O modelo de desenvolvimento da China colocou uma integração diante do mundo.
A dúvida é o grande começo. Enquanto muitos países se perderam em ciclos curtos de euforia e frustração, o gigante asiático escolheu caminhar com passos largos, sem fazer barulho, planejar, investir e distribuir a renda.
Desde 1978, quando iniciou suas reformas econômicas, passou a operar sob uma lógica rara no mundo contemporâneo. Sem fazer alarde, a China optou pelo planejamento de longo prazo sob coordenação estatal com pragmatismo. O resultado foi um modelo de desenvolvimento que se tornou referência para o mundo. Não é retórico nem ideológico. É concreto, mensurável e profundamente humano.
Por várias décadas, o crescimento médio anual do PIB chinês girou entre 9% e 10%, segundo o Banco Mundial. Trata-se de um feito quase sem paralelo na história econômica moderna. Não foi um espasmo conjuntural, mas um processo sustentado por investimentos contínuos em infraestrutura, educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação. Crescer, para a China, não se tornou um fim em si mesmo, mas meio para reorganizar a sociedade e construir um futuro de desenvolvimento sustentável com justiça social.
O dado mais contundente dessa transformação é social. Entre o fim dos anos 1970 e 2020, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema, cerca de 75% de toda a redução da pobreza extrema no planeta, no mesmo período.
Poucos países podem afirmar que alteraram, de forma tão decisiva, a geografia global da pobreza. A China o fez porque tratou o combate à pobreza como política de Estado, e não como programa circunstancial.
A expectativa de vida acompanha essa virada estrutural. Em 2023, alcançou cerca de 78 anos, mais que o dobro da registrada em meados do século XX. Esse avanço está diretamente ligado ao fortalecimento do sistema público de saúde.
Hoje, mais de 95% da população chinesa está coberta por algum tipo de seguro de saúde básico, resultado de uma expansão gradual e planejada do acesso aos serviços médicos. Os gastos em saúde ultrapassam 7% do PIB, com forte presença do Estado no financiamento da atenção primaria, da medicina preventiva e da infraestrutura hospitalar, inclusive nas regiões rurais.
Na educação, os números são igualmente expressivos. A China destina cerca de 4% do seu PIB ao setor educacional, percentual elevado para um país de dimensão continental.
O ensino básico foi universalizado, o ensino médio expandido de forma acelerada e o sistema de ensino superior tornou-se o maior do mundo em número de estudantes.
São mais de 3 mil instituições de nível superior e dezenas de milhões de matrículas anuais. Universidades chinesas passaram a figurar entre as melhores do planeta, impulsionadas por investimentos maciços em pesquisa, laboratórios e formação de quadros científicos.
Esse esforço educacional se conecta diretamente à aposta em ciência, tecnologia e inovação. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento superam 2,5% do PIB, colocando a China entre os maiores financiadores globais de ciência.
Em 2022, o país respondeu por mais de 60% das patentes globais em inteligência artificial. Em 2023, recebeu 1,68 milhão de pedidos de patentes de invenção, mais de 40% do total mundial, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. A antiga imagem de copiadora industrial foi definitivamente substituída pela de um polo de inovação tecnológica.
A infraestrutura é a face visível desse projeto nacional. A China construiu a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, com cerca de 48 mil quilômetros em operação até 2024, investindo apenas nesse ano mais de 850 bilhões de yuans em ativos ferroviários.
Obras como a ponte Danyang–Kunshan, com 164 quilômetros, ou o sistema Hong Kong–Zhuhai–Macao, que combina pontes e túneis submarinos, não são ostentação. São decisões racionais de integração territorial, redução de custos logísticos e aumento da produtividade.
O mesmo vale para o BeiDou, o sistema chinês de navegação por satélite, plenamente operacional desde 2020. Equivalente ao GPS americano ou ao Galileo europeu, ele sustenta aplicações em transporte, agricultura de precisão, logística, telecomunicações, defesa civil. Soberania tecnológica não é discurso, mas infraestrutura estratégica.
Na vida urbana, a modernização tornou-se cotidiana. Em 2024, os sistemas de pagamento digital chineses processaram transações equivalentes a centenas de trilhões de yuans. A China consolidou-se como uma das sociedades mais avançadas do mundo em pagamentos móveis, serviços digitais e integração urbana. O futuro, ali, deixou de ser promessa para se tornar hábito.
Mesmo enfrentando tensões comerciais e barreiras tarifárias, a economia chinesa cresceu 5% em 2025, cumprindo a meta oficial. Para uma economia de escala continental, isso é demonstração inequívoca de resiliência.
A experiência chinesa ensina que desenvolvimento não nasce do improviso nem da submissão a receitas externas. Ele exige projeto nacional, continuidade histórica e investimento pesado em gente. Num mundo cada vez mais curto de ideias e longo de slogans, a China demonstra, com fatos, sem fazer barulho, que o futuro não se improvisa, constrói-se, pacientemente, com planejamento, trabalho e visão de longo prazo.