Não há mais nem restos mortais da “alegria do povo”

Garrincha 2

Manuel Francisco dos Santos, nosso Mané Garrincha, nosso ” anjo das pernas tortas”,  teve seu corpo exumado, no cemitério Raiz da Terra, em Magé/RJ, há 10 anos, “para liberar espaço” no cemitério, e descobriu-se depois que não se sabe o paradeiro dos “restos mortais” dele, levado provavelmente pelo desprezo, pela estupidez e ignorância, que parece ter contaminado o Brasil, como micróbios a comer até a identidade cultural do povo.

O corpo foi exumado pela administração do cemitério sem nenhuma notificação à família. Como se fossem quaisquer ossos que se misturaram à terra. Algo sem alma, sem dignidade, sem história, sem importância nenhuma. Eram apenas “restos mortais”.

Filho de uma família de 15 irmãos, da cidadezinha de Pau Grande, Rio de Janeiro, Garrincha sofreu a dor da rejeição social desde cedo, mas foi no Flamengo, Fluminense e Vasco,  que doeu mais. Nas avaliações dos clubes, o preconceito, a discriminação, por ele ter as pernas tortas, pesaram mais que o talento. Foi recusado pelos clubes. Mas o Botafogo o acolheu, para a felicidade do Brasil. Corações de todos brasileiros pulsaram forte de emoção, nos jogos das copas do mundo ao ver os drible desconcertantes e os gols de  placa de Garrincha.

Garrincha é o nome de um pássaro, que costuma visitar as frestas dos telhados das casas, igrejas, onde fazem ninhos para os ovos e depois abrigar os filhotes. Garrincha não andam como outros pássaros. Ele anda aos pulinhos com os pés alinhados. Talvez por isso, Manuel Francisco dos Santos foi apelidado por Garrincha.

Tornei-me botafoguense por causa dele, ouvindo os jogos no rádio, no Sertão da Bahia, narrados por Waldir Amaral, com suas frases curtas, descrições precisa das cenas dos dribles, que elevavam minha imaginação às alturas e me faziam sentir dentro do estádio, em tardes ensolaradas.

Para nossa tristeza, não há mais “restos mortais” da “alegria do povo”, como ele era chamado pela torcida e pelos cronistas esportivos. Mas há uma multidão de Garrinchas no Brasil, que, apesar da arbitragem contra o povo, vai vencer esse jogo.

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