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  • Hello world!

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  • Estados Unidos não elegeram um estadista, mas um gerente dos negócios dos bilionários.

    A grande contradição de cidadãs e cidadãos dos Estados Unidos ao escolherem, pela segunda vez, um presidente que colocou por terra os valores da democracia e a segurança das instituições republicanas do país, está exposta à luz do meio-dia.

    Isso ocorre num momento em que os Estados Unidos já não elegem estadistas, líderes de espírito público elevado, que sempre defenderam os valores e as instituições do modelo democrático da sociedade norte-americana.

    Diferentemente de outros tempos, os Estados Unidos elegeram o melhor gerente dos negócios dos bilionários do país. Gente racista, xenófoba, indiferente aos problemas da população, que odeia seus semelhantes imigrantes, ignora as origens e a formação das sociedades das Américas.

    Donald Trump remexe o fundo da história dos Estados Unidos e traz à tona os mitos ideológicos que ajudaram a fundar a nação: o Destino Manifesto (os Estados Unidos como potência supremacista do mundo) e o Sonho Americano (com o trabalho vou ser rico).

    Os últimos acontecimentos protagonizados por Trump mostram um conluio do poder empresarial de bilionários que atuam em função de seus negócios, com uma estrutura de poder funcionando acima do Estado oficial. Recentemente, a presença de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, como seu principal assessor, demonstra a articulação direta dos grandes bilionários com o governo.

    O mais grave é que as instituições estão sendo subordinadas a esse poder paralelo, com a conivência do Deep State, principalmente das Forças Armadas. Não que isso seja novidade. É tão antigo quanto os Estados Unidos.

    Mas o fato novo é que a imoralidade, a violência e a indiferença em relação ao Estado Democrático de Direito e às suas instituições estão expostas sem nenhum pudor.

    O que a CIA fez na Venezuela e o ICE em Mineápolis são fatos incontestáveis da decadência institucional dos Estados Unidos.

    Não só a democracia e seus valores estão sendo solapados pelo poder empresarial, mas também a economia e o dólar, que sofrem forte desvalorização em todo o mundo, deixando de ser referência de trocas comerciais e reservas, como sintoma do fim de um império.

    Donald Trump é a expressão do desespero dos Estados Unidos diante da China. Sem fazer barulho, a China se desenvolve, torna-se o maior complexo tecnológico e industrial do mundo e ameaça a hegemonia norte-americana.

    Não se trata de subestimar os Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do planeta, mas de reconhecer seu declínio, sua agonia e as ameaças de seu governo, com o maior arsenal bélico do mundo, às demais nações, a fim de submetê-las a seus desígnios.

    A proposta de Donald Trump de criação de um conselho de paz no Oriente Médio, depois do assalto à Venezuela e da prisão de Nicolás Maduro; das ameaças de invadir a Groenlândia e da anexação do Canadá; do ataque ao Irã, dá a medida do poderio empresarial dos bilionários e da ofensiva com novo aparato tecnológico de comunicação (Big Techs) e de Forças Armadas subordinadas às suas ordens.

    Os negócios militares no mundo atingiram US$ 1,5 trilhão em gastos com armamentos. Não é pouca coisa.

    No ciclo áureo do petróleo, os Estados Unidos assaltaram vários países, derrubaram governos, instalaram suas petroleiras e bases militares, principalmente no Oriente Médio, em países como Egito, Iraque, Líbia, Síria, Irã e Líbano. O assalto à Venezuela faz parte dessa ofensiva tradicional.

    Trump avança na construção de estruturas de poder empresarial paralelo, desprezando a Organização das Nações Unidas (ONU).

    O chamado conselho de paz no Oriente Médio, do qual se autonomina gerente, sem convidar os representantes naturais da comunidade palestina, a maior vítima do genocídio, e com a imposição de cotas de US$ 1 bilhão para cada país membro do negócio, é mais uma demonstração de que a sanha de dominação ignora limites institucionais.

    O presidente Lula tem defendido publicamente a reforma da ONU, tendo como prioridade a ampliação da participação das nações de todos os continentes e o fim do poder de veto.

    Mas isso não interessa ao governo dos bilionários. Afinal, guerra é um grande negócio. Para eles, uma ONU reformada seria um complicador para o poder empresarial estabelecido. São inimigos do Estado Democrático de Direito.

    O mundo corre perigo com a ascensão dos fora da lei. Para eles, vale a lei do mais forte, que tem sob seu comando o maior poder bélico-nuclear do planeta.

  • Censuraram os nomes de partes do nosso corpo

    Há algo de profundamente revelador na forma como nomeamos o próprio corpo, esse território íntimo que habitamos desde o primeiro sopro de consciência.

    Entre o que o povo diz e o que a ciência permite dizer, interpõe-se uma muralha antiga: a moral religiosa, a sombra pálida de um pudor herdado, que se insinua nas conversas, nos gestos, e sobretudo nas palavras proibidas. Porque, sim, há palavras proibidas, não por ferirem, mas por revelarem a verdade simples do que somos.

    O povo, sábio em sua espontaneidade, batizou cada pedaço de si com a liberdade de quem reconhece a vida como um organismo pulsante. Mas a moral, essa guardiã dos “bons costumes”, tratou de pôr mordaça nos termos que considerou inconvenientes, como se pudesse extirpar da carne aquilo que existe por natureza. Orelha, nariz, boca, dedo: esses escapam à vigilância, talvez porque se exibem ao sol, porque não escondem segredos. Já o que se oculta e, no entanto, sustenta nossa sobrevivência é envolto em silêncio, vergonha e censura.

    Curioso é que a ciência, ao nomear, absolve. O mesmo orifício que o pudor proíbe pode ser pronunciado sem escândalo quando vestido de latim. O corpo, traduzido para o idioma clínico, torna-se aceitável; perde a carne, ganha solidez conceitual. A boca é um orifício superior, elegante e funcional; o traseiro, quando dito como “região glútea”, ganha uma respeitabilidade repentina, como se tivesse passado por um processo de batismo laico. A linguagem científica opera esse milagre: desodora, dessexualiza, desumaniza mas, paradoxalmente, liberta o que antes era vergonhoso.

    Talvez seja por isso que o alimento, antes de entrar no corpo, é festa, arte, ritual. Brilha nos salões, inspira poetas, orgulha chefes que lhe conferem aura estética. Contudo, basta que cruze o portal da digestão para ser banido das conversas. A culinária, celebrada na mesa, é expulsa do vocabulário ao final do percurso, e o “bolo alimentar”, termo asséptico que a ciência habilmente inventou torna-se um véu para aquilo que a vida, simplesmente, faz. Não se menciona o resultado final desse processo, ainda que todos dele dependamos, democraticamente iguais na mais biológica das rotinas.

    O mesmo se dá com os órgãos do prazer e da continuidade da espécie. Nascemos deles, voltamos a eles na intimidade, construímos afetos e histórias a partir do que despertam, mas seus nomes populares permanecem interditados. Preferimos eufemismos, siglas anatômicas, como se a nudez da palavra fosse mais indecente que a nudez do corpo. Só admitimos os termos científicos, mas mesmo estes, pronunciados em voz baixa, carregam o rubor dos que ainda temem a própria natureza.

    É como se tivéssemos aprendido a viver numa contradição permanente: habitar o corpo, mas negar-lhe o vocabulário. Recusamos as palavras que o nomeiam justamente quando elas nos aproximam da verdade mais elementar, a de que somos matéria viva, desejante, digestiva, mortal. Esquecemos que nomear não é ofender; é compreender. Que a palavra não suja: revela.

    O corpo não é indecente. Indecente é o silêncio que o cerca. Talvez o gesto mais revolucionário seja simplesmente devolver às coisas o seu nome, sem medo, sem constrangimento. Reconhecer que nossa humanidade não está apenas no que escondemos, mas também no que dizemos e no que ousamos dizer com todas as letras: C*  B* P* B**   e tantos outros nomes dados pelo povo, que no los puedo contar!

  • O modelo de desenvolvimento da China colocou uma interrogação diante do mundo.

    A dúvida é o grande começo. Enquanto muitos países se perderam em ciclos curtos de euforia e frustração, o gigante asiático escolheu caminhar com passos largos, sem fazer barulho, planejar, investir e distribuir a renda.

    Desde 1978, quando iniciou suas reformas econômicas, passou a operar sob uma lógica rara no mundo contemporâneo. Sem fazer alarde, a China optou pelo planejamento de longo prazo sob coordenação estatal com pragmatismo. O resultado foi um modelo de desenvolvimento que se tornou referência para o mundo. Não é retórico nem ideológico. É concreto, mensurável e profundamente humano.

    Por várias décadas, o crescimento médio anual do PIB chinês girou entre 9% e 10%, segundo o Banco Mundial. Trata-se de um feito quase sem paralelo na história econômica moderna. Não foi um espasmo conjuntural, mas um processo sustentado por investimentos contínuos em infraestrutura, educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação. Crescer, para a China, não se tornou um fim em si mesmo, mas meio para reorganizar a sociedade e construir um futuro de desenvolvimento sustentável com justiça social.

    O dado mais contundente dessa transformação é social. Entre o fim dos anos 1970 e 2020, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema, cerca de 75% de toda a redução da pobreza extrema no planeta, no mesmo período.

    Poucos países podem afirmar que alteraram, de forma tão decisiva, a geografia global da pobreza. A China o fez porque tratou o combate à pobreza como política de Estado, e não como programa circunstancial.

    A expectativa de vida acompanha essa virada estrutural. Em 2023, alcançou cerca de 78 anos, mais que o dobro da registrada em meados do século XX. Esse avanço está diretamente ligado ao fortalecimento do sistema público de saúde.

    Hoje, mais de 95% da população chinesa está coberta por algum tipo de seguro de saúde básico, resultado de uma expansão gradual e planejada do acesso aos serviços médicos. Os gastos em saúde ultrapassam 7% do PIB, com forte presença do Estado no financiamento da atenção primaria, da medicina preventiva e da infraestrutura hospitalar, inclusive nas regiões rurais.

    Na educação, os números são igualmente expressivos. A China destina cerca de 4% do seu PIB ao setor educacional, percentual elevado para um país de dimensão continental.

    O ensino básico foi universalizado, o ensino médio expandido de forma acelerada e o sistema de ensino superior tornou-se o maior do mundo em número de estudantes.

    São mais de 3 mil instituições de nível superior e dezenas de milhões de matrículas anuais. Universidades chinesas passaram a figurar entre as melhores do planeta, impulsionadas por investimentos maciços em pesquisa, laboratórios e formação de quadros científicos.

    Esse esforço educacional se conecta diretamente à aposta em ciência, tecnologia e inovação. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento superam 2,5% do PIB, colocando a China entre os maiores financiadores globais de ciência.

    Em 2022, o país respondeu por mais de 60% das patentes globais em inteligência artificial. Em 2023, recebeu 1,68 milhão de pedidos de patentes de invenção, mais de 40% do total mundial, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. A antiga imagem de copiadora industrial foi definitivamente substituída pela de um polo de inovação tecnológica.

    A infraestrutura é a face visível desse projeto nacional. A China construiu a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, com cerca de 48 mil quilômetros em operação até 2024, investindo apenas nesse ano mais de 850 bilhões de yuans em ativos ferroviários.

    Obras como a ponte Danyang–Kunshan, com 164 quilômetros, ou o sistema Hong Kong–Zhuhai–Macao, que combina pontes e túneis submarinos, não são ostentação. São decisões racionais de integração territorial, redução de custos logísticos e aumento da produtividade.

    O mesmo vale para o BeiDou, o sistema chinês de navegação por satélite, plenamente operacional desde 2020. Equivalente ao GPS americano ou ao Galileo europeu, ele sustenta aplicações em transporte, agricultura de precisão, logística, telecomunicações, defesa civil. Soberania tecnológica não é discurso, mas infraestrutura estratégica.

    Na vida urbana, a modernização tornou-se cotidiana. Em 2024, os sistemas de pagamento digital chineses processaram transações equivalentes a centenas de trilhões de yuans. A China consolidou-se como uma das sociedades mais avançadas do mundo em pagamentos móveis, serviços digitais e integração urbana. O futuro, ali, deixou de ser promessa para se tornar hábito.

    Mesmo enfrentando tensões comerciais e barreiras tarifárias, a economia chinesa cresceu 5% em 2025, cumprindo a meta oficial. Para uma economia de escala continental, isso é demonstração inequívoca de resiliência.

    A experiência chinesa ensina que desenvolvimento não nasce do improviso nem da submissão a receitas externas. Ele exige projeto nacional, continuidade histórica e investimento pesado em gente. Num mundo cada vez mais curto de ideias e longo de slogans, a China demonstra, com fatos, sem fazer barulho, que o futuro não se improvisa, constrói-se, pacientemente, com planejamento, trabalho e visão de longo prazo.

  • Os EUA nasceram com as mãos nos coldres

    Os Estados Unidos nasceram com as mãos nos coldres, prontos para sacar os Colt 45. Cresceram, são a maior potência bélica e econômica do mundo. O futuro prometido, de referência da democracia, que até Karl Marx botou fé, deu lugar a um país terrorista, o mais temido da face da terra. Matam até os seus, presidentes da República, em massacres nas escolas, nas ruas, seus cidadãos, pela polícia, com ódio racista como foi com George Floyd, Luther King, Malcom X e muitos outros líderes negros.

    A morte, com muito sangue, faz parte da vida do império do norte desde tempos idos. A ponto de exterminarem inúmera nações indígenas, de anexarem mais da metade dos estados atuais, como Califórnia, Nevada, Texas, Utah, grande parte do Arizona e Novo México, porções do Colorado e de Wyoming, de varrerem do mapa duas cidades, Hiroshima e Nagasaki, no Japão, despejando bombas atômicas sobre populações de famílias indefesas, bombas napalm, incendiárias, agente laranja, sobre bairros civis, escolas e comunidades agrícolas, no Vietnam e tantas outras guerras por petróleo, como as do Oriente Médio. Desde então, espalharam bases militares pelos quatro cantos, com armas apontadas para quem escolheu outro modo de vida e não aceita o domínio de suas corporações empresariais, bancárias, e seus negócios coloniais.

    Os Estados Unidos são detentores da maior máquina de mídia, de propaganda de estilo de vida e de poder bélico, para justificarem as atrocidades, nas invasões a países vulneráveis, na subordinação ao arsenal militar, ao poderio econômico e político de suas corporações. Montaram a indústria da guerra e academias militares, que formam monstros assassinos para atuarem como policiais do mundo. Por onde passam deixam rastros de sangue.

    Uma parte da população é admirada e respeitada, por ter conseguido insurgir e sedimentar a democracia com valores e ideais de justiça e liberdade. Mas do ventre da sociedade também nasceu um poder marginal com seus  embaixadores da morte, que se espalharam pelo mundo em legiões para subordinar países aos seus interesses.

    Justas ressalvas e homenagens devem ser feitas às cidadãs e cidadãos que lutam pela democracia real, contra a estupidez que se formou nos Estados Unidos e lhes deram como filho da escravidão humana, Wall Street, a mais terrível engrenagem do capitalismo especulativo, de geração de pobreza e de fome.

    Nos Estados Unidos, famílias têm armas em casa como   se fossem utensílio doméstico. Pais dão armas de brinquedo  e de verdade  aos filhos, como presentes de Natal, para aprenderem a brincar com a morte.

    Um país onde se mata presidentes eleitos como Abraham Lincoln, James Abraham Garfield, John Fitzgerald Kennedy, pratica atentado como aconteceu com Ronald Reagan, Donald Trump, persegue e mata os seus como no macarthismo, fuzila crianças e jovens nas escolas, vive-se com o dedo no gatilho e as mãos sujas de sangue.

    Aquele atirador de Las Vegas, que fuzilou 59 pessoas, ferindo mais de 100 outras, estava com dez fuzis no quarto do hotel, de onde disparou contra 40 mil pessoas que se divertiam num show.

    Nestes tempos de pós-verdade, a jornalista Karen Armstrong, que escreveu Campos de Sangue e A História da Violência, denuncia a construção do inimigo, pelos Estados Unidos, utilizando a religião, para justificar as invasões bárbaras e a subordinação de países indefesos. Afinal, a indústria de armamentos está a todo vapor, fabricando armas para atender a demanda das guerras. As ações das empresas estão girando nas bolsas fazendo milionários.

    Há países onde reinam a democracia e a paz entre os seus. Há armas nas mãos de quem vive nos Estados Unidos e Há flores nas mãos dos povos da Finlândia, Islândia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Suíça, Suécia e outros países desenvolvidos, de cidadania avançada, que estão fechando presídios, transformando-os em escolas, teatros, bibliotecas, museus, para a educação integral da sociedade.

    Os Estados Unidos não conseguem ser referência de sociedade civilizada por terem construído seu caminho com sangue, lágrimas e nunca terem conseguido superar a pobreza extrema de parte de seus cidadãos, o racismo, a discriminação de classe, o ódio, o militarismo e a guerra. São referências bélicas, de ganância, de doenças sociais graves, de ter a maior população carcerária do mundo, e de ser o furacão da decadência do capitalismo selvagem.

    Não se trata de condenar uma nação. Mas, cuidado! Ela anda com as mãos nos coldres!

  • Rio em brasa

    Minhas férias me deixaram de um jeito que  meu pé nem reconhece mais sapato e, como dizia o publicitário Carlito Maia, “Gravata, só de lembrar, me dá um nó na garganta.” Rio em brasa, painéis registram 38 graus. No Leblon, águas caribenhas. No horizonte, mar e céu se fundem no eterno azul, cortado por aviãozinhos coloridos, puxando faixas de propaganda de um produto qualquer. Na areia quente, debaixo das barracas, o murmúrio de todos os assuntos, entrecortados pelos anúncios dos vendedores ambulantes: “alô mate!”, “biscoitos globo!”, “é o árabe, alô esfirra! “,  “ei psiu! gostosa! empada gostosa!” Um bando de mergulões migram batendo asas como pontinhos se movendo em fileiras indecisas sob o sol ardente descendo a tarde. O horizonte fica exatamente na linha onde se misturam o verde e o azul do céu e do mar, suspenso, flutuando na transparência da água. Assim está o mar do Rio,  para onde levei minha preguiça de colo e braços de algodão. Minha companheira de todas as horas. Estamos enroscados, quietos, mirando o horizonte com meia pálpebra,  enquanto a outra dorme, cerrada.

  • Bolsonaro vai virar um traste histórico.

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    Estão construindo uma peça jurídica histórica, para condenação dos golpistas. Vai ser devastadora! Servidores públicos civis e militares que participaram da intentona fascista vão ser demitidos a bem do serviço público, muitos condenados e presos, e aposentadorias cassadas. É o que diz a lei e os regulamentos disciplinares de militares. Para nunca mais se atreverem a se insurgir contra a ordem constitucional e o Estado democrático de direito. Sem anistia. Vai ser feito o que a Comissão da Verdade não fez.

    O julgamento dos golpistas vai durar semanas, com câmeras e microfones nas caras dos réus. A sociedade brasileira vai ver com os próprios olhos os criminosos e seus crimes debulhados didaticamente.

    Bolsonaro está inelegível, indiciado e deve ser preso. A elite usou e descartou, como costuma fazer. Acabou. Já tem outros no lugar dele. Os apoiadores não vão segurar a alça do caixão. Olharam para frente e viram o deserto político formado. As desistências de segui-lo vão começar a acontecer. Será efeito manada.

    Bolsonaro vai virar um cão sarnento, como Collor se tornou depois do impeachment. Em pior condição. Preso! Ficará exposto na galeria dos trastes históricos, onde estão o traidor Calabar, o torturador Brilhante Ustra e seus iguais, o General Castelo Branco e todos os ditadores que o sucederam, participantes do golpe de Estado de 1964. O Brasil tem uma Constituição, leis, regulamentos e instituições sólidas para defender a sociedade da tirania e dos ataques ao Estado democrático de direito. A democracia vencerá mais essa!

  • O brasiliense é, antes de tudo, um réptil

    Quando a seca chega a Brasília o sol nasce tórrido e segue o dia torrando tudo.

    Árvores peladas, chão coberto de folhas, gente feito répteis serpenteando os caminhos poeirentos dos gramados pardos da cidade.

    No fim do dia, uma bola vermelha treme no horizonte, atrás da lente de fuligens de queimadas, de poeira, e é engolida pela boca seca da noite.

    Tenho vontade de ir embora a procura de sombra e água fresca.

    Mas eis que o solo fermenta, a seiva sobe por caules desfolhados e faz desabrochar flores coloridas nas pontas dos galhos.

    Matuto que sou, fico encantado com os manacás, os ipês, as sucupiras, os angicos brancos,  os flamboyants, com todas as árvores atrevidas do cerrado, que desafiam a seca, meio que me distraindo à espera das primeiras chuvas.

    Quando a chuva cai tudo brota, tudo se renova, e um verde viçoso, novinho em folhas, tinge a paisagem.

    Os insetos que se enfiaram debaixo da terra para se protegerem da seca e do calor, grudados nas raízes úmidas de plantas e árvores, saem dos buracos em que se meteram, escalam os troncos em verdadeiras expedições, em busca do néctar das flores, passeiam nas cores das pétalas e se fartam.

    A passarada, na espreita, espera uma suculenta formiga distraída, uma joaninha, uma alegre cigarra zoando por aí e crau! glup! Em segundos engole os insetos vivos.

    De papo cheio, canta em festa, de galho em galho.

    Aí me acalmo.

  • Bolsonaro foi usado e está sendo descartado

    A direita rachou em São Paulo. Tarcísio não quer Bolsonaro fazendo campanha no seu terreiro. Ele-se tornou um incômodo. A direita já usou Bolsonaro e o colocou na zona de descarte. Já tem outro em seu lugar.

    Inelegível e com sua carga de processos, ficou muito pesado para ser carregado. Está se transformando num Collor, destino dos populistas forjados atrás das câmeras e usados pela elite financeira e patrimonial.

    Os inquéritos estão sendo finalizados na Procuradoria-Geral da República e no Supremo Tribunal Federal com todo o rigor da lei. A maratona dos julgamentos, que deve demorar dias, o apavora e ele já começou a sentir as primeiras sensações do abandono lento, gradual e definitivo. A ilusão do poder está se desfazendo. Isso é perceptível nas imagens dele na mídia. 

    O ministro Alexandre de Moraes e o procurador Paulo Gonet estão preparando uma peça histórica contra Bolsonaro, Braga Neto, Heleno e toda a malta que tramou a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Certamente serão indiciados por uma robusta lista de crimes, iniciada nas investigações das fake news, passando pela campanha contra as urnas eletrônicas e finalizando com a tentativa de golpe.

    Pela primeira vez na história do Brasil, militares de alta patente vão ser punidos exemplarmente. A Constituição, as leis e os regulamentos que regem as Forças Armadas são claros como a luz do dia, são bases jurídicas sólidas para condenações. Os quatro coronéis e outros militares, que assinaram a “carta do golpe”, por exemplo, mais outros que estão sendo investigados num inquérito aberto pelas Forças Armadas, também deverão ser punidos com todo o rigor da lei. 

    Uma nuvem carregada de processos paira sobre Bolsonaro e seus comparsas. Os governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado, aspirantes a candidatos à Presidência da República, também não fizeram questão da presença de Bolsonaro nas campanhas eleitorais de seus estados. 

    Pablo Marçal, o Javier Milei da campanha eleitoral paulistana, estreou na cena política desarrumando o cenário com suas pantomimas. Porém, suas lacrações surradas, manjadas, suas fake news, a falsificação de documento contra Guilherme Boulos, foram vistas com desconfiança pela grande maioria dos eleitores, que o alijou do segundo turno das eleições em São Paulo.

    A tentativa de monopolizar as atenções o isolou. Foi desmascarado pela verdade dos fatos. As feições dele, capturadas pelas câmeras, revelou seu estado de espanto, de saber que perdeu por erro de estratégia e de métodos que não enganam mais. Acuado, sentiu o peso dos erros. Ele chegou atrasado no espetáculo dos algoritmos. Suas pantomimas já não fazem mais graça. Olhem para Javier Milei e para Jair Bolsonaro. Estão murchando. Fim de festa. A onda das fake news começou a curvar a crista. A mentira é uma droga pesada!

  • Sandálias havaianas eram chamadas “sandálias japonesas”


    Vi um par delas, pela primeira vez, amarelinhas, nos pés rosadinhos de minha irmã, numa fila de crianças, na cerimônia de posse do primeiro prefeito de Mortugaba.

    Todo mundo notou a novidade. Muitas perguntas! Nem eu, queridinho dela, sabia da aquisição, guardada em segredo para o dia da festa. Um sucesso!

    Ela trajava um vestido de renda, cor de rosa. As crianças, de uniforme azul e branco, enfileiradas numa praça de chão batido, empoeirada, debaixo de um sol infernal, com suor escorrendo pela testa e pelo pescoço, aguardavam os discurso, escritos por Lili. Ela tinha a verve do verbo!

    Terminada a cerimônia, ao pegar a estrada para casa, ela tirou as “sandálias japonesas” e calçou uns sapatinhos de couro, de uso diário, feitos pelo meu pai.

    Ele costumava dizer que Lili, apelido dela, andava na poeira, na lama, e não sujava os sapatos, tão sábia ela era ao pisar no chão. Na estrada, ela me deu as sandálias para ver. Fofinhas!

    Nelas estava escrito a palavra “havaianas”. Não sei por que se chamavam “sandálias japonesas”. Coisas do sertão profundo.