Nóis é jeca, mais é jóia. É nóis!

“Não dou like para textos escritos com erros gramaticais”, escreveu o professor universitário, de artes plásticas, ao comentar o post de uma amiga no Facebook. 

E disse mais, “escrevo e falo em português castiço.” Curiosamente, outras pessoas o seguiram nos comentários com um “eu também!”.” Como se isso fosse território que os separa dos incultos. Um rompante típico de certas pessoas da classe média de crachá. 

A amiga simplesmente foi “cancelada”, como se diz hoje. Ou seja, o que ela expressou não vale nada. Vale a higiene do texto, o “português castiço” aprendido nas escolas reservadas aos bem-nascidos. Não se leva em consideração a condição social da amiga, a provável precariedade do ensino oferecido aos de baixo.

“Português castiço”, do qual o professor tanto se orgulha, significa “de casta, próprio para reproduzir a raça e a casta”. Talvez o professor não sabe que a língua portuguesa é filha do latim vulgar, falado no dia a dia pelo povo analfabeto, artífices, trabalhadores rurais, escravos, marinheiros, soldados, enfim, moradores de províncias da região central da atual Itália. 

A palavra você, por exemplo, já foi Vossa Mercê, Vomicê. Hoje, já estão dicionarizadas as forma Ocê e Cê.

Exatamente por isso é uma língua viva, rica, democrática, aberta a mudanças, sujeita a variações diversas e frequentes. O português falado no Brasil tornou-se ainda mais rico com as contribuições dos povos africanos e indígenas, do falar na labuta cotidiana, sem o rigor léxico do “português castiço”. Mas, certas pessoas da classe média de crachá insistem em negá-la. Intolerável na casta separatista.

Por falar ou escrever diferente da “norma culta”, pessoas vítimas de preconceito linguístico são julgadas, humilhadas, discriminadas, sofrem assédio moral, danos psicológicos graves por se comunicarem numa linguagem de menor prestígio social.

O professor, linguista e filólogo Marcos Bagno, combate o preconceito linguístico e todo juízo de valor negativo, de reprovação, de repulsa ou mesmo de desrespeito

Esse debate esquentou quando os governos Lula e Dilma abriram as portas de escolas e universidades para que a população mais pobre tivesse acesso ao ensino. 

Isso abalou as estruturas do andar de cima e a intolerância ganhou ainda mais força. Certas pessoas da classe média de crachá, do alto do seu sapato Luiz XV, atacaram o governo com críticas agressivas, defendendo a meritocracia, reprovando a política de cotas e a democratização do acesso à educação formal.

Recentemente, a reedição da obra da escritora brasileira Carolina de Jesus, pela Companhia das Letras, trouxe novamente à ribalta a discussão sobre preconceito linguístico. 

Por escrever do seu jeito, à revelia do padrão da “normas cultas”, ou seja, com “erros gramaticais”, surgiu um impasse entre os editores: fazer revisão nos textos ou publicar a obra na forma original? Depois de longa discussão, decidiu-se publicar exatamente como a autora escreveu. Alguns torceram o nariz, outros aplaudiram.

Considerada uma das mais importantes escritoras do país, Carolina de Jesus viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo, sustentando seus três filhos como catadora de papel.

Com apenas dois anos de ensino formal, Carolina de Jesus tornou-se um fenômeno literário. Sua obra foi reconhecida internacionalmente por críticos de vários países, pela força de sua narrativa e primor literário. 

Carolina de Jesus e sua obra foram capas de revistas no Brasil, no exterior, e destaque em documentário da TV alemã. Seu livro, Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960, chegou a ser traduzido para catorze línguas.

O professor, mais conhecido pela falta de pendor artístico, que humilhou publicamente a colega de Facebook, provavelmente se privará de ler a obra de Carolina de Jesus, por não ter sido escrita em “português castiço”.

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