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  • Bonecos de Lula com toga e beca

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    Os bonecos de Olinda são feitos para homenagear pessoas que se destacam na vida social, artística e política.

    Um gesto grandioso de foliões amorosos, alegres, de pessoas capazes de reconhecer qualidades e contrbuições de cidadãos para a civilização e o desenvolvimento do país.

    Diferentemente do Boneco Lula, feito com más intenções, por gente mórbida, violenta, sem ética democrática.

    O Boneco Lula é o símbolo mais bem acabado do ódio de classe no Brasil. Nele estão expressos, pelos conservadores, desejos profundos de vingança, certamente por ser Lula o líder responsável pela mais impactante transformação social da história recente do país.

    A retirada de 40 milhões de pessoas da pobreza extrema e promoção da inclusão social de outras dezenas de milhões, entre tantas outras conquistas da população da base da pirâmide social, impactou toda a ordem social tradicional do País.

    Essa parece ser a causa mais importante, que tem provocado tamanho ódio de classe em pessoas dos setores mais abastados.

    Como bem lembrou o ex-Presidente Lula, numa de suas tiradas bem humoradas, a empregada doméstica está usando o mesmo perfume da patroa e a patroa não controla mais o voto dela nem do porteiro do edifício.

    A reação dos setores conservadores a essas grandes transformações trouxe à tona conflitos ancestrais da colonização, cristalizados na disputa política e no medo da perda de poder no atual ciclo da democracia. Na democracia eles perdem sempre.

    A manipulação da informação pelos conservadores, nos meios de comunicação (TV, rádio, internet), corre solta, operam no subliminar, instala nos confins dos corações e das mentes dos desavisados, ódio, preconceitos generalizados, a negação da política, como se a política fosse, para a sociedade, o mal dos novos tempos.

    A cidadania está sendo esterilizada e o debate interrompido. A participação da sociedade nas decisões, na escolha do futuro do país, desmobilizada pelo jornalismo rastaquera.

    O Brasil está convivendo agora com a gana dos conservadores pela resubordinação dos trabalhadores, que de certa forma estão sentindo um pouco de alívio do domínio da aristocracia senhorial.

    Os conservadores querem recolocá-los nos lugares de antes, expulsá-los dos shoppings, como fizeram, com decisão judicial, no episódio dos “rolezinhos” em São Paulo.

    Os adolescentes dos “rolezinhos” estavam apenas passeando, fazendo selfie’s com seus celulares, para postar nas redes sociais.

    Querem colocar para fora dos aeroportos, pessoas que recentemente passaram a viajar de avião, como desejou a “glamourosa” professora de letras da PUC-Rio, ao ver um senhor saboreando um sanduíche na fila de embarque, dizendo ela que os aeroportos brasileiros estavam parecendo rodoviárias.

    Para fora do salão de beleza, como tentou uma moradora de um condomínio de luxo em Brasília, ao ver a empregada doméstica de uma amiga cuidando das unhas e dos cabelos no mesmo salão frequentado por ela.

    O impacto da inclusão social está levando a arquitetura a mudar a ordem residencial colonial.

    O modelo sala, cozinha e “dependência de empregados” (senzala dentro de casa) de apartamentos e casas, não cabe mais na realidade brasileira. As “dependências de empregados” estão virando depósitos de bugigangas.

    Os empregados domésticos conquistaram igualdade de direitos com a “lei das domésticas”. Ou seja, tudo junto e misturado está causando um grande incômodo aos conservadores.

    Essa obsessão da oposição, e da mídia que serve a ela, pela derrubada da Presidenta Dilma, legitimamente eleita, e pela destruição do Partido dos Trabalhadores e de Lula, seu líder maior, não é de agora.

    Por mais que o PT tenha feito concessões, sempre foi tratado como um penetra na política brasileira desde quando nasceu no final dos anos 1970.

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    Os conservadores não o perdoam por ter sido capaz de organizar a base da pirâmide social, dar-lhe voz, ação aos trabalhadores, aos marginalizados da sociedade, reivindicar seus direitos e eleger Lula e Dilma para fazer um governo democrático e popular.

    Assim como nunca perdoaram Getúlio Vargas, por ele ter instituído o contrato de trabalho (CLT), e outros direitos sociais.

    Queiram ou não, aos trancos e barrancos, o PT garante um governo que aprofunda a cidadania, cria condições para libertação da população oprimida do domínio de aristocratas, exploradores e opressores de todo tipo.

    Reduziu a desigualdade em tempo recorde, como reconheceu a ONU, que retirou o Brasil do Mapa da Fome, e promove a inclusão social com acesso aos serviços públicos.

    Sem desconsiderar os demais partidos de esquerda, o PT é a maior força organizada da luta democrática do país.

    O país está convivendo com a volta da “velha UDN”. Ela sempre esteve por aí, travestida, clandestina.

    A “velha UDN” dispõe ainda de uma cultura política e ideológica poderosíssima. Durante os governos Lula e Dilma saíram udenistas dos armários como nunca.

    Gente que até participou da luta contra a ditadura, mas parece que não sabia que carregava em si a semente do conservadorismo senhorial.

    Hoje, nos salões, nos cafés, nas redações, jornalistas, tecnocratas, âncoras de TV e de rádio, comentaristas, artistas, pessoas expressivas do velho udenismo, muito bem pagas, fazem a pregação conservadora com um discurso surrado, atrasado, fora do contexto, na defesa cega de ideias derrotadas, sucumbidas na crise internacional.

    Têm microfones e câmeras à disposição para destilar preconceitos generalizados e ódio contra os agora empoderados pela inclusão social, pela participação popular na política, nos movimentos das últimas décadas.

    Gente que defende interesses de organizações empresariais multinacionais, principalmente do sistema financeiro, que não admitem que nenhum país de porte econômico como o Brasil esteja fora da malha e da estratégia de negócios delas.

    O ódio de classe simbolizado no Boneco Lula, vem de raízes profundas. Vem de colonizadores, senhores de terras, minas e engenhos, da escravidão, de feitores, da subordinação pelo chicote.

    Quando os brancos europeus desembarcaram nas praias brasileiras, esfarrapados, desdentados, fedorentos, cheios de escorbuto, sífilis, sedentos por sexo, índios e índias viviam nus, em perfeita harmonia com mares, rios, florestas, em paz com sua divindade espalhada ao redor.

    Aqui violentaram corpos e espíritos. Trataram de arrancar as crenças pagãs dos índios e substituí-las pelo deus único.

    Instalou neles a dominação pelo pecado e pela culpa. Foram ocupando as terras, corrompendo os gentios com badulaques, exterminando nações inteiras.

    Tentaram submetê-los ao trabalho à base do chicote. Como não conseguiram, partiram para a África e escravizaram os negros. A história da escravidão é por demais conhecida. O sangue correu por campos e florestas.

    As marcas da barbárie continuam vivas na pele e na alma dos remanescentes da escravidão e das nações dos indígenas.

    Tristes trópicos, dominados por uma elite branca rancorosa, que sequer admite a cidadania do povo.

    De mentalidade ainda colonial, continua desenraizada, com os olhos voltados para além do Atlântico e para o hemisfério norte.

    Queiram ou não, Lula é o líder maior dos trabalhadores, dos deserdados, dos humilhados, dos ofendidos, e de todos os estratos marginalizados da sociedade.

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    Por incrível que pareça, enquanto aqui os conservadores rangem os dentes com ódio a Lula, lá fora ele é reconhecido como um dos maiores líderes mundiais.

    É também o brasileiro com o maior número de títulos de Doutor Honoris Causa concedido pelas mais importantes universidades do mundo.

    Creio que ficaria bem um Boneco Lula com toga e beca de acadêmico  e todos os títulos debaixo do braço.

  • “A vida não é filme, você não entendeu”

     

     

     

    O calor e a seca do início de setembro em Brasília torra tudo. Árvores peladas, muitas delas, por incrível que pareça, com belas flores nas pontas dos galhos.

     

    Pessoas, como répteis serpenteando caminhos poeirentos nos gramados pardos da Esplanada dos Ministérios.

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    Na cabine do avião (Congresso, Planalto e STF), traçada no Plano Piloto da cidade por Niemeyer e Lúcio Costa, altas temperaturas políticas e fortes turbulências.

     

    No Legislativo, os presidentes da Câmara e do Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros ardendo no mármore quente dos escândalos de corrupção, reagem desacatando órgãos de fiscalização e controle, chantageando o governo, submetendo-o a seus desígnios.

    Na Câmara dos Deputados, o major e deputado José Augusto Rosa presidiu uma sessão da tarde, trajando seu uniforme cinza da polícia militar do Estado de São Paulo, carregado de penduricalhos dourados nas ombreiras, no colarinho, lapelas e punhos, nos cordões brancos e medalhas..

     

    Acomodado na cadeira da presidência da Casa, estufou o peito, franziu o cenho e concedeu a palavra, em tom de comando, ao deputado, também policial militar e evangélico para fazer seu discurso.

     

    Na tribuna, com sua pança proeminente roçando o púlpito, e lendo o discurso com dificuldade, o deputado, em altos brados, exaltava a “bravura” dos vereadores conservadores de São Paulo, liderados pelo vereador Eduardo Tuma (PSDB), e de vários municípios do Estado, por não terem permitido constar na lei dos Planos Municipais de Educação, o que ele chama de “ideologia de gênero”.

     

    Ele comemorava a censura, o impedimento a professores de abordar em sala de aula a questão de gênero. Ou seja, o deputado defendia o que poderia ser denominado, também, “ideologia homofóbica”, muito bem difundida por Jair Bolsonaro.

     

    O capitão e deputado é conhecido pelos seus arroubos nazifascistas e por seus correligionários, agora no recém fundado Partido Militar Brasileiro (PMB), o primeiro partido de direita assumido publicamente, cujo número, segundo o deputado major José Augusto Rosa, está para ser escolhido.

     

    Pode ser, segundo ele, 38 ou 64, em homenagem, respectivamente, ao revólver, famoso “trezoitão”, e ao golpe militar de 1964.

     

    A cada repetição da expressão “ideologia de gênero”, pronunciada pelo policial deputado, na tribuna, o presidente da sessão, do alto de sua patente e de sua ideologia, ostentando o uniforme militar, se mexia e se acomodava na cadeira do presidente da Câmara, balançando seus penduricalhos dourados.

     

    Deputado Major Deputado Augusto Rosa

    A cena, naquela sessão da tarde, estampava um retrato fiel da decadência do Congresso Nacional: as bancadas da bala e da bíblia fundidas na forja medieval.

     

    Essas bancadas, junto com a ruralista e do business, estão roendo a Constituição como ratos, subtraindo conquistas dos trabalhadores, direitos sociais, avanços e garantias da cidadania conquistados no final da maior jornada democrática do Brasil, que botou por terra 21 anos de ditadura torturadora, subordinada aos Estados Unidos.

     

    Além da roeção de direitos sociais e da aprovação da “reforma política”, patrocinada pelo deputado Eduardo Cunha, que constitucionaliza o financiamento das campanhas eleitorais por empresas privadas, e da aprovação da redução da maioridade penal, essa gente quer muito mais.

     

    Entre muitas outras propostas, quer aprovar uma Emenda Constitucional que concede às associações religiosas a capacidade de propor Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) ao Supremo Tribunal Federal. Uma ofensiva inadmissível das religiões sobre o Estado laico.

     

    Quer instituir o estatuto da família, retroceder ao patriarcalismo primitivo, proibir a união civil de pessoas do mesmo sexo.

     

    Quer mudar o estatuto do desarmamento, para permitir que todas as

    pessoas possam ter uma arma, como apregoa membros da Comissão Especial. Há suspeitas de que essa mudança no estatuto visa ampliar os negócios das empresas fabricantes de armas.

     

    Quer a chamada “PEC da morte”, que acaba de vez com a demarcação de terras indígenas e estabelece o predomínio de fazendeiros, mineradoras e outras atividades, na exploração de terras.

     

    Na mesma linha de retrocesso, o deputado Cabo Daciolo, eleito pelo PSOL/RJ, mas expulso do partido, apresentou uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que retira do Preâmbulo da Constituição a expressão “O poder emana do povo” e coloca no lugar “O poder emana de Deus”.

     

    Os roedores da Constituição intensificaram a ofensiva. A Câmara tem hoje instaladas 43 Comissões Especiais para discutir e votar mudanças da Constituição e em leis especiais. Das 47 comissões, 17 são exclusivamente para mudar a Constituição.

     

    Daquela mesma cadeira ocupada pelo major e deputado José Augusto Rosa, que presidiu a sessão da Câmara trajando seu uniforme militar de penduricalhos dourados, Ulysses Guimarães, como regente de uma orquestra, comandou o Congresso Nacional Constituinte, bancou a construção da “Constituição Cidadã”, como ele bem a denominou, por estarem inscritas nela garantias fundamentais da cidadania e uma das institucionalidades mais modernas do mundo.

     

    Uma Constituição que, apesar de ter deixado a desejar na questão da terra, da função da propriedade, na definição de empresa nacional e outras questões, garantiu avanços extraordinários da democracia, eleições livres em todos os níveis, participação popular no destino político do país, provimento dos serviços públicos, promoção da igualdade de direitos de todas as categorias, dos direitos humanos na sua plenitude, direito à educação, à saúde, meio ambiente, o direito à segurança alimentar, que o ex-presidente Lula fez valer com o Bolsa Família, tirou cerca de 40 milhões de pessoas da pobreza extrema e o Brasil do Mapa da Fome, da ONU, entre muitos outros avanços que a sociedade brasileira não pode permitir que sejam suprimidos.

     

    Daquela mesma cadeira da presidência da Câmara, Ulysses Guimarães fez um dos mais brilhantes discursos, no dia da promulgação da Constituição.

     

    Num dos trechos, disse (clique aqui):

    “Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.

     

    Quando após tantos anos de lutas e sacrifícios promulgamos o Estatuto do Homem da Liberdade e da Democracia bradamos por imposição de sua honra.

     

    Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.

    A Constituição garante uma estrutura institucional moderna, mas o país vive uma situação dramática de déficit de cidadania. Faltam autoridades à altura das instituições. O sistema de representação política está esgotado e os concursos público não selecionam servidores cidadãos, que tenham conhecimentos além do enciclopédico.

     

    Os governos não proveram a educação de qualidade. A educação privada ainda é a mais valorizada, por adestrar crianças e jovens para o mercado de trabalho – não existe a preocupação com formar cidadãos. No vácuo das deficiências da educação, cresceram as igrejas, o conservadorismo, o fundamentalismo, a violência, a ameaça ao Estado laico e à democracia.

     

    No período anterior ao golpe militar de 1964, o Brasil vivia um momento de florescimento da cultura, da escola pública, da produção acadêmica, da política, com grandes manifestações, festivais universitários, a bossa nova, ouvia-se os primeiros acordes dissonantes do movimento tropicalista, da música de protesto, pulsava o teatro do absurdo, a invasão das telas pelo cinema novo, ou seja, o País vivia um momento extraordinário de liberdade, de criatividade, com a arte pulsando em toda parte, no qual a escola pública teve função determinante.

     

    A escola pública era a melhor, era cidadã.   Quem fez os movimentos dos anos 1950 e 1960 foi à escola pública.

     

    A reação dos conservadores veio como uma onda medieval, formada nas igrejas, tomou as ruas da capital paulista na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, se espraiou por todo país levando violência, censura, prisões, torturas e mortes aos quatro cantos do país.

     

    A presidenta Dilma foi vítima dessa onda de violência, que tenta se formar novamente. Mas o Brasil não vai permitir que prevaleça o retrocesso.

     

    A vida não é filme, você não entendeu

    (Paralamas do Sucesso)

  • A crise avança sobre as fronteiras

     

    A crise avança sobre as fronteiras

     

    Imigrantes

     

    No mar Mediterrâneo, embarcações superlotadas, naufrágios já vitimaram mais de 2.500 pessoas. Na Áustria, 71 corpos de pessoas mortas por asfixia, encontrados num caminhão.

     

    Essas e tantas outras cenas dramáticas de migrantes desesperados tentando atravessar fronteiras para alcançar outros países onde possam trabalhar, viver em melhores condições, se misturam ao turbilhão de notícias que desaparecem todos os dias no túnel do tempo.

     

    Cenas que apesar de tão chocantes, parecem ainda insuficientes para sensibilizar governantes, organismos internacionais, sobre a dimensão da crise.

     

    O grande fluxo migratório que se desloca de regiões mais pobres para outras mais ricas está mostrando ao mundo que a crise econômica, social e política atingiu níveis ainda desconhecidos de grande parte do mundo.

     

    Ao mesmo tempo, governantes e organismos internacionais revelam certa apatia, permanecendo indiferentes em relação à tragédia social.

     

    A ONU não assume suas funções e a União Europeia parece tratar do problema apenas como algo passageiro.

     

    Desde o começo do ano, a Europa recebeu mais de 340 mil imigrantes, sendo 100 mil em julho. Somente a Alemanha deve receber mais de 800 mil pedidos de asilo neste ano. No Reino Unido, apenas quatro em cada 10 imigrantes têm emprego.

     

    O assunto tem sido tratado predominantemente na cobertura das grandes agências de notícia ocidentais, e, pela imprensa brasileira, como fenômeno social decorrente das guerras nos países de origem, como se as guerras fossem conflitos deslocados da crise mundial.

     

    Não consideram o fato de os intensos efeitos da crise econômica internacional, originada nos Estados Unidos, em 2007, terem chegado a muitos países periféricos, recentemente. Assim como aconteceu com a China, tardiamente.

     

    São omissos, não dizem que a cada ciclo da crise do capitalismo ampliam a tragédia social, os conflitos, intensificam migrações, formam cidades com amontoados de pessoas vivendo em condições desumanas a disputar as migalhas dos grandes centros abastados, dos bem nascidos.

     

    Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, entre 1970 e 2007, o mundo sofreu 127 crises bancárias sistêmicas, 208 crises cambiais e 63 episódios de não pagamento de dívida soberana.

     

    Esses indicadores representam três crises bancárias, cinco crises cambiais e aproximadamente dois eventos de não pagamento de dívida soberana por ano.

     

    As nações centrais vivem a era das bolhas, o mais novo veneno produzido pela financeirização da economia. As bolhas da chamada “nova economia” ou “ponto com”, nos anos 90, e a mais recente, a “bolha imobiliária”, nos Estados Unidos, em 2007, levam à ruína economias de importantes nações em todo o mundo, com repercussão avassaladora sobre nações periféricas, a maioria dependente de financiamento externo e do comércio internacional.

     

    Vimos desmoronar nesta crise sólidas instituições financeiras e grandes empresas industriais nos Estados Unidos.

     

    Vimos o governo daquele país injetar na economia trilhões de dólares dos cidadãos contribuintes norte-americanos, na tentativa de salvar grades bancos e grandes empresas.

     

    Praticamente todas as grandes empresas e grandes bancos estão salvos, mas a população continua sofrendo com o desemprego crescente e com a estagnação econômica, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

     

    O governo Obama injetou, no auge da crise, cerca de US$ 600 bilhões no sistema financeiro, mediante compra mensal de títulos públicos.

     

    O problema do setor imobiliário nos Estados Unidos persiste, porque a especulação atingiu níveis estratosféricos e o endividamento das famílias ainda não foi resolvido.

     

    A crise levou de roldão países da União Europeia. Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália, mais afetados, vivem submetidos a drásticos regimes fiscais e a cortes de investimentos, sem perspectiva, a curto e médio prazo, de retomada do crescimento.

     

    A Grécia é o país mais impactado da União Europeia, tanto pela crise global quanto pela migração. No entanto, a Alemanha, que lidera os países de economia mais forte no continente, se recusa negociar um plano de retirada da Grécia da crise, que não seja apenas para salvar o capital, e que não sacrifique mais ainda o povo grego.

     

    A dívida pública dos países ricos ainda está em nível sustentável, mas o endividamento aponta para um período de médio e longo prazo de crescimento a taxas pífias e altas taxas de desemprego.

     

    Governos e organismos internacionais pouco avançaram na tomada de medidas capazes de deter os danos que a crise cambial está causando às economias em todo o mundo. Não há convergência no debate.

     

    São fortes as resistências, principalmente por parte das nações centrais, de adotar medidas que beneficiem o conjunto da economia global.

     

    Preferem se autoproteger, para não contrariar os princípios da globalização financeira idealizada por grandes grupos financeiros internacionais. Sequer avançaram no controle da volatilidade do capital.

     

    A crise global do capitalismo se agrava e com ela os conflitos, as guerras, as tragédias econômicas, sociais, e, evidentemente, o desterro de imensos grupos de famílias de seus países de origem.

     

    O drama das nações periféricas está estampado. O melhor seria, evidentemente, que as populações pudessem viver em paz, trabalhando dignamente em seus países. Mas, assim como essas nações receberam levas de imigrantes nos períodos das guerras, principalmente na Segunda Guerra, o que se espera é que as nações centrais também recebam decentemente os imigrantes, não os rejeite de forma xenófoba.

     

    Os ajudem a superarem os danos da crise nas nações de economia mais fragilizadas, causados pela especulação financeira global, e tomem providências para que a solidariedade possa vencer a barbárie.

     

  • Petróleo e mar de lama

    1. 1-1Na Era Vargas, as “três irmãs” Texaco, Shell e Esso, que vendiam gasolina e óleo diesel para o Brasil diziam que no Brasil não havia petróleo.

      Elas praticamente bancavam a imprensa da época com os mais gordos anúncios. E a imprensa repetia o que elas diziam à exaustão.

      O melhor exemplo disso é o Repórter Esso, da Rádio Globo, uma espécie de porta-voz da velha UDN, que foi ao ar pela primeira vez em 28 de agosto de 1941, para atacar Getúlio Vargas e seu governo.

      O prefixo do programa, por incrível que pareça, era: “um serviço público da Esso Brasileira de Petróleo”.

      Eis a última transmissão do famoso Repórter Esso, em 1968, no governo do ditador general Costa e Silva: https://youtu.be/cIgSWgWH2kg

      Ao criar a Petrobras, Vargas desafiou o conluio das petroleiras com a imprensa golpista. O ódio da imprensa veio imediatamente destilado em manchetes garrafais contra ele.

      Entre os inúmeros ataques, o jornal O Estado de São Paulo guarda em seus arquivos um memorável editorial, radicalmente contrário à criação da Petrobras. Uma pérola da imprensa golpista.

      Vargas, homem sóbrio e de moral rígida, que nunca ostentou riqueza, foi atacado dia e noite, sem trégua, com acusações de corrupção.

      O governo dele foi rotulado de “mar de lama” pelos jornais e rádios da época. Virou chacota nos bares de esquina.

      Se quiser conferir vá ao Centro de Documentação e Informação da Câmara, ou a outros arquivos, e peça para ler os jornais da época. Vale a pena, para ver a semelhança com o que estão fazendo com Dilma e Lula.

      Acuado pelos ataques da UDN, de seu líder maior, Carlos Lacerda, da imprensa golpista que servia a ela, arrasado moralmente pelo massacre de notícias levianas, Vargas se matou. Mas, certamente para alertar as gerações futuras, como as de hoje, deixou registrado na carta-testamento: “Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.”

      Hoje assistimos no Brasil a uma disputa gigantesca na área do petróleo. O Brasil está ameaçado na geopolítica do petróleo.

      Foi no governo Lula que se revelaram as informações sobre as imensa jazidas de petróleo do pré-sal e foi feita a Lei que coloca a Petrobras no controle da produção.

      Outra Lei, sancionada por Dilma, destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Esse montante de recursos vai se somar às demais fontes para complementar o percentual de investimentos, de 10% do PIB na educação, previsto na lei que instituiu o Plano Nacional de Educação, em 2014.

      No governo Fernando Henrique, tentou-se privatizar a Petrobras com pré-sal e tudo mais. O sindicato dos trabalhadores da empresa conseguiu barrar a sanha privatista com um movimento contrário fortíssimo.

      Note que o conluio petroleiras e imprensa parece estar de volta com a ladainha de que tem que revogar a Lei que estabelece o controle da produção de petróleo pela Petrobras.

      O Senador José Serra já apresentou o projeto de lei no Senado para revogar a Lei de Dilma. Na cara dura.

      Aécio Neves e seus aliados estão chamando o povo para a rua. Eles querem o golpe. Mas um golpe cirúrgico, parlamentar ou judicial. Um golpe “paraguaio”. A conspiração está em curso.

      Eles não querem saber de militares. Militares, para eles, são coisa velha. Militares são nacionalistas. Com eles não dá. Como vender a estatal símbolo do nacionalismo brasileiro, uma estatal conquistada com o grande movimento “O Petróleo é Nosso”, liderado pela União Nacional dos Estudantes e sindicatos de várias categorias profissionais e muitas outras entidades civis?

      Eles têm Globo, Folha, Correio Braziliense, Estadão, Veja, Época, Istoé, as TVs, sites e rádios sobretudo o Facebook, para conduzir a massa.

      A manada está indo tão bem para o que eles querem, para que militares?

      As petroleiras internacionais, penhoradamente, agradecem o serviço que certos políticos estão fazendo.

  • É preciso dar um basta na corrupção no jornalismo

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    A categoria de jornalista devia se mobilizar num movimento pela ética no jornalismo.Isso por que a corrupção no jornalismo ganhou proporções inimagináveis. É chegada a hora de dar um basta nisso!Grosseiramente, convencionou-se que corrupção é roubar dinheiro público. Estão restringindo o significado da palavra a isso. Mas é muito mais que isso.

    A denúncia falsa, a mentira, a deturpação, a adulteração, a manipulação, da informação, é um ato de corrupção, tão pernicioso quanto afanar dinheiro do povo.

    Se for uma imposição dos patrões das corporações de comunicação, que exploram as concessões de serviço público, aos profissionais, que sejam denunciados nas instâncias devidas, que o Estado dê respaldo aos profissionais para o exercício digno de suas funções.

    O que não pode continuar é a formação de impérios empresariais como as Organizações Globo, grupo Abril, Folha, Estado, e outros, por exemplo, que fazem o que querem, muitas vezes acima da lei, impunemente. As concessões de TV e rádio são um serviço público da sociedade com finalidade definida na Constituição. Precisa ser disciplinado, sim.

    É o que diz o artigo 221 da Constituição, que não foi regulamentado por nenhum governo. Tornou-se um tabu falar em regulamentação dos dispositivos constitucionais.

    Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
    I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;
    II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;
    III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;
    IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.

    Por que o Ministério Público não investiga as empresas de comunicação para verificar se elas estão cumprindo o que determina a Constituição?

    Um médico, no caso de um erro, pode acabar com a vida de uma pessoa. Imediatamente pode ser processado e, se condenado, o médico perde o registro profissional.

    Um jornalista, ou o órgão de imprensa onde trabalha, pode acabar com a vida de alguém, fazendo da pessoa uma morta viva a carregar a chaga de uma informação falsa sobre ela, como uma cruz, num calvário vida afora.

    E tudo bem? Fica por isso mesmo? O jornalista continua trabalhando e aprontando inconsequentemente e a empresa onde trabalha tendo picos de audiência ou vendendo suas publicações com recordes de tiragens?

    O profissional devia sofrer restrições por falta de ética ou inabilidade no exercício da sua função social, como qualquer outro profissional de qualquer categoria. Deveriam ser cassados o direito de exercer sua profissão e a concessão da oferta do serviço do órgão de imprensa em que trabalha.

    Isso porque a profissão e os meios de comunicação são um dos mais importantes instrumentos para o desenvolvimento da sociedade, para a democracia, para a cidadania, para a civilização humana. Tão importantes quanto a escola é para a educação e a construção da nação.

    Para citar apenas um caso recente, entre tantos, a revista Veja acusou o Senador Romário de ter R$ 7,5 milhões num banco, na Suíça, uma informação falsa da revista, dada como de costume com imenso estardalhaço.

    Romário fez questão de ir à Suíça checar a informação e, de lá, desmentiu, solenemente, os repórteres Thiago Prado e Leslie Leitão, que assinaram a matéria e toda a equipe da revista, responsáveis pela publicação: o diretor de redação Eurípedes Alcântara, os redatores-chefes Lauro Jardim, Fábio Altman, Policarpo Junior e Thaís Oyama.

    Postou fotos dos perfis dos repórteres no Facebook e os internautas fizeram o maior furdunço, dispararam críticas e perguntas a eles, ao ponto de retirarem os perfis do Facebook. Mas isso só não basta.

    Sem falar no ex-presidente Lula, que se tornou o preferido na perseguição implacável dos impérios de comunicação, com objetivo claro de barrá-lo na disputa pela presidência da República em 2018. As capas das revistas de final de semana, Veja, Época, Istoé, jornais, telejornais, são de uma estupidez inimaginável. Ele está processando, mas depende do Judiciário reconhecer essa venalidade.

    Está demais. O que pseudorepórteres de polícia, desses programas de sanguera, tipo Datena e Rezende, Brasil afora, que são os maiores recordistas de audiência, estão fazendo com as pessoas, principalmente com os mais pobres, mais vulneráveis, é uma barbárie.

    Nesse vale-tudo pela audiência, pelos acessos aos sites, pelas tiragens de publicações, estão praticando os maiores absurdos com as pessoas, destruindo vidas.

    Esses pseudoprofissionais não estão à altura da liberdade de imprensa e de expressão que a sociedade lhes assegura com a Constituição e com a legislação em vigor.

    Antes que seja tarde, precisa ser aberto um debate sobre essa questão, e a apresentação de uma proposta de lei, de iniciativa popular, com coleta de assinaturas, que preserve a liberdade de imprensa e de expressão, mas que garanta da mesma forma os direitos humanos, afim de proteger o cidadão da corrupção no jornalismo.

    Sei que estou arriscando criticar a categoria, da qual sou integrante e que costuma ser melindrosa e refratária a críticas.

    Mas, antes que seja tarde demais, proponho lutarmos pelo fim da corrupção no jornalismo!

    Pela ética na imprensa!

    Corromper – Segundo o Dicionário Aurélio, significa ” 1. Deteriorar, decompor. 2. Alterar. 3. Perverter. 4. Induzir a realizar ato(s) contrário(s) ao dever, à ética. P. 5. Apodrecer, adulterar-se, deteriorar-se. 6. Perverter-se.”

  • Narciso à procura da câmera

    “É que Narciso acha feio o que não é espelho”, diz Caetano Veloso, na música Sampa. Hoje, o espelho não é d’água. É eletrônico, é um celular smartphone. Esse é o novo espelho.

    A avidez por se ver na tela de um terminal qualquer, seja da velha TV, seja de um celular, nas redes sociais, pode estar levando pessoas de todas as categorias, sem exceção, a delírios narcísicos sem precedentes.

    Como se as maquinetas-espelho tivessem potencializando o afloramento de misérias humanas.

    O delírio narcísico, ou de importância, como queira o freguês, parece estar contaminando também, da mesma forma, o mundo das autoridades, como uma peste social.

    Muitos demonstram buscar os postos na hierarquia do serviço público não apenas para exercício cidadão da função pública, mas pelo que o status representa, para eles, na sociedade.

    Exemplo disso são as patéticas cenas protagonizadas cotidianamente por autoridades que trabalham nas investigações dos escândalos de corrupção no Brasil.

    Fruto de nefasto envolvimento entre imprensa oligárquica e órgãos de investigação, agentes públicos, à procura de câmeras, se acotovelam para alcançar posições ao lado do preso, mais visíveis para fotos de revistas e jornais, ou para filmagens das redes de TV.

    Desprovidos de senso de ridículo, policiais trajam roupas de combate, empunham fuzis, como se estivessem indo para uma frente de batalha, quando, na verdade, estão apenas buscando alguém para prestar um simples depoimento.

    Um dos agentes da PF, de feições orientais, tornou-se conhecido frequentador das revistas, dos jornais e dos telejornais.

    Policiais, agentes do Ministério Público, convocam coletivas como se estivessem participando de um espetáculo, de um filme qualquer, desses enlatados dos Estados Unidos.

    Como fez o Procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força tarefa encarregada das investigações da operação “Lava Jato”, ao convocar entrevista coletiva.

    Outro procurador, Carlos Fernando de Santos Lima, diz querer, com o trabalho deles , “Refundar a República”, ou seja, o delírio narcísico e de importância andam pulsantes.

    Pretencioso, o distinto procurador se posiciona acima dos demais poderes, como se, por canetadas, pudesse decretar a “Refundação da República”.

    Admirável o momento pelo qual passa o país ao enfrentar a corrupção com órgãos de fiscalização e controle e recursos humanos, bem estruturados, respaldados pela nova Constituição e por leis, recentemente aprovados pelo Congresso Nacional, como a Lei do Corruptor, sancionada pela Presidenta Dilma, que está possibilitando prender empresários corruptos.

    Mas é deplorável o comportamento de agentes públicos responsáveis por tão importante atribuição, conferida pela sociedade brasileira a esses servidores públicos. Faltam-lhes recato, cidadania.

    Ao não respeitar o que prescrevem as leis e a Constituição, os direitos e garantias fundamentais, arriscam-se a se igualar àqueles que estão investigados. Estes ainda podem, ao fim e ao cabo, serem declarados inocentes. Já as ações – ilícitas – das autoridades não podem ser revertidas.

    Aqui, prende-se, e o preso é quem tem que provar que é inocente. Juristas renomados estão preocupadíssimos com a violação das garantias constitucionais. Segundo eles, o ônus da prova foi invertido deliberadamente, sem nenhum amparo legal.

    Juristas estão apontando erros processuais e de condução das investigações que podem comprometer a “Operação Lava Jato” e se tornar uma “Operação Satiagraha”, arquivada pelo Supremo Tribunal Federal devido a erros crassos na condução dos trabalhos.

    Justamente no momento em que o país está preparado institucionalmente para enfrentar a corrupção, com os instrumentos necessários, autoridades se comportam de tal forma que sabotam a confiança da sociedade nas instituições.

    A sociedade, em pleno estado democrático de direito, não pode se tornar refém de facções políticas encrustadas nos poderes da República.

    Quem não gostaria de ver os malandros, parasitas de recursos públicos, na cadeia? Há quanto tempo se espera por isso?

    Mas, nessa relação entre policiais, procuradores e imprensa oligárquica, com vazamentos seletivos, talvez para prejudicar certa corrente política, pode ser consolidado um perigoso grupo de pessoas “acima da lei”. Isso é tão grave quanto o conluio entre corruptos e corruptores. Investigar sim, tripudiar não.

    A Constituição de 1988, chamada pelo Dr. Ulysses de “Constituição cidadã”, em razão dos avanços na conquista de direitos, pela sociedade brasileira, proporcionou ao Brasil uma institucionalidade avançadíssima, com os três poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário) estruturados por legislações que colocam o país na galeria das nações mais modernas do mundo.

    Porém, a nação está padecendo de um descompasso entre as garantias constitucionais e as autoridades responsáveis pelo cumprimento dos preceitos constitucionais e das leis estabelecidas pelos representantes do povo.

    As autoridades, guardadas as devidas exceções, estão aquém, muito aquém das instituições constituídas. Faltam cidadania, espírito público republicano, democrático, sobram despreparo, autoritarismo, prepotência e arrogância.

    O Ministério Público e a Polícia Federal conquistaram autonomia, conseguiram recursos, equipamentos, fizeram concursos públicos, dispõem de sistemas de inteligência e de apoio de última geração para o exercício das suas funções, mas, pelo que têm demonstrado, parecem aquém da autonomia garantida às respectivas instituições.

    Uma insuficiência, quem sabe, ancestral. O Estado brasileiro ainda está impregnado da cultura monárquica. A transição do Império para a República foi mais uma conciliação pelo alto, como dizia o mestre Florestan Fernandes.

    Autoridades ainda se comportam como semideuses, como membros da corte, a serviço de El Rei, muitas vezes acima das instituições e das leis.

    Servidores públicos, guardadas as devidas exceções, não costumam demonstrar que são servidores da sociedade, mas, uma casta privilegiada, detentora de estabilidade no trabalho e outras regalias. Entre os mais graduados, muitos se posicionam como aristocratas, descolados da sociedade, defensores do stablishment a qualquer custo.

    Os concursos públicos precisam ser mudados, para deixarem de ser uma mera averiguação de conhecimentos da educação enciclopédica. A burocracia do Estado precisa de servidores cidadãos.

    Governantes, parlamentares, juízes, procuradores, policiais, militares, servidores públicos, de forma geral, não costumam considerar-se prestadores de serviço público à sociedade, cada um com sua função pública. Seja serviço executivo, legislativo ou judiciário.

    Muitos serviços são controlados por agências autárquicas, como é o caso do fornecimento de energia, telefonia, defesa do consumidor, enfim. Por que o serviço público ainda não tem uma agência de controle, como os demais serviços?

    O Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, para não pairarem acima das leis e observarem com mais rigor a autonomia conferida pelos marcos legais, deveriam ter um controle externo.

    Em nações de democracia avançada como os Estados Unidos, juízes são eleitos diretamente pelo voto. Aqui, juízes e procuradores são selecionados por concurso público, tornam-se burocratas do Estado.

    Sem dispensar o poder fiscalizador do Congresso, que é o mais soberano dos poderes da República, por ter vínculos com a sociedade pelo voto direto, deveria ser constituído um órgão de controle externo do judiciário e dos órgãos auxiliares, com candidatos representantes da sociedade civil, eleitos por voto direto, de quatro em quatro anos, junto com a eleição presidencial.

    Essa proposta é defendida por um movimento nacional de grandes juristas, defensores da democratização do Judiciário.

    O descompasso entre autoridades e instituições pode estar relacionado com o fato de que a elite brasileira não se enraizou no país. Tem os olhos ainda voltados para além do Atlântico e para o hemisfério norte.

    Isso talvez explique o fato de termos sido o último país da América Latina a abolir a escravidão; de sermos um dos últimos a criar a primeira universidade; de termos uma educação, por séculos, dominada pela igreja católica, que ainda adestra crianças e jovens para o mercado de trabalho e não forma cidadãos; de termos um Estado aristocrático, de vícios monárquicos; e um judiciário e Ministério Público burocráticos, discrepante da moderna institucionalidade do país.

    Sem cidadania, não há democracia, não há República, não há Federação. Falta compromisso com a construção da Nação. Aqui ainda reina a mentalidade dos brancos europeus. Nossa independência ainda é uma pendência.

  • Assédio moral: uma peste social

    Quem não conhece a exploração, o tratamento degradante e desumano de patrões e chefes nas relações de trabalho? Nas relações entre marido e mulher, entre pais e filhos?

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    Quem não sabe de pessoas destruídas psicologicamente pela violência no trabalho? Muitas vezes se deprimem, chegam ao suicídio.

    Pessoas que no dia a dia, no vai e vem da casa para o trabalho, do trabalho para casa, vivem tomadas por sofrimento pesaroso, provocado por açoites verbais, humilhações e desqualificações de “feitores” travestidos de coordenadores.

    Quem ainda não viu aquela secretária, aquela assessora, aos prantos nos banheiros dos lugares onde trabalham por terem sido ofendidas, agredidas verbalmente, zombadas, por “seu superior”.

    Ninguém tem o direito de faltar com o respeito, humilhar, gritar com quem quer que seja no ambiente de trabalho, usando a posição de chefe ou patrão.

    A violência nas relações de trabalho não é algo novo, é latente, faz parte da formação cultural da sociedade brasileira.

    A violência do colonizador branco deixou marcas na pele e na alma de negros, indígenas e de seus descendentes. Os campos conhecem o sangue o suor e as lágrimas deles em razão dos maus tratos dos feitores e patrões.

    Na história recente, as relações de trabalho no Brasil ganharam novos ares com a industrialização e as técnicas gerenciais.

    A ideologia fordista do trabalho e a administração científica do taylorismo e outras, nos tempos modernos, vestiram como uma luva a herança da escravidão brasileira.

    Não se açoita mais escravos nos pelourinhos, açoita-se a alma de trabalhadores, com requinte de crueldade, atitudes manipuladoras, nova gramática, palavras cortantes, destruidoras da psique, para mais submissão, mais domínio, mais servidão, mais exploração.

    No Brasil, é possível que a violência no trabalho seja mais cruel devido a fatores culturais, e ao mesmo tempo aceita, sem os devidos questionamentos, como algo inerente à ordem.

    Nem os sindicatos falam mais na violência patronal, parece coisa do passado remoto. Parece que está tudo bem.

    De certa forma tornou-se um tabu. Fala-se na violência policial, na violência contra a mulher, contra os homoafetivos, contra os afrodescendentes, contra jovens e adolescentes, contra os indígenas, mas não se fala na violência de patrões e chefes com a mesma consideração.

    Essa cultura está viva. As vítimas da violência de patrões e chefes estão em situação igual à das vítimas da violência sexual, racial, de gênero, e homofóbica.

    Vivem imersas na bruma do “pacto de silêncio”, oprimidas, fragilizadas pela condição de necessidade, de dependência do trabalho como fonte de subsistência própria ou da família.

    Curiosamente, a violência nas relações de trabalho não é algo apenas do mundo patronal ou gerencial, avançou por outros setores da sociedade.

    Contraditoriamente, dirigentes de instituições populares que trabalham com afirmação da cidadania, da democracia no país, pessoas responsáveis pela pedagogia libertária, por incrível que pareça, também reproduzem violência hierárquica, patronal.

    São cada vez mais frequentes relatos de casos graves no ambiente de trabalho de organizações partidárias, sindicais, de movimentos populares.

    Muitos dirigentes, de microfones em punho, nos ambientes públicos, fazem discursos inflamados na defesa dos direitos humanos, contra o autoritarismo, a opressão e a exploração dos trabalhadores, pela igualdade e fraternidade. No entanto, nos ambientes privados, muitos são algozes, verdadeiros tiranos com assessores, auxiliares, e com a própria família. E isso se transformou também em tabu. Como se fosse proibido falar que nesses setores se reproduz os mesmos mecanismos opressores em estruturas orgânicas.

    Dirigentes referem-se ao educador Paulo Freire, em discursos, como o mais importante educador da pedagogia libertária, mas muitos deles são contraditórios nas relações de trabalho e familiar.

    Quando isso ocorre, podem reproduzir com mais crueldade ainda a opressão sofrida na sociedade. O mestre Paulo Freire chamava isso de “opressão do oprimido”.

    Ou seja, o sujeito vive um estado de esquizofrenia. Aprendeu uma gramática política, ostenta publicamente falsa generosidade, alimenta com discurso seu delírio narcísico, seu próprio orgulho, sua vaidade, sem se dar conta da contradição. Porém, se o sujeito tem consciência disso e mantém a perversidade, não passa de um manipulador barato.

    Um falso humanista que inventou um personagem para viver, com discurso e performances prontas, completamente descoladas da própria personalidade, um lobo em pele de cordeiro.

    O compositor Cazuza mandou um recado a esses autoritários contraditórios em uma de suas músicas: “Sua piscina está cheia de ratos, suas ideias não correspondem aos fatos”.

    O crescimento da violência nas relações de trabalho atinge os próprios setores responsáveis por combatê-la. Instituições educacionais convencionais e entidades populares como sindicatos, partidos políticos e outras organizações do movimento social que promovem, de forma alternativa, a cidadania e a democracia, e lutam por direitos, com pedagogia libertária, precisam olhar para si mesmos, observar a coerência e a conduta ética na construção da sociedade de direitos humanos.

    Isso demonstra que o Brasil está longe de superar a cultura monárquica e escravocrata. Na vida pública, salvo raras exceções, parlamentares, juízes, governantes, e outras autoridades, desprovidas de sentimento de igualdade, ostentam ares monárquicos, se comportam como semideuses, membros da corte. No setor empresarial, o patronato, da mesma forma, ainda age como colonizador, que veio para explorar, no país, recursos naturais e pessoas.

    O sistema hierárquico costuma seguir a ordem monárquica, aristocrática, não a republicana e democrática.

    A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (2000), criou o conceito “assédio moral” para definir a violência nas relações de trabalho, caracterizada como sendo qualquer conduta abusiva, configurada por gestos, palavras, comportamentos e atitudes que fogem do que é comumente aceito pela sociedade.

    Segundo a autora, essa conduta abusiva, atenta contra a personalidade, a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa e não ocorrem apenas na relação vertical patrão e empregado, mas entre os próprios trabalhadores.

    Os exemplos da violência no trabalho são muitos:

    “Eu levo esse pessoal no chicote!” Ouvi isso de uma coordenadora de assessoria de imprensa de importante órgão estatal, referindo-se ao modo como ela coordenava a equipe de jornalistas sob sua responsabilidade.

    Vi, na Câmara dos Deputados, um ex-deputado federal humilhar publicamente um assessor que queria falar-lhe algo urgente, simplesmente porque não admitiu ser interrompido na roda de conversas sobre amenidades, com seus iguais.

    O deputado enxotou o rapaz de forma tão violenta que nem a um cachorro, nos dias de hoje, se admite tal tratamento. Constrangido, o assessor, ao sair, relatou a pessoas que assistiram a cena, outros casos absurdos de violência verbal e tratamento degradante que a equipe vinha sofrendo no gabinete do parlamentar. Nenhuma das vítimas denunciou a violência sofrida, por medo de perseguição.

    Os autoritários, que costumeiramente mantém conduta abusiva contra pessoas, inventaram uma caixinha chamada “isso é do humano” onde depositam suas agressões. Uma forma, talvez, de justificar para si próprio e para o outro seu autoritarismo. E onde são depositadas as atitudes “desumanas”?

    Quem trata o outro de forma degradante não respeita diferenças, características pessoais, danos psíquicos ocorridos por toda a vida, que fizeram as pessoas como elas são.

    Aproveita-se, de forma perversa, das fraquezas, das vulnerabilidades das pessoas, para manipular, subjugar, submeter a seus desígnios, à alimentação de suas misérias pessoais, pusilanimidades, obsessões, carreirismos, por que não dizer, para submeter a seus “feitores interiores”, tão perversos e presente na cultura brasileira.

    O trabalho, numa sociedade capitalista colonial como a brasileira, não costuma ser o resultado da convergência de talentos, habilidades e prazer de realização, mas uma necessidade de sobrevivência, que mais parece, de certo modo, uma representação do calvário de Cristo: uma cruz, o trabalhador como mártir a carregá-la, sob açoites verbais e atitudes opressoras, a crucificação, coroação, para no final ganhar o reino dos céus, no final de cada mês. Com direito a Madalenas (para enxugar o suor e as lágrimas no caminho), e torrões de açúcar (elogios manipuladores e prêmios).

    O sistema atinge níveis inimagináveis de aceleração, imposta por novas máquinas e maquinetas (computadores, celulares e afins), que transformam os usuários em verdadeiras peças complementares, processadores de conteúdos, provocando mais alienação, hiperatividade, síndromes de baixa autoestima por não conseguirem manter-se no ritmo das maquinetas, e, consequentemente, sofrimento, depressão, como atesta estudos acadêmicos sobre a cultura urbana.

    Quem não corresponde a esse estado de aceleração e alienação são estigmatizados, segregados, colocados à margem da produção e consumo, como se fossem seres exóticos.

    Para amenizar o sofrimento, igrejas e farmácias crescem de forma assustadora com a oferta de seus sedativos.

    Como se esse sofrimento social não bastasse, as forças empresariais, aristocráticas, investem contra direitos sociais dos trabalhadores já consolidados, como, por exemplo, entre outros, a terceirização do trabalho, a fim de obter mais lucros, mais acumulação de capital. Com isso, mais opressão, mais exploração e violência no trabalho.

    Um dos maiores problemas para conter a escalada da violência no trabalho é a falta de legislação específica, que possa tipificar o crime. Existem vários projetos de lei no Congresso Nacional nesse sentido, mas são barrados pelos lobbies empresariais, que impedem a aprovação.

    A Convenção nº 155/1981, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, prevê, no âmbito da saúde, o bem estar físico e mental, como direito, no ambiente do trabalho, mas não se consegue avançar na aprovação de leis no Congresso.

    Enquanto a legislação não vem, o governo devia promover campanhas nos meios de comunicação focando a violência no trabalho, pelo menos como problema de saúde pública e afirmação da cidadania, para amenizar o sofrimento de imensa parcela da população trabalhadora.

    A Secretaria de Direitos Humanos, da Presidência da República, em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, editou uma cartilha voltada para a contenção da violência gerencial no serviço público, mas ainda é muito pouco.

    No mesmo sentido, poderiam ser criadas delegacias especializadas para acolher vítimas da violência patronal e gerencial, que vivem a situação de “pacto de silêncio”, assim como as delegacias de proteção à mulher, de proteção à criança e ao adolescente, contra a discriminação racial e a homoafetiva, enfim, esse problema ganha proporções inimagináveis como uma das raízes da violência social generalizada e precisa ser enfrentado.

    A pressão e a violência no trabalho, evidentemente, estouram nos lares. As crianças são as vítimas mais atingidas. E assim se prolifera a peste moral na sociedade.

  • Ver para crer

    Na semana passada o plenário da Câmara foi transformado num templo pseudoreligioso pelas bancadas evangélica e da bala, numa manifestação fundamentalista de parlamentares com faixas e cartazes, orações e xingamentos do mais baixo calão, contra os homoafetivos que realizaram a tradicional parada gay em São Paulo.

    Surpreendentemente, o jornal Folha de S. Paulo estampou recentemente editorial violento contra o que considera “intimidação ideológica”, liderada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

    Eduardo Cunha anda em maus lençóis no Ministério Público, com as delações premiadas e com as investigações, que podem tirá-lo da Câmara e da disputa pela Presidência da República, ambicionada por ele. Esse rompimento com Eduardo Cunha é sintomático, os dias dele podem estar contados.

    Na mesma linha, o jornal também publica entrevista da procuradora Deborah Duprat, que entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas e o uso de símbolos religiosos e realizações de cultos e outras manifestações em espaços públicos do Estado. O STF vai marcar o dia do julgamento para os próximos dias.

    Uma demonstração de compromisso com a laicidade do Estado num momento de ameaça à democracia e ao estado democrático de direito, que merece ser comemorado com alvíssaras.

    Porém não se pode esquecer que, em janeiro deste ano, a Folha incensou, ungiu o deputado Eduardo Cunha para derrotar o deputado Arlindo Chinaglia, do PT/SP, na campanha pela Presidência da Câmara.

    Naquele momento, no rescaldo das eleições, a onda erguida, sob a liderança de Aécio Neves, era surfar na tentativa de impeachment de Dilma, recém empossada.

    A Folha incensou Aécio Neves, que andou na campanha eleitoral, e ainda anda de braços dados com o atraso organizado – como candidato à Presidência da República e como presidente do PSDB.

    Isto é, os mesmos setores que fizeram manifestação no plenário da Câmara contra a parada gay.

    Aécio Neves, do alto da presidência do PSDB, se aliou com Eduardo Cunha para aprovação da Proposta de Emenda Constitucional que reduz a maioridade penal, orientou a bancada a votar na reforma política proposta por ele, entre outras, que constitucionaliza o financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas.

    Aécio Neves, Eduardo Cunha e Folha de S. Paulo, numa relação simbiótica, apoiaram abertamente as manifestações dos setores mais atrasados e despolitizado do país contra o governo Dilma.

    Agora a Folha dá sinais de rompimento com a turma liderada por Eduardo Cunha, coincidentemente no mesmo momento em que Geraldo Alckmin é lançado candidato à Presidência da República na convenção realizada em São Paulo.

    Interessante o que o jornal Folha de S. Paulo publicou e os sinais emitidos de adoção de nova postura em relação ao obscurantismo sintonizado entre o Congresso Nacional e as ruas.

    Interessante seria se o jornal apoiasse a reação dos setores que sempre lutaram pela democracia, pela afirmação da cidadania e do Estado laico, pela superação do atraso organizado, e pela soberania nacional.

    A soberania nacional, no setor de petróleo e gás, está ameaçada pelo projeto de lei do senador José Serra, que tira da Petrobras o controle da produção, instituído pela lei sancionada pela Presidenta Dilma.

    Interessante seria se a Folha abandonasse a sanha de destruição do PT e reconhecesse o partido como uma das mais importantes instituições políticas construídas no país, que conseguiu organizar a base da pirâmide social, os excluídos, os remanescentes da escravidão, da dizimação das nações indígenas, deu voz e ação na luta pela conquista de direitos, entre outras, e elegeu democraticamente governos que estão transformando o Brasil.

    Reuniões de vários movimentos populares estão acontecendo em todo o país, numa demonstração de forte reação, para discutir estratégias para barrar o retrocesso, conter a ofensiva dos conservadores, que estão tentando, no Congresso Nacional, subtrair direitos da população e a soberania nacional, consagrados na “Constituição cidadã”, assim denominada por Ulysses Guimarães. A Folha vai apoiar os movimentos?

    Mais interessante seria se a Folha tivesse, de verdade, deixado de ser um panfleto partidário, servente de candidaturas, e tivesse decidido se comprometer definitivamente com a defesa do Estado laico, a civilização da sociedade, praticando o jornalismo cidadão.

  • Laurez, a informação está na palma da mão

    A principal tela da informação e do entretenimento não está mais na TV mas no celular. É na palma da mão e não na banca de jornal ou na sala diante do vídeo, que chegam as notícias, a novela, o futebol e a música, via internet. Esta tese é desenvolvida por Laurez Cerqueira, jornalista e escritor, na entrevista da semana a FC Leite Filho, do Café na Política.

  • Retribalização?

    Observando a internet, hoje dá impressão que estamos vivendo algo parecido com uma retribalização de parte da sociedade, uma espécie de estratificação horizontal, diria, com a formação de grupos cada vez mais homogêneos cultivando valores, verdades absolutas, e se retroalimentado delas, em círculos fechados de agregação e segregação.

    A internet, particularmente as redes sociais, está facilitando isso. Veja bem, não se trata de culpar a internet. Ela é “inocente”, apenas um meio democrático e moderno de comunicação.

    Um meio onde predomina a liberdade de expressão quase absoluta, apesar da censura moral, seletiva, das redes sociais, baseada em normas privadas e convenções empresariais próprias, enquanto é permitido, por exemplo, o ativismo de grupos organizados de apologia à discriminação generalizada, à violência, à intolerância, dá espaço a fanatismos de todo tipo e vandalismo com conteúdos assustadores.

    Mas nada disso pode justificar qualquer forma de censura. A internet deve ser livre. O que está em questão são as relações sociais, as organizações e grupos que ganharam força e voz na internet, conseguiram espaço para ações generalizadas.

    A rede é apenas uma praça, que nos permite ver de nossas janelas o que está acontecento e participar, tendo em vista a disponibilidade de informações, o fácil acesso ao conhecimento, o compartilhamento e a comunicação direta entre cidadãos.

    Mas, por incrível que pareça, o que tornou-se bom para a democracia, para a melhoria das condições de vida das pessoas, o acesso ao conhecimento, à diversidade cultural, a civilização, pode estar também proporcionando segmentação, retribalização social, em muitos casos amalgamada com costumes, valores, posturas, já superados pelas sociedades democráticas modernas.

    “Haters” e “trolls”, grupos de verdadeiras bestas do apocalipse, muito próximas das bestas de certos filmes e jogos eletrônicos difundidos em larga escala ganham força nas redes sociais destilando ódio e intolerância.

    É como se algo do medievalismo tivesse escapado, ressurgido das trevas, das brumas do obscurantismo, e estivesse dizendo: “aqui estou!”

    Evidentemente com a ajuda dos impérios de comunicação tradicionais, que não estão nem aí para a cidadania, nem para a civilização, estão preocupados com o que vai lhes render mais dinheiro. Por esse motivo, parece terem predileção pela violência, pelo que há de pior do ser humano.

    Nessa mesma esteira, figuram grupos religiosos, que se tornaram organizações transnacionais, com poder, dinheiro e meios de comunicação, com projeto político e estratégia definida para ocupar os espaços dos partidos politicos, entidades civis e das instituições do Estado.

    O fanatismo religioso, baseado em valores, na sua maioria medievais, é o que mais ameaça a democracia.

    Põe em risco o Estado laico, ameaça as conquistas da agenda de direitos humanos, a ideia de nação cidadã, que sempre se renova diante dos novos desafios da humanidade.

    A eleição do deputado Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara dos Deputados é um exemplo dessa ameaça.

    O atraso organizado cravou uma bandeira no Congresso Nacional, tornou uma ponta de lança de grupos conservadores, fundamentalistas e intolerantes, que nas suas “tribos” criaram um mundo próprio, à margem da cidadania e da construção da nação democrática.

    Segmentos como bancada evangélica, bancada da bala, bancada ruralista e outras, não querem diálogo, estão determinados a impedir a agenda de direitos humanos e subtrair conquistas dos trabalhadores. Isso é fato. Querem, por exemplo, reduzir a maioridade penal, o fim do estatuto do desarmamento, a terceirização da mão de obra entre outras conquistas sociedade brasileira.

    Nada menos do que seis projetos de lei da agenda de direitos humanos, que estavam prontos para votação na Câmara, foram barrados pelo presidente.

    E há movimentação de religiosos no sentido de impor uma pauta ainda maior de projetos de lei de retrocessos, exatamente contrários às conquistas democráticas.

    Na internet, uma grande massa de pessoas vive nas mãos de manipuladores, se alimentam de verdades absolutas criadas e difundidas pelos próprios membros dos grupos, formando uma rede de ódio e intolerância sem precedentes na história.

    Gente de ouvidos moucos, insensata, sem discernimento, desprovidas de espírito democrático.

    São incontáveis grupos de diversos segmentos, de extrema radicalidade: vão de veganos, salvo excessões, que se acham seres especiais – alguns acreditam até na purificação da raça por meio da alimentação, passando por pessoas que querem mudar o mundo montado numa bicicleta – a extrema direita: racistas, homofóbicos, machistas, misógenos, e nazi-fascistas assumidos, declaradamente inimigos da democracia.

    A grande maioria, no seu mundo privado, na sua aldeia eletrônica, numa onda de que a voz da mídia é a voz de Deus.

    Reverter esse quadro é uma tarefa, para as entidades democráticas da sociedade civil, à altura da luta pelo fim da ditadura militar. E das instituições educacionais, para fazer frente ao avanço do atraso organizado e formar cidadãos e não apenas adestrar crianças e jovens para o mercado de trabalho.

    A preservação do Estado laico tornou-se uma das prioridades. No Congresso há movimentação nesse sentido. Está sendo criada uma Frente Parlamlentar em Defesa do Estado Laico.

    As entidades civis, principalmente as de direitos humanos, deveriam se articular com a Frente Parlamentar a fim de promover debates e ações para deter essa ameaça.