O livrinho desintegrou-se no suor das minhas mãos

 

Uma imagem dos planetas girando em torno do sol e um texto de dois parágrafos com o título “O Universo”, que li ainda criança, foram  suficientes para eu ficar dias pelos cantos da casa e pedaços de noites pensando quem sou eu no infinito.

Até então via o sol nascer, brilhar no céu o dia inteiro e se por atrás dos morros.

À noite, via a lua nascer, fazer o mesmo que o sol, e as estrelas brilhando pregadas no céu. Às vezes, uma delas mudava de lugar. A gente fazia pedidos.

Via o “Caminho de Santiago”, que tempos depois fiquei sabendo ser a Via Láctea; as ” covinhas de Adão e Eva”, que são duas galáxias-satélite chamadas de Nuvens de Magalhães; as Três Marias ou Três Irmãs; e o Cruzeiro do Sul, pelo qual se orientava quem andava à noite.

Era tudo que eu sabia sobre o céu e a terra.

Nunca havia me dado conta que eu era parte do imenso Universo e vivia no sistema solar, num astro iluminado por uma estrela.

Tudo isso, partes de uma das galáxias que também fazem parte de infinito número delas, impossível até de serem contadas pela matemática.

Li “O Universo” num livrinho de leitura que reunia desde pequenos contos de grandes autores brasileiros a textos de geografia, história e ciências físicas e biológicas.

Era o primeiro da série de geografia que emendei com os de história.

Com a Geografia me situei no espaço. Com a História me situei no tempo.

Os textos de literatura foram encontros, como leitor, com quem escreveu, no plano do imaginário, do absoluto.

Os de ciências físicas e biológicas me ensinaram que somos matéria feitos de partículas (átomos) tão pequenas que, se divididas ainda mais, chegam ao nada.

E as células, ticos de vida.

Sinto saudade de livros. Esse é um deles. Desintegrou-se no suor das minhas mãos.

Deu-me o necessário para perceber que vivo exatamente no limite entre o universo externo e o universo interno. Que a vida é um mistério.

Conheço mais o universo externo, com meus sentidos. O universo interno, sei pouco dele. Apenas que ele me move vida afora.

Dizem que ele é infinitamente maior que o universo externo.

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