, segundo o jornal, afirmou que contribuiu com R$ 100 mil e que teria recibo emitido pelo PSDB.

     

    Esse valor aparece na planilha a que o jornal teve acesso e não foi registrado na contabilidade oficial.

     

    Numa investida no Rio de Janeiro, segundo a reportagem, Kátia Almeida Braga procurou dezoito empresários. Uma das empresas da lista era a Sacre, de Salvatore Cacchiola, aquele do caso Marka e FonteCindan. Kátia Braga conseguiu da empresa dele uma doação de R$ 50 mil para a campanha.

     

    Outra empresa que chama atenção na lista de contribuintes da campanha de Fernando Henrique Cardoso é a Vasp, de Wagner Canhedo, um dos acusados de integrar o “esquema PC”, no governo Collor, e que responde até hoje a vários processos na justiça.

     

    Segundo o jornal, a empresa de Canhedo era devedora, na época, de mais de R$ 3 bilhões ao governo. Canhedo doou R$ 150 mil e não consta na declaração do TSE, diz o jornal.

     

    No caso da Vasp a lei proíbe doações, mas a direção da empresa confirmou a doação à Folha de São Paulo.

     

    Além desses casos, existem muitas outras irregularidades reveladas pela imprensa, na época, como por exemplo, doações feitas por Universidades e escolas privadas. A legislação proíbe instituições de ensino de participar de financiamento de campanhas eleitorais, mas o jornal afirma que muitas contribuíram.

     

    A diferença do “caixa dois” da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do “caixa dois” das eleições municipais de 2004 é que lideranças do PT foram investigadas por todas as instituições da República, foram condenadas e presas, enquanto que membros do PSDB, do PFL e de outros partidos da oposição não foram investigados e hoje flanam na desgraça do PT.

     

    O deputado José Dirceu, em seu depoimento ao Conselho de Ética, lembrou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que não admitiu a instalação de CPIs durante seu governo porque sabia que uma CPI o derrubaria.

     

    Pode-se dizer que o financiamento de campanhas eleitorais com recursos do submundo da política das elites por intermédio de “caixa-dois” é uma prática institucionalizada.

     

    O problema é que o PT resolveu ampliar o campo de alianças para um governo de coalização e parte da cúpula do partido resolveu participar de campanhas eleitorais com financiamento de empresas privadas, em igualdade de condições com os demais partidos, de acordo com a legislação eleitoral vigente.

     

    Apresentou o projeto de desenvolvimento sustentável com inclusão social, afirmação de direitos e combate à pobreza extrema, investimentos na construção da infraestrutura com geração de empregos e de um mercado interno de consumo.

     

    O empresariado que sofreu as agruras da política econômica do governo Fernando Henrique topou o projeto. Agora o PT está sendo ridicularizado como se fosse um penetra na festa da elite política e econômica.

  • O reinado do baixo clero

     

     

     

     

     

    Brasília - “Declaro promulgado o documento da liberdade, da democracia e da justiça social do Brasil”, disse há 25 anos o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, ao promulgar a nova Constituição Federal, em vigor até hoje. O Brasil rompia de vez com a Constituição de 1967, elaborada pelo regime militar que governou o país de 1964 até 1985
    Brasília – “Declaro promulgado o documento da liberdade, da democracia e da justiça social do Brasil”, disse há 25 anos o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, ao promulgar a nova Constituição Federal, em vigor até hoje. O Brasil rompia de vez com a Constituição de 1967, elaborada pelo regime militar que governou o país de 1964 até 1985

     

     

     

    Há alguns anos, andar pelos corredores e salões do Congresso Nacional era como mergulhar num mar de ideias, de debates e propostas para construção da nação democrática tão sonhada. A ditadura militar havia sido derrotada e pelo alto se construiu uma conciliação pelas liberdades democráticas.

     

    Era se deparar com pessoas como Florestan Fernandes, Roberto Campos, Darcy Ribeiro, Delfin Neto, Maria da Conceição Tavares, José Paulo Bisol, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, e tantos outros intelectuais e políticos desse porte.

     

    Nas tribunas o debate se desenvolvia em alto nível, cada um evidentemente com seus posicionamentos políticos e ideológicos, mas tendo a democracia como compromisso e base fundamental.

     

    Hoje, vê-se nos corredores e nas tribunas do Congresso, salvo devidas exceções, figuras patéticas investidas de mandatos parlamentares como se estivessem num shopping, numa igreja, numa delegacia de polícia ou numa bolsa de valores, emprenhadas de notoriedade, perdidas em delírios narcísicos nos novos espelhos (celulares smartphones), muitos em busca unicamente de meios – quaisquer que sejam – que garantam a reeleição.

     

    Figuras como o deputado que zanza pelos corredores trajando uniforme da Polícia Militar de São Paulo, ou outro policial, comentando na tribuna o crime do dia dos noticiários sanguera dos programas de TV; pastores pregando para os fiéis, ao invés de discursando sobre um assunto importante, sabendo que a TV Câmara ou TV Senado transmitem as sessões ao vivo, e outras cenas desalentadoras.

     

     

    Deputados

     

     

    Ou seja, a atividade parlamentar está sendo reduzida à defesa de interesses pessoais e corporativos como nunca visto. Os interesses da sociedade e do país que se danem.

     

    Que propostas de peso foram apresentadas na Câmara dos Deputados por figuras como o deputado Tiririca, Celso Russomano, Bolsonaro – os mais votados do país –, visando ajudar o país a superar a crise, a desigualdade, ou que representem avanços em relação aos direitos de cidadania e à democratização do país? Nenhuma. Alguns deles atuam na vida pública como alpinistas políticos visando sempre chegar ao ponto mais alto possível da República.

     

     

    Havia a expectativa, logo após a Constituinte, de que a sociedade brasileira entraria numa fase promissora de consolidação da democracia e aprofundamento da cidadania. Com as conquistas dos direitos individuais e coletivos e com a ampliação da organização e da participação social, esperava-se o aprimoramento da representação política.

     

    Isso aconteceu até certo ponto. Os governos Collor e Fernando Henrique, de viés neoliberal, que se seguiram, inimigos de políticas públicas estatais, se encarregaram de retardar o processo, mudaram a legislação eleitoral, estabeleceram o financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas, ou seja, ampliaram ainda mais o espaço político do poder econômico. Por outro lado, tornaram-se campeões de votos postulantes a cargos eletivos que, por alguma razão, se tornaram muito conhecidas na TV e noutras mídias.

     

    As campanhas eleitorais ficaram muito caras e, com isso, reduziram as chances de eleição de candidatos originários de trabalho partidário ou de movimentos da sociedade civil.

     

    A representação política e o parlamento entraram em franca decadência e os autênticos representantes da sociedade, que militam em movimentos nas mais variadas frentes voltadas para o fortalecimento da cidadania e consolidação da democracia estão sendo impedidos no processo eleitoral pelas condições impostas.

     

    Na medida em que as autênticas lideranças de movimentos são afastadas do processo eleitoral, o atraso organizado avança e toma conta do parlamento. Esse afastamento tem também muito de omissão, de quem assiste de longe a democracia ser solapada pelo conservadorismo.

     

    Não basta criticar. O momento é de participar e de reverter esse processo de decadência. Por que não pensar já em pessoas dignas da representação política para as próximas eleições e começar a trabalhar os nomes?

     

    O Brasil tem lideranças altamente qualificadas para a representação política nos movimentos sociais e sindicais, nas universidades, nas instituições públicas estatais, , participando de debates em diversos fóruns temáticos fora dos parlamentos.

     

    As instituições democráticas, os movimentos sociais e sindicais precisam se organizar e começar a projetar nomes para a retomada dos parlamentos, principalmente do Congresso Nacional, onde o retrocesso é mais evidente e os prejuízos são maiores para a democracia. Sem perder evidentemente a perspectiva da construção da hegemonia popular.

     

    Enfim, é preciso pensar estratégias para  uma grande renovação política do Congresso Nacional.

     

    Outro Congresso Nacional é possível.

     

  • Rastros de Ódio

    Foto Rastros de Ódio

     

    (*) Em mais um belíssimo artigo, meu amigo Luiz Clementino nos leva a um passeio pela produção de RASTROS DE ÓDIO-   “The Searchers”. Ao mesmo tempo em que faz uma análise refinada do que  esse filme representa para a história do cinema mundial e para a sociedade.

     

     

     

     

     

    Sinopse:

    Em 1868, o veterano ex-oficial confederado Ethan Edwards retorna da Guerra Civil e vai para o rancho de seu irmão na zona rural do Texas. Pouco tempo depois de sua chegada, os Comanches matam seu irmão e sua cunhada e raptam as duas filhas, uma delas ainda menina. Com a ajuda do filho adotivo de seu irmão, Martin Pawley, mestiço índio, Ethan, que odeia todos os ameríndios, começa a perseguir os Comanches para resgatar as sobrinhas. Para ele e também para os que o cercam (exceto Martin), é melhor “certificar-se” de que elas estão mesmo mortas e não vivas e abusadas pelos selvagens (um dos temas do filme é a discussão do racismo).

    Ethan se mostra obcecado e próximo de psicótico em sua perseguição, havendo suspeitas de que seu amor pelas sobrinhas se deve ao fato de ter amado a mãe delas, a esposa de seu irmão. Mais tarde, Ethan e Martin encontram o corpo assassinado da mais velha, Lucy. Recrudescem os esforços na busca da mais nova, Debbie. A procura tomará mais cinco longos anos.

     

     

     

    Vi RASTROS de ÓDIO, na infância, e nos ficou marcado na memória para sempre. Revi agora em seção cult movie numa programação de filmes que marcaram época. A fita remasterizada em alta definição, adequada para a fotografia no sistema VISTAVISION (tecnologia de ponta da época), funcionou maravilhosamente!!!!

    Realizado em 1956, em pleno embate entre o comunismo versus capitalismo e, considerando que a indústria cinematográfica dos EUA não foi interrompida durante a segunda guerra, (o mesmo não aconteceu no velho continente), consequentemente os projetos em Hollywood além do inegável aspecto artístico, também objetivavam o lucro consumista e a propaganda ideológica. Nesse caso, temos em RASTROS de ÓDIO o índio mau e perverso, contra o americano branco herói, cheio de razão e carregado de bom senso.

    Dentro desses condicionamentos, e considerando os valores vigentes na década de 50, o filme tem conotação racista e visão unilateral. Na Europa, que sofreu os horrores da segunda guerra, o cinema teve outras características, apresentou após conflito mundial, uma linguagem social realista, intimista e reflexiva.

    RASTROS DE ÓDIO, foi selecionado como o décimo segundo melhor filme de todos os tempos, na lista divulgada pela American Film Institute (AFI), em 2008.

     

     

     

     

     

    CONSIDERAÇÕES:

     

    Quem conviveu com o cinema ao longo dos anos, vivenciou emocionalmente na tela, tipos e aspectos humanos que ficaram impregnados nos corações e nas mentes de nós cinéfilos e que, de algum modo transpassaram a tênue fronteira do fictício e do real.

    Personagens como o maravilhoso “eterno vagabundo” contemplados nos filmes de CHARLES CHAPLIN, ou o casal de artistas mambembe amargurados, interpretados por Giulieta Masina e Anthony Quinn em “A Estrada da Vida” do genial FELLINI numa visão neorrealista; em “Ladrões de Bicicletas” de   VITTÓRIO DE SICA, pai e filho em situação comovente, procuram a bicicleta roubada, necessária para utilizá-la num difícil emprego,e resolvem praticar um delito, em uma Itália arrasada pela guerra. GRANDE OTELO, OSCARITO e a loirinha ELIANE, das chanchadas da Atlântica, fazem parte do nosso acervo cinematográfico sentimental. Como também, JEAN PAUL BELMOND como o irresponsável criminoso fugitivo em “O Acossado” de GODARD. Quem não se apavorou com o pirado Norman Bates de Anthony Perkins e HITCHCOCK em “Psicose”. Os miseráveis flagelados pela seca, andando a esmo no semiárido nordestino, ao som do carro de boi, em “Vidas Secas” de NELSON PEREIRA dos SANTOS, é impossível esquecer. Nessa longa lista pode constar também “Antônio das Mortes”, matador de cangaceiros, jagunço truculento, personagem comum de GLAUBER ROCHA. E por aí vai, a lista é bem longa, e nós, “loucos por cinema”, somos enfeitiçados por essa magia, dando sustância e personificação a figuras que, de uma forma ou de outra, nos fascinam.

    Dentro deste contexto cine-emocional, em “RASTROS DE ÓDIO” John Wayne é o Tio ETHAN, veterano do exército confederado, “representando um dos mais pungentes retratos da solidão humana e amargura do cinema.” Sujeito inescrupuloso, cavaleiro solitário, assassino de índios, um cara racista e atormentado, transa com a mulher do irmão, em uma paixão oculta. Este personagem impressionou não somente milhões de pessoas que viram esse western, como também Jean Luc Godard (desafeto assumido do cowboy ultra direita) que, na época, declarou: “mistério e fascínio deste cinema americano… como posso odiar John Wayne, e assim mesmo amá-lo tão ternamente quando ele pega Natalie Wood em seus braços nos momentos finais de RASTROS DE ÓDIO.” Para o cineasta Martin Scorsese, EDWARD ETHAN representa a psique norte americana, e que ele não é vilão, mas as vezes é desprezível. Muitas outras opiniões a respeito do Tio ETHAN foram expressas no decorrer dos anos.

    =

    O filme tem início com a abertura de uma porta, e termina com o fechamento de outra. Nesse intervalo, nos é mostrado o drama das famílias que ocuparam as terras habitadas pelos nativos.

    https://www.youtube.com/watch?v=6KFCwhBiejI

     

     

    O espantoso é que “The Searchers” não é somente um filme tecnicamente perfeito, “trata-se de uma evolução e amadurecimento do gênero por excelência norte-americano, o western,” e mesmo com a conotação injusta atribuída aos índios, a coisa funciona.

    O grande enigma é: como o irlandês JOHN FORD conseguiu elaborar, através de uma história cruel e facciosa, em uma comovente e importante expressão artística? O escritor cubano Guilhermo Cabrera diz uma coisa interessante a respeito: “Uma obra-prima de um mestre. Não deixem, por favor, que os politicamente corretos lhes digam que é racista; essa não é uma categoria para se julgar a arte, ou teríamos que revisar todo Shakespeare.”

                        Baseado em fato real, ocorrido em 1860 no oeste, quando o exército massacra todas mulheres de uma tribo, menos uma jovem de olhos azuis, que interrogada diz que foi raptada pelos índios aos nove anos, tornando mulher do cacique. Procurada pelos parentes durante 10 anos, recusou a voltar, alegando que o seu povo era os nativos.

     

                RASTROS DE ÓDIO foi filmado no habitat cenográfico do diretor, na bela região do Monument Valley, no estado de Utah, com o sistema VISTAVISION e em tecnicolor. Uma produção que envolveu 300 pessoas acampadas na região durante quase todo ano de 1955, sendo que as cenas com nevascas foram filmadas no Canadá com dubles de John Wayne e Jeffrey Hunter. E a dupla FORD/WAYNE, em plena forma.

    O fotógrafo Winton Hoch (1905-1979) nos proporciona formidáveis landscapes, em cores contrastantes, com enquadramentos perfeitos e uma luz belíssima. Para se ter ideia da fotogenia, alguns planos surgem primeiro, mostrando a paisagem, para depois entrarem os personagens e vice-versa. O visual é comparável ao trabalho dos cineastas David Lean e Akiro Kurosawa.

     

    O maestro Max Steiner (1888-1971), compositor de centenas de filmes (indicado para o oscar 36 vezes), realizou a bela trilha sonora. A canção tema “ The Seachers”, de Stan Jones (1914-1963), com versos referente à saga solitária de Tio ETHAN, é interpretada por “ The Sons of the Pionneers”.

    Alan Le May (1899-1964), escritor, contista e roteirista escreveu vários livros e contos passados no velho oeste americano. Dentre os que foram transpassadas para a tela, dois se destacam, “Os Imperdoáveis”, de John Houston, e “Rastros de Ódio”, de John Ford. Nesse último, o roteirista Frank S. Cooper mudou a versão original. No livro, o final é trágico, o sobrinho mata sem alternativa, mata o tio ETHAN.

    O crítico Muniz Vianna, quem primeiro levou o gênero a sério, escreveu na ocasião, que no elenco, não há nomes a destacar, pois todos cumprem muito bem a sua missão. Jeffrey Hunter, como MARTIN PAWLEY, o sobrinho mestiço, temeroso com o temperamento violento do tio. Sarah Milles, como a solteirona casamenteira apaixonada e passional, que vive à espera de MARTIN, sonhando com as núpcias, e também o folclórico e abestado MOSE, com sua intuição certeira e obstinação pela cadeira de balanço, são personagens interessantes.

    ETHAN e MARTIN são chamados pelos comanches de “ombros largos” e “aquele que segue” respectivamente. E a procura tensa e frenética pela sobrinha nas regiões inóspitas, na nevasca ou em sol escaldante causa desavenças e ressentimentos entre ambos. O explícito preconceito do tio se contrapõe com uma preocupação quanto à segurança e a proteção do sobrinho, demonstrando seu temperamento paradoxal. Em certo momento, ETHAN evita que MARTIN entre na casa mata, aplicando-lhe um soco, para que não e veja os corpos de sua família destroçada pelos índios. Mais tarde, na cantina em território do Novo México, anteriormente pertencente ao México (tomado pelos EUA), Tio ETHAN não permite que Martin tome um trago, resguardando-o. Quase no desfecho, quando ambos estão acuados pelos índios, o tio escreve um testamento deixando seus bens para o jovem MARTIN. Outra sequência que chama a atenção, e são cenas desagradáveis, é o tratamento desrespeitoso dispensado pela dupla à jovem índia que foi confundida como esposa. Por outro lado é mostrado uma aldeia dizimada, logo após o massacre realizado pela cavalaria, quando ambos comovidos vêem a jovem “esposa” índia assassinada.

    Ward Bond (1903-1960), é o Rev. Cap. SAMUEL J. CLAYTON, espalhafatoso e desajeitado, porém dotado de bom senso, líder da equipe dos voluntários Texas Rangers, refreia em algumas ocasiões a fúria extrapoladas do Tio ETHAN. E atenção, tem uma cena genial com a câmera fixa, onde é mostrado através dos olhos do o Rev. CLAYTON, que está em primeiro plano tomando café, a relação adúltera entre Tio ETHAN e a cunhada. Ou durante o café da manhã, também com a câmera parada e lente grande-angular (sem deformação), é mostrado toda a movimentação do aconchego familiar.

    O chefe comanche SCAR (Cicatriz) é contracenado pelo ator alemão Henry Brandon (1912-1990), representando o lado dark da história. Porém, toda a sua crueldade está vinculada à ação dos homens brancos que tomaram suas terras, violentaram suas mulheres, mataram seus filhos e dizimaram os animais com a caça predatória. Isso é mostrado no diálogo dentro da tenda no acampamento indígena, quando SCAR mostra os escalpos, dizendo para ETHAN que para cada filho seu morto pelos brancos, “eu arranco vários escalpos”. O cacique talvez seja um homem violento com causa, se esse argumento for justificável, e o Tio ETHAN? Os peles vermelhas já haviam exterminado seus pais e agora o irmão e a mulher que amou ardentemente. Ambos são movidos pela mesma horripilante energia, o ódio mútuo que cega e dilacera a alma de cada um. A incompreensão, insensatez, a falta de juízo e ira descabida entre as etnias é a força motriz, que gera em solo fértil a semente da violência e da guerra.

    A história tem início em 1868, porém hoje, tudo se repete. Infelizmente a mentalidade anti-humanitária de Tio ETHAN persiste, o exército dos EUA prossegue invadindo nações, bombardeando áreas civis, com artefatos de ponta, exterminando mulheres, crianças e idosos, invadindo casas destruindo lares, estuprando mulheres e desrespeitando culturas milenárias. E quando há revolta, como aconteceu com o cacique SKAR, o injustiçado é considerado terrorista de alta periculosidade e fatalmente é cassado em todo o mundo. E resumindo a ópera: CICATRIZ versus OMBROS LARGOS é um embate sangrento atualíssimo. Haja vista o que diz o pensador Krishnarmurti em suas conferências: “apesar de toda a modernidade e da alta tecnologia contemporânea, ainda vivemos em um regime tribal”. Vejam o nosso contexto político atual!!!

    Em 1964, JOHN FORD voltou ao tema indígena com CREPÚSCULO DE UMA RAÇA (Cheyenne Autumn), mostrando o problema pela visão dos peles vermelha. A história se passa em 1878, quando o governo deixa de entregar os suprimentos necessários à tribo indígena Cheyenne, levando centenas de índios a saírem da reserva para viverem livres no local de origem. Na ocasião, FORD declarou que devia esse filme aos índios, pois em sua carreira cinematográfica, exterminou mais índios do que a sétima cavalaria do General Custer.

    Houve posteriormente no cinema norte-americano, realizações conscientes no gênero, sem o contexto imbecil de que o índio é um estranho em sua própria terra e também desmistificando os heróis nacionais. Em 1960, Don Siegel realizou um interessante filme já mostrando o lado do índio. Trata-se de “Flaming Star”, versado aqui como “Estrela de Fogo”, com Elvis Presley e a estrela do cinema mudo Dolores Del Rio. Dentre outros diretores podemos citar em 1969, Abraham Polonsky diretor perseguido pelo Macartismo, escreveu e dirigiu o correto filme “Willie Boy” baseado na história verídica de um índio chamado Willie Boy e seu confronto com a lei em 1909, em Banning, Califórnia. Ralph Nelson em 1970, com “Soldier Blue” (Quando é preciso ser homem), tendo como base os fatos que levaram ao massacre de índios, ocorrido em 1864, o “Sand Creek Massacre”, no Território do Colorado. O filme contém cenas “realistas” e “close up” de decapitações e fuzilamentos de mulheres e crianças indígenas. Também, no mesmo ano, Arthur Penn, elababorou o maravilhoso “Little Big Man” (Pequeno grande homem). Narrado por um sobrevivente centenário dos massacres, e em tom de comédia, mostra novas versões de personagens históricos e notadamente um General Custer como lunático, vaidoso e violento. Mais recentemente, Kelvin Koster em “Dances with Wolves” (Dançando com os lobos) conta a história de um oficial de cavalaria que se destaca como herói na Guerra Civil Americana e, por isto, é lhe dada a chance de escolher o lugar onde quer servir. Ele escolhe um posto longínquo e solitário na fronteira. Ali estabelece amizade com um grupo de índios Sioux, que o recebe pacificamente e o adota.

    O fato é que, esses e outros trabalhos, mesmo com a competência e talento de seus autores, imbuídos de autenticidade, pesquisa jornalística, realismo e denúncia, não contêm a grandeza épica e a beleza poética e nostálgica de RASTROS de ÓDIO. Grande parte dos críticos, consideram o melhor western de todos os tempos, é um marco e referência na história do cinema. É uma obra recomendada e estudada nas universidades, já foi dissecada por intelectuais, críticos renomados e artistas, como também temas de teses para mestrado e doutorado. Existem vários comentários, críticas especializadas, traillers, cenas e admiração na internet sobre esta obra.

    O crítico Rodrigo Carreiro, do jornal digital Cine Repórter, escreve que “Cineastas de prestígio, como Steven Spielberg e Martin Scorsese, colocam “Rastros de Ódio” no topo das obras-primas produzidas em Hollywood. A complexidade dos personagens é tão profunda que não cabe na tela: a relação de amor e ódio que Ethan mantém com Martin Pawley jamais é explicada em palavras. John Ford não gostava de falar mais do que o necessário. Esses e outros detalhes inexplicados, no lugar de criarem um filme cheio de pontas soltas, compõem uma obra de texto aberto, com entrelinhas que o próprio expectador pode preencher, de uma forma que jamais conspurca a linha mestra na narrativa. As atuações em geral parecem um tanto empostadas e artificiais, e o ritmo é naturalmente lento, mas esses detalhes fazem parte do contexto de produção dos filmes da época. As platéias de 1956 não tinham essas sensações. Por isso, “Rastros de Ódio” cavou um espaço na mitologia popular norte-americana e continua a ser reconhecido como obra-prima.”

    O cinéfilo Paulo Tibúrcio em artigo sobre RASTROS de ÓDIO afirma: “ JOHN FORD conseguiu captar nas imagens de seus filmes, como nenhum outro diretor, a alma do povo norte-americano, em seus costumes, crenças e lutas nos caminhos trilhados em seu desenvolvimento. Em todas as listagens dos dez melhores westerns dos primeiros cem anos do cinema americano (1896 a 1996), no mínimo três de seus filmes estão presentes: NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (Stagecoach-1939), RASTROS de ÓDIO (The Searchers-1956) e O HOMEM QUE MATOU O FACÍNOLA (The man who shot Liberty Valance-1962). Outros dois maravilhosos foram: PAIXÃO de FORTES (My Darling Clementine-1946) e CREPÚSCULO de uma RAÇA (Cheyenne Autumn-1964). De outros gêneros cinematográficos que JOHN FORD dirigiu, cito a seguir, cinco outras obras primas: A MOCIDADE DE LINCOLN (Young Mr. Lincoln-1939), VINHAS DA IRA (The Grapes of Wrath-1940), A LONGA VIAGEM DE VOLTA (The Long Voyage Home-1940), COMO ERA VERDE O MEU VALE (How Green was my valley-1941) e DEPOIS DO VENDEVAL (The Quiet Man-1952).

    Mal recebido em sua estréia, o filme se impôs através dos anos. De acordo com o produtor e cineasta CURTIS HANSON, o tempo além de estar do lado dos artistas, é um único critério para avaliar uma obra de arte. O mesmo aconteceu com cinematografia de JEAN RENOIR que foi incompreendida e subestimada no seu tempo, e hoje é considerada obra máxima do cinema.

    As cenas finais ”The Searchers” são estarrecedoras e surpreendentes, quando Tio ETHAN, durante o massacre na aldeia, enfim consegue por as mãos na sobrinha, porém já não se trata de uma criança, e sim uma mulher pele vermelha, esposa do cacique SKAR, e em seu universo paranóico, mais um animal desprezível que não merece viver. O jovem MARTIN corre desesperado tentando alcançá-lo para evitar pior. Surpreendentemente surge um lampejo de compaixão, e Tio ETHAN toma uma decisão inesperada, decisão essa que evitará uma tragédia maior.

    E finalmente, quando tudo está aparentemente resolvido do “lado branco”, todos entram porta adentro satisfeitos e acomodados, menos uma pessoa, o tio ETHAN, que tudo observa. Sua mente está escalpelada psicologicamente, ele é uma tragédia humana. O que fará de agora em diante? SCAR está morto e escalpelado por ele. Continuará furando os olhos dos índios abatidos para ficarem vagueando ao vento e não entram na terra dos mortos? Ou exterminando os bisões, que são alimentos dos peles vermelhas? Permanecerá o mesmo homicida racista? Será ele também vítima da violência, que jamais conseguiu digerir? Um cara digno de pena? Não sabemos, talvez nem JOHN FORD ou ALAN Le MAY saibam, o que se pode afirmar é que Tio ETHAN jamais se integrará em um lar ou em uma família ajustada e pacífica.

    Então “OMBROS LARGOS” observando o convívio familiar, se vira na poeirenta paisagem desértica, ao som da canção de Stan Jones, e caminha a ermo na estrada amargurada de sua vida.

    https://www.youtube.com/watch?v=ci3a4zc-40I

     

    A porta se fecha.

     

    THE END

     

     

    PS – Sobre JOHN FORD

    Por ocasião da mostra John Ford, no CCBB em Brasília, foi produzido um excelente livro-catálogo, organizado pelo crítico Ruy Gardnier, com publicação de boa parte dos principais artigos e capítulos já escritos sobre a obra do diretor, todos eles inéditos no Brasil. Contendo textos que vão desde 1928 até os dias atuais, o livro discute, aprofunda e problematiza os maiores temas, conceitos e filmes da extensa obra de Ford, além de tentar compreender sua mítica personalidade

    Na seção de depoimentos, GLAUBER ROCHA escreve um artigo intitulado “O CACIQUE DA IRLANDA”, referente à homenagem que o irlandês recebeu, em 1968, no Festival de Montreal. Estavam reunidos no evento a nata do cinema mundial e, além de JOHN FORD, seus dois amigos pesos-pesados Jean Renoir e Fritz Lang, dentre outros. Na ocasião o diretor de RASTROS de ÓDIO foi apresentado ao realizador de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL.

    Após brincadeiras e abraços deu-se a entrevista coletiva no quarto do hotel, em clima descontraído, e com afirmações descompromissadas e hilariantes, demonstrando total desinteresse com qualquer engajamento. Para se ter idéia, vejamos algumas afirmações, no mínimo interessantes:

     

    -Atualmente eu não escolho nem os atores. É a mulher do banqueiro que dá todos os palpites no filme que vou fazer. Somente quando tenho dinheiro nos meus filmes possuo liberdade. Mas que liberdade? Quem manda é o público.

    — Quem é Godard? Nunca ouvi falar dele. Quem é Pasolini? Nunca ouvi falar. Ontem fui ver um filme comunista iugoslavo [tratava se de Une Affaire de Cœur,2 de Dusan Makavejev, aplaudido pela crítica] e saí na metade. Isso é lá cinema? Os europeus pensam que filmar uma mulher nua é cinema. O grande cinema é o nosso, o meu, o de Hawks, o de Hitchcock!

    Um jornalista pergunta se Ford acompanhará Renoir naquela noite ao Palácio do festival, onde será apresentado La Marseillaise (A Marselhesa, 1938).

           — Não. Este filme sobre a Revolução Francesa é propaganda. Não posso prestigiar um comunista em público, apesar de Renoir ser meu amigo.

    O filme Young Mr. Lincoln entusiasmou Eisenstein. Contamos isso para Ford e ele brinca:

    Quem? Eisenstein? O diretor comunista de Ivan, o Terrível? Ivan é um filme muito inteligente

    E GLAUBER ROCHA conclui:

    Ford desconfia de sua possível genialidade. Inegavelmente militarista, Ford idealizou o Oeste como um paraíso perdido, espécie de Olimpo do novo mundo. Sua preocupação sempre foi a de punir os maus e fazer triunfar os bons. Gosta de índios, mas são ingênuos os selvagens que devem ser catequizados e protegidos. Haverá sempre um bom soldado branco capaz desta façanha, ainda que para tanto deva se rebelar contra seu superior. O exército é a alma da nação, a cavalaria sempre surgirá para salvar os pobres colonos das garras dos índios. Sobre racismo, Ford acha lamentável a incompreensão entre os homens.

    Seu cinema criou adeptos em todo o mundo. Na França Ford é adorado, embora todos saibam que sua visão do mundo é desatualizada, principalmente depois que os Estados Unidos começaram a entrar em crise social, econômica e política revelando ao mundo que sua invencibilidade apregoada com veemência pelo cinema é um mito cinematográfico. Como Howard Hawks, como Alfred Hitchcock, como tantos outros, Ford pertence a uma geração de gigantes que se revelam como Golias, vulneráveis na testa.

    Fritz Lang tinha razão quando afirmava que o cinema feito por esta geração era um cinema primitivo. Inventaram cenas fabulosas de espetáculo, criaram gêneros e heróis, mas em nada contribuíram para transformar a sociedade: apenas colaboraram na edificação do mito imperialista. Este cinema de espetáculo, de aventura, de suspense, de emoção, entrou em colapso justamente porque o tempo da reflexão, da dúvida, da crítica, da perplexidade, começou. Hoje, diante de um filme do velho cinema americano, vemos apenas a reprodução mentirosa do mundo. E a perfeição destas formas, a harmonia deste ritmo, terminam por cansar. É um mundo fechado que dá uma mensagem mastigada ao espectador, sem que ele tenha a menor chance de discutir ou recusar.

    John Ford é o maior criador desta fase. Moralista, telúrico, gênio de um velho estilo de espetáculo.

     

     

     

    https://www.youtube.com/watch?v=JsM8vH04Vcs

    https://www.youtube.com/watch?v=ci3a4zc-40I         lets go home

    https://www.youtube.com/watch?v=pi-zM9A5S0M         trailer

    https://www.youtube.com/watch?v=7cj4smynTwc https://www.youtube.com/watch?v=5uPPGltqXE8 monument VALLEY

     

     

     

                                       

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    Elenco:

    • John Wayne…Ethan Edwards
    • Jeffrey Hunter…Martin Pawley
    • Vera Miles…Laurie Jorgensen
    • Ward Bond…Rev. Capt. Samuel Johnston Clayton
    • Natalie Wood…Debbie Edwards (crescida)
    • John Qualen…Lars Jorgensen
    • Olive Carey…Mrs. Jorgensen
    • Henry Brandon…Chefe Cicatrice (Scar)
    • Ken Curtis…Charlie McCorry
    • Harry Carey, Jr…Brad Jorgensen.
    • Antonio Moreno…Emilio Figueroa
    • Hank Worden…Mose Harper
    • Beulah Archuletta…Wild Goose Flying                       (Searchers, The – 1956)

     

     

     

  • Aécio Neves não. Aécio Cunha

     

     

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    O nome de registro do senador Aécio Neves é Aécio Neves da Cunha. Cunha herdado do pai, o ex-deputado Aécio Ferreira da Cunha.

     

    Segundo registros da Câmara dos Deputados, o pai de Aécio apoiou, como um dos articuladores, o golpe militar de 1964, e os governos militares como deputado federal pela Arena, PDS, tendo depois se filiado ao PFL.

     

    Em 1962, na mesma eleição que o pai de Aécio conseguiu o mandato de deputado federal, cerca de 250 candidatos a deputado federal e 600 candidatos a deputado estadual receberam recursos proveniente do famoso Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), entidade criada para arrecadar recursos de empresas multinacionais e financiar campanhas eleitorais de candidatos favoráveis ao golpe, segundo relatório da CPI do IBAD.

     

    Dos sobrenomes que tem, prefere usar Neves, o mesmo do avô Tancredo, ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas, que sofreu ao lado dele as agruras de conspirações e tentativas de golpe por integrantes da UDN, em 1954, com acusações incessantes de corrupção no governo, dispondo-se a sacrificar a própria vida, se preciso fosse.

     

    Articulador da candidatura de Juscelino Kubitschek à Presidência da República, enfrentou os golpistas e ajudou a garantir a posse dele. Além disso, esteve ao lado de JK em mais duas tentativas de golpes.

     

    Tancredo foi também primeiro-ministro num curto período de regime parlamentarista no Brasil (1961-1962).

     

    Quando Tancredo Neves convidou Dona Risoleta Neves e o neto Aécio para estarem ao lado dele no périplo da campanha das Diretas Já, certamente ensinou-lhe os primeiros passos na política no caminho da democracia.

     

    Foi depois da morte do avô que Aécio adotou o sobrenome Neves e passou a usá-lo vinculando-o à sua imagem. O Neves passou a ser uma espécie de prancha para surfar nas ondas políticas. Foi a construção de uma imagem que, pela sua atuação nos últimos tempos, assemelha-se a uma trapaça.

     

    Aprendeu a manejar a gramática política, um amontoado de expressões genéricas, substrato da retórica que costuma enganar os leigos, como mais um recurso associado ao sobrenome do avô.

     

    Isso somado a recursos financeiros, rede de rádios da família, entre elas a de Betim-MG, que ele conseguiu no governo Sarney, no final das contas, rendeu-lhe uma carreira como neto de Tancredo, com direito a bajulação quase que diária da velha mídia udenista.

     

    Não se ouve falar que Aécio estudou o Brasil, um esforço que pudesse lhe dar porte de estadista. Aliás, o que pessoas próximas dele costumam dizer é que ele nunca foi muito de estudar. Entre sala de aula, praia e balada, ele sempre deu preferência às duas últimas opções.

     

    Sem o sobrenome do avô, sem os amigos da família, rede de comunicação e dinheiro, talvez Aécio nem existisse como político.

     

    Com a eleição de Fernando Henrique Cardoso, ele foi alçado a presidente da Câmara dos Deputados, um cargo que elevou seu status político.

     

    Fernando Henrique tinha esmagadora maioria no Congresso e precisava de alguém que realizasse as tarefas do Planalto sem questionamentos. Aécio Neves, com sua grife tirada do nome do avô, caiu como uma luva nas pretensões do governo.

     

    Dito e feito. Cercado de assessores preparados, Aécio Neves funcionou como um office boy do Planalto. O bom moço fez tudo direitinho.

     

    Curioso, ele nunca assumiu um ministério. Um mistério. Seria falta de preparo? Aécio sempre viveu de sinecuras, muitas delas proporcionadas por nepotismo.

     

    O primeiro emprego, quando foi nomeado para Cargo Comissionado (CC) na Câmara dos Deputados, – o pai, Aécio Ferreira da Cunha, era deputado –, depois secretário particular do avô, senador Tancredo Neves, e outros cargos do Estado, permitiram-lhe viver zoando por aí nas rodas de políticos.

     

    Não há registro de uma contribuição significativa para o país proveniente da lavra de Aécio, que mereça ser destacada.

     

    Presidir à Câmara com ampla maioria governamental, sendo do mesmo partido do governo, não é algo tão difícil.

     

    Depois dos serviços prestados a Fernando Henrique, Aécio ganhou o governo de Minas Gerais. Mais ondas surfadas com o sobrenome do avô.

     

    Nesse vai e vem das ondas, Aécio Neves andou resvalando em farras com excessos, sem certos cuidados que os homens públicos costumam ter.

     

    Além disso, abusou do cargo de governador como se fosse uma propriedade privada, entre outras coisas, com a construção de aeroportos supostamente para beneficiar propriedades de familiares.

     

    Abusou também do uso de aeronaves do governo dos mineiros no transporte de amigos, celebridades, parentes, e em viagens para outros estados, principalmente para o Rio de Janeiro, sem justificativas aceitáveis.

     

    Em 2014 Fernando Henrique bancou Aécio Neves como candidato à Presidência da República e desbancou José Serra e Geraldo Alckmin, que trabalharam duro no partido pelas próprias candidaturas.

     

    Fernando Henrique não controla Alckmin e muito menos Serra. Talvez quisesse Aécio Neves na Presidência da República  para fazer o mesmo que fez quando presidente da Câmara. Tê-lo como seu ventrículo.

     

    Derrotado nas eleições de 2014, Aécio Cunha assumiu as mesmas posições em relação à presidenta Dilma que seu pai, o deputado Aécio Ferreira da Cunha assumiu contra o ex-presidente João Goulart, no golpe de 1964.

     

    Aécio Cunha se aliou a Eduardo Cunha para um golpe parlamentar contra a presidenta Dilma. Prega abertamente o rompimento com a ordem constitucional vigente.

     

    Arrastou para as ruas, com ajuda escancarada da mídia, que serve à oposição, os setores mais atrasados e reacionários da sociedade. Deu-lhes voz e espaço para ações.

     

    Tudo isso sob o comando de Fernando Henrique Cardoso, que também faz o mesmo, manifestando em artigos, entrevistas e reuniões a sua sanha golpista.

     

    O que Aécio Cunha talvez não se dê conta é que um golpe não é tão fácil quanto o que ele recebeu de mão beijada em surfadas políticas. E que o Brasil não está em 1964 e sim em 2016, com uma moderna “Constituição Cidadã”, como a denominou o dr. Ulysses Guimarães, fiel companheiro de Tancredo Neves.

     

    Uma Constituição que proporciona ao país instituições sólidas e estáveis, e a sociedade organizada em sindicatos, centrais sindicais e movimentos com capacidade de mobilização popular inédita na história do país.

     

    A pergunta que fica é: se não fosse o uso do sobrenome do avô na carreira política e a ajuda de familiares e amigos de Tancredo, Aécio Neves teria ocupado tantos cargos políticos? Provavelmente não.

     

    Ele tem usado e abusado do sobrenome Neves, mas parece que não aprendeu as lições políticas de Tancredo.

     

    Depois da reconciliação com o passado do pai golpista, a continuidade do uso do sobrenome do avô soa como uma usurpação, uma fraude. Agora não cola mais. O nome mais apropriado é Aécio Cunha.

     

    Aécio Cunha e Eduardo Cunha devem entrar de braços dados para a história, mas pela porta dos fundos.

     

    Ficarão longe da ala em que estão Ulysses Guimarães, Severo Gomes, Márcio Moreira Alves, Chico Pinto, Miguel Arraes e tantos outros que lutaram pela democracia ao lado de seu avô Tancredo e foram fiéis a ele até o fim.

     

    Vão para a ala dos golpistas, a mesma em que estão o seu pai, o deputado Aécio Ferreira da Cunha, Fernando Henrique Cardoso, Jair Bolsonaro, o ex-governador mineiro e ex-senador Magalhães Pinto, Pedro Aleixo, Carlos Lacerda, golpistas e conspiradores da linha de frente, em 1964, e tantos outros que non los puedo contar.

     

    Aécio Neves não existe, a não ser como fraude. Seu nome verdadeiro é Aécio Cunha.

    (*) Nada contra o sobrenome Cunha, mas os políticos em discussão neste artigo não merecem respeito como políticos.

  • Fernando Henrique carrega um general golpista dentro dele

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    No discurso de despedida de Fernando Henrique Cardoso, do Congresso Nacional, antes da posse para o exercício do seu primeiro mandato, estava no meio dos parlamentares, elegantemente vestido, sentado na cadeira de sempre, como um aluno disciplinado, já bastante debilitado pela doença hepática, segurando uma bengalinha, o Professor Florestan Fernandes, reeleito por São Paulo.

    Fernando Henrique o viu no plenário. Pediu licença ao senador Humberto Lucena, que presidia a sessão, disse que quebraria o protocolo para cumprimentar uma pessoa.

    Desceu os degraus do alto da Mesa, embrenhou-se entre os parlamentares que o assediavam calorosamente, postou-se frente ao mestre e o abraçou. Florestan desejou-lhe boa sorte e êxito no governo.

    No final daquele momento, como que movido por um lampejo de confiança no ex-aluno, Florestan disse a Fernando Henrique: “Veja bem, Fernando: não crio gatos. Crio tigres”.

    Disse isso sob forte emoção, certamente lembrando-se de que ele teria sido um dos professores mais influentes na formação acadêmica dele.

    Foi num bar em São Paulo que Florestan conheceu Fernando Henrique, ainda rapazinho, em dúvida sobre que curso faria na universidade.

    Florestan teve uma conversa impactante com ele, falou sobre a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, sobre o curso de sociologia, e da importância de se formar sociólogos nas nossas universidades para ajudar nos estudos, nas pesquisas, sobretudo no desenvolvimento do pensamento e na interpretação do Brasil pelos próprios brasileiros.

    Foi com base nessa conversa que Fernando Henrique decidiu fazer o exame para cursar sociologia na USP. Florestan foi professor dele, orientador no mestrado e no doutorado.

    Ficaram tão amigos que Fernando Henrique mudou-se para a mesma rua que morava o mestre para conviver, frequentar a biblioteca e ouvi-lo mais. Florestan o tinha em alta consideração fraterna e intelectual.

    Aquele momento de despedida de Fernando Henrique  foi marcante para Florestan, mais marcante ainda a decepção com o rumo dado por ele ao governo, que apenas se somou a outras decepções políticas acumuladas ao longo da carreira do ex-aluno presidente. Mas nada disso abalou a relação pessoal e o respeito que tinham um pelo outro.

    Certo dia, no gabinete, tirou os óculos de hastes e lentes grossas, colocou-os sobre a mesa, passou os dedos nas sobrancelhas de fios compridos, e disse, referindo-se a Fernando Henrique, com todo o cuidado que tinha ao comentar alguma coisa sobre as pessoas: “É… Fernando está ficando politicamente irreconhecível”.

    Fernando Henrique deu um golpe na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que havia sido debatida e aprovada na Câmara, sob a coordenação do então deputado Florestan Fernandes, com apoio do Fórum Nacional de Educação.

    Numa articulação comandada pelo seu vice-presidente Marco Maciel, ele aprovou no Senado o projeto de lei do governo tornando regimentalmente prejudicado o projeto de LDB da Câmara, que acabou sendo arquivado.

    Esse golpe colocou por terra anos de debate e de construção democrática, com a participação da sociedade, de uma proposta de educação, relatada pelo então deputado Jorge Hage, que provocaria uma transformação profunda no país.

    O mundo girou e hoje Fernando Henrique rola ladeira abaixo numa decadência ética inimaginável. Lidera a tentativa de um golpe parlamentar contra a Presidenta Dilma e contra a ordem institucional da República, sem o menor constrangimento público, mesmo sabendo que ela é uma mulher íntegra, honesta, de conduta ética ilibada, e que contra ela não há nenhum indício de crime de responsabilidade.

    A impressão que passa é que Fernando Henrique guarda um general golpista dentro dele. Tudo indica que é um general integrante da UDN, que andava incubado e agora aflorou.

    Parece muito com o que tentou derrubar Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, ajudou a eleger Jânio Quadros e derrubou João Goulart.

    Em matéria de falta de constrangimento público, de aridez interna, ele e Eduardo Cunha se parecem. Não sentem vergonha do que estão tramando. Aliás, estão juntos na empreitada do golpe de Estado no Brasil.

    Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Cunha e Michel Temer entrarão para a história, mas pela porta dos fundos e farão parte da ala dos golpistas onde estão Carlos Lacerda, os generais Castelo Branco, Costa e Silva, Médice, Geisel, Figueiredo e outros políticos que não toleram a democracia.

    Na ala da história, onde está Florestan Fernandes, seguramente Fernando Henrique não estará.