Estados Unidos não elegeram um estadista, mas um gerente dos negócios dos bilionários.

A grande contradição de cidadãs e cidadãos dos Estados Unidos, ao escolherem, pela segunda vez, um presidente que colocou por terra os valores da democracia e a segurança das instituições republicanas do país, está exposta à luz do meio-dia.

Isso ocorre num momento em que os Estados Unidos já não elegem estadistas, líderes de espírito público elevado, que sempre defenderam os valores e as instituições do modelo democrático da sociedade norte-americana.

Diferentemente de outros tempos, os Estados Unidos elegeram o melhor gerente dos negócios dos bilionários do país. Gente racista, xenófoba, indiferente aos problemas da população, que odeia seus semelhantes imigrantes, ignora as origens e a formação das sociedades das Américas.

Donald Trump remexe o fundo da história dos Estados Unidos e traz à tona os mitos ideológicos que ajudaram a fundar a nação: o Destino Manifesto (os Estados Unidos como potência supremacista do mundo) e o Sonho Americano (com o trabalho vou ser rico).

Os últimos acontecimentos protagonizados por Trump mostram um conluio do poder empresarial de bilionários, que atuam em função de seus negócios, com uma estrutura de poder funcionando acima do Estado oficial. Recentemente, a presença Elon Musk, o homem mais rico do mundo, como seu principal assessor, demonstra a articulação direta dos grandes bilionários com o governo.

O mais grave é que as instituições estão sendo subordinadas a esse poder paralelo, com a conivência do Deep State, principalmente das Forças Armadas. Não que isso seja novidade. É tão antigo quanto os Estados Unidos.

Mas o fato novo é que a imoralidade, a violência e a indiferença em relação ao Estado Democrático de Direito e às suas instituições estão expostas sem nenhum pudor.

O que a CIA fez na Venezuela e o ICE em Mineápolis são fatos incontestáveis da decadência institucional dos Estados Unidos.

Não só a democracia e seus valores estão sendo solapados pelo poder empresarial, mas também a economia e o dólar, que sofrem forte desvalorização em todo o mundo, deixando de ser referência de trocas comerciais e reservas, como sintoma do fim de um império.

Donald Trump é a expressão do desespero dos Estados Unidos diante da China. Sem fazer barulho, a China se desenvolve, torna-se o maior complexo tecnológico e industrial do mundo e ameaça a hegemonia norte-americana.

Não se trata de subestimar os Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do planeta, mas de reconhecer seu declínio, sua agonia e as ameaças de seu governo, com o maior arsenal bélico do mundo, às demais nações, a fim de submetê-las a seus desígnios.

A proposta de Donald Trump de criação de um conselho de paz no Oriente Médio, depois do assalto à Venezuela e da prisão de Nicolás Maduro; das ameaças de invadir a Groenlândia e da anexação do Canadá; do ataque ao Irã, dá a medida do poderio empresarial dos bilionários e da ofensiva com novo aparato tecnológico de comunicação (Big Techs) e de Forças Armadas subordinadas às suas ordens.

Os negócios militares no mundo atingiram US$ 1,5 trilhão em gastos com armamentos. Não é pouca coisa.

No ciclo áureo do petróleo, os Estados Unidos assaltaram vários países, derrubaram governos, instalaram suas petroleiras e bases militares, principalmente no Oriente Médio, em países como Egito, Iraque, Líbia, Síria, Irã e Líbano. O assalto à Venezuela faz parte dessa ofensiva tradicional.

Trump avança na construção de estruturas de poder empresarial paralelo, desprezando a Organização das Nações Unidas (ONU).

O chamado conselho de paz no Oriente Médio, do qual se autonomina gerente, sem convidar os representantes naturais da comunidade palestina — a maior vítima do genocídio —, e com a imposição de cotas de US$ 1 bilhão para cada país membro do negócio, é mais uma demonstração de que a sanha de dominação ignora limites institucionais.

O presidente Lula tem defendido publicamente a reforma da ONU, tendo como prioridade a ampliação da participação das nações de todos os continentes e o fim do poder de veto.

Mas isso não interessa ao governo dos bilionários. Afinal, guerra é um grande negócio. Para eles, uma ONU reformada seria um complicador para o poder empresarial estabelecido. São inimigos do Estado Democrático de Direito.

O mundo corre perigo com a ascensão dos fora da lei. Para eles, vale a lei do mais forte, que tem sob seu comando o maior poder bélico-nuclear do planeta.

Relacionados