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  • Laurez Cerqueira conta trabalho para manter pensamento de Florestan

    Laurez Cerqueira conta trabalho para manter pensamento de Florestan

  • Macunaíma é meu pastor, nada me faltará

    Curiosa essa perplexidade com a violência, quando  explode em ondas como a de agora. Ouve-se muito dizer que nunca antes na história deste país se viu coisa igual.

    O senhorio posa de vestal, com o manto do “homem cordial”, um tipo que escamoteia a violência em templos religiosos e de consumo, forjando a felicidade do país tropical, abençoado por deus e bonito por natureza.

    O povo brasileiro é violento e ponto. Chega de hipocrisia. Quando os brancos europeus desembarcaram nas praias brasileiras, como dizia o antropólogo Darcy Ribeiro, esfarrapados, desdentados, fedorentos, cheios de escorbuto, síflis, e sedentos por sexo, índios e índias viviam nus, em perfeita harmonia com mares, rios, florestas, em paz com sua divindade espalhada ao redor. Mas era um paraíso perigoso. Por aqui havia também algumas tribos de antropófagos, chegados a uma coxa humana suculenta. Comeram até o Bispo Sardinha.

    Os católicos trataram de arrancar-lhes as crenças pagãs  e substituí-las pelo deus único. Instalou neles o pecado e a culpa. Foram ocupando as terras, corrompendo os “gentios” com badulaques, exterminando nações inteiras. O sangue correu por campos e florestas. Como índio “não tinha alma”,  diziam, na visão dos brancos europeus, virou esporte sair aos domingos para caçar nativos. Atiravam neles só para ver o tombo.

    Tentaram, com os bandeirantes, escravizá-los à base do chicote. Como não conseguiram, partiram para a África, compraram os negros. Depois da vida de corsários, os ingleses se tornaram os maiores traficantes do mundo.

    As marcas da barbárie continuam vivas. Tanto que a arquitetura “moderna” reproduz o modelo colonial, de Casa Grande & Senzala, nas residências brasileiras: sala, cozinha e dependência de empregados, um cubículo onde enfiam os trabalhadores domésticos. Além disso, o tratamento de “nós e eles”. Tudo isso encarado como “normal”.

    Essa mesma violência, herança da escravidão, permanece nas relações sociais, principalmente no trabalho. Quem não conhece a exploração, o tratamento desumano, o assédio moral de patrões e chefes? Nas relações entre marido e mulher, entre pais e filhos? Quem não sabe de pessoas destruídas psicologicamente por assédio moral? Pessoas que vagam no dia a dia, no vai vem da casa para o trabalho, do trabalho para casa, tomadas por sofrimento pesaroso, provocado por humilhação e desqualificação.

    Aqui vale uma ressalva: em partidos de esquerda, sindicatos e outras entidades, o assédio moral ocorre até com requintes de crueldade. Justo as organizações que se propõem como instituições de pedagogia política libertária. Há relatos inimagináveis. O educador Paulo Freire denominava isso de “opressão do oprimido”. Ou seja, muitos dos que sofreram opressão tendem a tornar-se opressores ainda mais violentos.

    No Congresso Nacional tramitam projetos de lei para tipificar o assédio moral, mas grupos, sobretudo aqueles de apoio ao patronato, não permitem sua aprovação.

    Violência, aplausos e negócios

    Curioso também é que grande parte das pessoas que estão “assustadas” com a violência, por exemplo, não perdem uma luta de MMA, essa “rinha humana” que faz os espectadores vibrarem quando os lutadores são brutais. Quanto mais lambusados de sangue, mais a platéia vibra. As imagens fazem disparar a audiência nos meios de comunicação. Os donos de tv, portais, jornais, revistas e patrocinadores querem mais sangue, porque assim ganham muito mais dinheiro, movimentam seus negócios milionários

    Muitos dizem que essa rinha é um esporte, que “educa”, que tem regras, mas não dizem que as regras foram feitas pelos próprios empresários que exploram os negócios dos eventos violentos.

    O que se vê por aí são jovens adotando como referência os lutadores de MMA, cultuando o machismo e a violência como afirmação de virilidade. A referência de beleza agora é a aparência de mau, violento. Músculos e tatuagens alimentam o delírio narcísico, potencializado com a telinha dos celulares, que se tornaram espelhos hedonistas da modernidade.

    Com essa estética ressurge um conservadorismo ancestral, medieval. E o que tem a ver a luta de MMA com a violência? A violência sob aplausos de torcidas aguerridas, aos gritos de: mata!… mata!… mata!…

    Os mesmos assistem às missas e aos cultos aos domingos e às lutas de MMA, cada um com seu duplo. Nas torcidas de futebol, no trânsito, nos shows, nas festas, a violência explode, gera imagens chocantes para a felicidade dos donos dos meios de comunicação. Estes exploram os infortúnios e as lágrimas à exaustão, com posturas hipócritas, moralistas, de bom mocismo, para faturar ainda mais com a audiência. Uma retroalimentação que domina corações e mentes.

    Nos programas de TV, apresentadores falam diretamente com cerca de 40 a 70 milhões de pessoas todos os dias, em comentários e editoriais, como se fossem autoridades no assunto. Muitos instigam à barbárie, como fez recentemente a apresentadora Shehearazade, do SBT, ao incitar a população à violência. Nas redes sociais, jornalistas a defenderam com unhas e dentes, num corporativismo cego, a ponto de a considerer uma “grande profissional”. O que se pode esperar desse jornalismo?

    Enfim, a violência é latente, recrudesce em ondas coloridas de sangue, de tempos em tempos, e expõe a hipocrisia da sociedade.

    Como disse o modernista Oswald de Andrade, “ninguém escapou da vagina fraudulenta e do pênis opressor”.

    O mito do “homem cordial” , do grande historiador Sérgio Buarque de Holanda, se desfez. Por que não optamos por amarrar o jirau no firmamento, virado no (mais…)

  • Rinha humana

    ufc-luta-sangrenta

    Até agora a luta MMA  produziu lesões corporais graves, como a fratura da perna de Anderson Silva, em dezembro de 2013, e em outros lutadores mas, que se tem conhecimento,  nenhuma morte.

    O que farão as autoridades quando acontecer um assassinato decorrente de um golpe fatal, diante dos olhos da platéia e dos telespectadores? O assassino será preso em flagrante? O Código Penal é claro quanto a homicídios de qualquer natureza.

    Essa de que entra no ringue quem quer, que as pessoas são livres, não deixa de ser uma hipocrisia. O Estado não poderia legislar sobre o corpo e o livre arbítrio? Então esse mesmo princípio de liberdade vale para o uso de drogas, o aborto, a eutanásia e o suicídio?

    A tarefa está com o Ministério Público, que cuida do direito difuso e o Supremo Tribunal Federal, o guardião da Constituição, que precisam se pronunciar sobre a rinha humana.

    Tomando como base o princípio do livre arbítrio, os organizadores desse “esporte” podem entender que deve evoluir para o uso de facas ou sabres, como no tempo dos gladiadores. Creio que não faltará público.

    Guardadas as devidas exceções, quem assiste a essa modalidade de luta quer entrar em contato com os instintos mais bárbaros do ser humano, quer ver nocaute, sangue, como nos Coliseus?

    Classificaram essa luta sanguinária como esporte para regulamentar a rinha humana e com ela, obviamente, ganhar muito dinheiro. Rinhas de galo, de cães e de outros animais são proibidas por lei e a rinha humana não?

    A sociedade do espetáculo está indo longe demais, por caminhos cada vez mais sombrios, não bastasse as guerras, os genocídios. O culto à violência está naturalizando a barbárie. Na realidade virtual, jogos eletrônicos concorrem entre si para ver quem oferece mais violência, para um público cada vez mais insaciável. Na vida real, muita gente se identifica com personagens dos jogos e com lutadores de MMA – à imagem e semelhança – com músculos e tatuagens, nas performances de cenas urbanas.

    O que teria a dizer os estudiosos da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Antropologia? Não vão se pronunciar? Só depois do primeiro cadáver nas telas de TV?

    Pessoas que gostam de assistir a esse espetáculo muitas vezes se dizem ecologistas, protetoras dos animais, mas não perderia uma rinha de cães hottweilers ou de galos.

    Muitos rapazes,  desses musculosos e tatuados, com seus Poodles numa coleirinha, passeiam por aí, mas não perdem uma luta de MMA. Esquisito, não?

    Junto a esse movimento, algo de machismo, intolerância, violência extrema, é latente na sociedade. As notícias de crimes bárbaros crescem e desaparecem no túnel do tempo, deixando para traz a normalização da violência, que nada combina com a harmonia, a paz e a solidariedade desejada pela imensa maioria da população.

    Pessoas que atuam na busca da paz, do fim das guerras, da harmonia entre os povos, nos movimentos sociais, de proteção dos animais, não ignorem o que está acontecendo aqui. Um ser humano pode matar outro diante dos nossos olhos, nas telas de TV.

    O MMA é legalizado por que é movido por milhões em negócios. Não só as empresas patrocinadoras ganham, mas as empresas de comunicação também engordam seus caixas.

    Perguntar não ofende: será que alguma ONG pacifista, ambientalista recebe contribuição de alguma das empresas que patrocinam o MMA? Aos jornalistas “investigativos” de plantão vale conferir e informar quem ganha e quanto com a rinha humana.

    Caso as empresas patrocinadoras dessa barbárie sejam clientes da TV, do rádio, do jornal ou da revista, provavelmente ninguém ficará sabendo, por razões óbvias.

    O que diriam Mahatma Gandhi, Dalai Lama, John Lennon, Nelson Mandela, os Prêmios Nobel da Paz, enfim, todos os pacifistas do mundo, sobre as rinhas humanas?

    Com a espetacularização da barbárie fica difícil cultivar valores da democracia como paz, harmonia, solidariedade e felicidade para toda a humanidade. Rinha humana NÃO!

  • O rolê do cuscuz pelo mundo

    Fogo

    “Da tradição quero apenas o fogo, a cinza não me interessa”. Li essa frase não sei onde. Perdoe-me autor e leitores, mas não poderia deixar de citá-la. Afinal, a gente quer a chama, que ilumina.

    Antropofágicos que somos, cultuamos os ancestrais reinventando a tradição. Comemos de tudo, até Bispo Sardinha. Também, aqui, come-se iogurte com farinha. Cuscuz com uma cervejinha…

    “Aqui, em se plantando tudo dá”, está na carta de Caminha. Além das sementes, plantas e árvores que haviam por aqui, foram chegando outras de diversos cantos do mundo.

    Carmem Miranda sambou Tico-Tico no Fubá, com todo esplendor, para o mundo ver, com a coroa de frutas na cabeça, originárias de África e Ásia, como nossa “Rainha Antropofágica”.

    Não há como falar das coisas de nossos ancestrais sem desenrolar o novelo da história e visitar a África, onde o homo sapiens começou. “Mama África é mãe solteira”. Salve Chico Cesar!

    Visitar nossos ancestrais mais distantes no tempo é ir às raízes das culturas dos mais antigos povos do mundo, é mergulhar na herança africana, que povoa corações e mentes.

    O cuscuz veio de lá, da África, da região saariana, da Argélia, do Marrocos, cruzou o estreito de Gibraltar e entrou na península ibérica. Era feito de sêmola.

    Veio para a América, tempos depois, com os escravos originários da Guiné e de outras regiões da África ocidental, que também tinha o cuscuz como alimento tradicional. Cruzou o Atlântico nas naus, no ciclo das grandes navegações.

    Quem sabe poderia ter tomado outro rumo, não fosse a escola de Sagres, onde se aperfeiçoou a bússola, o astrolábio, o quadrante, se inventou a vela triangular, que possibilitou aos navegantes viajarem em zigue-zague até atracar na costa da América? Dizem alguns pesquisadores que o cuscuz serviu de alimento para as tripulações das naus.

    Marrocos 3Cuscuz paulista

    Nossos índios estavam aqui lagartixando nas praias de areias branquinhas e águas cristalinas, em perfeita harmonia com a natureza. Quando surgiram no horizonte do mar azul, nas caravelas, os brancos europeus, barbudos, esfarrapados, desdentados, escalavrados, cheios de escorbuto, famintos,(como dizia Darcy Ribeiro).

    Além disso, tarados por sexo, com seu Deus único, e, num estandarte, o filho Dele pregado na cruz.

    Os brancos europeus violentaram corpos e espíritos dos nativos.

    Dominaram os índios com quinquilharias, principalmente com as ferramentas. Nossos índios não dominavam a forja.

    As ferramentas, deixadas com os homens brancos em pontos espalhados pelo litoral, do norte ao sul, foram utilizadas não só no corte do pau-brasil, para carregar os navios e zarpar para a Europa, mas na agricultura.

    Os caciques encantados com machados, enxadas e foices, eram chantageados pelos galegos. Exigiam as jovens índias em troca do uso das ferramentas. Com isso os cunhados, considerados membros da famílias, eram escravizados, trabalhavam de graça para os brancos. Darcy Ribeiro dizia que a família brasileira nasceu assim, com o “cunhadismo.

    indio-pescando

    Com as ferramentas, as culturas de milho e mandioca se espalharam. E o cuscuz passou a fazer parte das mesas de refeições das famílias brasileiras país afora.

    Além do litoral, subiu montanhas e rios. O cuscuz foi ganhando, pelo caminho, características próprias, de mãos de pessoas de cada lugar aonde chegou. Há cuscuz carioca, baiano, mineiro, paulista, enfim, há cuscuz por toda parte.

    Além do Brasil, o cuscuz também é saboreado em vários países da América Latina. Na costa da África, nas ilhas de Cabo Verde, o cuscuz é um bolo tradicional feito com farinha de milho, cozido no vapor, num recipiente de barro, lá chamado binde, uma espécie de cuscuzeira de barro muito utilizada ainda nos rincões do Brasil.

    No Brasil, uma das histórias sobre a origem do cuscuz diz que tropeiros e boiadeiros, que viajavam longas distâncias a cavalo, costumavam carregar matulas feitas de farinha de milho ou de mandioca misturada com pedaços de frango ao molho ou carne de gado, em bolsas de couro, amarradas na parte traseira das selas dos animais.

    No contato com o corpo quente do cavalo, mais o chacoalhar do passo viageiro, a mistura dava liga e na hora do almoço, nas sombras das árvores, na beira de um rio, abria-se a matula e lá estava o cuscuz pronto.

    Outra versão diz que o famoso “Cuscuz Paulista” surgiu de mãos caiçaras. Há quem diga que os italianos também participaram da invenção, mas há controvérsias.

    Caa-içara é uma palavra de origem tupi-guarani, que denomina os habitantes de origem miscigenada e que viviam inicialmente da pesca na região costeira entre Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.

    Cuzcuz

    O povo caiçara surgiu no século XVI dos casamentos de europeus, índios e negros libertos, que se recusaram a viver nos centros urbanos. Os caiçaras formaram uma das primeiras culturas do Brasil pós-descobrimento e tinham o costume de trabalhar em mutirões, chamados de “Adjutório”.

    Preparavam as roças para o plantio, as colheitas e as puxadas de canoa das florestas para os sítios. No final do dia o anfitrião do sítio preparava  como compensação uma festa. Os trabalhadores comiam e se divertiam com a dança do fandango. O cuscuz participava da festa.

    Por incrível que pareça, o fandango é uma dança originária da Espanha. Possivelmente chegou a Portugal naquela promiscuidade da Igreja Católica na Península Ibérica – quando se juntaram na resistência contra o domínio dos Mouros – deve ter escapado dos domínios morais, embarcado nas naus, no ciclo das grandes navegações, e se espalhado pela América Latina.

    No dicionário Aurélio, fandango significa “Auto ou representação popular em torno de uma embarcação a vela a porto.”

    Como diz Arnaldo Antunes, numa de suas músicas, “A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte…”.

    O milho, o principal componente do “Cuscuz Paulista”, surgiu há milhares de anos, em solo centro-americano. Segundo pesquisadores, há pelo menos 7 mil anos.

    Era cultivado em tempos pré-colombianos nos planaltos do México e se espalhou rapidamente ao Norte até a barra de São Lourenço, uma região olmeca, situada no oeste mexicano. Ao Sul até o Prata e a Oeste até o Amazonas.

    Não só era o mais importante alimento dos Astecas, Incas e Maias, como também fazia parte das celebrações de cunho religioso. Até o descobrimento da América, em 1492, os europeus não sabiam da existência do milho.

    Quando Cristóvão Colombo levou algumas sementes para a Europa, em 1493, os botânicos ficaram impressionados com a planta.

    Hoje o milho é alimento em praticamente todas as partes do mundo. E não apenas alimento. Faz-se dele até combustível para carros. Ainda mais nos dias de hoje, quando se tenta limpar a matriz energética.

    Milharal

    Dada a importância para a humanidade, em diferentes culturas surgiram muitas lendas sobre o milho. Uma delas, a dos nossos índios Guaranis, diz que, em tempos idos, quando os índios viviam muito afastados uns dos outros, cada família devia buscar o sustento na caça ou na pesca.

    Uma lenda Guarani diz que certa vez dois caçadores, que viviam juntos e eram os únicos que ajudavam na caça, costumava repartir o que conseguiam entre si e suas famílias.

    Certo dia, quando foram pescar, um deles disse: – “Será que “Nhandeyara”, o Grande Espírito que cuida das aves do céu e dos animais da terra, para nos alimentar a nós e a nossos filhos, semearia por sobre a terra outros tipos de alimentos mais fáceis de colher?”

    (…) “Os frutos silvestres têm curta estação, a caça e a pesca costumam faltar. Muitas vezes nos sobram raízes de plantas e grelos das palmeiras para nosso sustento.”

    A conversa dos dois amigos durou um bom tempo. A pesca, naquela fase, não fora suficiente para alimentar a toda a gente das famílias.

    Na manhã do dia seguinte, os dois caçadores, armados com seus arcos e flechas, embrenharam na mata, andaram o dia inteiro e não conseguiram nenhuma caça naquela lua.

    Na boca da noite, desolados, assentados sobre um tronco perto da entrada da oca, os dois amigos viram, assustados, um guerreiro, surgido da escuridão, todo envolvido em raios de luz.

    A aparição disse ser enviado de Nhandeyara, que tinha escutado a conversa deles e que estava ali para proporcionar-lhes o alimento que lhes faltava. Mas, com uma condição: só conseguiria o alimento se lutassem com ele, um de cada vez, para ver qual deles era o mais forte.

    O que fosse derrotado teria que ser sacrificado e enterrado perto da cabana. E que da sepultura nasceria uma planta, que daria frutos suficientes para sustentar, todo o tempo, as duas famílias e a quantos a cultivassem.

    Os dois amigos aceitaram o desafio e em seguida começou a luta no pátio.

    O mais fraco, de nome Avaty, foi sacrificado, com o lamento do amigo sobrevivente, pela inevitável separação, e o estranho guerreiro desapareceu na escuridão da noite.

    O mais forte tinha que trabalhar de sol a sol nos campos para cultivar o alimento indispensável para a sua família e a do amigo.

    Tempos depois, as famílias foram surpreendidas quando viram brotar do túmulo de Avaty uma planta de muitas folhas verdes e espigas amarelas.

    O caçador viu cumprida a promessa feita pelo guerreiro misterioso e compreendeu a sabedoria de Nhandeyara, que pode sacrificar um homem de bem para o bem de todas as outras criaturas.

    Desde então, os Guaranis passaram a denominar aquela planta de “Avaty”, em homenagem ao índio sacrificado.

    Os nativos passaram a cultivar suas roças e, nos rituais da colheita, passavam as espigas de mão em mão, como símbolo da união e da amizade.

    Para eles, um bom índio não pode esquecer que a abundância proporcionada pelo milho, que serve de alimento aos homens e animais, provém do sacrifício de um amigo fiel.

    Assim como essa, há muitas outras lendas na América. O fato é que os Guaranis, que depois vieram a ser Caiçaras, com o processo de miscigenação, estão na raiz da história do Cuscuz Paulista, tido como alimentação de famílias pobres, que circulava entre consumidores modestos.

    Por ser vendido em tabuleiros, por filhos e netos de cuscuzeiros anônimos, o cuscuz demorou longo tempo até chegar à mesa das classes sociais, média e média-alta.

    O que faz a diferença dos demais cuscuzes são os ingredientes.

    Os frutos do mar, como camarão, peixe e outros recheios, foram introduzidos pelos pescadores caiçaras na receita do cuscuz, servido em mesas de famílias simples ou em restaurantes sofisticados, como iguaria.

    Com uma rica história, repassada de geração em geração, o cuscuz, com seu devido valor, faz parte do mosaico que compõe o patrimônio cultural do Brasil .

  • Proer: a cesta básica dos banqueiros

    Banqueiro
    O Proer desapareceu do noticiário que todos os dias se mistura no túnel do tempo, descansa no cemitério de escândalos do governo Fernando Henrique Cardoso, enquanto ministros do Supremo Tribunal Federal dormem nas sessões tediosas da corte enrolados nas suas capas pretas, como “Vacas sagradas”, assim chamados pelo jurista e ex-senador José Paulo Bisol ou fazem pantomimas para se verem depois nos espelhos, agora telinhas de tv e de celulares. Os bancos sugam a seiva do trabalho dos brasileiros e muitos ainda dizem por aí que o Proer foi importante para a segurança bancária do Brasil.

    Criado em novembro de 1995, no início do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, o Proer – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, gastou R$ 37,76 bilhões com os bancos em funcionamento no país. Este valor foi apurado pela CPI dos Bancos, do Senado Federal, e consta do relatório final da comissão.

    Desde 1994, mais de 70 bancos (múltiplos, comerciais, de desenvolvimento e de investimento) passaram por processos de ajuste, resultando em transferência de controle acionário, com assistência do Banco Central e com incorporação de outras instituições financeiras nacionais e estrangeiras.

    A concentração bancária no Brasil se intensificou no governo Fernando Henrique. Essa concentração é fortemente marcada pela internacionalização do sistema financeiro brasileiro. Várias instituições internacionais passaram a operar no Brasil, adquirindo bancos brasileiros.

    Dentre outras aquisições destacam-se a compra do Bamerindus pelo banco inglês Hong Kong & Shangai Banking Corporation (HSBC), do Banco Real pelo ABN-Amro, do Noroeste e do Banco Geral do Comércio pelo espanhol Santander, do Excel pelo Bilbao y Viscaya, do Garantia pelo CS First Boston e do Bandeirantes pelo português Caixa Geral de Depósitos. Ao todo foram 8 instituições estrangeiras que compraram 11 bancos nacionais, e passaram a disputar um mercado estimado, na época, em 50 milhões de correntistas. O potencial do setor financeiro nacional era o principal atrativo para as instituições estrangeiras. Apenas 17% dos brasileiros tinham conta em banco, enquanto na Espanha, por exemplo, esse índice chegava a 70% e no Chile, 50%.

    O Professor Luiz Fernando de Paula, economista e pesquisador do Núcleo de Finanças e Macroeconomia da Universidade Cândido Mendes, estudou durante seis anos as mudanças no sistema financeiro internacional e seus impactos no Brasil. Segundo ele, a participação do capital estrangeiro no setor financeiro brasileiro, a partir de 1996, dobrou, passando de 9,79% para 18,38% até 1999, aumentando de 4,36% para 11,81%, o volume de dinheiro brasileiro depositado em instituições estrangeiras.

    Banqueiros 2

    O governo Fernando Henrique Cardoso justificou a abertura do sistema financeiro brasileiro para a participação de instituições financeiras estrangeiras utilizando a surrada lei do livre mercado. Segundo o governo, a concorrência dos bancos estrangeiros traria benefícios para os correntistas nacionais. Mas o estudo do professor Luiz Fernando constatou o contrário. Os bancos institucionalizaram a cobrança de tarifas, argumentando que seria necessário para recompor os ganhos perdidos com o fim da inflação. Essas cobranças acabaram se transformando em mais um instrumento de captação de recursos: em 1994 as tarifas representavam apenas 2,41% de suas receitas. Quatro anos depois, o índice subiu para 6,26%. Os bancos estrangeiros não oferecem tarifas mais baixas do que os bancos nacionais e não demonstram disposição de ofertar crédito mais barato.

    Os títulos públicos se transformaram na principal ração que alimenta os lucros dos bancos, são como um prato feito de taxas de juros suculentas. Com as altas taxas de juros oferecidas pelo governo para remunerar a compra de títulos públicos, os bancos não se animaram a aumentar as linhas de crédito, preferiam investir os títulos públicos porque o risco até hoje é zero. Ou seja, a internacionalização do sistema financeiro promovida pelo governo não atendeu a demanda por investimentos na economia e serviu para aumentar a especulação financeira, sugando os recursos da riqueza produzida por quem trabalha. Dados do Banco Central comprovam isso: depois da intensificação das fusões o volume de títulos públicos vendidos a bancos estrangeiros aumentou de 15,2% em 1994 para 32% em 1999, enquanto a disponibilidade de crédito foi reduzida de 41,5% para 33,3%, no mesmo período.

    A receita do conjunto das instituições financeiras com a compra de títulos da dívida pública interna triplicou entre 1994 e 2001, passou de R$ 13,6 bilhões para R$ 41,7 bilhões. O estoque dos títulos públicos em poder dos bancos, que em 1994 era de R$ 53 bilhões saltou para R$ 282 bilhões, um aumento real de 171,5% (descontada a inflação da carteira de títulos públicos em poder dos bancos).

    O lucro dos 20 maiores bancos que atuavam com títulos públicos, que em 1994 foi de R$ 13,6 bilhões, em 2001 chegou a R$ 37,6 bilhões, um aumento de 56,5%. A parcela dos lucros com investimentos em títulos sobre a receita total dos bancos, que em 1994 era de 22,5%, atingiu a marca de 41,1%, em 2001.

    Arminio Fraga, ex-consultor de um dos maiores especuladores financeiros do mundo, George Soros, assumiu a presidência do Banco Central, em 1999 e uma das medidas dele foi liberar o depósito compulsório dos bancos em vários momentos sob a alegação de possibilitar a oferta de crédito, mas o que se verificou foi que a oferta não ocorreu. Os bancos optaram pela compra de títulos públicos, porque o lucro desde então é fácil, as taxas de juros são muito altas. Os bancos nunca ganharam tanto dinheiro no Brasil quanto durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Os lucros aumentaram cerca de 364%, segundo dados da Federação Brasileira dos Bancos, publicados no segundo semestre de 2001.

    O governo justificou a criação do Proer com a alegação de que o sistema bancário precisava se modernizar para receber investimentos externos.
    Mas o que ocorreu foi que o grosso dos recursos do Proer foram distribuídos para salvar bancos falidos recebendo em troca títulos “podres” como forma de pagamentos e para dar garantia a grupos estrangeiros para comprar bancos brasileiros. O Banco Econômico, o Nacional e o Bamerindus deram um calote de mais de R$ 10 bilhões de reais ao Banco Central. O Banco Nacional, da família Magalhães Pinto, que tinha uma das filhas, Ana Lúcia Catão de Magalhães Pinto, casada com Pedro Henrique Cardoso, filho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, recebeu uma linha de crédito de R$ 6 bilhões de reais para pagar suas dívidas, antes que o fosse vendido para o Unibanco. O Nacional, só em fraudes contábeis, que vinham sendo praticadas desde 1986, sem a fiscalização do Banco Central, levou R$ 5,3 bilhões de reais.

    Ângelo Calmon de Sá

    O Banco Bamerindus, do ex-senador Andrade Vieira, PTB/PR, um dos maiores colaboradores da campanha de Fernando Henrique, que deu dinheiro e emprestou jatinhos para viagens do candidato à presidência, foi vendido para o grupo inglês HSBC por um preço subestimado de R$ 381,6 milhões de reais. O HSBC comprou só a parte boa e a parte podre ficou com o Banco Central. Além de outros bens o patrimônio do Bamerindus tinha 1.241 agências, ativos no valor de R$ 10 bilhões e uma seguradora das mais rentáveis do país. Como se não bastassem essas vantagens, o Banco Central deu R$ 431 milhões ao HSBC para informatização e outras despesas e garantia de R$ 1,27 bilhão em títulos da dívida externa.

    Andrade Vieira, que foi ministro de Fernando Henrique Cardoso, saiu do governo acusando Pedro Malan de ludibriá-lo na venda do Bamerindus. Vieira queria mais dinheiro para salvar o banco, mas o ministro da fazenda preferiu os ingleses.

    Quatro anos depois que o Bamerindus quebrou os técnicos do Banco Central concluíram o inquérito administrativo. No relatório do BC, segundo a revista Istoé Dinheiro, de 30 de novembro de 2001, consta o pedido de indiciamento, por formação de quadrilha, de dezenas de pessoas. Essas pessoas estão sendo acusadas de manipulação de uma carteira no valor de R$ 2 bilhões em créditos podres. Os indícios de crimes são: um total de 56 imóveis com valores superfaturados para quitar dívidas de devedores do banco, pagamentos indevidos de comissões a intermediários e contratação de empresas de administração de contratos imobiliários com preços muito acima dos praticados no mercado.

    O texto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, de 1999, estabelecia que o Executivo teria que divulgar os resultados do Banco Central discriminando os reflexos das operações de saneamento do sistema financeiro, cujos valores somaram R$ 20 bilhões de reais relativos ao ano de 1997, e os projetados para os anos de 1998 e 1999. Porém, o governo federal simplesmente decidiu não prestar contas ao Congresso Nacional sobre o impacto das operações de injeção de recursos do Proer nos bancos. O presidente Fernando Henrique Cardoso vetou 14 dispositivos da LDO de 1999, sobre o assunto. O Senado Federal, sob a presidência de Antônio Carlos Magalhães, recebeu o texto da lei de volta, mandou publicar no Diário Oficial e ponto final.

    O problema é que arroubos tecnocráticos como esse consumiu uma fábula de recursos e nenhuma instituição acadêmica se dispôs até o momento a fazer as contas para saber quanto custou para o país a moeda Real e quanto perdemos com a vulnerabilidade externa do período Fernando Henrique, que permitiu tantos ataques especulativos, sendo que R$ 37,76 bilhões foram “investidos” na chamada “segurança bancária.

  • O recheio da pasta rosa

    Ângelo Calmon de Sá

    Em agosto de 1995, funcionários do Banco Central que trabalhavam numa auditoria contábil, financeira e patrimonial, nas dependências do Banco Econômico, sob intervenção, encontraram na sala do ex-dono do banco, Ângelo Calmon de Sá, uma pasta de cor rosa com documentos com fortes indícios de serem de doações de dinheiro a campanhas eleitorais. A existência dessa pasta só se tornou pública em dezembro daquele ano.

    A pasta continha um fax enviado em 2 de agosto de 1990, pelo então presidente da Federação Brasileira dos Bancos, Léo Wallace Cochrane Júnior, para Ângelo Calmon de Sá. Nela havia recibos e notas fiscais de serviços supostamente prestados a campanhas eleitorais e uma lista que relacionava nomes de vários políticos a quantias em dinheiro recebidas.O fax enviado pelo banqueiro Wallace Cochrane Júnior era uma classificação dada pela Febraban – Federação Brasileira dos Bancos aos candidatos à eleição de 1990, com o objetivo de facilitar aos banqueiros a escolha dos políticos que lhes interessariam ajudar financeiramente. A lista continha nomes de candidatos a governador, senador e deputado federal, que concorreram nas eleições de 90, relacionados a notas em escala de 1 a 10.

    Nesta lista estavam os nomes de Luís Eduardo Magalhães, PFL/BA, José Serra, PSDB/SP, Francisco Dornelles, PPB/RJ, José Sarney, PMDB/AP e muitos outros, num total de 45 políticos. Em 1990 a legislação eleitoral proibia a doação de dinheiro por empresas a candidatos. Em 1994 essa prática foi legalizada por nova lei.

    Em meio à papelada foram encontrados também comprovantes de pagamentos como recibos, notas fiscais de produtoras de vídeo, de agência de turismo e de instituto de pesquisa que teria prestado serviços à candidatura de José Agripino Maia, PFL, do Rio Grande do Norte, ao Senado. Todos os gastos relacionados aparecem como tendo sido um serviço prestado ao Banco Econômico. Algumas dessas notas seriam falsas e teriam sido emitidas por empresas “fantasmas”, segundo noticiário da época.

    Um outro grupo de documentos continha uma espécie de contabilidade sobre o financiamento de campanhas eleitorais, da qual constam os nomes dos candidatos e respectivos valores parciais e totais ao lado deles. Nessa segunda listagem o valor total das notas fiscais somadas chegava a US$ 2,5 milhões de dólares. Os números variam de político para político, sendo que os valores mais elevados estavam listados ao lado de candidatos a cargos mais importantes, como de governadores. Quem mais teria recebido dinheiro naquela eleição, segundo os documentos, teria sido Antônio Carlos Magalhães, PFL/BA, que era candidato ao Senado. Ele teria levado 45% de todas as doações da “pasta rosa”, um total de US$ 1,1 milhão de dólares, informou a revista Istoé, na época.

    Os candidatos constantes do fax da Febraban, segundo informou Cochrane à imprensa, eram apenas “indicações”, não haviam recebido, necessariamente, dinheiro do Banco Econômico. Dos 45 listados sete deputados estavam na relação de beneficiados: Benito Gama, PFL/BA, Manoel Castro, PFL/BA, José Lourenço, PFL/BA, Carlos Sant’Anna, PFL/BA, Eraldo Tinoco, PFL/BA, Leur Lomanto, PFL/BA e Genebaldo Corrêa, PMDB, este último, um do grupo dos chamados “anões do orçamento”, cassado por corrupção, depois de investigado pela CPI do Orçamento, nos anos 90. Além desses, mais 19 políticos constavam da lista dos beneficiados pelas doações. Os políticos baianos listados faziam parte do grupo do ex-senador Antônio Carlos Magalhães, na época grande acionista do Banco Econômico, de propriedade do amigo Ângelo Calmon de Sá, também sócio em outros negócios com o banqueiro.

    Apenas para refrescar a memória, Ângelo Calmon de Sá foi Ministro da Indústria e Comércio do Governo do general ditador Ernesto Geisel. Foi um fiel colaborador e escudeiro dos governos militares, apoiou as candidaturas de Fernando Collor de Melo e de Fernando Henrique Cardoso, juntamente com o ex-senador baiano Antônio Carlos Magalhães, principal articulador e fiador da aliança PSDB-PFL, que dominou a política brasileira nos anos 90.

    O Banco Econômico foi socorrido numa operação que custou R$ 3 bilhões dos cofres do famoso PROER – Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, criado pelo governo Fernando Henrique Cardoso para salvar bancos particulares, quando José Serra era ministro do Planejamento. O PROER, uma espécie de “cesta básica” para banqueiros, consumiu R$ 37 bilhões de recursos públicos.

    No decorrer das investigações sobre as atividades do Banco Econômico, em fevereiro de 1996, Ângelo Calmon de Sá foi indiciado por crime de sonegação fiscal e do “colarinho-branco”. Em seguida, numa atitude que causou perplexidade a quem acompanhava as investigações sobre a acusação de financiamento de campanha por bancos, entre eles o Banco Econômico, o Procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, apelidado de “Engavetador-geral da Republica” pediu ao Supremo Tribunal Federal o arquivamento do processo sobre os políticos acusados de receber dinheiro de instituições financeiras para suas campanhas eleitorais, alegando falta de provas, e o STF acatou, cobrindo com um manto de mistério um dos maiores escândalos sobre financiamento de campanhas eleitorais da história recente do Brasil.

    Mas, felizmente a coisa não parou por aí. Recentemente, a juíza Daniele Maranhão Costa, da 5ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal, acatou denúncia apontando dano ao erário, enriquecimento ilícito e violação aos princípios administrativos no caso Banco Econômico. São réus nessa ação, além do ex-ministro e banqueiro Ângelo Calmon de Sá, praticamente toda a equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, incluindo o ex-ministro Pedro Malan, os ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola e Gustavo Franco, que, aliás, tornaram-se banqueiros depois que deixaram o governo. Todos serão novamente investigados, e, quem sabe o “recheio da pasta rosa” venha à tona para assustar mortos e vivos?

  • A UDN no shopping e nas eleições

    Há muito tempo a “velha UDN” trocou os oratórios de madeira, que faziam parte do mobiliário das salas das residências, por aparelhos de televisão. As orações da boca da noite deram lugar às telenovelas e aos telejornais. As telenovelas passaram a ser referências tão fortes que são visíveis as mudanças de comportamento provocadas nas famílias. Como diz o compositor Jorge Mautner, em uma de suas músicas: “a telenovela é a educação sentimental da classe média nacional”.

    A “velha UDN”, em tempos idos, era uma matriarca católica, dessas de penugem nos cantos da boca, se vestia de preto, andava de bordão de jacarandá com brasão da família, cravejado em latão. Ainda hoje, fotos amareladas, emolduradas, de famílias aristocráticas, cobrem paredes de casas e apartamentos ou ocupam lugar de destaque sobre os móveis das salas, nas modernas cidades brasileiras.

    Uma parte da “velha UDN” e seus descendentes migraram do campo para as cidades muito antes de se tornar uma sigla, uma agremiação partidária, muito antes do PSD se enraizar no coração e na mente dos fazendeiros. Construiu fortuna e se tornou a matrona do sistema financeiro. Quis desfrutar dos produtos do ciclo de industrialização do Brasil, andar de automóvel, beber coca-cola, ir ao cinema, entregar seu coração a Hollywood, ler Seleções Reader’s Digest, revista O Cruzeiro, Veja, Caras, O Globo, Folha, Estadão, dar revistas em quadrinhos da Disney aos filhos e incentivá-los a cultivar valores aristocráticos.

    A UDN se encastelou na política, se apoderou do Estado e dos meios de comunicação como se fossem propriedades suas. Rotulou o governo de Getúlio Vargas de “mar de lama”, levou-o ao suicídio. Tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek, organizou a famosa “Marcha da família com Deus pela liberdade”, em 1964, na capital paulista, para derrubar João Goulart e apoiou o golpe militar que levou o Brasil a um dos mais obscuros períodos de nossa história. Impediu a reforma agrária, ajudou a organizar o latifúndio, mecanizou a produção agrícola com crédito subsidiado pelo Banco do Brasil e com as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa. Conseguiu banir das fazendas para as periferias das grandes cidades, onde vivem em condições sub-humanas, um contingente populacional gigantesco de remanescentes da escravidão.

    A cara da “nova UDN”
    No campo ou nas cidades, hoje a “velha UDN” ainda dispõe de uma cultura política e ideológica poderosíssima. A UDN urbanizada, que poderia ser chamada de “nova UDN” tem casas e apartamentos com todos os eletrodomésticos disponíveis. Carros de luxo nas garagens, viaja de férias todo ano, tem celular e computador plugados na Internet. Busca a paz em templos de consumo (shopping-centers) e em igrejas. Uma parte se “modernizou” em relação à fé. Trocou a igreja católica por igrejas evangélicas. A “nova UDN”, quando não está diante da tv ou na internet, alimentando a alma com programação de entretenimento, também vaga pelos shoppings ou por feiras de produtos de contrabando, comprando um pirata qualquer. A “velha UDN” está por aí, fraudulenta, travestia, clandestina.

    Nas praças de alimentação dos shoppings se empanturra nos fast-foods com sanduiches, pizzas e refrigerantes. A balança, a academia, as revistas de boa forma e o colesterol são seu inferno. Um “sofrimento doce” – coisa do “status quo” – assuntos para longas conversas nas tardes tediosas e nos finais de semana, nos encontros de família. A “nova UDN” é “chique”. “Chique” é diferente de elegante. A “nova UDN” é rastaquera.

    Nas casas e apartamentos “modernos”, a arquitetura mantêm a senzala, a “dependência de empregados”. Um cubículo onde enfiam os novos escravos que cozinham, lavam, passam e cuidam dos filhos. A “ama-seca” virou “babá”, baby-sitter.

    Livro, revista e jornal, em casa? Às vezes. Ler dá sono. Prefere uma espiada no Jornal Nacional depois da novela. É o melhor horário para ver os anúncios de carros novos, telefones celulares e bancos. Aqueles filmes publicitários que embalam os sonhos de tornar-se uma daquelas personagens chiques e bem sucedidas na vida. A maior aspiração da “nova UDN” é ser rica, manter o “status”, entranhado nas profundezas de sua alma, ter o controle moral da sociedade e recuperar o poder político perdido com a democratização do país. Para a “nova UDN” a democracia a leva à ruína política. Na democracia ela perde sempre.

    O mesmo ódio de classe persiste
    Mantém latente o mesmo ódio de classe que levou o ex-governador do antigo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, seu ídolo maior, ao escândalo da “operação mata-mendigo”, realizada pelo Serviço de Recuperação de Mendigos. Os agentes desse serviço foram flagrados jogando mendigos no rio da Guarda, na Baixada Fluminense, depois de denúncias de desaparecimento de grande número deles. Esse serviço foi o embrião da ideologia do “Esquadrão da Morte”. Outro escândalo foi a queima de favelas como a do Pasmado, no Rio, para expulsar os moradores, coordenada pela Secretária de Assuntos Sociais, Sandra Cavalcanti, ex-deputada constituinte, em 1987, pelo PFL.

    Uma parte da “nova UDN” passou pela universidade, ficou “ilustrada”. Participou, tempos atrás, da campanha Diretas Já, com novo verniz, mas preferiu juntar-se aos de cima na defesa do projeto neoliberal, do sucesso profissional, da escalada do enriquecimento e na redução dos sonhos da juventude ao fetiche de um automóvel. Luta para manter privilégios de classe e nada mais, fecha o vidro do carro quando mendigos se aproximam.

    Para ela os de baixo são invisíveis. Não vê lixeiros, garçons, frentistas, taxistas, mantém disdância das pessoas que andam de transporte coletivo. Sabe que essas pessoas existem quando necessitam de seus serviços. Vê o noticiário policial nos telejornais, viaja de avião e olha lá de cima o amontoado de barracos das periferias das grandes cidades como se as favelas fizessem, naturalmente, parte da paisagem. No parlamento ou na imprensa, como jornalista e comentarista preferidos dos impérios de comunicação, ladram como cães amestrados com o mesmo ódio que movia Carlos Lacerda.

    Os candidatos da nova UDN
    Nas eleições, a “nova UDN” costuma optar por candidatos que representam o ideário aristocrático, meritocrático, condizente com sua escala de valores, de matriz religiosa. Muitos, em 2002, fizeram uma concessão, votaram em Lula para presidente, depois dele penar sob a violência da discriminação de classe. Um dos mais fortes fatores que o levou à derrota em três eleições. O preconceito foi rompido momentaneamente. Certamente pelo fato de votar num “vencedor”, num homem de mérito, que saiu de Garanhuns, em Pernambuco, enfrentou a pobreza em São Paulo e se tornou um líder respeitado não só no Brasil, mas reconhecido nos fóruns internacionais como um líder mundial. Logo depois que ele tomou posse, não demorou, foi chacoteado como um estrangeiro de classe.

    Diziam que ele não tinha qualificação para governar. Não falava inglês. Diziam que ele era nordestino, cachaceiro e analfabeto. Quem não se lembra da zombaria da imprensa do “aeroLula”? Como se ele não tivesse o direito de usar o avião presidencial. FHC licitou o avião, mas Lula foi quem sofreu as críticas.

    Outro fator que deve ser considerado, quando analisamos a eleição de Lula, é que em 2002 a “nova UDN” estava inconformada com o governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O governo que, na época da paridade do Real com o Dólar, levou-a ao paraíso do consumo de produtos importados, a viagens internacionais – estava acabando em grave crise econômica e financeira – sob denúncias graves de corrupção, sem permitir investigações, principalmente denúncias sobre o processo de privatização das empresas estatais. Aquele paraíso de ilusões ruiu. Em resumo, em 2002, era “chique” votar em Lula. Afinal, o vencedor tem seu lugar na escala de valores da “nova UDN” como competidor.

    A descoberta de um novo partido
    Logo depois da democratização política do país, na década de 80, após a promulgação da Constituição de 1988, a “nova UDN” ganhou um presente de certa elite intelectual paulistana: um partido político pensado para ela. O PSDB. Um partido para a chamada “classe dos formadores de opinião”.

    O PFL, neto da velha Arena, que deu sustentação à ditadura militar, andava em dificuldades para se tornar um partido que atendesse às aspirações da “nova UDN”. O PMDB avançava no controle institucional do país e os partidos de esquerda, liderados pelo recém-criado PT, avançavam na organização da população operária urbana e no movimento dos trabalhares rurais sem terra. Foi nesse contexto que surgiu o PSDB, vendido à opinião pública como um partido moderno.

    O PSDB vestiu como uma luva o ideário da “nova UDN”. Em 1989, liderado por Mário Covas, que parecia um pássaro fora do ninho, por ter posições à esquerda do partido, o PSDB foi às urnas e no segundo turno até subiu no palanque de Lula, candidato do PT, quando este disputou com Collor. No segundo turno, a grande maioria dos votos do PSDB foi para Collor.

    Collor teve o apoio majoritário da “nova UDN”, que se referenciava no PFL, no PL e no PSDB, em verdadeiro revival da era lacerdista. Era o voto anti-Lula. Aquela parte que se engajou na eleição do “caçador de marajás” queria ver “Frei Damião andando de jet-ski”, como disse Mercadante, quem sabe, exportar Padre Cícero robotizado. Ou seja, a “velha UDN”, que veio do interior para os grandes centros urbanos, em tempos idos, deixou aflorar seu desejo de ser norteamericana, enfim, pertencer ao primeiro mundo e, quem sabe até dar a mão a um astronauta e sair por aí, a passeio, pelo espaço sideral. Queria se desgarrar definitivamente do outro Brasil, aquele da herança colonial, das pessoas invisíveis. Esse parece um desejo latente da “nova UDN”.

    Nos anos 90, quem defendia interesses nacionais era chamado de dinossauro, xenófobo e outros adjetivos não menos pejorativos. A ordem era globalizar, seguindo orientações das agências internacionais que pregavam o chamado “Consenso de Washington”. Collor foi afastado sob acusação de corrupção, sobretudo, por falta de confiança das grandes corporações financeiras internacionais, que tinham projetos prontos para compra das estatais brasileiras e realização de outros negócios no país. O PSDB tratou de articular a herança do legado político do governo Collor. Começou um namoro firme com o PFL. Noivou, casou-se em 1994, e do casamento nasceram dois mandatos para Fernando Henrique Cardoso. Casamento perfeito. A “nova UDN” urbana, representante do capitalismo financeiro, foi ao altar, sob as bênçãos do império.

    O PFL reúne desde o setor financeiro, passando pelas corporações dos meios de comunicação até o agronegócio. O PSDB entrou com a tecnocracia formada em famosas escolas internacionais como a escola de Chicago e de Harvard, com apoio do sistema financeiro nacional e internacional, que tinham seus interesses, evidentemente, na moeda e no livre mercado comercial (ALCA), desde que a meca fosse os EUA.

    Um modelito estadunidense
    Esse casamento é a cara da “nova UDN”, cuja estética pode ser percebida nas grandes cidades litorâneas do país, que se transformaram em caricaturas de Miami. Já as cidades do interior, andam com a cara do Texas. Os rodeios dão o tom da música, da vestimenta e do comportamento. Essa estética pode ser vista também em coisas simples como num maço de cigarros de palha fabricado em Minas Gerais. O maço é ilustrado, na parte frontal, com desenho de um cowboy de chapéu texano, óculos Ray Ban, calça e jaqueta jeans. Um modelito estadunidense. Por que não um mineiro pescando num rio, fumando seu cigarrinho de palha? Outro exemplo é a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma caricatura de Miami. Lá tem até estátua da liberdade.

    Esse pequeno exemplo parece suficiente para imaginar o ideário da “nova UDN” em ebulição no Brasil. No parlamento e na grande imprensa é fácil ver Carlos Lacerdas inconformados com o novo Brasil, espalhando preconceitos, principalmente o preconceito de classe, numa rede de comunicação conservadora, autista, fora do contexto, presa num discurso dos anos 90, atrasado, superado pelos fatos que culminaram na crise financeira internacional atual.

    A imprensa conservadora, num verdadeiro ciclo de retroalimentação com a “nova UDN” constrói um outro Brasil só para eles. Tanto que atacaram o presidente Lula e o seu governo durante os dois mandatos e ele está com 80% de aprovação. Entretanto, nunca se debateu tanto os problemas do país como hoje. Foram realizadas mais de 90 conferências setoriais, na maioria das vezes ignoradas ou atacadas pela imprensa. Educação, saúde, meio ambiente, cultura, comunicação, defesa civil, enfim, as conferências mobilizaram milhões de brasileiros desde os municípios, passando pelos estados até as conferências nacionais de cada setor. Existem outras redes de comunicação construídas pelos movimentos que debatem as políticas públicas do governo e dinamizam a informação. Existe outro Brasil emergindo e rompendo com as cercas que o isolaram por tantos séculos. É esse Brasil que causa tanto incômodo à “nova UDN” e a faz tão raivosa.

    Na eleição de 2006, causou perplexidade a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que o Brasil estaria precisando de um novo Carlos Lacerda. Essa declaração escapou num ímpeto de intolerância, quando se confirmava a força da liderança de Lula ao resistir os ataques da “nova UDN” e revelar seu favoritismo nas urnas. O Brasil não é mais o mesmo. Esse caminho não tem mais volta. Resta saber se a “nova UDN” sobreviverá.

  • “A esperança é a última que mata”

    Posse de Lula

    Este verso do poeta brasiliense, Nicolas Behr, do seu livro Iogurte com Farinha (anos 70), parece traduzir o sentimento de grande parte dos militantes do PT neste momento. Principalmente daqueles que surfaram na onda que se ergueu nas ruas e se espatifaram nas instituições da república senhorial. Quem não tinha clareza da estratégia pode estar sofrendo mais, pois para eles parece que o sonho acabou.

    Aqueles que se dedicaram aos núcleos de base do partido, no final dos anos 70 até os anos 80, e se firmaram na construção de uma estrutura pedagógica realmente libertária, foram abandonados no caminho pelo expresso apressado, que partiu direto do ABC para o ano 2002, como se a presidência da república senhorial fosse o fim da linha da história.

    Os que resistiram à burocratização partidária, agora se erguem das cinzas como Fênix. Afinal, o Brasil não conquistou a verdadeira República democrática. Sequer conseguiu a abolição, pois a conciliação pelo alto, como dizia o professor Florestan Fernandes, predominou nos momentos de ameaça de ruptura pelos de baixo.

    A “tática” de ocupar espaços nas instituições e transformá-las por dentro, como preconizado nos primeiros anos do PT, foi dando lugar ao carreirismo político. O partido foi sendo tragado pela burocracia estatal. As teses dos teóricos libertários, de que as forças da cultura do Estado burguês são poderosas, domesticam os rebeldes e na maioria das vezes os transformam em agentes dissipadores da rebelião de classe, parece confirmada nesta crise. Poucos continuaram fieis à construção de outra ordem, que não a vigente.

    A disputa por cargos de prefeito, vereador, deputado estadual, federal, senador, governador, e depois presidente da República, tornou-se o objetivo maior do movimento. Sindicatos e outras entidades foram utilizados como trampolins para mandatos eletivos.

    Os mandatos eletivos, na sua maioria, privados, (pessoal de fulano, pessoal de sicrano, no jargão interno do PT), em muitos casos funcionam como condomínios de interesse. Perderam a liga coletiva e se transformaram em instrumentos de barganha política. Nos debates e decisões internas já se sabe com antecedência os discursos e os votos de cada um.

    A crise partidária é grave e o momento é de ruptura dessa estrutura viciada. Apesar de tudo isso, não há como negar que o PT teceu uma cultura política nova no país. O PT, sem demérito dos demais partidos da esquerda, cumpre uma importante função pedagógica suplementar ao sistema educacional oficial na sociedade ao participar decisivamente do processo de aprofundamento da democracia e da promoção da cidadania. A intolerância da sociedade com a corrupção, em grande parte deve-se ao trabalho do PT na luta pela democratização do Estado.

    A crise do PT, que atingiu o governo Lula, não é um fenômeno recente, isolado. Toda a institucionalidade, nos seus mais variados níveis, passa por um momento difícil. Lula foi eleito com o que restou da estrutura dos movimentos sindical e popular construídos nos anos 70 e 80, e, evidentemente, com o financiamento do empresariado de diversos ramos de atividade, duramente atingidos pela abertura econômica promovida pelos governos da década de 90.

    É cada vez mais dramática a situação das centrais sindicais, dos poderosos sindicatos, que mobilizavam multidões no passado. Os movimentos pulsantes e ascendentes daquele período foram dando lugar a corridas eleitorais, com exceção de alguns movimentos como o MST, que se mantém numa perspectiva de rebelião permanente. Os movimentos vivem o dilema de apoiar o governo Lula e condenar sua política econômica. Isto porque, segundo integrantes do governo, o projeto econômico original debatido pelo partido foi abandonado em razão das dificuldades políticas para se governar.

    A professora Maria da Conceição Tavares e outros grandes economistas da mesma linhagem que participaram ativamente da formulação do projeto econômico do governo Lula, a certa altura, desistiu do debate, pois viu ganhar força a política econômica que ela contestou no governo Fernando Henrique Cardoso. Portanto, o projeto econômico de economistas como ela, Aloízio Mercadante e outros, não é o que está em execução. Queriam uma política econômica de pleno emprego, perfeitamente viável. Mas, apesar deste desgosto, quando o governo Lula é atacado por quem quer que seja, Conceição responde aos críticos com uma frase, segundo ela, vista numa faixa empunhada numa manifestação de apoio ao governo Salvador Allende, no Chile, nos anos 70: “Este es un gobierno de mierda, pero es mi gobierno, mierda!”.

    Conceição tavares

    Outro aspecto da eleição de Lula, que pouco se comentou, é que um percentual importante dos votos que o elegeu veio de setores da classe média e média-alta, depois de intenso trabalho do partido, na tentativa de desconstruir o preconceito que havia em relação a Lula e ao PT. Segundo as pesquisas, esse setor foi o primeiro a descolar logo no primeiro ano de governo, devido à reforma da previdência, aumento da taxa de juros para conter o consumo, e, recentemente, após a onda de denúncias de corrupção. Esse eleitorado parece ter feito uma concessão ao votar no operário candidato.

    Com o que restou da estrutura do movimento social dos anos 70 e 80, Lula montou uma mesa de negociação para tentar viabilizar um projeto de inclusão social abrangente, com o empresariado e com a elite conservadora, mantendo a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso e até radicalizando mais em certos aspectos, como o superávit primário e as metas de inflação.  Lula tenta construir um mercado de consumo interno com a irrigação da economia através dos recursos dos programas de transferência de renda. Mobiliza volumosos recursos nacionais e internacionais para a construção da infra-estrutura de desenvolvimento econômico (energia, portos, ferrovias, estradas, etc.) que ficou sem investimentos adequados ao longo de duas décadas.

    Enfim, fez-se concessões até demasiadas na expectativa de que seria viável um governo de diálogo e de união nacional para superação das dificuldades, principalmente as econômicas e sociais que chegaram a uma situação dramática. O que se percebe é que a maioria da elite política e empresarial parece não compreender o país que vive, qual a dimensão real da crise política e para onde ela evolui. O comportamento da imprensa corporativa nesta crise, salvo raras exceções, demonstra isso.

    Entre outros órgãos de imprensa, merece destaque a sanha golpista da revista Veja. As denúncias estão sendo utilizadas como pretexto para destruição da maior organização política construída pelos de baixo¿ no Brasil, e do seu líder maior, Lula. No poder, certamente, o tratamento dispensado ao PT e ao seu governo, não seria diferente.

    O fato é que o PT sempre foi tratado como um intruso no cenário político nacional. Nasceu nas ruas sob nuvens de gás lacrimogêneo, rompendo cercas no campo e sobrevivendo à ferocidade da grande imprensa. Mas muitos petistas alimentavam ilusões de que em plena vigência do estado democrático de direito instituições democráticas como o PT, a CUT e o MST seriam respeitadas pelos de cima.

    Esta crise está deixando uma lição para os de baixo: enganam-se aqueles que preconizam o fim da luta de classes. O Brasil é um país continental e complexo, urbanizado, com uma configuração de classes nitidamente marcada pela desigualdade. Caso a crise continue alimentada por denúncias infundadas contra governo Lula, não sobrará alternativa para o campo da esquerda, que não à radicalização dos movimentos. O quadro político que começa a se esboçar para o futuro é de rompimento com o diálogo.

    Está ficando claro que a tentativa de diálogo com os de cima é uma perda de tempo. Não vivemos mais numa Guerra Fria.

    Enfim, não se deve perder a perspectiva de que isto é uma luta e os campos estão sendo demarcados. Resta saber de que lado cada um está lutando e se está lutando bem ou mal. Tudo indica que estamos caminhando para o que sintetizou a cantora Cássia Eller em uma de suas músicas: “Defenda teu pão no pau, marginal!”.